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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SERIAL KILLERS, CYBERPUNK, FETICHES E DARK WEB - ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN SOBRE NOVO LIVRO





SERIAL KILLERS, CYBERPUNK, FETICHES E DARK WEB - ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN SOBRE NOVO LIVRO


Em “Fetiche Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web”, é narrada a busca por um predador sexual que se utiliza de um perigoso fetiche para matar suas vítimas, descartando seus corpos em rios próximos à cidade de Belém/PA. 


O leitor acompanha a investigação em busca do assassino, que o conduz ao curioso mundo dos fetiches, dos clubes de swing e das histórias sombrias da dark web, revelando o lado sombrio da pornografia.


A história se passa no futuro, em uma Amazônia distópica, marcada pela chuva ácida, coberta de fuligem das queimadas e assolada por um calor insuportável, que obriga a cidade a adotar uma vida noturna. Tudo efeito da devastação ambiental e da chegada dos data centers, que consomem toda a água dos rios e despejando calor na atmosfera. 


Nesse futuro distópico, a cidade de Belém tornou-se dominada pela prostituição e centro mundial do turismo sexual, atraindo os mais perversos predadores sexuais.


O lançamento do romance será na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro, no dia 5 de setembro no Hangar, no estande Amazônia Fantástica.




O Bornal convidou o autor Bosco Chancen para um bate-papo sobre seu novo romance.


Bornal: A primeira coisa que chama atenção no romance “Fetiche Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web” é a ambientação: a história se passa quase que totalmente em um clube de swing, o que é uma grande novidade às histórias de serial killers, mas que pode afastar leitores mais conservadores; você não acha?


Bosco Chancen: Sim, mas também poderá atrair pessoas curiosas com estes ambientes, que não estão lá somente pra chamar atenção, são importantes para a trama do livro, já que por meio deles busca-se entender a mente do predador sexual e seu fetiche assassino. Por isso tornou-se necessário a descrição das atividades e regras de um clube de swing, o simbolismo por trás das práticas sexuais, além de conceitos fundamentais da sexologia, como o de parafilia. Contudo, evitei cenas muito descritivas ou desnecessárias, pois o romance é um thriller policial não uma história pornográfica.


Ilustração de Robson Marone para o Livro Fetiche


Bornal: Como foi a pesquisa para a criação dos ambientes e das cenas de fetiche?


Bosco Chancen: Tomei como modelo clubes de swing franceses e praias de nudismo de Cap d’Agde, na França, lugares dedicados ao sexo livre. Acompanhei entrevistas com criadoras brasileiras de conteúdo sexual sobre o funcionamento das mais famosas casas de swing brasileiras, sobre seus ambientes e suas regras. A internet foi uma grande fonte de pesquisa sobre os fetiches atuais. De modo que, tudo que está no livro é real, mesmo as coisas mais absurdas ligadas ao sexo e às mutilações corporais descritas. Aliás, gosto muito de apresentar fatos reais que, por serem tão absurdos, apareçam irreais. 


Bornal: Como surgiu a ideia do romance?


Bosco Chancen: Surgiu das minhas leituras dos livros do Marquês de Sade e também das histórias sobre serial killers reais, em que constatei que a grande maioria deles eram motivados por alguma forma de fetiche ou parafilia. Ted Bundy, por exemplo, tinha predileção em assassinar mulheres de cabelos lisos e escuros e flertava com a necrofilia: ele voltava ao corpo, dias depois, para manter relações sexuais com os cadáveres; o assassino Dennis Rader, que resumiu seus fetiches ao se autonomear de BTK (iniciais inglesas para os atos de “amarrar, torturar, matar”), tinha fetiche por bondage, vestir roupas femininas de suas vítimas e ser sádico. 


Sade foi o primeiro autor a fazer dos assassinos e de seus fetiches os protagonistas de suas histórias e também o primeiro a mostrar o lado violento e sádico da sexualidade humana, que aparece de forma extrema nos serial killers. Não é à toa que seu nome foi usado para criar o termo sadismo, que é o prazer em provocar dor e sofrimento aos outros. Então, pensei que seria uma boa ideia usar a obra dele para criar uma história sobre um assassino sexual que utiliza de um fetiche para matar suas vítimas; também aproveitei sua obra para criar os perfis psicológicos dos criminosos, pois nada mais coerente do que utilizar a obra daquele que inspirou o termo sadismo para definir uma mente sádica. 


