sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SERIAL KILLERS, CYBERPUNK, FETICHES E DARK WEB - ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN SOBRE NOVO LIVRO





SERIAL KILLERS, CYBERPUNK, FETICHES E DARK WEB - ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN SOBRE NOVO LIVRO


Em “Fetiche Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web”, é narrada a busca por um predador sexual que se utiliza de um perigoso fetiche para matar suas vítimas, descartando seus corpos em rios próximos à cidade de Belém/PA. 


O leitor acompanha a investigação em busca do assassino, que o conduz ao curioso mundo dos fetiches, dos clubes de swing e das histórias sombrias da dark web, revelando o lado sombrio da pornografia.


A história se passa no futuro, em uma Amazônia distópica, marcada pela chuva ácida, coberta de fuligem das queimadas e assolada por um calor insuportável, que obriga a cidade a adotar uma vida noturna. Tudo efeito da devastação ambiental e da chegada dos data centers, que consomem toda a água dos rios e despejando calor na atmosfera. 


Nesse futuro distópico, a cidade de Belém tornou-se dominada pela prostituição e centro mundial do turismo sexual, atraindo os mais perversos predadores sexuais.


O lançamento do romance será na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro, no dia 5 de setembro no Hangar, no estande Amazônia Fantástica.




O Bornal convidou o autor Bosco Chancen para um bate-papo sobre seu novo romance.


Bornal: A primeira coisa que chama atenção no romance “Fetiche Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web” é a ambientação: a história se passa quase que totalmente em um clube de swing, o que é uma grande novidade às histórias de serial killers, mas que pode afastar leitores mais conservadores; você não acha?


Bosco Chancen: Sim, mas também poderá atrair pessoas curiosas com estes ambientes, que não estão lá somente pra chamar atenção, são importantes para a trama do livro, já que por meio deles busca-se entender a mente do predador sexual e seu fetiche assassino. Por isso tornou-se necessário a descrição das atividades e regras de um clube de swing, o simbolismo por trás das práticas sexuais, além de conceitos fundamentais da sexologia, como o de parafilia. Contudo, evitei cenas muito descritivas ou desnecessárias, pois o romance é um thriller policial não uma história pornográfica.


Ilustração de Robson Marone para o Livro Fetiche


Bornal: Como foi a pesquisa para a criação dos ambientes e das cenas de fetiche?


Bosco Chancen: Tomei como modelo clubes de swing franceses e praias de nudismo de Cap d’Agde, na França, lugares dedicados ao sexo livre. Acompanhei entrevistas com criadoras brasileiras de conteúdo sexual sobre o funcionamento das mais famosas casas de swing brasileiras, sobre seus ambientes e suas regras. A internet foi uma grande fonte de pesquisa sobre os fetiches atuais. De modo que, tudo que está no livro é real, mesmo as coisas mais absurdas ligadas ao sexo e às mutilações corporais descritas. Aliás, gosto muito de apresentar fatos reais que, por serem tão absurdos, apareçam irreais. 


Bornal: Como surgiu a ideia do romance?


Bosco Chancen: Surgiu das minhas leituras dos livros do Marquês de Sade e também das histórias sobre serial killers reais, em que constatei que a grande maioria deles eram motivados por alguma forma de fetiche ou parafilia. Ted Bundy, por exemplo, tinha predileção em assassinar mulheres de cabelos lisos e escuros e flertava com a necrofilia: ele voltava ao corpo, dias depois, para manter relações sexuais com os cadáveres; o assassino Dennis Rader, que resumiu seus fetiches ao se autonomear de BTK (iniciais inglesas para os atos de “amarrar, torturar, matar”), tinha fetiche por bondage, vestir roupas femininas de suas vítimas e ser sádico. 


Sade foi o primeiro autor a fazer dos assassinos e de seus fetiches os protagonistas de suas histórias e também o primeiro a mostrar o lado violento e sádico da sexualidade humana, que aparece de forma extrema nos serial killers. Não é à toa que seu nome foi usado para criar o termo sadismo, que é o prazer em provocar dor e sofrimento aos outros. Então, pensei que seria uma boa ideia usar a obra dele para criar uma história sobre um assassino sexual que utiliza de um fetiche para matar suas vítimas; também aproveitei sua obra para criar os perfis psicológicos dos criminosos, pois nada mais coerente do que utilizar a obra daquele que inspirou o termo sadismo para definir uma mente sádica. 


