sexta-feira, 20 de abril de 2012

DISSERTAÇÃO SOBRE A INÉRCIA (de Marlon Vilhena)

by Anton Semenov
        Ela disse nunca mais, seu filho da puta, nunca mais, tá me ouvindo?, e ele ficou ali, sem dizer palavra alguma, enquanto ela tremia levemente de raiva, pegava a bolsa pendurada na cadeira e saía da cafeteria em direção a qualquer lugar que fosse o mais distante possível dele, que demorou ainda alguns segundos sentado, vendo-a ir-se embora, ainda de boca fechada, não sentia necessidade alguma de pronunciar sequer um suspiro, então chamou o garçom e pediu para fechar a conta e percebeu que ainda teria de pagar tudo sozinho pela última vez, mas ao menos era a última vez, pensou um tanto aliviado, estava cansado daquela encenação, coisas de namoro, ter de paparicar aqui, ser cauteloso acolá, paciente ali do outro lado, merda, estava cansado daquilo tudo, até que foi bom ela ter tomado a iniciativa, pensou que talvez tivesse faltado um tapa em sua cara, a cara dele, para deixar bem claro, a fim de finalizar a situação com chave de ouro, não houve o tapa, então apenas balançou a cabeça para esquecer enquanto recebia o troco e se levantava para atravessar a rua, olhou para o lado por onde ela tinha seguido, mas foi mero ato mecânico, não que estivesse realmente interessado em saber para onde diabos ela estava indo, ela que vá para o inferno e que foda com o diabo que eu não quero nem saber, depois refletiu um pouco mais e concluiu que estava sendo meio duro, infantil provavelmente, então que ela vá à merda, agora sim, tudo devidamente consumado e definido em todos os termos.
        Carregava um pacote, um embrulho com papel pardo sob o braço direito, ainda não sabia o que continha naquele volume, pois acabara de receber da ex-namorada enfurecida e magoada até a última ponta de fio de cabelo, e não houvera tempo para abri-lo, ela não parava de falar, e falava rápido, e falava muito, e ele apenas ouvindo, como sempre, disso ela não podia reclamar jamais, aqueles ouvidos eram latrinas, mas latrinas caras que não se encontram em qualquer lugar, de qualquer modo lá estava ele, tentando acompanhar a verborréia que ela descarregava bem ali, em cima da mesa, junto com o café e os pastéis de queijo, a clientela do estabelecimento mirando disfarçadamente para ambos, alguns riam baixo, outros arregalavam os olhos, alguns outros se sentiam ofendidos com a baixaria, outros ainda faziam cara de quem já vira aquele filme vezes sem conta, como ele próprio, entretanto, como ia sendo dito, lá ia ele com o pacote sob o braço, ela dissera que aquilo era a única coisa que queria devolver-lhe pessoalmente, embora as suas roupas seriam mais tarde entregues no apartamento, pois ela não queria mais que ele pusesse os pés em sua casa, estava tudo acabado, etc. etc. etc., na verdade ele pensou em retrucar que ela pudesse fazer o que quisesse com aquelas roupas, queimá-las, doá-las, ele não se importava nem um pouco, porém ficou quieto, bem quieto, como havia aprendido logo no início do namoro, após as primeiras explosões da recém-namorada, e agora tentava lembrar como foi que começaram a ficar juntos e a se comprometer um com o outro, quem deu o primeiro passo?, certas coisas são para se arrepender, é bem o que parece no fim das contas, pensou lentamente enquanto alcançava a calçada do lado oposto.
        Primeiramente queria chegar ao seu apartamento e só então abrir o pacote, não que estivesse realmente interessado em descobrir o que ela resolvera lhe devolver pessoalmente, afinal de contas, depois de toda a encenação, parecia que tudo ficava um tanto sem graça, claro que era brincadeira, uma brincadeira de mau gosto, meio clichê, mas não encontrava outro jeito de passar o tempo enquanto caminhava em direção ao seu apartamento, que ficava a algumas quadras dali, cerca de vinte minutos, podia parar em algum mercado, comprar alguma coisa para preparar o jantar, ou talvez passar na locadora de vídeos e pegar alguns filmes para assistir mais tarde, mas preferiu seguir direto, a cabeça um pouco curvada para baixo, olhos encarando o concreto das calçadas, era uma tarde movimentada em uma cidade grande, não precisava se preocupar em olhar para os lados antes de atravessar qualquer esquina, bastava seguir o fluxo humano, por isso continuou pensando em brincadeiras de mau gosto enquanto se esbarrava com pessoas falando ao celular, pessoas saindo e entrando de lojas, pessoas carregando pacotes maiores que o seu, pessoas passeando simplesmente, quem diabos tem vontade de passear por uma rua entupida de gente, num bairro feio como aquele, numa cidade fedorenta como aquela e todas as outras grandes cidades?, pensou, isso não seria muita falta do que