Bornal: Quais os fetiches mais assustadores que você encontrou durante a pesquisa?


Ilustração de Robson Marone para o Romance Fetiche


Bosco Chancen: Antes de mais nada, é preciso dizer que fetiches e fantasias sexuais fazem parte da sexualidade humana normal, embora alguns possam se tornar perigosos, principalmente quando relacionados à mentes perturbadas. A hibristofilia é um desses casos, embora seja uma parafilia, que consiste em se ter atração por pessoas que cometeram crimes graves e que, por isso, pode levar pessoas a se relacionar amorosamente com pessoas perigosas e ser um risco de vida para elas. É o que vemos muito em notícias de jornais, de jovens mortas por se relacionar com traficantes e ser mortas por facções rivais ou pelo próprio namorado. 


Wade Wilson


O Maníaco do Parque, que matou 9 mulheres, ainda hoje recebe centenas de pedidos de namoro e casamento de mulheres. O americano Wade Wilson, que explorava mulheres e as espancavam, matou duas, covardemente, recebe inúmeras cartas de admiradoras, inclusive houve um abaixo assinado de mulheres para que ele tivesse a pena reduzida. É muito louco alguém se sentir atraído por uma pessoa que não perderia a primeira chance de explorá-la, espancá-la e matá-la. O tesão está, em parte, na atração pelo perigo, pela possibilidade de morte. 


A atração pela morte também está presente em outro fetiche perigoso, que é o bareback, que consiste em participar de orgias sexuais, sem proteção, contendo entre seus participantes pessoas contaminadas com a Aids. Esse fetiche é uma verdadeira roleta russa.


É claro que existem atividades sexuais ainda mais perigosas e absurdas, ligadas ao sadismo. Uma das mais doentias e perigosas é a que é praticada pelo assassino do meu livro. Mas, para saber, tem que ler o livro.


Bornal: E quanto a dark web?


Bosco Chancen: O livro discorre sobre suas lendas urbanas, como os snuff videos, que são vídeos com cenas de mortes de pessoas encomendadas pelo pagante. Em 2001, um trio de ucranianos que tinham assassinado 21 pessoas e filmado.as mortes, foi pego pela polícia e confessou que os vídeos seriam vendidos na internet. Então, essas lendas não são tão lendas assim. A formação de grupos de criminosos sexuais tornou-se mais fácil com a internet, já que não importa mais a distância entre eles. Hoje, por exemplo, pedófilos do mundo todo podem se reunir por meio de sites da dark web, enquanto indivíduos sádicos que gostam de assistir a pessoas sendo torturadas não precisam sequer acessar a dark web, eles se reúnem através de aplicativos comuns, como o Discord, nos quais adolescentes se juntam em “panelas”, como são chamadas grupos de adolescentes que chantageiam e obrigam meninas a se mutilarem, matar seus animais de estimação e até tirarem a própria vida, tudo assistido ao vivo por eles. Essas atividades sádicas proporcionadas pela internet e os novos fetiches que surgiram com ela também são explorados pelo livro, que, mais uma vez, encontra em Sade uma origem.    


Bornal: Já que o Marquês de Sade foi tão importante para o projeto do romance e está presente no livro, apresenta ele para os que não o conhecem.


Marquês de Sade por Robson Marone,
Ilustração para o Livro Fetiche


Bosco Chancen: O Marquês de Sade, que alguns já ouviram falar por meio do filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, foi um nobre francês que viveu de 1740 a 1814. Teve uma vida cheias de aventuras sexuais, que incluía o prazer de receber e ofertar chicotadas durante os atos sexuais. É famosa a passagem em que ele levou a prostituta Rose Keller para seu castelo, amarrou-a à cama, chicoteou-a e a feriu com pequenos cortes que estancou com pingos de cera quente de uma vela. Durante a primeira de suas prisões, motivada por sua sogra, devido ele ter fugido com sua cunhada, ele escreveu seu primeiro livro, Os 120 Dias de Sodoma, em que conta a história de quatro homens ricos que, junto de suas filhas, vão para um castelo para praticarem 600 formas de perversões sexuais, com 46 pessoas (homens, mulheres, jovens e velhos) levadas à força. Suas histórias mistura sexo e crueldade. Com suas histórias ele queria demonstrar, ao contrário de Rousseau, que afirmava que os homens nascem bons e a sociedade que os corrompe, que na verdade os homens nascem maus, sádicos e a sociedade os torna hipócritas.