Bornal: Quais os fetiches mais assustadores que você encontrou durante a pesquisa?


Ilustração de Robson Marone para o Romance Fetiche


Bosco Chancen: Antes de mais nada, é preciso dizer que fetiches e fantasias sexuais fazem parte da sexualidade humana normal, embora alguns possam se tornar perigosos, principalmente quando relacionados à mentes perturbadas. A hibristofilia é um desses casos, embora seja uma parafilia, que consiste em se ter atração por pessoas que cometeram crimes graves e que, por isso, pode levar pessoas a se relacionar amorosamente com pessoas perigosas e ser um risco de vida para elas. É o que vemos muito em notícias de jornais, de jovens mortas por se relacionar com traficantes e ser mortas por facções rivais ou pelo próprio namorado. 


Wade Wilson


O Maníaco do Parque, que matou 9 mulheres, ainda hoje recebe centenas de pedidos de namoro e casamento de mulheres. O americano Wade Wilson, que explorava mulheres e as espancavam, matou duas, covardemente, recebe inúmeras cartas de admiradoras, inclusive houve um abaixo assinado de mulheres para que ele tivesse a pena reduzida. É muito louco alguém se sentir atraído por uma pessoa que não perderia a primeira chance de explorá-la, espancá-la e matá-la. O tesão está, em parte, na atração pelo perigo, pela possibilidade de morte. 


A atração pela morte também está presente em outro fetiche perigoso, que é o bareback, que consiste em participar de orgias sexuais, sem proteção, contendo entre seus participantes pessoas contaminadas com a Aids. Esse fetiche é uma verdadeira roleta russa.


É claro que existem atividades sexuais ainda mais perigosas e absurdas, ligadas ao sadismo. Uma das mais doentias e perigosas é a que é praticada pelo assassino do meu livro. Mas, para saber, tem que ler o livro.


Bornal: E quanto a dark web?


Bosco Chancen: O livro discorre sobre suas lendas urbanas, como os snuff videos, que são vídeos com cenas de mortes de pessoas encomendadas pelo pagante. Em 2001, um trio de ucranianos que tinham assassinado 21 pessoas e filmado.as mortes, foi pego pela polícia e confessou que os vídeos seriam vendidos na internet. Então, essas lendas não são tão lendas assim. A formação de grupos de criminosos sexuais tornou-se mais fácil com a internet, já que não importa mais a distância entre eles. Hoje, por exemplo, pedófilos do mundo todo podem se reunir por meio de sites da dark web, enquanto indivíduos sádicos que gostam de assistir a pessoas sendo torturadas não precisam sequer acessar a dark web, eles se reúnem através de aplicativos comuns, como o Discord, nos quais adolescentes se juntam em “panelas”, como são chamadas grupos de adolescentes que chantageiam e obrigam meninas a se mutilarem, matar seus animais de estimação e até tirarem a própria vida, tudo assistido ao vivo por eles. Essas atividades sádicas proporcionadas pela internet e os novos fetiches que surgiram com ela também são explorados pelo livro, que, mais uma vez, encontra em Sade uma origem.    


Bornal: Já que o Marquês de Sade foi tão importante para o projeto do romance e está presente no livro, apresenta ele para os que não o conhecem.


Marquês de Sade por Robson Marone,
Ilustração para o Livro Fetiche


Bosco Chancen: O Marquês de Sade, que alguns já ouviram falar por meio do filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, foi um nobre francês que viveu de 1740 a 1814. Teve uma vida cheias de aventuras sexuais, que incluía o prazer de receber e ofertar chicotadas durante os atos sexuais. É famosa a passagem em que ele levou a prostituta Rose Keller para seu castelo, amarrou-a à cama, chicoteou-a e a feriu com pequenos cortes que estancou com pingos de cera quente de uma vela. Durante a primeira de suas prisões, motivada por sua sogra, devido ele ter fugido com sua cunhada, ele escreveu seu primeiro livro, Os 120 Dias de Sodoma, em que conta a história de quatro homens ricos que, junto de suas filhas, vão para um castelo para praticarem 600 formas de perversões sexuais, com 46 pessoas (homens, mulheres, jovens e velhos) levadas à força. Suas histórias mistura sexo e crueldade. Com suas histórias ele queria demonstrar, ao contrário de Rousseau, que afirmava que os homens nascem bons e a sociedade que os corrompe, que na verdade os homens nascem maus, sádicos e a sociedade os torna hipócritas.




