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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CLIC (de Luis Fernando Veríssimo)



Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma idéia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.
— Aloa.
— Quem fala?
— Com quem quer falar?
— O dono desse telefone.
— Ele não pode atender.
— Quer chamá-lo, por favor?
— Ele esta no banheiro. Eu posso anotar o recado?
— Bate na porta e chama esse vagabundo agora.
Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.
— Aloa.
— Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes. Eu preciso falar com ele, viu? É urgente.
— Ele já vai sair do banheiro.
— Você é a...
— Uma amiga.
— Como é seu nome?
— Quem quer saber?
O cidadão inventou um nome.
— Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.
— Primo do Amleto?
Amleto. O safado já tinha um nome.
— É. De Quaraí.
— Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.
— Pois é.
— Carol.
— Hein?
— Meu nome. É Carol.
— Ah. Vocês são...
— Não, não. Nos conhecemos há pouco.
— Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto. De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço.
— Eu também não sei o endereço dele.
— Mas vocês...
— Nós estamos num motel. Este telefone é celular.
— Ah.
— Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.
— Ele disse que comprou?
— Por que?
O cidadão não se conteve.
— Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim!
— Não acredito.
— Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.
— O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.
E Carol desligou de novo.
O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.
— Aloa.
— Carol, é o Tobias.
— Quem?
— O Taborda. Por favor, chame o Amleto.
— Ele continua no banheiro.
— Em que motel vocês estão?
— Por que?
— Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...
— Recém nos conhecemos.
— Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade. O Amleto pode Ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?
— Esta é a primeira vez.
— Vocês nunca tinham se visto antes?
— Já, já. Mas, assim, só conversa.
— E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele. Não sabia que ele é de Quaraí.
— Pensei que fosse goiano.
— Ai esta, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...
— Não, não. Eu é que pensei.
— Carol, ele ainda está no banheiro?
— Está.
— Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia. Esse negocio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol!
— Mas...
— Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade. Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol. Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.
— Ele esta saindo do banheiro.
— Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu ligo para saber onde você está.
Clic.
Dez minutos depois, o cidadão liga de novo.
— Aloa.
— Carol, onde você está?
— O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.
— Carol, eu...
— Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você. Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira. Jurou que não vai fazer mais isso.
O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:
— Como ele vai devolver o telefone?
— Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.
— Carol, não...
Mas Carol já tinha desligado.
O cidadão precisou de mais cinco minutos para se recompor. Depois ligou outra vez.
— Aloa.
Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.
— Carol, é o Torquatro.
— Quem?
— Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime. Esse telefone que você tem na mão, esta me entendendo? Esse telefone que agora tem suas impressões digitais. É meu! Esse salafrário roubou meu celular!
— Mas ele disse que vai devolver na...
— Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele. Nem conheço esse cafajeste. Ele esta mentindo para você, Carol.
— Então você também mentiu!
— Carol...
Clic.
Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão, onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.
— Amleto?
— Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.
— Olha aqui, seu...
— Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel, o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo. Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu. Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era?
— Só quero meu telefone.
— Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular. Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa. E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel. Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?
— Quero meu celular de volta!
— Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios, impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...
— Ladrão
— Executivo
— Devolve meu...
Clic.
Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo. Telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente.
— Ahn?
— Quem fala?
— É o Trola.
— Como você conseguiu esse telefone?
— Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.
— Onde você está?
— Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é. Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.
— Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone. Me diga onde você está que eu vou buscar.
— Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher. Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo...
— Onde você está? Eu quero saber onde!
— Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha. Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA (de Dylan Thomas)



Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva
                                               [ lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha
                                               [ esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela
                                               [ alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde
                                               [ baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea
                                               [ altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua
                                               [ travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os
                                              [ transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se
                                              [ alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti,meu pai, te imploro agora, lá na cúpula
                                              [ obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima
                                              [ bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

FELICIDADE (de Katherine Mansfield)



Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.

O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?

Não há meio de expressar isso sem parecer "bêbado e desvairado?" Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?

"Não, isso de violino não é exatamente o que eu quero dizer" — ela pensou, correndo escadas acima e apalpando a bolsa, em busca da chave — que ela esquecera, como sempre — e sacudindo a caixa do correio. "Não é o que eu quero dizer, pois — "obrigada, Mary" — ela entrou no vestíbulo. "A babá voltou?".

"Sim, senhora".

"E as frutas?".

"Sim, senhora. Veio tudo".

"Traga as frutas para a sala de jantar. Vou dar um arranjo nelas antes de subir".

Estava escuro e muito frio na sala de jantar. Mesmo assim, Bertha tirou o casaco; não podia tolerar por mais tempo o aperto da roupa, e o ar frio penetrou em seus braços.

Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda mais; contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está à espera de que alguma coisa... divina aconteça. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.

Mary trouxe as frutas em uma bandeja, e também uma tigela de louça e uma travessa azul, muito linda, com um brilho estranho, como se estivesse mergulhada em leite.

"Quer que eu acenda a luz, senhora?".

"Não, obrigada. Ainda posso ver bastante bem".

Havia tangerinas, laranjas e maçãs, misturadas com o vermelho dos morangos. Algumas pêras amarelas, lisas como seda, uvas brancas, cobertas por uma florescência prateada, e um grande cacho de uvas roxas. Estas últimas, ela havia comprado para combinar com o tapete novo da sala de jantar. Sim, aquilo parecia bastante afetado e absurdo, mas era realmente a razão pela qual ela as tinha comprado. Na loja, havia pensado: "Preciso de algumas frutas cor de púrpura para aproximar o tapete da mesa." E na ocasião isto pareceu fazer muito sentido.

Terminado o arranjo, duas pirâmides de forma arredondada, ela se colocou a certa distância, para ver o efeito — e estava realmente muito curioso, pois a mesa escura parecia dissolver-se na luz fosca e tanto a tigela de louça como a travessa azul pareciam flutuar no ar. Isso, é claro, naquele estado de espírito que ela se encontrava, era tão incrivelmente belo... Ela começou a rir.

"Não, não. Estou ficando histérica". Pegou sua bolsa e seu casaco e subiu correndo para o quarto da filha.

A babá estava sentada ao lado de uma mesa baixa dando o jantar da pequena B., depois do banho. A criança vestia uma camisola de flanela branca e um casaquinho azul, de lã. Os cabelos finos e escuros estavam escovados formando um topetinho engraçado. Ela olhou para cima e começou a pular quando viu a mãe.

"Agora, meu benzinho, coma direito, como uma boa menina", disse a babá, torcendo a boca num jeito bem conhecido dela, como a dizer que ela havia chegado em hora inoportuna, mais uma vez.

"Ela tem estado bem, Nanny?".

"Ela se comportou muito bem durante toda a tarde" murmurou Nanny. "Fomos ao parque; eu me sentei em uma cadeira e tirei-a do carrinho. Um cachorro enorme veio até nós, e pôs a cabeça sobre meus joelhos. Ela agarrou a orelha dele, e puxou. Ah! a senhora devia ter visto."

Bertha teve vontade de perguntar se não seria perigoso deixar que a criança puxasse a orelha de um cão desconhecido, mas não se atreveu. Permaneceu observando-as, os braços largados ao longo do corpo, qual uma menina pobre frente à menina rica com sua boneca.

O bebê olhou para ela outra vez; fixou os olhos nela, sorriu com tanto encanto, que ela não se conteve.

"Ah! Nanny, deixe que eu termine de dar o jantar dela, enquanto você arruma o banheiro".

"Bem, madame. Ela não devia mudar de mãos enquanto come" — disse Nanny, ainda murmurando. "Isso a perturba e muito. É muito provável que ela vá ficar agitada".

Que absurdo! Para que ter uma criança, se ela deve ser guardada — não em uma caixa, como um violino raro, mas nos braços de uma outra mulher?

"Não, é assim que eu quero!".

Muito ofendida, Nanny entregou a criança.

"Bem, não a excite depois da comida. A senhora sabe que a excita, madame. E depois ela me dá um trabalho!".

Graças a Deus! Nanny saiu do quarto, levando as toalhas de banho.
"Agora eu a peguei para mim, minha coisinha preciosa" — disse Bertha, enquanto o bebê se inclinava para ela.

A criança comeu fazendo festa, abrindo a boca para receber a colher e depois agitando as mãos. Às vezes prendia a colher na boca e outras, logo que Bertha enchia a colher, lançava a comida aos quatro ventos.

Terminada a refeição, Bertha virou-se para a lareira.

"Você é linda, muito linda!" disse, beijando seu bebê. "Sou louca por você".

E, realmente, ela a amava tanto! — Seu pescoço, quando ela o inclinava para a frente, os artelhos delicados, quase transparentes à luz do fogo... Todo aquele sentimento de felicidade voltou e, ainda uma vez, Bertha não sabia como expressar essa sensação, nem o que fazer com ela.

"Telefone para a senhora" — disse Nanny, voltando em triunfo e pegando a sua criança.

Bertha desceu correndo. Era Harry.

"Ah, é você, Ber? Olhe, vou chegar tarde. Tomarei um táxi e irei tão depressa quanto puder; mas sirva o jantar dez minutos mais tarde, sim? Tudo bem?".

"Sim, perfeitamente. Ah, Harry!".

"Sim?".