fazer?, pensou, entretanto estava só matando o tempo enquanto seguia em frente, o embrulho firme debaixo do braço, de uma coisa sabia, não era nada pesado, então provavelmente não era muito caro, ou seja, ela era muito esperta e ele podia esquecer reaver qualquer presente valioso, como joias, por exemplo, que ele tivesse lhe dado, ou isso ou ele definitivamente era um belo filho da puta, o que só fazia com que ajudasse a provar que as mulheres são, em linhas gerais, mais sábias e evoluídas do que os homens, pelo menos em quase tudo, mas não em tudo, ele finalizou o raciocínio ao dobrar a última esquina e avistar o prédio onde morava, um prédio simples e feio, como todo o resto do bairro, inclusive como a si mesmo, portanto, bem lá no fundo, não era tão ruim assim.
        Subiu as escadas até o terceiro andar, o edifício era baixo, não possuía elevadores, cumprimentou o zelador, seu Pereira, que descia com alguns sacos plásticos, cumprimentou a dona Zélia, que morava sozinha em um dos apartamentos do segundo andar desde o dia em que o marido morrera de infarto fulminante no meio da rua, acho que há cerca de dois anos, tentou recordar, acenou para uma garotinha que se mudara recentemente com a mãe para o apartamento no final do corredor do seu andar, e que, naquele momento, brincava com um carrinho de fricção, puxava o brinquedo para trás, apertando as rodas no chão de azulejos, depois o soltava para vê-lo colidir com a parede ao lado da porta, dava um pequeno sorriso, voltava a pegar o carrinho e recomeçar a diversão, estranho uma garota brincar com carrinhos, no meu tempo não era assim, mas o tempo dele já havia passado há muitos anos, nem sabia mais direito o que era o tempo dele, quem sabe ainda estivesse parado no tempo dele e não soubesse qual tempo era aquele, aquele mesmo em que se encontrava, com um pacote agora nas mãos, procurando as chaves no bolso da calça, observando uma criança estranha, é loirinha, só agora havia reparado em seus cabelos, a menininha levantou o rosto para ele, desta vez sem sorrisos, apenas um olhar de desconfiança, de quem ouviu direitinho quando os mais velhos repetiram centenas de milhares de vezes para não falar com estranhos, porém sua atenção se prendeu ao pacote que ele levava consigo, não, não é pra você, ele não disse em voz alta, somente formulou a frase em sua cabeça, percebeu que não adiantava falar nada disso para ela, enfiou a chave na fechadura, girou a maçaneta e empurrou a porta, não sem antes lançar-lhe outro aceno antes que ela voltasse os olhos para o carrinho meio esquecido em sua mãozinha meio gorducha, talvez cinco, talvez seis anos, não mais que isso, refletiu ao fechar a porta.
        Ligou a luz da sala, a iluminação natural à tarde não era muito boa, por isso o aluguel não era tão alto, ao menos foi o que o corretor dissera quando vieram visitar o recinto pela primeira vez, deixou o embrulho sobre a mesinha de canto ao lado do único sofá, de três lugares, normalmente este móvel possuía duas opções de uso, era onde dormia após uma noite de alguns filmes sem conseguir pegar no sono, ou então quando dormia com a namorada, e obviamente a partir daquela data as noites de filmes aumentariam de frequência durante as semanas, sentia isso, era um aficionado por filmes, já escrevera alguns roteiros e os enviara a algumas pessoas que conheciam outras pessoas que mantinham contato com grandes pessoas do mundo da mídia em geral, jornalistas, escritores, atores de primeira, segunda ou terceira linha, assistentes de diretores etc., mas até aquele momento não tinha obtido qualquer resposta, satisfatória ou não, sobre qualquer um dos textos, tinha a impressão de que os mesmos sequer chegaram às mãos e aos olhos de quem deveriam chegar, mas também não fazia muitos planos, mantinha os pés bem plantados no chão, e de repente se lembrou de uma conversa que tivera com a recente ex-namorada, uma conversa em, que mais uma vez, decidira não abrir muito a boca, se não para bebericar o vinho que havia comprado para comemorar o primeiro e único aniversário de namoro de ambos, uma conversa em que as palavras futuro e esforço e objetivo se mantiveram entre as cinco mais proferidas e enfatizadas por quase uma hora, não é necessário tentar lembrar quais as outras duas, quando ela resolvera parar de falar, ao olhar bem nos olhos dele, tomar um grande gole da taça de vinho nas mãos e ir para a sacada do apartamento pegar um ar fresco, claro que ele sabia que era com o intuito de evitar sua presença ali, embora isso fosse um pouco difícil, já que era ele próprio quem morava naquele endereço, então ela apenas voltou para dentro, pegou mais um pouco de vinho e voltou para a sacada, ele a