Bornal: A trama do livro acontece em um futuro próximo, numa Amazônia devastada, com o calor insuportável e dominada pela prostituição. Isso é uma previsão?


Bosco Chancen: O romance é uma distopia, e toda distopia foca no futuro para criticar o presente e prever as consequências dos problemas atuais. As pesquisas recentes sobre a devastação da floresta amazônica prevê o aumento do calor em Belém, que a tornará uma das cidades mais quentes do mundo nos próximos anos, se não houver nenhum projeto para amenizar isso, como a arborização da cidade. Os moradores já percebem que já está mais quente do que no passado. No livro, o calor é agravado não apenas pelas mudanças climáticas, mas também pela vinda dos gigantescos data centers de IA, que consomem bilhões de litros de água de nossos rios, encarecem o preço da energia elétrica, causam poluição sonora e expelem ainda mais calor na atmosfera. E há um projeto atual dos políticos brasileiros para convidar empresas estrangeiras para instalar data centers em nosso país, não se importando com os prejuízos que trará para a população. 


Bornal: E a referência à dominancia da prostituição, também se baseia na realidade atual?




Bosco Chancen: No livro, a prostituição e o tráfico de drogas são umas das poucas atividades humanas que ainda não foram totalmente dominadas pelas inteligências artificiais, embora, na trama, já exista concorrência com robôs sexuais. Contudo, ao contrário da glamourização atual dada às pessoas que se dedicam a produzir conteúdo sexual via internet, que sempre está associado à prostituição, o livro se volta para o lado ruim da pornografia e da prostituição, quanto à exploração e o perigo de vida, que torna garotas de programas alvos de predadores sexuais. 


Bornal: Por isso a escolha de um cenário cyberpunk para o romance?


Bosco Chancen: Sim, os data centers, as grandes corporações tecnológicas comandando a política mundial e nossas vidas, as inteligências artificiais acabando com empregos e com as atividades que eram exclusivamente humanas, como compor música e produzir artes em geral, não são mais coisas de ficção científica, já vivemos isso, o mundo atual é cada vez mais cyberpunk.


Belém Cyberpunk Feita por IA


Bornal: Mas o romance não foca apenas na visão pessimista do cyberpunk, quase que a metade do livro tem como cenário a estética do solarpunk, que aponta para um futuro otimista, sustentável, de harmonia com a natureza e com a vida humana; comente um pouco sobre essa oposição.


Belém Solarpunk Feita por IA


Bosco Chancen: Tanto o cyberpunk quanto o solarpunk são duas formas de ver o futuro da humanidade, e no livro elas funcionam como uma oposição entre distopia e utopia, que o leitor sente a diferença sem ser algo panfletário. O solarpunk mostra que é possível criar projetos que tornem a humanidade mais harmoniosa com a natureza e principalmente com sua própria natureza interior. Mas se engana quem acha que o solarpunk é um mar de rosas, se fosse assim ele não teria a palavra ”punk” em seu conceito, possui seus desafios e sua rebeldia contra todo um sistema que explora o mundo de forma catastrófica.


Bornal: Alguma informação para fechar a matéria?


Bosco Chancen: O livro foi ilustrado pelo desenhista Robson Marone e estará presente no estande Amazônia Fantástica, na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro, de 29 de agosto a 6 de setembro, no Hangar. Quem tiver interessado, o livro pode ser comprado pelo link da editora, clicando AQUI.   


sábado, 5 de julho de 2025

5 FATOS QUE COMPROVAM O QUANTO A RELIGIÃO CATÓLICA É MACABRA





5 FATOS QUE COMPROVAM O QUANTO A RELIGIÃO CATÓLICA É MACABRA

Sendo a promessa de vida eterna uma das ideias fundamentais da religião católica, é de esperar que muitos de seus cultos foque na experiência da morte, como uma espécie de lembrete da brevidade da vida humana, terminando por fazer da morte um elemento fundamental de seus cultos. Disso resultou inúmeros elementos macabros que foram incorporados aos cultos católicos, que a maioria das pessoas tendem a não notar o quanto são macabros simplesmente por já estarem bastante habituados a eles. Por isso, este pequeno artigo tentará mostrar, por meio de 5 cultos da igreja católica, o quanto a religião católica é macabra.