Bornal: A trama do livro acontece em um futuro próximo, numa Amazônia devastada, com o calor insuportável e dominada pela prostituição. Isso é uma previsão?


Bosco Chancen: O romance é uma distopia, e toda distopia foca no futuro para criticar o presente e prever as consequências dos problemas atuais. As pesquisas recentes sobre a devastação da floresta amazônica prevê o aumento do calor em Belém, que a tornará uma das cidades mais quentes do mundo nos próximos anos, se não houver nenhum projeto para amenizar isso, como a arborização da cidade. Os moradores já percebem que já está mais quente do que no passado. No livro, o calor é agravado não apenas pelas mudanças climáticas, mas também pela vinda dos gigantescos data centers de IA, que consomem bilhões de litros de água de nossos rios, encarecem o preço da energia elétrica, causam poluição sonora e expelem ainda mais calor na atmosfera. E há um projeto atual dos políticos brasileiros para convidar empresas estrangeiras para instalar data centers em nosso país, não se importando com os prejuízos que trará para a população. 


Bornal: E a referência à dominancia da prostituição, também se baseia na realidade atual?




Bosco Chancen: No livro, a prostituição e o tráfico de drogas são umas das poucas atividades humanas que ainda não foram totalmente dominadas pelas inteligências artificiais, embora, na trama, já exista concorrência com robôs sexuais. Contudo, ao contrário da glamourização atual dada às pessoas que se dedicam a produzir conteúdo sexual via internet, que sempre está associado à prostituição, o livro se volta para o lado ruim da pornografia e da prostituição, quanto à exploração e o perigo de vida, que torna garotas de programas alvos de predadores sexuais. 


Bornal: Por isso a escolha de um cenário cyberpunk para o romance?


Bosco Chancen: Sim, os data centers, as grandes corporações tecnológicas comandando a política mundial e nossas vidas, as inteligências artificiais acabando com empregos e com as atividades que eram exclusivamente humanas, como compor música e produzir artes em geral, não são mais coisas de ficção científica, já vivemos isso, o mundo atual é cada vez mais cyberpunk.


Belém Cyberpunk Feita por IA


Bornal: Mas o romance não foca apenas na visão pessimista do cyberpunk, quase que a metade do livro tem como cenário a estética do solarpunk, que aponta para um futuro otimista, sustentável, de harmonia com a natureza e com a vida humana; comente um pouco sobre essa oposição.


Belém Solarpunk Feita por IA


Bosco Chancen: Tanto o cyberpunk quanto o solarpunk são duas formas de ver o futuro da humanidade, e no livro elas funcionam como uma oposição entre distopia e utopia, que o leitor sente a diferença sem ser algo panfletário. O solarpunk mostra que é possível criar projetos que tornem a humanidade mais harmoniosa com a natureza e principalmente com sua própria natureza interior. Mas se engana quem acha que o solarpunk é um mar de rosas, se fosse assim ele não teria a palavra ”punk” em seu conceito, possui seus desafios e sua rebeldia contra todo um sistema que explora o mundo de forma catastrófica.


Bornal: Alguma informação para fechar a matéria?


Bosco Chancen: Quem tiver interessado, o livro pode ser comprado pelo link da editora, clicando AQUI. E o livro é ilustrado pelo desenhista Robson Marone e estará presente no estande Amazônia Fantástica, na 29ª Feira Pan-Amazônica do livro, de 29 de agosto a 6 de setembro, no Hangar.  

