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terça-feira, 9 de abril de 2024

O BAILE DOS VAMPIROS




O BAILE DOS VAMPIROS

Foi também no salão da condessa que conheci aquele que se tornaria um mestre e amigo, Sir Thomas Fields, esposo de Catherine e médico do rei, que me chamou atenção por se destoar dos demais vampiros por sua aparência.

A condessa, embora fosse dois mil anos mais velha do que ele, tinha aparência jovem, enquanto ele, era um decrépito ancião, opulento, que envelhecia por vontade própria. Dizia que a velhice trazia consigo certas vantagens, que eu só compreendi tempos depois. Quando me viu, logo reconheceu em mim alguém de sua espécie.

“Veja eles”, sussurrou ao meu ouvido. “Podes reconhecer quantos de nós estão aqui nesta sala agora?”, disse, enquanto olhava os convivas a dançar o sinuoso e encantador Minuetto de Boccherini. “Veja aquele rapaz, de cabelos amarrados por um gracioso laço de fita, que corteja graciosamente a bela jovem ao lado, de cujo pescoço ele não tira os olhos; será um vampiro?” A jovem de cabelos loiros, deixava à mostra uma apetitosa veia que se estendia do pescoço até a nuca, de onde suaves fios de cabelos dourados se desprendiam em cachos. “Como se pode saber sem que haja aqui um espelho, milorde?”, disse eu ao homem que olhava o salão com ar de deboche. Ao que retrucou: “Ora, assim como eu o reconheci, meu rapaz”.

Fiquei então a observar os casais, os pequenos grupos de jovens e aqueles que caminhavam ao redor do salão.

“Por julgar que ausência de reflexo em espelhos e por serem seres notívagos, sejam características de vampiro por demais óbvias, deduzo que os reconheça por outros meios. Então, confesso, milorde, que ainda não estou preparado para tanto”. Ele me respondeu: “Sim, é visível sua inexperiência, meu rapaz. Mas, venha cá comigo”.

E se pôs a andar pelo salão com sua bengala, vestido em seu jaquetão azul-celeste com botões de ouro e uma peruca empoada, salpicada de prata.

O casal citado anteriormente também saiu do recinto, caminhava à nossa frente. Ele então falou: “Devido ao prolongado tempo de vida, vampiros acumulam profundos conhecimentos e grande riqueza, por isso estão sempre entre os nobres e poderosos de qualquer país ou reino. Mas isso não é suficiente para identificá-los, já que todos aqui são ricos e poderosos, mas nem todos são vampiros. Contudo, vampiros são vaidosos. E se conheces alguém que seja vaidoso e que evite espelhos, certamente ali há um de nós. Mas há também outra forma de identificá-los. Passe-me aquele cálice de vinho e olhe meus olhos”. Fiz o que ele me pediu. Ele segurou o cálice de vinho contra a luz e logo vi seus olhos avermelhar-se ao olhar a taça, como se a cor do vinho se refletisse em seus olhos.

“Então o vinho faz seus olhos reagirem a ele”, exclamei. Ele me respondeu: “Não o vinho, mas a cor vermelha que desencadeia em nós o estímulo por sangue, revitalizando-nos. Não podes ver, mas também tens os olhos vermelhos”.

Naquele instante compreendi o porquê de eu, até àquele momento, ter sido poupado do contato com tal cor. Certamente para não me estimular ainda mais à busca pelo líquido precioso.

“Por isso, veja quantos estão a usar vermelho”, disse ele olhando os presentes. Reparei que a maioria usava tal cor, seja por meio de uma rosa nos cabelos, usado pelas damas, seja nos jaquetões dos cavalheiros ou nos lenços destes. Então, comentei: “Vejo, no entanto, milorde, que nada tens de vermelho”. Ele riu e disse: “Estás enganado, meu rapaz”. Então suspendeu as rendas de suas mangas expondo mãos descarnadas e amareladas, com os dedos repletos de anéis de rubi.