chamou para vir assistir a um filme, ela respondeu que não estava afim, ele disse que tudo bem, não iria forçar nada, e foi quando ela veio de lá de fora, tomou outro grande gole da bebida, deixou sua taça sobre a mesinha de canto e pôs-se a falar e a falar, só que mais alto do que antes, com mais sentimento do que antes, sinceramente, com mais raiva do que mágoa de antes, gritando que ele nunca fazia nada diferente daquilo, que sempre era ela quem dizia, que sempre era ela quem se descontrolava, que era ela quem decidia, ele respondeu nesse momento que não era bem assim, que fora ele quem escolheu o vinho e a receita de frango que, aliás, estava quase pronto, faltavam poucos minutos para tirar do forno, então ela gritou, não, ela esbravejou alguma coisa como puta que pariu, ou então mas que merda, ele não lembrava muito bem dos palavrões, afinal todos significam a mesma coisa, e ela repetiu novamente e de novo as palavras futuro e esforço e objetivo, mais alguns palavrões, não exatamente nesta ordem, pegou a bolsa e disse que ele podia comer o frango todo sozinho e saiu, ele ficou um minuto parado no meio da sala, o controle remoto da televisão na mão, até perceber que já estava na hora de retirar o assado do forno.
        Isso foi dois meses antes, a relação não terminou daquela forma, eles, ou melhor, ela reatou o namoro alguns dias depois, disse que tinha feito um papelão, que não queria dizer aquelas palavras de verdade, mas que se preocupava com certas coisas na vida e ele parecia sempre um pouco alienado dessas mesmas coisas, mas tudo bem, não precisamos falar disso, se você não quiser, vamos assistir a um bom filme hoje, quem faz o jantar sou eu, ele aceitou e tudo pareceu voltar aos antigos eixos, até aquela tarde, quando ela marcou o encontro na cafeteria, a mesma que frequentavam desde que tinham se conhecido, ela havia ligado do escritório, ele pensava que podia ser algo grave, mas nem tanto, talvez apenas um papo para descontrair no final do dia, foi isso o que pensava quando ela adentrou o estabelecimento com um semblante sério e sequer provou dos pastéis que, aliás, estavam muito bons, e começou a dizer que havia pensado melhor, que aquela situação não estava dando certo, que era melhor cada um seguir o seu caminho etc., coisa e tal, ele não estava entendendo, disse isso, foi quando ela começou a ficar realmente alterada, retirou da bolsa o pacote e o deixou em cima da mesa, ao lado das xícaras de café, e desta vez, somente desta vez ele quis responder algo mais, indagar mais, então ela não se aguentou e soltou alguns palavrões, ele já estava acostumado àquilo, só ficou um pouco surpreso com o tal filho da puta, todos nós a partir daí já conhecemos a história, e era nisso tudo que ele pensava, encarando o embrulho pardo na mesinha de canto, sempre em silêncio, antes de buscar um copo de água na cozinha, ela parecia ter um problema preocupante com oscilações de humor, ou talvez fosse ele quem carregasse o problema, mas nunca tinha antes visto a relação por esse ponto de vista, fazia o que tinha de fazer, ligava em seu trabalho vez em quando, os dois passeavam vez em quando, os dois bebiam juntos vez em quando, de repente recordou um detalhe, o de que faziam sexo à luz de velas, especialmente uma noite em que haviam voltado de uma sessão do cinema, ele se preocupava com certas coisas como as velas, isto é, o que ela falara não era totalmente verdade, não que estivesse magoado com tal declaração, não sentia mágoa por assuntos pequenos, aquilo era um assunto pequeno para ele, então notou que realmente o problema poderia ser com ele, que não fazia muito além daquilo que fazia há tanto tempo, que escrevia roteiros que não sabia onde tinham ido parar, que não procurava buscar algo mais em sua vida, que buscava saber o que iria jantar e não se importava com o resto de seus dias medíocres, com querer um lugar melhor para viver, atitudes pequenas que se tornavam grandes para ela, que não se contentava com o escritório, que buscava reconhecimento dos outros, ele deveria também buscar reconhecimento dos outros, afinal de contas, você é ou não é um escritor?, na verdade roteirista, ora dá na mesma, não dá na mesma, é um pouquinho diferente, você pensa em um escritor como alguém que produz contos, romances, meu trabalho é um pouco diferente, você é louco, não sou louco, sou mais como alguém que tem um conceito diferente da maioria, você é louco, sim, você usa tanto a palavra diferente que acaba ficando igual à mesma maioria de que quer tanto se distanciar, não é verdade, você está delirando, acho melhor eu ir embora, preciso trabalhar muito cedo amanhã e não trouxe roupa para me trocar, e ele ficou nu no sofá, olhando através da sacada e pensando se seria uma obrigação ela ter de recordar toda vez o futuro, o futuro besuntado de esforço e objetivo, mesmo depois de um sexo em que ela havia tido dois orgasmos.