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

VIGARISTAS, APROVEITADORES E PICARETAS DO SOBRENATURAL





VIGARISTAS, APROVEITADORES E PICARETAS DO SOBRENATURAL

Que há muito picareta nesse mundinho chamado “sobrenatural”, não se pode negar. E o principal motivo é que as pessoas que consomem esse tipo de conhecimento, querem acreditar que exista algo que lhes dê sentido, acreditando que se pode alcançar um conhecimento oculto que desvenda o sentido da vida, do mundo e da morte. E nisso a primeira coisa que é destruída é o senso crítico, o poder de questionar, de analisar racionalmente. Assim basta um sujeito surgir relatando alguma experiência fora do comum, para que logo encontre um público sedento por conhecimento do outro mundo; e se ele tiver alguma imagem desfocada do fenômeno e um look que fuja do comum, aí, então, o circo tá armado.




Veja o recente caso do influenciador Myke Leão, que ao filmar que luzes de uma chácara vizinha seria de uma nave alienígena, encontrou milhares de pessoas para acreditar no que afirmava, e que continuaram acreditando mesmo quando as tais luzes foram apagadas, uma a uma, por terceiros para comprovar que se tratava apenas de luzes comum da chácara. E como resultado, em vez de ser desmentido, recebeu milhões de novos inscritos em seu Instagram e grande soma de dinheiro por meio de doações e contrato para fazer propaganda de lojas, reforçando a ideia de que criar conteúdo falso para a internet é um bom negócio para tornar-se famoso e arrecadar muito dinheiro.


Vivemos na era da pós-verdade, em que a verdade não tem importância alguma, é algo secundário. Não interessa que algo seja verdadeiro ou não, o que interessa é que gere fama, engajamento, views, curtidas, milhões de inscritos e, claro, muito dinheiro.




Olha o caso da vidente Vó Bahiana, que previu que durante o jogo de futebol entre Brasil e Escócia, durante a Copa 2026, uma nave alienígena abduziria os jogadores da seleção brasileira. O fato ocorreu? É claro que não. O que foi que aconteceu com a vidente? Deu uma explicação absurda para explicar porque não aconteceu o que previra (sem, claro, negar seus poderes de vidente), porque o que interessava mesmo pra ela já tinha acontecido: divulgação de suas atividades e centenas de milhares de pessoas que ainda acreditam nela.




Já Carol Capel, a rainha das teorias conspiratórias --- a mesma que durante as buscas ao criminoso Lázaro, afirmou que ele teria o poder de se transformar em animal e em árvore, por isso a dificuldade da polícia em capturá-lo ---, com milhões de inscritos em seu canal no youtube, tem um método bem prático e eficiente para lidar com professores de história e biólogos que neguem suas teorias: ela simples processa e derruba os vídeos deles em seus canais no youtube.




E como esquecer de Vicky Vanilla? O sujeito que mudava de crença como quem muda de roupa: começou como drag queen, virou satanista, evangélico e, ultimamente, neonazista.

Vicky Vanilla em Meio aos seus Antigos Devotos

O cara tem grande poder de convencimento --- isso não se pode negar ---,  tanto que, mesmo sendo um camaleão de crenças à vista de todos, ainda conseguia arrancar um bom dinheiro de seus seguidores.




Se nós temos uma rainha das Teorias Conspiratórias, temos também um rei: o pastor Daniel Lopes, figura frequente de podcasts, com suas ideia mirabolantes sobre satanismo, ordem mundial e sociedades secretas que, para ele, não têm nada de secretas, pois ele sabe de tudo, dos mais secretos segredos da CIA e do FBI, aos segredos dos maiores  bilionários do mundo. O cara tem uma memória prodigiosa. Ultimamente, tem trazido à tona e feito elogios ao suposto paranormal brasileiro Thomas Morton, que, na década de 1980, seus truques, feitos com luzes produzidas por flash de câmera fotográfica, foram desmascarados por meio de filmagem gravadas pelo Fantástico, comprovando ser uma fraude. 


Além dos podcast, Daniel Lopes divulga suas ideias e vende seus cursos em seu canal no Youtube.