Finalmente, chegamos ao jardim e voltamos a ver o casal novamente, agora com a dama encostada a uma árvore e o rapaz em pé à sua frente.

“Olhe”, disse ele olhando em direção ao casal.

O rapaz abraçou a delicada dama e a beijou na face. E prestes a beijá-la nos lábios, ela se desvencilhou de sua boca, virou-se sobre seu pescoço e o mordeu com extrema voracidade, revirando os olhos vermelhos de prazer.

(Texto Tirado do Romance “Após a Chuva da Tarde - A Lenda de Camille Monfort: a Vampira da Amazônia”).

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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

INICIAÇÃO (de Marco Buro)



INICIAÇÃO (de Marco Buro)

A minha primeira iniciação, como ser encantado, começou quando minha avó apagou a lamparina antes do dia ser dia e o escuro me fazia medo. Vó Marculina cutucou minha costela que tava deitada na rede e falou, pertinho da minha orelha, dando uma ordem que eu nem pensei em deixar de cumprir.

— Tu já deve ter uns dez anos e antes de pensar em mulher, tu vai iniciar teu ser... Entra nessa vereda do igarapé Grande antes que o dia te perceba, aprende sete sons na floresta... sete barulhos de bichos ou das coisas do mato... e chega aqui antes da lua iluminar o caminho da volta. Presta atenção, também, nos silêncios que vão deixar, separadinhos, os barulhos do teu aprendizado.

Eu conhecia um pouco a picada do Igarapé Grande mas eu não tinha entendido, de todo, os mando da vó Marculina. Muita coisa que ela falava não cabia na minha cabeça, no meu entendimento. Eu só pensava que eu não ia dá conta de fazer nada do que ela tinha me pedido... tudo que ela falava pra mim, era grande demais. Eu, gito demais pra tamanha façanha. Levantei rápido da rede e esqueci de calçar a sandália e vestir uma camisa... Já tava entrando no caminho do Igarapé Grande, por trás da nossa tapera, quando me assustei com a presença da minha vó no escuro…

— Vai! corre Jupiara! corre que os mistérios do mundo não esperam por ninguém. Mas, não esquece de voltar! A floresta não tem começo, meio ou fim! Minha vó me entregou um coió com água fresca e uma cuia cheia de chá quente de Preciosa que eu engoli em três goles rápidos.

Não falei nada pra minha vó Marculina, não abri a boca com medo de chorar e mostrar o menino frágil que eu era. Com muito medo, sumi, mergulhei no escuro do dia... que ainda nem era dia.

 

Trecho do conto "Caboclo falador"

Marco Buro, 24/12/2023

Foto: Marco Buro, 2018 - Ourém PA.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

A SOMBRA DA LUA (de Wyber Gester)



Nas profundezas da Amazônia, onde o verde exuberante esconde segredos milenares, há uma lenda que ecoa entre as árvores como um suspiro noturno. É a história temida pelos ribeirinhos e respeitada por aqueles que entendem a delicada dança entre o mundo natural e o sobrenatural. Esta é a lenda de "A Sombra da Lua".

Conta-se que, em noites de lua cheia, quando os reflexos prateados iluminam os rios serpenteantes, a Sombra da Lua emerge das profundezas da floresta. Uma entidade antiga, meio humana, meio espírito, que vagueia pelas trilhas invisíveis, envolta em um manto de penumbra.

Dizem que a Sombra da Lua é a guardiã dos segredos da floresta, uma entidade que escolhe os incautos como vítimas de suas artimanhas. A lenda remonta a tempos imemoriais, quando os povos indígenas e os colonizadores compartilhavam histórias de encontros aterrorizantes com essa figura misteriosa.

