quinta-feira, 2 de julho de 2026

VIGARISTAS, APROVEITADORES E PICARETAS DO SOBRENATURAL





VIGARISTAS, APROVEITADORES E PICARETAS DO SOBRENATURAL

Que há muito picareta nesse mundinho chamado “sobrenatural”, não se pode negar. E o principal motivo é que as pessoas que consomem esse tipo de conhecimento, querem acreditar que exista algo que lhes dê sentido, acreditando que se pode alcançar um conhecimento oculto que desvenda o sentido da vida, do mundo e da morte. E nisso a primeira coisa que é destruída é o senso crítico, o poder de questionar, de analisar racionalmente. Assim basta um sujeito surgir relatando alguma experiência fora do comum, para que logo encontre um público sedento por conhecimento do outro mundo; e se ele tiver alguma imagem desfocada do fenômeno e um look que fuja do comum, aí, então, o circo tá armado.




Veja o recente caso do influenciador Myke Leão, que ao filmar que luzes de uma chácara vizinha seria de uma nave alienígena, encontrou milhares de pessoas para acreditar no que afirmava, e que continuaram acreditando mesmo quando as tais luzes foram apagadas, uma a uma, por terceiros para comprovar que se tratava apenas de luzes comum da chácara. E como resultado, em vez de ser desmentido, recebeu milhões de novos inscritos em seu Instagram e grande soma de dinheiro por meio de doações e contrato para fazer propaganda de lojas, reforçando a ideia de que criar conteúdo falso para a internet é um bom negócio para tornar-se famoso e arrecadar muito dinheiro.


Vivemos na era da pós-verdade, em que a verdade não tem importância alguma, é algo secundário. Não interessa que algo seja verdadeiro ou não, o que interessa é que gere fama, engajamento, views, curtidas, milhões de inscritos e, claro, muito dinheiro.




Olha o caso da vidente Vó Bahiana, que previu que durante o jogo de futebol entre Brasil e Escócia, durante a Copa 2026, uma nave alienígena abduziria os jogadores da seleção brasileira. O fato ocorreu? É claro que não. O que foi que aconteceu com a vidente? Deu uma explicação absurda para explicar porque não aconteceu o que previra (sem, claro, negar seus poderes de vidente), porque o que interessava mesmo pra ela já tinha acontecido: divulgação de suas atividades e centenas de milhares de pessoas que ainda acreditam nela.




Já Carol Capel, a rainha das teorias conspiratórias --- a mesma que durante as buscas ao criminoso Lázaro, afirmou que ele teria o poder de se transformar em animal e em árvore, por isso a dificuldade da polícia em capturá-lo ---, com milhões de inscritos em seu canal no youtube, tem um método bem prático e eficiente para lidar com professores de história e biólogos que neguem suas teorias: ela simples processa e derruba os vídeos deles em seus canais no youtube.




E como esquecer de Vicky Vanilla? O sujeito que mudava de crença como quem muda de roupa: começou como drag queen, virou satanista, evangélico e, ultimamente, neonazista.

Vicky Vanilla em Meio aos seus Antigos Devotos

O cara tem grande poder de convencimento --- isso não se pode negar ---,  tanto que, mesmo sendo um camaleão de crenças à vista de todos, ainda conseguia arrancar um bom dinheiro de seus seguidores.




Se nós temos uma rainha das Teorias Conspiratórias, temos também um rei: o pastor Daniel Lopes, figura frequente de podcasts, com suas ideia mirabolantes sobre satanismo, ordem mundial e sociedades secretas que, para ele, não têm nada de secretas, pois ele sabe de tudo, dos mais secretos segredos da CIA e do FBI, aos segredos dos maiores  bilionários do mundo. O cara tem uma memória prodigiosa. Ultimamente, tem trazido à tona e feito elogios ao suposto paranormal brasileiro Thomas Morton, que, na década de 1980, seus truques, feitos com luzes produzidas por flash de câmera fotográfica, foram desmascarados por meio de filmagem gravadas pelo Fantástico, comprovando ser uma fraude. 


Além dos podcast, Daniel Lopes divulga suas ideias e vende seus cursos em seu canal no Youtube.

 

 

Nesse rol de grandes celebridades do sobrenatural brasileiro, não pode faltar o bruxo Malagueta, que vende fórmulas de amarração amorosa, prosperidade econômica, entre outros trabalhos, além de ensinar pequenos feitiços pela internet. Malagueta se diz um bruxo de nascimento, que teria herdado seus poderes de sua família. Ele recentemente chamou a atenção com um vídeo em que aparece alimentando a sereia que ele mantém cativa em sua casa. Isso mesmo: uma sereia. Será que existe alguém que acredita nisso? Ah, com certeza, muitos!. A sereia, como pode ser vista abaixo, possui cabelos azuis, maquiagem colorida e --- pasmem! --- joelhos! Mas o que joelhos estaria fazendo em uma criatura que possui calda de peixe em lugar de pernas humanas?