 

Cristo Crucificado



Um dos mais importantes símbolos do catolicismo (quiçá o mais importante), presente em hospitais, repartição pública e escola, o Cristo crucificado, mostra a imagem de um homem morto, com os pés e mãos pregados a uma cruz de madeira, de onde jorra sangue em abundância de suas feridas, por todo seu corpo. 

 

É estranho que, em vez de terem escolhido cultuar a imagem de Cristo vivo em contemplação e alegria, tenham escolhido popularizar um momento de extrema dor e sofrimento. Sem dúvida, foi devido a seu apelo trágico, que torna-se ainda mais trágico quando unem a ela a frase “Ele sofreu e morreu por seus pecados”, mergulhando o devoto em um profundo sentimento de culpa. 

 

Obra Feita Pelo Artista Paul Fryer, Retratando Cristo Morto em um Aparelho Moderno de Morte: Cadeira Elétrica

Não menos macabro, é a ideia de ter transformado um antigo instrumento de tortura e morte em símbolo de adoração e salvação. Para se ter uma ideia de quanto isso é bizarro, substitua a cruz por outro instrumento de tortura e morte. Digamos, uma cadeira elétrica. E você verá o quanto parecerá macabro Cristo morto sentado em uma cadeira elétrica e adorado.

 

Relíquias de Santos



Santos e santas são também importantes elementos de adoração de devotos católicos, sendo bastante comum que não apenas objetos que pertenceram a estes santos sejam expostos em igrejas para ser cultuado, mas também partes de seus corpos mumificados, em uma espécie de culto fúnebre macabro, expondo de crânio, fêmur, coração, sangue, mãos, cabeças mumificadas, expostos à adoração pública.


Cabeça Mumificada de Catarina de Siena
 


Acima, Suposto Crânio de Maria Madalena


Corpos de Santos

Como uma variante das relíquias de santos, corpos inteiros de santos e santas são comumente vestidos e condicionados em espécies de caixões de vidro e expostos para a adoração pública em igrejas. Estes corpos mumificados, em geral, recebem camadas de cera para reconstrução das partes já destruídas pelo tempo.



Acima, o Corpo Mumificado de Irmã Dulce

Igrejas Feitas de Ossos Humanos



Seguindo o princípio católico de cultuar a morte, como forma de lembrar aos seus devotos a brevidade da vida, em contraste com a vida eterna, prometida pelo catolicismo, algumas igrejas católicas, adornam suas paredes com milhares de ossos humanos em arranjos macabros, compostos por crânios, fêmures, tíbias, etc. Ossos retirados de cemitérios das próprias igrejas. Ao entrar em tais ambientes, o devoto tem a macabra impressão de estar sendo observado pelos milhares de crânios.



Imagens de Interiores de Igrejas de Portugal

Pinturas dos Feitos dos Santos

Em geral, santos possuem histórias de vida com terríveis provações. Assim não seria de surpreender que tenha se criado pinturas bizarras, feitas pelos mais geniais pintores retratando cenas macabras das histórias destes santos, com imagens dignas dos mais macabros filmes de terror, que servem de inspiração para devotos católicos.




sábado, 17 de setembro de 2022

O SILÊNCIO DA CASA FRIA (RESENHA)



O SILÊNCIO DA CASA FRIA (RESENHA)

Sinopse

Elsie Bainbridge, após a morte do marido, Rupert, em circunstâncias misteriosas, parte com Sarah, prima do falecido, para a velha casa de campo da família de Rupert, que estava há décadas sem a visita familiar, para enterrá-lo. Elsie encontra uma casa decadente e envolta em mistérios, com moradores da pequena cidade de Fayford que evitam a todo custo se aproximarem da casa e de seus moradores, devido às histórias sombrias sobre seus antigos moradores e mortes de antigos empregados. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

“DEDOS DO HOMEM MORTO”: OS COGUMELOS MAIS ASSUSTADORES DO MUNDO

DEDOS DO HOMEM MORTO”: OS COGUMELOS MAIS ASSUSTADORES DO MUNDO 

Imagine: você está perambulando, solitário, por um bosque ao entardecer. Resolve então sentar-se na grama para ouvir o canto dos pássaros e observar a beleza das árvores, quando, casualmente, você olha para o chão e vê algo escuro como dedos humanos enegrecidos surgindo do chão. Imediatamente você pensa que um corpo foi enterrado ali expondo seus dedos decompostos para fora da cova rasa. Mas ao desenterrar os supostos dedos, descobre que são apenas cogumelos, os mais assustadores que você já viu. Aposto que você se borraria de medo. 