Em uma pequena aldeia ribeirinha, localizada às margens de um rio sinuoso, viveu um pescador chamado Mateus. Curioso e destemido, Mateus desdenhava as advertências dos mais velhos sobre a Sombra da Lua. Uma noite, a lua cheia brilhava intensamente no céu, e Mateus, impelido por uma mistura de bravura e ignorância, decidiu pescar nas águas calmas do rio.

Enquanto lançava sua rede, a Sombra da Lua emergiu das sombras, uma figura etérea e escura que se movia silenciosamente. Seus olhos, mais profundos que a noite, encontraram os de Mateus. Uma sensação gélida percorreu a espinha do pescador, mas ele permaneceu imóvel, hipnotizado pela presença sobrenatural.

A Sombra da Lua sussurrou palavras antigas, um idioma que ressoava como o murmúrio da brisa entre as árvores. Mateus sentiu uma presença invisível envolvê-lo, uma força que sugava sua energia vital. O pescador, debilitado e assustado, caiu de joelhos, implorando por misericórdia.

A Sombra da Lua, satisfeita com sua colheita de medo, desapareceu nas sombras, deixando Mateus sozinho na noite. A partir daquele dia, o pescador nunca mais foi o mesmo. Seus olhos perderam o brilho, e sua alma parecia vagar entre o mundo dos vivos e dos mortos.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

CAMILLE MONFORT: A Vampira da Amazônia



EM 1896, A CIDADE DE BELÉM enriquecia com a venda da borracha amazônica. Os Fazendeiros prosperavam, construindo luxuosas mansões com materiais importados da Europa, e suas esposas e filhas mandavam suas roupas para o velho continente para serem lavadas e tomavam banho com água mineral importada de Londres. 


Theatro da Paz, Fundado em 1878

O Theatro da Paz era o centro da vida cultural da Amazônia, com artistas vindos da Europa. E entre eles, uma chamou especial atenção por sua grande beleza, a encantadora cantora lírica francesa Camille Monfort (1869 - 1896), que causou desejos inconfessáveis em ricos senhores, e ciúmes em suas esposas. 




Camille também provocou indignação por seu comportamento livre das convenções sociais de seu tempo. Ela era vista, seminua, a dançar pelas ruas de Belém, enquanto se refrescava sob a chuva da tarde, despertando também olhares curiosos com seus solitários passeios noturnos, com seus longos vestidos negros, à beira do Rio Guajará em noites de lua cheia. 

 

Boatos maliciosos logo se espalharam sobre ela. Dizia-se que era amante de Francisco Bolonha (1872 - 1938), que a trouxera da Europa, que lhe dava banho de champanhe, que fora atacada pelo vampirismo em Londres, devido à sua palidez e aspecto frágil, e que hipnotizava suas vítimas com sua linda voz, drenando-lhes o sangue. Tal boato ganhou força com relatos de jovens desmaiando nos corredores do teatro, explicado como o efeito da forte emoção de sua música. 


Contava-se, também, que ela possuía o poder de se comunicar com os mortos, materializando seus espíritos em densas brumas que expelia de seu próprio corpo em misteriosos cultos. Eram as primeiras manifestações na Amazônia do que viria a se chamar de Espiritismo. 


Cemitério da Soledade, Construído em 1850

No final de 1896, uma epidemia de cólera atingiu Belém, fazendo de Camille Monfort uma de suas vítimas, sendo sepultada no Cemitério da Soledade. 




Sua sepultura ainda está lá tomada pelo limo, musgo e pelas folhas secas, sob uma enorme mangueira que a faz mergulhar na obscuridade de sua sombra, apenas clareada por alguns raios de sol que se projetam por entre suas folhas verdes. É um mausoléu de linhas neoclássicas com um portão fechado por um velho cadeado enferrujado, de onde pode-se ver um busto feminino em mármore branco sobre a ampla tampa do túmulo abandonado; e, fixado à parede, uma lápide com uma pequena imagem emoldurada de uma mulher vestida de preto, onde pode-se ler: 


Aqui Jaz

Camille Marie Monfort (1869 - 1896)

A Voz que Encantou o Mundo


Mas há rumores que afirmam que seu túmulo está vazio, que sua morte fora apenas uma encenação, e que Camille Monfort ainda vive na Europa, aos 154 anos de vida. 