 

 

Nesse rol de grandes celebridades do sobrenatural brasileiro, não pode faltar o bruxo Malagueta, que vende fórmulas de amarração amorosa, prosperidade econômica, entre outros trabalhos, além de ensinar pequenos feitiços pela internet. Malagueta se diz um bruxo de nascimento, que teria herdado seus poderes de sua família. Ele recentemente chamou a atenção com um vídeo em que aparece alimentando a sereia que ele mantém cativa em sua casa. Isso mesmo: uma sereia. Será que existe alguém que acredita nisso? Ah, com certeza, muitos!. A sereia, como pode ser vista abaixo, possui cabelos azuis, maquiagem colorida e --- pasmem! --- joelhos! Mas o que joelhos estaria fazendo em uma criatura que possui calda de peixe em lugar de pernas humanas?




Mas pode o ser humano adquirir conhecimentos sobre os mistérios da vida, do mundo e da morte? 


Antes de lidar com essa pergunta, torna-se mais urgente saber separar a honestidade da picaretagem. E em todo esse tempo lidando com tais questões, tenho notado que aqueles que têm lidado com experiências que pode ser classificada como “sobrenatural”, não saem por aí anunciando aos quatro cantos, guarda para si ou somente para os seus mais próximos, porque teme virar piada, ser considerado “maluco”, “doido”, “drogado”, chamar atenção, e isso, sem dúvida, é uma grande regra para diferenciar honestidade de picaretagem.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

A LENDA DO BOTO PODE ACOBERTAR ESTUPROS?





A LENDA DO BOTO PODE ACOBERTAR ESTUPROS?


Algumas pessoas têm encarado a lenda do boto com revolta, pois veem nela um meio de encobrir estupros na região amazônica. É o que divulga um texto na internet, que será aqui postado em itálico e comentado cada parágrafo dele.




A lenda do boto é um dos contos mais conhecidos do folclore brasileiro, especialmente na Amazônia…. 


COMENTÁRIO: Antes de ser uma lenda do folclore brasileiro, a lenda do boto é um mito de origem indígena e parte de uma religião brasileira: a encantaria. Ou seja, para os povos originários e ribeirinhos, não se trata de uma simples lenda, mas de algo verdadeiro, presente em seu cotidiano, assim como as crenças cristãs o são para os cristãos.


Segundo a tradição popular, o boto-cor-de-rosa se transforma em um homem elegante durante a noite, encanta mulheres e retorna ao rio antes do amanhecer.


COMENTÁRIO: O simbolismo da transformação de deuses em animais ou de animais em deuses, no momento do contato com uma mulher para conceber um filho está presente em várias mitologias e religiões. Na mitologia grega, Zeus se transforma em um cisne para seduzir Leda, a rainha de Esparta, e lhe gerar filhos. No cristianismo, o Espírito Santo é representado pela imagem de uma pomba ao se aproximar de Maria para conceber nela Jesus Cristo. 


Zeus Transformado em Cisne Seduz Leda


Nada tão diferente da lenda do boto, em que o boto se transformaria em homem para encantar mulheres, gerando nelas os filhos de botos: crianças com dons especiais.


Com Menos Contato Físico, Seguindo a Moral Cristã, 
O Espírito Santo, em Forma de Pomba, Matem
 Contato com Maria para o Nascimento de Jesus Cristo


Além de seu valor cultural, pesquisadores apontam que, em determinados contextos históricos, a expressão “foi o boto” também acabou sendo usada para explicar gestações de meninas muito jovens, evitando que a verdadeira origem dessas situações fosse investigada.


COMENTÁRIO: Na lenda do boto, há uma importante advertência: é aconselhado às moças para que desconfiem de homens sedutores, no caso, que nunca tiram o chapéu da cabeça, pois, por baixo do chapéu, pode estar escondido algo horrível: o orifício por onde o boto respira, que demonstraria que ele não é o que aparenta ser e que esconde sua verdadeira intenção. Essa advertência pode ser aplicada a um abusador qualquer humano, que usa de sua posição familiar ou de amizade ou outra falsa aparência, para esconder sua verdadeira intenção. 


Assim a lenda do boto não seria um incentivador de estupros de mulheres amazônicas, mas, ao contrário, ela é uma forma de prevenir abusos, fazendo com que mulheres sempre desconfie da verdadeira intenção dos homens.  


É importante destacar que essa utilização não faz parte da essência da lenda, nem representa seu significado original.