        Voltou com o copo de água da cozinha, bebeu um pequeno gole, era mais para molhar os lábios e ter algo com que ocupar as mãos enquanto não as avançava para cima do pacote, a despedaçar o papel pardo que agora estava um tanto amassado, fora ele quem o havia amassado e não se dera conta, no fundo, no fundo não queria tê-lo recebido, mesmo que não soubesse ainda o que escondia, não queria tê-lo aceitado daquela forma, pensou que poderia tê-la segurado na cafeteria enquanto conversavam um pouco mais, podia tê-la acalmado para não lhe dar o direito daquela briga entre os pastéis de queijo e o café, que ela devia ter ficado e bebido do café para se acalmar, mas que ideia estúpida, café não acalma ninguém, sua besta, não devia tê-la mandado à merda, mesmo que só tenha falado isso para si, minha nossa, tê-la imaginado foder com o diabo, quem era ele naquele momento?, estava muito errado, estava errado porque não era nada do que pretendia para ela, mas veio um rastro de pensamento obscuro de algum canto daquele apartamento, como uma pulga que se instala devagar atrás da orelha e começa a incomodar aos poucos, um pensamento estranho que ilumina feito uma lanterna com a pilha fraca, que vai tentando iluminar o caminho à frente e falha e ilumina e falha de novo, um pensamento que mostrava um quadro em sua mente e de que até então havia percebido somente a moldura, um pensamento que dava voz àquele quadro, uma voz rouca e baixa dizendo anda logo, abra esse maldito pacote e veja o que restou para você, o que restou para um medíocre como você, nesse pacote sobrou alguma coisa a qual ela dava importância e de que você fez pouco caso, veja o que ela deixou e então volte os olhos para mim, este quadro que você sabe bem o que representa, não precisa necessariamente dessa lanterna para me enxergar, sabe o que quero lhe mostrar e não tem coragem de me encarar, não é mesmo?, pois tome coragem dessa vez que pode ser sua última chance de ter realmente algum vislumbre do que virá a ser o resto de seus dias, deixe de bancar o roteirista pois agora é você o protagonista nesta história, largue esse copo de água e veja o rascunho de si próprio, então ele levantou o pacote com uma das mãos enquanto depositava a água sobre a mesinha de canto, arrebentou o barbante que o envolvia e o jogou para um lado, rasgou o papel pardo e o arremessou para o outro lado, sentou-se no sofá, suas mãos inertes sobre um monte de páginas juntas por uma encadernação plástica , seu nome escrito em letras maiúsculas no centro da primeira folha, o volume agora parecia pesar mais do que antes, como isso era possível ele não queria saber, respirou fundo e folheou depressa as páginas e viu que ali não havia palavra alguma, o volume inteiro mostrava um nada branco, nada senão seu nome no rascunho de capa, não entendia, aquilo não era dele, ou era e não se lembrava, aquilo estivera com ela e ele não entendia o porquê, não se lembrava de lhe ter deixado alguma vez um trabalho seu para apreciação, talvez fosse o prenúncio de uma autobiografia, uma ideia ridícula, não havia muito o que ele pudesse contar sobre si próprio, e foi quando ouviu a voz baixa e rouca novamente, agora cantarolando uma canção de sua infância, uma antiga e esquecida canção que estivera alojada no fundo de seu cérebro, em meio a teias e poeira dos anos passados por ele, isso mesmo, passados por ele simplesmente, ouviu a voz sentenciar que aquilo é o rascunho de si próprio, aquilo é o grande vislumbre do resto de si próprio, porém não era a mesma voz baixa e rouca, era sua voz saindo por sua garganta, sua voz que quase sempre se calara quando devia ser ouvida, de repente sentiu uma sede imensa, uma sede de uma vida inteira, procurou o copo na mesinha e esbarrou nele com os dedos trêmulos, o vidro se espatifou e no meio dele, sobre o assoalho, surgiu uma poça indefinida, como sua vida em branco, como aquelas páginas sem sentido, e descobriu num lampejo que a poça era o quadro revelado afinal, a moldura era o apartamento escuro, e tudo o que restava ali era o seu nome intitulando o calhamaço de um vazio que doía pesado em seu peito.
        Tropeçando, saiu para o corredor lá fora. A menininha loira continuava com seu carrinho de fricção. Ele a fitou, ela o fitou e desta vez lhe sorriu. Largou o brinquedo e viu-o correr acelerado até se chocar no sapato daquele vizinho que queria chorar, chorar como ela quando queria atenção de sua mãe antes de dormir, e parecia haver desaprendido como se fazia isso.