Quando você visitar o Cemitério da Soledade, em Belém, não esqueça de visitar seu túmulo, e lhe depositar uma rosa vermelha; e não se assuste se, no dia seguinte, a rosa tenha se tornado sangue. 


(* Pequeno Resumo de Divulgação do Romance Após a Chuva da Tarde).





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terça-feira, 18 de outubro de 2022

A TRÁGICA HISTÓRIA DO PINTO BENJAMIN


 

A TRÁGICA HISTÓRIA DO PINTO BENJAMIN


Benjamin era um pinto como tantos outros, pequeno e desengonçado, que vivia saltitante pelo terreiro. Apenas uma coisa o diferenciava de outros pintos, e que o deixava triste: Benjamin havia nascido de chocadeira. E enquanto outros pintos compartilhavam a companhia de suas mães, Benjamin era solitário e, por isso mesmo, triste. Ficava a olhar os seus companheiros de galinheiro e as mães destes ciscando todos reunidos. Benjamin, então, tentava lembrar-se da sua, se concentrava ao máximo, porém tudo que lembrava era de um lugar quadrado, claro e quente.


Pinto Benjamin Experimentando suas Asas


Os únicos carinhos que recebia era quando dona Josefa se aproximava e jogava-lhe ração e milho. Benjamin aguardava ansioso, todos os dias, por este momento; gostava de ver aquela doce mulher de bochechas rosadas, fazendo trejeitos e gracejos com a boca chamando a todos para a comida. Benjamin adorava tudo aquilo. E lá ficava ele comendo, saboreando o que a doce velhinha lhe havia trazido.


Benjamin Fantasiado


O tempo passou e Benjamin se tornou um belo frango. Agora Benjamin tinha bastante companhia, era disputado por várias franguinhas que passavam lhe provocando, balançando seus rabichos, mas nenhuma companhia se comparava ainda aquela doce senhora que todos os dias continuava a trazer-lhe comida. Benjamin lhe aguardava batendo as asas de felicidade e alegria, e quando aquela velha mão se aproximava dele, ele a acariciava com suas penas, com sua bela plumagem.


Um belo dia, a doce senhora se aproximou para lhe dar comida, com o mesmo assobiar de todos os dias. Benjamin se aproximou daquela velha mão pronto para lhe devolver o carinho, quando a mão lhe atracou o pescoço e lhe torceu por inteiro. Era um dia de natal!




MORAL DA HISTÓRIA: A mesma mão que lhe afaga o pescoço também pode torcê-lo!


sábado, 2 de abril de 2022

RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS



RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS

NA CASA DE MEUS AVÓS havia uma sala com fotos antigas de pessoas há muito tempo mortas --- eram tios, primos, tios-avós, bisavós e tataravós. A casa era muito antiga, tanto que dizia-se que era do tempo que quando algum parente morria com alguma deformidade que pudesse envergonhar a família, era emparedado nas próprias paredes da velha casa, como forma de se evitar a exposição de seu cadáver. E quando eu dormia em meio a tais quadros, era assustador ver todos aqueles rostos de gente morta a olhar-me; tinha a sensação de estar sendo observado e mãos me tocando...