Devido a sua aparência o Xylaria polymorpha são conhecidos como “dedos do homem morto” (Dead Man’s Fingers), uma espécie de cogumelo comum na Inglaterra, Irlanda, e em algumas partes da Europa, e também em alguns lugares da América do Norte. 



O Xylaria polymorpha não são considerados comestíveis, e seus cogumelos variam de 1 a 3 cm de diâmetro, com 2 a 8 cm de comprimento; são inicialmente brancos ou acinzentados; com o tempo passam do marrom ao preto com reflexos esverdeados ou azulados.



Eles ocorrem mais comumente, durante o verão ou outono. Mas alguns tipos podem ser encontrados ao longo dos anos. 





terça-feira, 2 de março de 2021

A LENDA DO CORPO SECO (por Dino de Menezes)



A LENDA DO CORPO SECO 

Esta história começa no século XVII com a descoberta de ouro no Brasil, em uma cidade chamada Registro, que vem a ser o local onde teve início essa lenda macabra. As primeiras jazidas de ouro do Brasil foram encontradas na região do Vale do Ribeira pelos Bandeirantes, liderados por Fernão Dias. O local original do município era um centro de fiscalização desse ouro, todas as mercadorias eram revistadas e registradas por um agente de Portugal para cobrar o dízimo da Coroa Portuguesa. Periodicamente, o quinto era enviado à “Casa dos Contos” na vila, onde o ouro era fundido e cunhado. O Povoado acabou virando um porto de registro de ouro, cresceu, desenvolveu-se e passou a ser conhecido, em 1934, como Distrito de Paz de Registro, e, em 1945, oficialmente tornou-se município de Registro.



Com a “corrida do ouro” no século XVII muitos vieram tentar a sorte no Eldorado Brasileiro e entre eles veio um homem sinistro, temido por todos garimpeiros da região, seu nome era Miguel Antônio. Dizem que Miguel era um ser maquiavélico, fez fortuna e muita maldade para os que tiveram o triste desprazer de conhecê-lo. Era meticuloso, tramava contra os amigos e inimigos. Enriquecendo cada vez mais e acumulado riqueza, com o tempo Miguel Antônio comprou terras, construiu uma fazenda e fez família. Tornou-se o fazendeiro mais rico da região. Mas por causa da cobiça e a loucura pelo ouro, se afastou de todos e foi viver só entre os escravos e os empregados. A família voltou para São Paulo somente com a roupa do corpo fugindo da sua maldade, Miguel não deixou que levassem nada. E a cada dia que passava, a cada ano, ele se tornava um homem mais severo e ganancioso.


A história do Fazendeiro Miguel Antônio, se espalhou pela Região do Vale do Ribeira, Eldorado Brasileiro. Todos temiam e comentavam as barbaridades que cometia contra seus escravos e subordinados. Os escravos eram condenados à morte por qualquer falha ou suspeita do fazendeiro. Quando já estavam velhos para o trabalho pesado, Miguel, os usava para carregar o ouro até a beira do rio e no local mandava o escravo cavar uma cova onde ele próprio era enterrado vivo junto com o ouro. Foram mais de 300 escravos mortos pelo fazendeiro. Contam que uma certa vez ele afundou um barco no rio com homens, mulheres e crianças, muito ouro e sacos de areia que ele havia colocado para o barco naufragar. A ganância levou Miguel Antônio à loucura, ele não tinha mais como guardar o ouro então o escondia em suas terras e matava todos que sabiam. Talvez, esse homem tenha sido o maior serial killer do século XVII. Mas como os crimes contra escravos não era vistos como crime pela coroa portuguesa, Miguel Antônio nunca foi julgado por essas mortes em vida.