quinta-feira, 19 de abril de 2012

MANIFESTO A FAVOR DO DIREITO AO ABORTO DE FETOS ANENCÉFALOS (de Bosco Silva)



Com 8 votos a favor e 2 contra, ministros do Supremo Tribunal Federal decidem a favor da interrupção da gravidez nos casos de fetos anencéfalos. Em outras palavras, o aborto nesse caso deixa de ser crime.
Fetos anencéfalos são fetos que não possuem cérebro. O que torna a vida extra-uterina para esses bebês inviável, causando inutilmente a suas mães perigos de saúde e traumas psicológicos já que a mulher passa a se afeiçoar de uma criatura que viverá apenas alguns minutos após o parto ou, muito excepcionalmente, alguns meses de uma vida vegetativa mantida por aparelhos.
Esta decisão, em termos de Brasil, país onde a religião ainda possui um grande peso, é um avanço da racionalidade contra o misticismo vazio, da emotividade sem fundo prático, da tradição não crítica e retrógrada etc. É uma vitória antes de tudo do chamado estado laico, um dos grandes pilares da democracia, que afirma que o estado deve ser neutro em relação a questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião. Gerando, por sua vez, livre culto a todas as formas de religiosidade ou de pensamento, e assim evitando mazelas do passado, como as perseguições religiosas. Porém, infelizmente, vemos que, como todas as decisões que tocam em questões de cunho religioso, muitos grupos religiosos, mais uma vez, tentam forçar uma regressão ao passado se opondo a decisões importantíssimas que afetam a saúde de muitos. E assim como se opõem ao uso de células-tronco na recuperação de doentes ou a campanhas em favor do uso de preservativo na luta contra a AIDS, seria de esperar que a discriminação do aborto de fetos anencéfalos fosse tomada com protestos, mesmo que nos últimos anos avanços tecnológicos permitam exames precisos para este tipo de malformação fetal e que seja cada vez mais evidente para muitos que ninguém vive sem um cérebro. (Embora muitos religiosos certamente discordem disso, argumentando que a consciência se encontra em outra parte do corpo, talvez no pé ou no coração, para defenderem tal posição).
Parece que para estes grupos seria agradável viver em um país em que sua mentalidade se situasse na idade média, como em muitos países árabes em que ainda vigora os estados que tem como base a religião por princípio, como as teocracias islâmicas dos países mulçumanos em que, por princípios religiosos, fazem, assim como na idade média, das mulheres suas principais vítimas, levando muitas, em pleno século XXI, a serem condenadas ao apedrejamento público em caso de adultério, ou tolhendo devotos de religiões rivais com a violência.
Todavia, é preciso lembrar que a descriminalização do aborto em casos de anencefalia, como todo direito, não é uma imposição, mas dá a mulher o direito de escolher manter ou não a gravidez, ou seja, não irá contrariar nenhuma mulher com relação a suas crenças religiosas, permitindo que tomem suas decisões com base apenas em sua vontade. Pena que muitos religiosos não veem isso. 
Contudo, não deixa de ser surpreendente que em pleno século XXI ainda haja pessoas que, baseadas em conceitos e ideias religiosas, como as de alma - ideias que jamais são comprovadas e que possuem tantas interpretações quanto queira a moda do dia ou da TV -, se acham do direto de influir nas decisões de outras pessoas, forçando-as a tomarem atitude e viverem conforme o que estas definem como o que seria o melhor modo, trazendo risco a saúde física e psicológica destas. Obrigando muitas mulheres a se arriscarem a procedimentos não confiáveis e inseguros de interromper gravidez. O que não deixa de ser contraditório já que são também estas mesmas pessoas que, baseadas em seus conceitos religiosos, afirmam que todos possuem o livre arbítrio, o poder de tomar decisões por si próprias, mas quando se trata de decisões tomadas por outros a respeito de sua sexualidade são imediatamente tolhidos e condenados à execração pública. A impressão que dá é que, para estes grupos, todos são livres desde que sigam sempre o que é unicamente ditado por eles. Mas que bela noção de liberdade, não é mesmo!
Em suma, de minha parte creio que todos temos o direito de acreditar no que quisermos, em deus, com seus milhares de tipos, espíritos, duendes, saci Pererê, em papai noel, em ideologias políticas etc., mas guarde para você suas ideias, não obrigue ninguém a viver conforme suas crenças. Respeite o modo de agir e pensar alheios, e só interfira se caso seus direitos forem ofendidos. E se, de modo geral, você é contra o aborto, então ótimo. Não faça um. Mas não obrigue uma mulher que, por qualquer que seja o seu motivo, a abortar numa clinica clandestina sofrendo infinitos riscos. Deixe que esta decisão seja tomada livremente por ela e que esta usufrua de seus direitos e que cada um seja plenamente responsável por seus atos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ANTIBASEADO EM FADAS E BRUXAS (de Marcos Salvatore)


by Mary Ellen Mark

Um tempo atrás parecia fazer parte
Mas não rolava aquela rima, aquela bossa
Pelos bares, pela idade
Por onde eu adormecia e acordava

Com meus sonhos e pensamentos
Com meus pés procurando
Os compassos dos seus pés
Em um chão descalço de vexames

E mais dia menos dia aconteceu,
Pode crer que a gente finge que se esquece
Olha, a história que eu te dei, que eu te contei
Vai perceber que era verdade

Dessas coloridas de lembrar
De desenhar por um momento
Por algum tempo ensandecido
Enquanto a gente se torna sem tentar

Antibaseada em amizade
Em meio às bruxas e as fadas da cidade
Que de alguma forma
Pegam leve, mas não são nem somam a metade

Do que eu tenho pra te dar:
Um mar de experiência viva
Mar tanto para atravessar em braçadas vorazes
Os seus abraços

E descobrir um mundo novo
No entender de se achar
Algo sem tradução

sábado, 10 de março de 2012

FICÇÃO CIENTÍFICA E JESUS CRISTO, OU DAN BROWN CADÊ JESUS? (de Bosco Silva)


Na década de 80, a novela televisiva ROQUE SANTEIRO, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, tinha como tema, uma história bastante moderna para os padrões da época, e que ainda continua mesmo para a época atual, tanto que nada tão ousado repetiu-se na teledramaturgia brasileira desde então. O tema versava sobre Roque, um personagem que ao ser tido como morto passa a ser cultuado por suas façanhas como santo, porém, anos depois, descobre-se que o herói não morreu, e, mais que isso, que o culto religioso que se formou em torno de sua história não condiz nem um pouco com o verdadeiro personagem, tanto que todos aqueles que de alguma forma passaram a lucrar com seu mito temem que tudo seja desmentido, e percam com isso seus privilégios, levando muitos mesmo a tentarem matá-lo.