O que tinha ela para dizer? Nada. Queria apenas prolongar aquele contato. Não podia só gritar absurdamente: "O dia hoje foi tão maravilhoso!"

"O que é?" — tornou a voz de longe.

"Nada. Entendu" — disse Bertha, colocando o fone no lugar e pensando o quanto a civilização é idiota.
Eles tinham convidados para o jantar: os Norman Knights, um casal muito distinto — ele estava abrindo um teatro e ela tinha muito entusiasmo por decoração de interiores; um jovem, Eddie Warren, que acabava de publicar um pequeno livro de poemas é a quem todo mundo vinha convidando para jantar, e um "achado" de Bertha, uma moça chamada Pearl Fulton. O que ela fazia, Bertha ignorava. Haviam-se encontrado no clube e Bertha se apaixonara por ela; isso sempre acontecia quando ela encontrava mulheres bonitas que revelassem algo incomum em sua personalidade.

O que a intrigava era que, embora tivessem estado juntas freqüentemente e conversado muito, Bertha não podia ainda ter um conceito formado sobre Pearl Fulton. Até certo ponto, ela era de uma franqueza rara e maravilhosa, mas além desse ponto ela não passava.

E haveria alguma coisa além disso? Harry dizia que não. Julgava-a um tanto maçante e "fria como todas as louras, com um toque, talvez, de anemia cerebral". Mas Bertha não concordava com isso; pelo menos, ainda não.

"Não, sua maneira de sentar-se, com a cabeça levemente inclinada para o lado, sorridente, esconde alguma coisa, Harry, e eu hei de descobrir que coisa é essa".

"O mais provável é que seja estômago pesado", disse Harry.

Ele se empenhava em pegar Bertha pelo pé com respostas daquele teor... "fígado gelado, minha querida", ou "pura flatulência", ou "doença dos rins"... e assim por diante. Por alguma estranha razão, Bertha gostava disso e quase o admirava por falar desse modo.

Ela entrou na sala de estar e acendeu a lareira; depois pegou as almofadas que Mary havia arrumado com todo cuidado e atirou-as de volta aos sofás e cadeiras. Foi o bastante para dar vida à sala. No momento de atirar a última almofada, ela se surpreendeu apertando-a contra si apaixonadamente. Mas isso não apagou o fogo em seu peito. Ah, pelo contrário!

As janelas da sala abriam-se para um balcão, e davam para um jardim. No fundo, perto do muro, havia uma esguia pereira, toda florida, esplêndida, que permanecia imóvel contra o céu verde-jade. Bertha não podia deixar de sentir, mesmo a essa distância, que não havia um só botão por abrir, nem uma pétala murcha. Embaixo, nos canteiros do jardim, as tulipas vermelhas e amarelas, carregadas de flores, pareciam inclinar-se na penumbra: Um gato cinzento, arrastando-se de barriga, esgueirava-se através do gramado, e um gato preto, como se fora sua sombra, ia logo atrás. Ela tremeu, curiosamente, ao vê-los tão atentos e rápidos.

"Gato é um bicho horrível!" — ela pensou, e, saindo da janela, começou a andar de um lado para outro. Como era forte o perfume dos junquilhos dentro da sala quente! Forte demais? Não, não demais. E então, como que vencida, ela atirou-se sobre um sofá e cobriu os olhos com as mãos.

"Estou muito feliz, muito feliz" — murmurou.

E parecia-lhe ver por entre as pálpebras a linda pereira, com aquela abundância de flores, como símbolo de sua própria vida.

Realmente — realmente — ela tinha tudo. Era jovem, Harry e ela se amavam como nunca, davam-se muito bem e eram realmente bons companheiros. Ela tinha um adorável bebê. Não precisavam se preocupar com dinheiro. Tinham esta casa e este jardim, que eram absolutamente satisfatórios. E amigos modernos, interessantes; amigos escritores, pintores e poetas ou pessoas voltadas para as questões sociais, justo a espécie de amigos que eles queriam. Além disso, havia os livros, havia a música, e ela encontrara aquela costureirinha maravilhosa, sua cozinheira nova fazia omeletes deliciosos, e eles iam fazer uma viagem ao exterior, no verão.

"Estou ficando maluca! Maluca!" Ela sentou-se, mas sentiu-se inteiramente atordoada, inteiramente bêbada. Devia ser a primavera.

Sim, era a primavera. Agora, ela sentia-se tão cansada que mal poderia subir a escada, para vestir-se.
Um vestido branco, um fio de contas de jade, sapatos verdes e meias. Era coincidência. Ela havia decidido esse arranjo horas antes de ter estado à janela da sala.

As dobras de sua saia produziram um suave farfalhar ao deslizar rente ao chão, quando ela foi à porta de entrada e beijou a senhora Norman Knight, que estava tirando o mais estranho casaco cor de laranja, com uma fileira de macacos pretos em volta da barra, subindo na parte da frente.