Segundo relato de Jandyra Ferreira de 91 anos, filha de Diogo Onça Ferreira, que era também fazendeiro em Registro e tinha negócios com Miguel Antônio, ela conta: “Meu pai era bem novo quando conheceu o Miguel Antônio que já estava com quase 100 anos, dizem que ele viveu até os 115 anos, por causa da cobiça ao ouro ele não morria. Meu pai dizia que ele era um homem muito ruim e temido por todos, era muito cruel com seus escravos, ele falava “Deus a criar e eu a matar”, e enterrava viva as pessoas. Ele morreu de uma doença estranha que fazia o corpo queimar, a mulher dele veio de São Paulo para cuidar do enterro, mas antes do velório o corpo sumiu. Dizem que os escravos levaram o corpo e enterraram cachos de bananas no lugar. Dizem que nem o céu nem o inferno o quiseram, os escravos teriam levado o corpo e feito um ritual, de modo a permanecer preso à vida terrena, mas não mais com uma forma humana. Só que como era muito esperto, Miguel Antônio deu um jeito de se manter vivo e continuar com suas maldades. Ele vivia da energia das árvores que ele sugava e fazia de sua morada, se misturando aos galhos e com o sangue que ele sugava das pessoas na tentativa de ter seu corpo de volta. Corpo Seco tinha um grande casaco de pele dos que ele matava. Mesmo depois da morte, ele continuou causando mal às pessoas, e começaram a chamá-lo de Corpo Seco, assim contavam os mais velhos da cidade de Registro.”



A lenda “Corpo Seco” e suas aparições foram contadas tantas vezes e passadas de geração em geração, que vários lugares tem o seu próprio “Corpo Seco”. Há relatos de aparições nos estados do Paraná, Amapá, Amazonas, Minas Gerais, Goiás, no nordeste brasileiro e em alguns países africanos de língua portuguesa. A história ganhou o mundo e foi se transformando de região para região.

Em Minas Gerais, há uma variação desta lenda, onde conta-se que o “Corpo Seco depois de ser repelido pela terra várias vezes, é levado por bombeiros à uma caverna em uma serra . Dizem que quem passa à noite pela estrada de terra que margeia a “Serra do Corpo-Seco”, consegue ouvir os gritos do ser amaldiçoado ecoando de dentro da caverna.


Dizem, em Goiás, que o Corpo Seco era um menino que não obedecia a mãe e foi amaldiçoado vagando pela terra sem alma, e se ao menos tocar no tronco da árvore, ela pode secar e apodrecer. À cada pessoa que passa perto dele, ele dá um abraço de morte, com suas unhas compridas esmagando a pessoa. Abraça achando que é a sua mãe. Até hoje, há o dito popular: “Quem bate na mãe fica com a mão seca”.

Na África, conta-se que, quando uma pessoa passa perto do “Corpo Seco”, ele pula na pessoa e suga todo o seu sangue. Se não passar ninguém perto ele pode ficar alojado no galho da árvore por anos, até que encontre a próxima vítima, porque se alimenta do sangue humano. O Corpo Seco é como um Vampiro para os Africanos.

Ninguém nunca imaginaria que as maldades cometidas pelo fazendeiro Miguel Antônio se perpetuariam em histórias e relatos de terror depois de tanto tempo e em tantos lugares e que virasse uma lenda no imaginário popular. O tempo não esqueceu a dor e o sofrimento de tantos que perderam a vida nas mãos desse homem maquiavélico, que dizem que ele ainda vive vagando pela terra assombrando e praticando suas maldades.



*Agradecimentos a Cezar Sanches, sobrinho neto de Jandyra Ferreira, bisneto de Diogo Onça.

Para conhecer mais, acesse: https://medium.com/@dinomenezesii

quarta-feira, 4 de março de 2020

"PRA QUEM ACREDITA EM FANTASMAS": ENTREVISTA COM O ESCRITOR DINO MENEZES

"PRA QUEM ACREDITA EM FANTASMAS": ENTREVISTA COM O ESCRITOR DINO MENEZES
A literatura de terror é, sem dúvida, uma das mais difíceis formas de escrita, já que o autor, contando apenas com palavras e a imaginação do leitor — diferente do cinema cheio de recursos de sons e imagens —, busca prender o leitor em uma atmosfera de suspense e mistério, transformando o medo em diversão. Por outro lado, há  também autores que veem nas histórias de terror algo mais do que apenas diversão, e sim um meio disfarçado de mostrar aos leitores suas crenças religiosas e esotéricas, sobre um mundo obscuro que se esconde por trás do véu da realidade. Tal qual o escritor Arthur Machen, com seu famoso O Grande Deus Pã, que levou para sua literatura de terror conhecimento ocultista, aprendido e praticado em sociedades secretas ocultistas, como a ordem hermética vitoriana da GOLDEN DAWN.