Este tema, embora seja de uma ousadia jamais vista na televisão brasileira, não era um tema novo, como explica o escritor Bráulio Tavares, já havia sido explorado por alguns escritores, como o escritor Ronaldo Correia de Brito, em seu LIVRO DOS HOMENS, cujo livro conta a história que ao “encontrarem no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e que foi morto por vingança”. E mesmo na ficção científica, o tema do personagem tido erroneamente como herói, foi bastante explorado, como nos livros UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ (1960) de Walter M. Miller Jr., e LIMBO (1952) de Bernard Wolfe.

É simplesmente impossível para alguém sensato, ao ver a trama contida tanto na novela ROQUE SANTEIRO, quanto no LIVRO DOS HOMENS, não associar o tema com a religião cristã; aliás, foi seguramente isto que retirou do ar a novela em sua primeira versão em plena ditadura militar, na década de 70. E se substituirmos Roque por Cristo entenderemos toda a ousadia de que falamos, pois assim como em tais livros, conhecendo bem a história cristã com todo seu poder e manipulação sobre as obras históricas e literárias do passado - fato que qualquer historiador sensato de hoje seria incapaz de negar – não podemos deixar de pensar que tal possibilidade possa ter acontecido com a maior religião do mundo. Sim, talvez estejamos cultuando um Cristo que nada, ou pouca coisa, tenha haver com o verdadeiro Cristo.

E digo mais: embora a maioria diga se tratar de mera hipótese artística, é bem possível que a ideia para a feitura destas obras artísticas tenha sido criadas a partir do momento em que seus autores meditaram sobre tal possibilidade: seria a arte imitando a vida, e não o contrário. E se pensarmos bem também veremos que, assim como em ROQUE SANTEIRO, há muitos que perderiam bastante se tal hipótese fosse tida como verdadeira, e não falo apenas daqueles que de alguma forma passaram a lucrar muito com a religião cristã, mas também dos devotos que construíram toda suas vidas sobre tal crença. Lembro que quando o filme baseado no livro CÓDIGO DA VINCE, de Dan Brown, foi lançado muitos comentavam que jamais iriam assistir o filme, já que contrariava sua visão do Cristianismo; lembrando que o livro argumentava que Cristo teria sido um simples líder religioso, que casara com Maria Madalena e que teria tido filho com ela. E o interessante é que tal afirmação era feita mesmo que estes desconhecessem totalmente os argumentos usados no filme.

Não é difícil entender tal ato, sei que muitos ao constatarem a fragilidade de suas crenças se lançariam ao desespero; seu mundo viraria de ponta-cabeça; muitos certamente se suicidariam; outros se tornariam extremamente egoístas e a maioria, com toda certeza, simplesmente, não querendo acreditar em tal possibilidade, a negaria veementemente mesmo que a mais absoluta prova lhes fosse mostrada.

Quando ouço alguém justificando a falta de provas sobre a existência de discos voadores, argumentando que as autoridades não permitem sua viabilização, por acreditarem que toda a ordem ética e moral mundial mudaria para um caos inominável, caso esta possibilidade fosse permitida, gosto mais de imaginar tal possibilidade relacionada à figura de Cristo.

Recentemente, vi um documentário da Nacional Geografic sobre a descoberta de um túmulo nas cercanias de Jerusalém durante a construção de um condomínio no começo da década de 80. O túmulo pertencia a uma família que vivera no séc. I, depois de Cristo. Pesquisadores foram chamados para verificar o achado antes que o túmulo fosse fechado e soterrado sob a nova construção. E após os ossos terem sido enterrados em um local santo como manda a religião judaica, os dez ossuários foram guardados e esquecidos durante décadas, em meio a centenas de outros ossuários antigos, até que algo novo aconteceu, pesquisadores posteriores, descobriram ao traduzirem os dizeres escritos em tais urnas que elas pertenciam a Maria, Mateus e Jesus, filho de José. Que correspondiam, curiosamente, a mãe e ao irmão de Jesus, citados nos evangelhos. O mais curioso de tudo é que fora encontrado também uma urna que pertencera a uma mulher que se chamava “Mariamne”. O nome inculcou os pesquisadores que nunca haviam encontrado, mesmo com centenas de urnas fúnebres achadas, um nome parecido. Analisando melhor tal nome descobriram que se tratava de duas palavras, uma era um termo de tratamento, mestra, e o outro, Maria. Lembraram-se, então, que em um evangelho apócrifo, isto é, não aceito pela igreja, Maria Madalena é chamada de mestra por ensinar aos seus discípulos a doutrina de Cristo. Mas independente de ser Madalena, porque ela estaria alí? Seria irmã do tal Jesus?, perguntavam-se os estudiosos.