E em meio a todos aquelas fotos antigas, uma me chamava mais atenção: a foto de uma criança, a pequena Ofélia, morta em 1903, que fora emparedada após a morte. E o que mais me assustava, além da sua triste história, era o boato de que fora emparedada ainda viva. Sua segunda foto exposta como última na fileira de quadros, com seu rosto desfigurado pela horrível doença que a cometeu, me fazia ter pesadelos à noite toda. (Veja sua foto no fim da fileira de fotos).



















quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A LENDA DA BELA DA JANELA DO PALACETE BIBI COSTA


NOS ANOS DE 1920, em Belém, quem passasse pela travessa Joaquim Nabuco com Avenida São Gerônimo (hoje Av. José Malcher), e olhasse para a janela de uma das torres do Palacete Bibi Costa, veria uma bela jovem de olhar tristonho a pentear seus longos cabelos loiros, a observar a rua. Era Maria da Glória, cujo pai a mantinha presa desde que nascera para que não pudesse conhecer outro rapaz além daquele que ele havia escolhido para ser seu noivo.


E por ser vista sempre na janela, passou a ser chamada de “A Bela da Janela”, gerando uma velha lenda, que ainda é lembrada pelos mais velhos moradores de Belém.


Reza a lenda que Maria da Glória não era a única filha do Coronel Júlio de Andrade. Ela havia nascido grudada a uma irmã gêmea, Maria Isabel, unidas pelo peito, com um único coração que era dividido por elas.



Dizia-se que quando uma sentia fome, a outra se punha a chorar; se em uma fosse feito cócegas, a outra ria como se tivesse sido nela. Mas Maria Isabel logo morreu, devido a complicações da má formação. Foi quando puderam ser finalmente separadas por cirurgia.


A menina cresceu com saúde, mas, diziam, que estranhos fenômenos passaram a acompanhá-la por toda a vida.



Moradores relatavam que, ao caminhar na Travessa Joaquim Nabuco com Nazaré, à noite, a viam passear, branca feito tapioca, em um longo vestido branco esvoaçante, sem tocar o chão com os pés; e quando passavam em frente ao palacete, lá estava ela, na janela, como sempre, penteando seus longos cabelos.


Dizia-se que o vulto branco era a irmã morta que ao morrer havia se separado apenas no corpo, pois que na alma, elas continuavam grudadas como no tempo em que dividiam o mesmo coração; e que a irmã morta a visitava todas as noites, e fazia pela outra o que esta não podia fazer por si própria por estar presa pelo pai ao quarto, como dividir com a irmã a simples sensação de passear na rua deserta à noite.



Reza a lenda que Maria da Glória se enamorou de um jovem rapaz que um dia ao passar a viu na janela, e por meio de amorosos bilhetes jogados pela janela, com a ajuda dele e da irmã morta, conseguiu se livrar do cativeiro do pai, sendo substituída pela visagem da irmã durante seu casamento, enquanto Maria da Glória fugia com o rapaz para Portugal.


Dizem, ainda, que no casamento tudo ocorreu bem, exceto o estranho frio das mãos e a palidez excessiva da noiva.


* Ilustrações Meramente Ilustrativas, Exceto do Palacete Bibi Costa.


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domingo, 2 de janeiro de 2022

A VISAGEM DO CEMITÉRIO DOS INDIGENTES, DO GUAMÁ


A VISAGEM DO CEMITÉRIO DOS INDIGENTES, DO GUAMÁ


Guamá, 1934, Hospício dos Lázaros do Tucunduba


Duas enfermeiras saíam tarde da noite do Hospício dos Lázaros do Tucunduba, devido a preparação da maniva para a maniçoba que já estava a oito dias sendo cozida em cinco latões de manteiga ao fogo da lenha, que seria servida aos internos no almoço do Círio daquele ano. 


Pelo caminho, as duas conversavam sobre as tarefas do dia e dos seus planos para o Círio, quando passaram ao lado de pequenos amontoados de terra, com cruzes de madeira envelhecidas e carcomidas em cima, que eram clareadas pela luz do candeeiro que levavam consigo. Era o cemitério dos indigentes do Hospício dos Lázaros do Tucunduba, que ficava no caminho e que tinham de passar todo dia para ir para suas casas. O cemitério possuía apenas uma estreita faixa de mato rasteiro que o separava do caminho tomado por elas.