COMENTÁRIO: Como foi visto, a lenda do boto não incentiva estupro, ao contrário, embora pessoas mal intencionadas possa usá-las para encobrir seus crimes. Mas isso pode acontecer com qualquer outra crença, inclusive com mitos do cristianismo, como já aconteceu, de freiras afirmarem terem ficado grávidas do Espírito Santo, ou de pastores usarem passagens bíblicas para obrigar sexo com adolescentes. 


Trata-se de uma interpretação social observada por historiadores e antropólogos ao analisar determinadas comunidades e períodos


COMENTÁRIO: O uso criminoso da lenda do boto é infinitamente menor do que as interpretações criminosas do cristianismo; no entanto, comentar tais distorções da lenda do boto sem chamar atenção para o fato de que esse tipo de apropriação indevida é comum a qualquer sistema de crença revela uma análise parcial e, em certa medida, até desonesta.    


Conhecer essa dimensão da história não diminui a importância do folclore brasileiro. Pelo contrário: amplia nossa compreensão sobre como narrativas populares podem refletir aspectos da sociedade da sua época e reforça a importância da proteção das crianças e dos adolescentes, da escuta qualificada e da responsabilização de quem comete crimes.

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

ROMANCE PARAENSE CONCEBE UMA AMAZÔNIA CYBERPUNK, DOMINADA PELO TURISMO SEXUAL





ROMANCE PARAENSE CONCEBE UMA AMAZÔNIA CYBERPUNK, DOMINADA PELO TURISMO SEXUAL


Em uma Amazônia futurista, devastada por mineradoras e pelos gigantescos conglomerados de data centers das inteligências artificiais e dominada pelo turismo sexual, praticantes de um perigoso fetiche são encontrados mortos. A investigação leva um policial a mergulhar no submundo internacional do sadomasoquismo e a praticar os mais bizarros fetiches para desvendar os assassinatos.


A trama se passa em Belém do Pará, que, no romance, é chamada de “BelHell” --- palavra criada pela juventude da cidade, sendo uma contração das palavras “Belém” com “hell”, inferno em inglês.




No romance, a cidade de Belém sofre com os efeitos das mudanças climáticas, agravados pela chegada de grandes corporações de data centers, que consomem os rios, exalando ainda mais calor na atmosfera, elevando a temperatura a 50 graus, tornando-a quase inabitável. BelHell também sofre com os efeitos da prostituição, estimulada pela falta de oportunidades de emprego, já ocupadas pelas IAs, transformando a cidade no principal centro mundial do turismo sexual, a ponto de políticos verem nisso mais um motivo para lucrar com um novo imposto: a Taxa de Insalubridade Afetiva. 


O policial contemplava a cidade, com seus gigantescos painéis digitais de propagandas, que exibiam mulheres de micro biquíni e longas botas pretas girando em barras de pole dance, em algum ambiente de entretenimento adulto. Ele observava pela janela do carro, que desviava do lixo acumulado na avenida, tomada por uma fina penumbra de poeira tóxica da extração de minério e pela fuligem das queimadas, que ardiam noite e dia, ofuscando as luzes das ruas, obrigando moradores a usar máscaras de gás e conferindo a BelHell um ar predominantemente noturno, com seu céu sem estrelas e cinza-claro.

Nas esquinas, traficantes e prostitutas seminuas, de corpos magros e doentios, cobertas por suas cooling fan-jacket transparentes, aproveitavam o clima ameno da noite para oferecer seus serviços. Nas travessas, prostíbulos e bares com entretenimento adulto, tolerados pelo governo mediante o pagamento da “Taxa de Insalubridade Afetiva”, que permitia oferecer garotas e rapazes aos clientes em grandes vitrines, como objetos à venda. Sem isso, prostitutas e cafetões eram perseguidos, presos e obrigados a pagar o imposto individualmente, prostituindo-se nas cadeias para o governo.  

Tudo era tolerado, exceto a sonegação de impostos, que bancava o luxo e os gigantescos condomínios fechados dos políticos.

Moreira via os gigantescos condomínios fechados, formados por luxuosos edifícios que contornavam a Baía do Guajará, interligados por passarelas, contendo tudo de que seus moradores precisavam para viver sem a necessidade de descer ao solo e adentrar a vasta área dos desvalidos, que correspondia a 97% da cidade, composta por vielas insalubres e malcheirosas.