A solução foi tentar comprovar o fato com técnicas modernas de D.N.A. E o resultado surpreendentemente deu negativo, Mariamne não era parente de nenhum daqueles membros. Então só poderia ser esposa. E pela proximidade a urna do tal Jesus, só poderia ser sua esposa. Mais o fato mais surpreendente é que havia também a urna de uma criança, chamada de Judá. E embora muitos estudiosos tenham afirmado que tudo não era mais que simples coincidência, já que estes nomes eram comuns à época, outros argumentaram que não em seu conjunto. Sei que imediatamente virá à mente de qualquer devoto cristão se tratar de mera falsificação, porém as evidências são incrivelmente fortes a favor de ser a família de Cristo. Até mesmo uma urna achada antes pertencente a um certo Tiago, quando comparada os matérias acumulados à anos de tal urna com o material das outras urnas achadas no túmulo familiar, o resultado foi que todas possuem a mesma quantidade e o mesmo material acumulado à anos em sua superfície, levando os pesquisadores a afirmar que a urna do tal Tiago havia sido extraviado do túmulo familiar de que falamos, combinando com o Tiago irmão de Jesus, citado nos evangelhos.

Teria sido Jesus um homem comum? Teria mesmo casado com Maria Madalena? Teria ele tido filho como qualquer mortal? Ou seria apenas uma outra família constituída com os mesmos nomes da família do Jesus bíblico. As coincidências são incríveis! E o mais engraçado é que a descoberta de tal túmulo não chamou nenhuma atenção das autoridades ou da imprensa. vale ver no youtube o documentário: o sepulcro perdido de jesus.      

Mas teríamos razão para acreditar na possibilidade de um Jesus diferente daquele descrito nos escritos bíblicos? Eu, de minha parte, penso que sim, basta apenas pensar que as religiões não apenas são sistemas de crenças como também de poder políticos, e é simplesmente impossível negar que elas nunca tenham sido usadas como instrumentos de poder. Me parece, portanto, sensato pensar que Jesus ganhara de seus biógrafos uma nova biografia. E pense comigo: se a intenção era tornar o personagem Jesus Cristo universal (católico, em grego), a melhor forma seria que este possuísse características de outros deuses, a fim de torná-lo familiar à outros povos. Não é mesmo? Sendo assim, não apenas temos a afirmação que ele havia nascido de uma virgem, o que parecia ser moda naqueles tempos já que muitos deuses, como Dionísio, Krishna, Mitra e etc., possuem esta característica, bem como outras características, por exemplo:

“O deus ÁTIS morreu pela salvação da humanidade, crucificado em uma árvore, desceu ao submundo e ressuscitou no terceiro dia. MITRA teve doze discípulos; pronunciou um Sermão da Montanha, foi chamado de Bom Pastor, se sacrificou pela paz do mundo e ressuscitou aos três dias. BUDA ensinou no templo aos 12 anos, curou enfermos, caminhou sobre a água e alimentou quinhentos homens com uma cesta de biscoitos; seus seguidores faziam votos de pobreza e renunciavam ao mundo; foi chamado de Senhor, Mestre, a Luz do Mundo, Deus dos Deuses, Altíssimo… KRISHNA foi filho de um carpinteiro, seu nascimento foi anunciado por uma estrela no oriente e esperado por pastores que lhe presentearam com especiarias…”    

Contudo, muitos, ainda hoje, argumentam ser a Bíblia a maior prova da existência de Cristo. Estes argumentam que Cristo cumpriu mais de trezentas profecias sobre sua vida; muitas delas com centenas de anos anteriores a sua vinda à Terra. Calcula-se, por exemplo, que a chance de apenas oito destas profecias fosse cumpridas casualmente seria de uma em 1028 (isto é, uma em 10000000000000000000000000000). O que não se argumenta, no entanto, é que, uma boa explicação para isso seria que, a “história” de Cristo seria apenas uma criação também a partir de antigos textos bíblicos e mesmo de profecias, como falsas concretizações destas. Como, por exemplo, o detalhe da traição de Cristo por Judas, pelo valor de trinta moedas de prata, recebidas das mãos do sumo sacerdote; e seu posterior arrependimento, devolvendo-as aos pés do mesmo. Isto pode ser visto em um escrito bíblico anterior ao suposto nascimento de Cristo, o Livro de Zacarias, em que Zacarias fala do rompimento da fraternidade entre Judas e Israel: “Então o Senhor me disse: atire isso ao oleiro, esse magnífico preço em que fui avaliado por eles. Tomei as trinta moedas de prata, e as atirei ao oleiro na casa do Senhor.” (Zacarias, 11:13,14).

Algumas dessas adaptações da suposta vida de Cristo às passagens de escritos bíblicos mais antigos, são tão forçadas que chegam a contradizer as próprias crenças do personagem Jesus Cristo; como a ocasião em que Cristo crucificado tem suas vestes disputadas por soldados romanos, por meio de apostas com jogos de dados. Esta passagem foi copiada de uma passagem do Salmo 22 (versículo 18), em que se lê: “Repartem entre si as minhas vestes, sobre a minha túnica deitam sortes.” A contradição está no fato que, se há disputa com relação às roupas de Cristo, significa que estas tinham certo valor econômico. O que não condiz com a pobreza voluntária de Cristo.

Outra adaptação forçada é sobre a ascendência de Jesus, que segundo uma profecia do Livro bíblico de Isaías, o Messias nasceria da descendência do rei Davi. Então, faz-se pai de Jesus, José, que é um descendente longínquo do rei Davi. Até aí, tudo bem. Porém, Cristo tem que nascer de uma mulher virgem, também, para que seja isento de pecado. Conclusão: a confusão tá formada. A solução é fazer de Cristo um filho adotivo de José. Mas a profecia requeria que houvesse uma descendência carnal...