 

— Não lhe dá medo de cruzar esse caminho à noite, Dona Felícia? 

— Nem um pouco, piquena. 

— Mas nem um pouquinho mesmo?! Pois eu morro de medo. 

— Sabe que eu até gosto de ter eles de companhia durante a caminhada! 

— Cruz credo, Dona Felícia! 

— E lembro de cada um deles e do dia dos enterros, também. 

— Ave-maria, mulher, isso não te assusta mesmo? 

— Não. Passo aqui e ainda aceno pra eles. 

— Aff, Maria! 

— De quê temer se tão mortos, ora! É dos vivos que devemos ter medo, piquena. E desses, eu tenho medo, sim! 

— É, a senhora não deixa de ter mesmo razão. E deviam era pôr um muro pra proteger o cemitério dos tatus e porcos do mato que cavucam a terra para comerem as carniças dos mortos. Não é porque eram pobres que não se vai ter um pouco de respeito por eles. 

— Nosso destino é mesmo morrer e virar comida de tatu, piquena, não tem jeito. Ontem mesmo vi dois buracos grandes em uma cova, não era de tatu, mas de porco do mato, deviam ser dois porcões, e o que sobrou da carcaça do defunto estava espalhada por cima da cova. 

— Mas para as autoridades um muro de tijolo é luxo para quem morou a vida toda em casa de barro! 

— É, piquena. Não tiveram cuidados com eles quando estavam vivos, vão ter agora que estão mortos? Ora! 

— Isso é verdade. O que me deixa sem esperança alguma na vida, Dona Felícia. 


Enquanto contornavam o cemitério, as duas enfermeiras ficaram em silêncio, absorvidas pelos pensamentos que nos ocorrem quando encaramos nosso destino inevitável. O silêncio durou até que Dejanira passou a ouvir um estranho ruído de roer de dentes, e não pôde deixar de pensar nos tatus. 


— Foi só falar neles que os sacripantas já começaram a cavucar a terra. Devem estar mastigando e repuxando as carcaças dos mortos para fora da terra, agora mesmo. O que a senhora acha, Dona Felícia? Hem, Dona Felícia? Dona Felícia?! 


Dejanira parou e viu que a velha enfermeira havia ficado para trás. Ao virar o candeeiro para trás de si, viu Dona Felícia acocorada no meio do caminho. 


— Vixe! E isso é hora de mijar, mulher! Me avise pelo menos e não me deixe falando sozinha! 


Dejanira caminhou, então, ao encontro da outra. 


— Cuidado com suas partes íntimas ao se levantar, mulher; com essa lua cheia clareando tudo, se tiver homem por perto, vai ver tudo!, e riu. 


Ao chegar mais perto da velha amiga, notou que o estranho barulho de dentes vinha dela, que parecia roer os próprios dentes agachada, passando as mãos por entre os cabelos deixando-os todo desgrenhado. 


— Dona Felícia? Dona Felícia? O que está acontecendo com a senhora? A senhora está bem?” 


Ao tocá-la no ombro com a mão, a velha suspendeu o rosto em direção à lua e se pôs a grunhir alto como um porco com os olhos revirados, convulsionando o corpo todo, em uma grande tremedeira. 


— Dona Felícia! NÃO!!!” 


Dejanira correu assustada daquilo deixando cair o candeeiro pelo caminho enquanto ouvia o grunhir e o bater de patas da coisa que passou a segui-la. Correu e correu, até que saiu do caminho de terra e entrou no mato, enquanto o imenso porco preto parava à beira da estrada sob a lua cheia que brilhava por sobre as árvores. De repente, um novo grunhido se fez ouvir vindo do mato, e um segundo porco preto apareceu no caminho de terra, arfante e faminto, se encontrando com o primeiro, e os dois passaram a correr juntos, um ao lado do outro, rumo ao cemitério dos indigentes.


* Tirado e Adaptado do Romance Após a Chuva da Tarde.