Os condomínios formavam um mundo à parte, com seus shoppings centers, suas estufas que produziam alimentos, suas impressoras de carne cultivadas artificialmente em laboratórios e seu poderoso sistema de resfriamento, exaustores e filtros que retinham a fuligem das queimadas.


Nesse cenário distópico, corpos aparecem boiando nos rios da região, sempre com os mesmos ferimentos, sugerindo que foram mortos devido à prática de um perigoso fetiche. Com a ajuda de um escritor que pesquisa novos fetiches surgidos com a internet para um livro sobre o escritor francês Marquês de Sade, cujo nome deu origem à palavra “sadismo”, definida como prazer na dor e sofrimentos alheios, os dois mergulham no submundo do sadomasoquismo e nas sangrentas lendas urbanas da dark web.


“Fetiche – Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web” traz uma novidade às histórias de serial killers: sua trama se passa em um clube de swing.

 

Afinal, na busca por um predador sexual, é necessário, antes de tudo, conhecer os ambientes e as fantasias às quais a mente do criminoso se conecta.


CYBERPUNK



A estética cyberpunk usada no referido romance, não é atoa. Desde a década de 80, em que foi criada, esse subgênero da ficção científica, projeta no futuro questões que dizem respeito ao nosso presente, como forma de crítica e reflexão. 


O cyberpunk denuncia a possibilidade de um futuro em que o ganho em tecnologia não trouxe melhoria de vida para a humanidade. Ao contrário, a fez perder sua humanidade, em que humanos ao se adaptar às novas tecnologias, acabam por perder sua identidade confundindo-se com a máquina. Nada tão distante dos tempos de hoje, em que a inteligência artificial ameaça substituir humanos em muitas áreas de atividade, então consideradas essencialmente humanas. 


SOLARPUNK



Mas o romance não foca apenas no pessimismo, aponta caminhos para a conscientização da preservação ecológica e da cooperação mútua entre as pessoas. Para isso, recorre a outra importante estética da ficção científica atual: o solarpunk, que surgiu como uma forma de evitar um futuro distópico preconizado pelo cyberpunk, apostando em uma visão de mundo em que a evolução tecnológica se harmoniza com a natureza e com a procura por fontes de limpa de energias e não degradante, freando o consumismo e o desperdício dos recursos naturais de nosso planeta.


Ilustrado por Robson Marone


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

MAYKE LEÃO E COMO SE TORNAR FAMOSO EM 2 DIAS





MAYKE LEÃO E COMO SE TORNAR FAMOSO EM 2 DIAS

Genialmente, o paranaense Mayke Leão, filmando luzes de uma chácara, dizendo ser uma espaçonave alienígena, conseguiu enganar milhões de pessoas: em 48 horas, seu Instagram saltou de 60 mil pessoas para 2 milhões e meio de inscritos, ganhou 60 mil reais em doações e fechou contratos com empresas para propagandas.


Dizem que todo dia um malandro e um otário saem de casa… Mas com a internet os malandros já nem precisam sair de casa para dar seus golpes.


Será que ninguém notou que ele fez toda a sua encenação copiando o novo filme, “Dia D”, do diretor Steven Spielberg: sons estranhos ao redor, animais com comportamento atípico, etc.?



E o pior é que vários ufólogos brasileiros famosos levaram seu vídeo a sério. É sempre um novo pretexto para que todos queiram lucrar com a notoriedade de um novo caso.


Mas houve um ponto positivo em tudo isso: o caso mobilizou pessoas fora do segmento ufológico, sem nenhum compromisso com a ufologia e isentos de ideias enviesadas, que utilizaram as novas tecnologias disponíveis a todos, como Google Earth, para desvendar o mistério. É bem possível que, se tivéssemos as mesmas tecnologias na época do ET de Varginha, o caso não tivesse sido definitivamente resolvido.




O efeito Mayke Leão está só começando. Milhares de pessoas irão também forjar vídeos para arrecadar milhões de inscritos. Afinal, em nosso país, não importa como você ganhou sua fama; o que importa é que você se tornou famoso (lembram da mulher da janela do avião?). Logo, ele estará participando de programas de TV, podcasts, entrevistas para jornais e quem sabe não se candidate a deputado?