Há também a contradição com relação ao nascimento de Cristo:

Como a profecia do Livro de Miquéias (Miquéias 5, 2), afirmava que o Messias nasceria em Belém, então os escritores do Novo Testamente tiveram que também adaptar a “história” do personagem Jesus a essa profecia:

Mateus faz logo Jesus nascer em Belém. Já Lucas faz os supostos pais de Jesus, José e Maria, irem para Belém, devido a um censo que obrigaria José ir à cidade de seus antepassados, Belém. Onde Cristo nasce. Surpreendentemente, João, não liga para essa profecia, e faz Jesus nascer em outra cidade. Seu Evangelho demonstra claramente que seus seguidores ficaram surpresos com isso, como podemos ver na passagem de seu Evangelho: "Outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?" Cada autor, portanto, lida de modo diferente com tal adaptação da estória.

Assim, aprendemos que a adaptação de um personagem, como Jesus, a todas essas condições proféticas, tão diferentes, acarreta certo grau de incoerência à sua estória.

Em suma, a estória bíblica de Jesus é tão verdadeira quanto a imagem atribuída hoje à ele. Uma imagem de um homem branco, de cabelos castanho-claros e olhos azuis; embora seja extremamente improvável, naquela época, a um homem de origem semita; refletindo muito mais as características físicas dos pintores europeus que a criaram.

Mas penso que, por outro lado, ainda podemos encontrar alguns detalhes verdadeiros do verdadeiro Cristo na bíblia: um personagem tão esquecido, mas que ainda podemos ter uma leve visão de sua doutrina, vista por alguém que verdadeiramente compartilhou sua companhia e ideia, e que embora fosse contrária as ideias de um cristianismo institucionalizado, passou despercebido por estes: Santo Estevão, disse: Deus não habita em casas feitas por mãos humanas. Porém, como comprova a experiência: a história oficial é sempre contada pelos vencedores. E o que esperar de uma instituição que sempre dominou os meios de informação, filtrando apenas o que lhe era compatível?

PARA SABER MAIS, LEIA OS ARTIGOS NO SITE CEREBRAU.COM.BR:

* 20 Motivos Para Não Ser Cristão

* Cristianismo: Uma Religião Da Culpa e Violência?




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PESADELO E REALIDADE (de Bosco Silva)

by Frida Kahlo

A morte sempre lhe pareceu uma idéia extremamente excitante, e naquele dia estava decidido a se suicidar. Para tanto, escolheu o prédio mais discreto e longe da confusão da cidade que poderia encontrar. Não se importou nem um pouco com a paisagem, afinal, isto era o que menos lhe importava.

Ao iniciar os quatorze andares que lhe separava de seu trágico fim, pôs-se a pensar sobre os mistérios da morte. Todas as estórias que aprendera em sua infância estavam prestes a serem testadas. Seu ateísmo lhe deixava confuso, pois se estivesse certo, nada lhe restaria, nem mesmo o sabor da vitória de sua elogiada crença. Do contrário, teria que suportar a sensação de toda uma vida de erros. Por isso, seu ateísmo, algumas vezes lhe aborrecia, já que não poderia ser comprovado pessoalmente, muito menos após a morte.

Ao subir os andares, imaginou cada andar como um ano de sua vida: seus primeiros anos, em branco em sua memória, pertenciam aos seus pais, seus parentes...

Estava agora no sétimo andar, reminiscências emergiam de sua memória: suas brincadeiras de criança, as descobertas que tanto lhe agradavam, o amor e o carinho de seus pais eram coisas que tinham valido apena.

Ao chegar ao décimo quarto andar percebeu que os andares correspondiam aos anos mais felizes de sua vida, que a escolha de tal prédio não foi por acaso, pois seria bom morrer tendo estas como suas últimas memórias.

Finalmente, ao chegar ao topo do prédio um pensamento invadiu sua mente, a possibilidade da queda gerar um efeito semelhante, porém contrário a subida. Sua mente relembraria imediatamente dos últimos anos, contudo, de modo decrescente, chegaria aos primeiros anos de vida, que não lhe pertenciam. Olhou para baixo, sentiu a brisa em seus cabelos, teve a impressão que a vida e a morte se pareciam; como extremos a dor era um elemento presente: ao nascer deve ter sentido o ar, que agora balançava prazerosamente seus cabelos, rasgar suas narinas, penetrar forçosamente um espaço virgem. Dor que certamente sua mãe sentiu ao preparar-se, em seus primeiros passos, para gerar-lhe vida.

Olhou para baixo novamente, respirou fundo, como quem se prepara para um mergulho em uma piscina, e saltou. Seu corpo estendeu-se no espaço, aparentemente vazio, e caiu... caiu... caiu...

Daniel acordou assustado com o sonho que tivera, levantou-se e dirigiu-se à cozinha para beber água. Ao apanhar a garrafa d’água, escorregou, tombando ao chão. E enquanto sangrava, pensou: não confunda pesadelo com realidade. A realidade é bem pior!