Talvez seja nesse contexto que se insere Dino Menezes, com seu livro que traz o sugestivo título Pra Quem Acredita em Fantasma.

O livro traz uma seleção de lendas, casos e relatos fantasmagóricos colhidos de diversas regiões de nosso país, e apesar de seu título, pode ser de leitura interessante mesmo para aqueles que não acreditam em fantasmas.



Casos:

O Macabro Crime da Mala e o Fantasma da Mulher Grávida do Porto
Conta a história do mais famoso crime ocorrido no Brasil, acontecido na década de 1920. Em que um corpo desmembrado de mulher, com seu feto exposto, fora encontrado em um baú em um barco que iria para a Itália. O crime, que se tornou o mais popular homicídio em nosso país antes do aparecimento de crimes feitos por serial killers brasileiros, teria sido cometido pelo marido. Segundo relatos, o fantasma da mulher ainda assombra o porto de Santos.

O Local Amaldiçoado: Crime do Poço e o Incêndio do Edifício Joelma
O incêndio do Edifício Joelma, ocorrido em 1974, foi um dos piores incêndios acontecido em local público do Brasil. A TV acompanhou todo o drama, com pessoas se jogando de sua altura, ou desesperadas na cobertura do prédio, correndo das chamas e fumaça, sendo queimadas vivas. O curioso é que alguns anos antes da construção do prédio, um acontecimento terrível havia acontecido no mesmo local; o caso do filho que havia matado a mãe e as irmãs, e jogado seus corpos em um poço preparado para o crime. Um bombeiro também morreu, contaminado pelos cadáveres em decomposição durante o resgate dos mesmos. Passado vários anos depois das tragédias, no novo edifício feito no local ainda dá origem a relatos de fantasmas e fatos assombrosos.

Espírito de Jack, O  Estripador, se Comunica com uma Médium no Brasil
Este título relata um fato curioso. Após cessar as mortes de prostitutas cometidos em 1888, em Londres, e atribuídas ao mais famoso serial killer, Jack, o Estripador, assassinatos semelhantes ocorreram na Vila de Paranapiacaba, interior de São Paulo. Teria Jack vindo para o Brasil, já que nesse período a vila teria sido construída por operários ingleses da firma inglesa contratada para a construção da ferrovia que ligaria o porto de Santos com demais localidades? A curiosidade aumenta ainda mais quando um médium recebe o espírito do médico inglês que havia morado na região, e que assumiu os crimes e contou detalhes sobre os mesmo.

Estes são alguns títulos de um total de 21 casos contado no livro Pra Quem Acredita em Fantasmas.

Abaixo, uma pequena entrevista que o blog BORNAL fez com seu autor, Dino Menezes.



BORNAL: O título de seu livro, Pra Quem Acredita em Fantasma, dá a ideia de que seu livro tem como público-alvo pessoas que acreditam no sobrenatural. Para você é importante que seus leitores acreditem em fatos paranormais para ler o livro?
DINO MENEZES: Não, de forma alguma. Os leitores podem ler como uma boa ficção; a intenção do título do livro é exatamente gerar curiosidade até para os que não acreditam. Tanto é, que recebi o retorno de pessoas de várias idades, dos 12 aos 85 anos, e de diversas crenças também. No próprio livro, inseri esse feedback das pessoas que vieram a interagir com uma parte das histórias quando divulguei pela internet. Ali, é possível perceber a variedade do público e dos que inicialmente não acreditam e começam a se questionar quanto ao assunto.

BORNAL: Qual o critério que você usou para selecionar as histórias para o livro?
DINO MENEZES: Depois de uma viagem para Paranapiacaba, comecei a pesquisar as lendas de terror e usei o caminho da antiga São Paulo Highway, que vai da cidade de Santos até Campinas, ligando as crônicas, que são baseadas em fatos reais, pelos trilhos da antiga ferrovia. 
           