Mas pode o ser humano adquirir conhecimentos sobre os mistérios da vida, do mundo e da morte? 


Antes de lidar com essa pergunta, torna-se mais urgente saber separar a honestidade da picaretagem. E em todo esse tempo lidando com tais questões, tenho notado que aqueles que têm lidado com experiências que pode ser classificada como “sobrenatural”, não saem por aí anunciando aos quatro cantos, guarda para si ou somente para os seus mais próximos, porque teme virar piada, ser considerado “maluco”, “doido”, “drogado”, chamar atenção, e isso, sem dúvida, é uma grande regra para diferenciar honestidade de picaretagem.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

A LENDA DO BOTO PODE ACOBERTAR ESTUPROS?





A LENDA DO BOTO PODE ACOBERTAR ESTUPROS?


Algumas pessoas têm encarado a lenda do boto com revolta, pois veem nela um meio de encobrir estupros na região amazônica. É o que divulga um texto na internet, que será aqui postado em itálico e comentado cada parágrafo dele.




A lenda do boto é um dos contos mais conhecidos do folclore brasileiro, especialmente na Amazônia…. 


COMENTÁRIO: Antes de ser uma lenda do folclore brasileiro, a lenda do boto é um mito de origem indígena e parte de uma religião brasileira: a encantaria. Ou seja, para os povos originários e ribeirinhos, não se trata de uma simples lenda, mas de algo verdadeiro, presente em seu cotidiano, assim como as crenças cristãs o são para os cristãos.


Segundo a tradição popular, o boto-cor-de-rosa se transforma em um homem elegante durante a noite, encanta mulheres e retorna ao rio antes do amanhecer.


COMENTÁRIO: O simbolismo da transformação de deuses em animais ou de animais em deuses, no momento do contato com uma mulher para conceber um filho está presente em várias mitologias e religiões. Na mitologia grega, Zeus se transforma em um cisne para seduzir Leda, a rainha de Esparta, e lhe gerar filhos. No cristianismo, o Espírito Santo é representado pela imagem de uma pomba ao se aproximar de Maria para conceber nela Jesus Cristo. 


Zeus Transformado em Cisne Seduz Leda


Nada tão diferente da lenda do boto, em que o boto se transformaria em homem para encantar mulheres, gerando nelas os filhos de botos: crianças com dons especiais.


Com Menos Contato Físico, Seguindo a Moral Cristã, 
O Espírito Santo, em Forma de Pomba, Matem
 Contato com Maria para o Nascimento de Jesus Cristo


Além de seu valor cultural, pesquisadores apontam que, em determinados contextos históricos, a expressão “foi o boto” também acabou sendo usada para explicar gestações de meninas muito jovens, evitando que a verdadeira origem dessas situações fosse investigada.


COMENTÁRIO: Na lenda do boto, há uma importante advertência: é aconselhado às moças para que desconfiem de homens sedutores, no caso, que nunca tiram o chapéu da cabeça, pois, por baixo do chapéu, pode estar escondido algo horrível: o orifício por onde o boto respira, que demonstraria que ele não é o que aparenta ser e que esconde sua verdadeira intenção. Essa advertência pode ser aplicada a um abusador qualquer humano, que usa de sua posição familiar ou de amizade ou outra falsa aparência, para esconder sua verdadeira intenção. 


Assim a lenda do boto não seria um incentivador de estupros de mulheres amazônicas, mas, ao contrário, ela é uma forma de prevenir abusos, fazendo com que mulheres sempre desconfie da verdadeira intenção dos homens.  


É importante destacar que essa utilização não faz parte da essência da lenda, nem representa seu significado original.


COMENTÁRIO: Como foi visto, a lenda do boto não incentiva estupro, ao contrário, embora pessoas mal intencionadas possa usá-las para encobrir seus crimes. Mas isso pode acontecer com qualquer outra crença, inclusive com mitos do cristianismo, como já aconteceu, de freiras afirmarem terem ficado grávidas do Espírito Santo, ou de pastores usarem passagens bíblicas para obrigar sexo com adolescentes. 


Trata-se de uma interpretação social observada por historiadores e antropólogos ao analisar determinadas comunidades e períodos


COMENTÁRIO: O uso criminoso da lenda do boto é infinitamente menor do que as interpretações criminosas do cristianismo; no entanto, comentar tais distorções da lenda do boto sem chamar atenção para o fato de que esse tipo de apropriação indevida é comum a qualquer sistema de crença revela uma análise parcial e, em certa medida, até desonesta.    


Conhecer essa dimensão da história não diminui a importância do folclore brasileiro. Pelo contrário: amplia nossa compreensão sobre como narrativas populares podem refletir aspectos da sociedade da sua época e reforça a importância da proteção das crianças e dos adolescentes, da escuta qualificada e da responsabilização de quem comete crimes.