BORNAL: Você acredita que há uma conexão entre escritores de histórias de terror e a crença no sobrenatural?
DINO MENEZES: Pode haver ou não, dependendo de cada escritor. Mas a curiosidade e a inquietação sobre o tema tem que haver. A curiosidade, a imaginação, o medo... principalmente o medo nos faz viajar. Atualmente, tenho lido livros espíritas para entender melhor o assunto, que é tão complexo quanto desconhecido para alguns.

BORNAL: De todos os relatos e lendas que você catalogou, qual a que lhe impressionou mais e qual o motivo?
DINO MENEZES: O incêndio no edifício Joelma, pois quando eu era criança, assisti aquele terror todo ao vivo pela televisão. A história e as imagens ficaram marcadas em mim. E durante as pesquisas e ao escrever o livro, revivi toda a tragédia que marcou a minha infância.

BORNAL: Você passou por alguma experiência que você classificaria como sobrenatural?
DINO MENEZES: Algumas coincidências aconteceram enquanto eu escrevia o livro. Acho que cada pessoa reage de uma forma diferente ao sobrenatural, dependendo de suas capacidades para sentir. Alguns veem, outros sonham, mas ocorre para quem tem sensibilidade. No meu caso, acho que consigo sentir as histórias e transportá-las em sua maioria para o papel, respeitando os espíritos e também entregando um pouco da minha sensibilidade ao escrever sobre esses seres quando consigo manter uma ligação aos personagens sem o preconceito às suas atitudes.

BORNAL: Seu interesse por lendas e relatos sobrenaturais é motivado por alguma crença religiosa?
DINO MENEZES: Não sou religioso, fui muito pouco a igreja, venho do teatro e trabalho com cinema.  Então a minha ligação com as histórias é uma forma artística de me expressar. E, contar histórias é a minha paixão não importando o meio.
Nasci em Belém do Pará, morei no Edifício Manoel Pinto, que tem diversas histórias assombradas. Depois fui morar em frente ao Cemitério da Soledad, onde meus irmãos me contavam histórias de terror. E ainda nesta época, no caminho da escola, passava em frente ao Palacete Bolonha, que é tema de uma das histórias do meu próximo livro que fiz em parceria com Bosco Silva, o qual me entrevista, rs. Enfim, essas experiências na infância me fizeram ter interesse e escrever sobre Terror.

BORNAL: O que você pensa sobre toda essa onda de conservadorismo, estimulada por políticos evangélicos, que tendem a censurar e desestimular filmes, livros, com temáticas de sobrenatural, terror?
DINO MENEZES: Cada um que tenha seu ponto de vista, goste ou não de algo, temos que respeitar isso, ter o livre arbítrio para escolher o que fazer (Ler). O fundamental é liberdade de expressão, e a liberdade de expressão é inalienável. Tem que ter filme de Prostituta, como também tem que ter filme de Igreja. Tem que se produzir todos os gêneros, e consome quem quiser. Dou esse exemplo, mas serve para todas as categorias artísticas. O perigo oculto do conservadorismo, é que começam censurando a arte, depois queimam livros, daqui a pouco estarão matando gente. Já vimos isso acontecer antes e temos que aprender com a história. Temos que ficar atentos !!

BORNAL: Você tem se sentido prejudicado com a política conservadora do novo governo?
DINO MENEZES: Muito prejudicado. A agência reguladora do cinema, ANCINE, a área que atuo, está sendo sucateada e está parada. Mais de 400 produções estão burocraticamente paralisadas atualmente no Brasil. Desde o ano passado, tento registrar um documentário e não consigo, não tenho resposta. A atuação desse governo é um desastre, um grande retrocesso a cultura e a arte brasileira. Mas vamos continuar a luta pela arte e pela liberdade de expressão!

Dino Menezes



Produtor Audiovisual e diretor, Dino Menezes trabalha com o Cinema, a literatura e o Teatro, montando Peças Teatrais, Curtas-metragens, Documentários e Performances. Ganhador de inúmeros prêmios na Baixada Santista e no Estado de São Paulo, participou de Festivais de Cinema no Brasil e no Exterior. Artista multimídia, Dino Menezes transita entre o cinema, a fotografia, a literatura e o Teatro, desenvolvendo a sua arte livre, com mais de 30 prêmios nesses segmentos. Produz a Mostra Cine Debate e a Mostra Marginal de Cinema Santista.

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Blog de Dino Menezes: https://medium.com/@dinomenezesii