"Por quê? Por quê?! Por que a classe média é tão tola, tão completamente desprovida de senso de humor?! É por pura sorte que estou aqui, minha querida, e Norman é meu anjo protetor. Meus queridos macacos chocaram tanto as pessoas do trem que elas simplesmente se puseram a me devorar com os olhos. Não riram, não estavam achando graça, o que eu teria gostado. Apenas olharam-me fixamente e me fuzilaram com os olhos."

"Mas o melhor de tudo" — disse Norman, apertando contra o olho o monóculo de aro de tartaruga — "você não se importa que eu conte, Face, se importa?" (Na intimidade eles se chamavam Face e Mug.) "O melhor de tudo foi quando ela, furiosa, virou-se para a mulher que estava ao seu lado e disse: "A senhora nunca viu um macaco antes?".

"Ah, sim" — a senhora Norman Knight juntou—se aos que riam. "Não foi mesmo genial?".

E, mais engraçado ainda era que agora, sem o agasalho, ela parecia um macaco muito inteligente, cujo vestido de seda amarela fora feito com cascas de bananas. E os brincos de âmbar pareciam duas nozes bamboleantes.

"It is a sad, sad fall!"² — disse Mug, parando em frente ao carrinho do bebê. "When the perambulator comes into the hall" — e ele deixou de lado o resto da citação.

A campainha tocou. Era o esbelto e pálido Eddie Warren, em estado de completa desgraça, como sempre.

"É esta casa mesmo, não é?" — perguntou ele.

"Bem, acho que sim. Pelo menos assim o espero" — disse Bertha, com animação.

"Acabo de ter uma experiência muito desagradável com um motorista de táxi. Ele era terrivelmente sinistro. Não pude conseguir que ele parasse. Quanto mais eu lhe chamava a atenção e lhe pedia que parasse, mais depressa ele ia. E à luz do luar aquela figura bizarra, com a cabeça achatada, debruçando-se sobre o minúsculo volante...".

Ele estremeceu, tirando um imenso cachecol de seda branca. Bertha notou que ele usava meias também brancas, muito vistosas.

"Mas, que coisa horrível!" disse ela em voz muito alta.

"Sim, foi mesmo" — disse Eddie, seguindo-a até a sala de estar. — "Eu me vi decolando para a eternidade num táxi alado".

Ele conhecia os Norman Knight. Na verdade ia escrever uma peça para Norman Knight, quando o esquema do teatro começasse a funcionar.

"Bem, Warren, como está a peça?" — perguntou Norman Knight, deixando cair o monóculo e dando, assim, oportunidade ao olho de vir à tona, antes de ser ocultado outra vez.

A Sra. Knight interveio: "Mas que meias lindas, Sr. Warren!"

"Que bom que a senhora tenha gostado delas", disse ele, olhando para os pés. "Parece que elas ficaram muito mais brancas desde que a lua apareceu". Virou para Bertha o rosto magro e triste. "Há uma lua, a senhora sabe?".

Ela teve vontade de gritar: "É claro que sei! Muitas vezes, freqüentemente!".

Ele era, na verdade, uma pessoa muito atraente. Mas atraentes eram também Face, agachada em frente ao fogo, no seu vestido de cascas de bananas, e Mug, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia as cinzas: "Por que o noivo está demorando tanto?".

"Ei-lo que chega!".

A porta da frente abriu e fechou com estrondo. Harry gritou: "Alô, pessoal. Volto em cinco minutos!" Subiu correndo a escada. Bertha não pôde deixar de sorrir; ela sabia como ele gostava de agir sempre sob alta pressão. Afinal, que importância teriam cinco minutos a mais? Mas ele sustentava para si mesmo que cinco minutos tinham, sim, muita importância. E fazia questão, depois, de chegar e ficar na sala numa postura serena, tranqüila.

Harry tinha um tal gosto pela vida... Ah, como ela apreciava isso nele! E sua paixão pela luta, por encontrar em cada coisa que se lhe opunha um outro teste para seu poder e sua coragem, também isso ela compreendia. Mesmo quando, vez por outra, ele pudesse parecer talvez um tanto ridículo, aos olhos dos que não o conheciam bem... Pois às vezes ele se atirava em batalhas que não existiam... Ela conversava e ria, realmente esquecida, até a chegada dele à sala (tal como ela imaginara), de que Pearl Fulton não viera ainda.

"Será que a Pearl esqueceu?".

"Espero que sim", disse Harry. "Ela tem telefone?" "Está chegando um táxi". E Bertha sorriu, com aquele divertido ar de posse que sempre assumia quando suas descobertas femininas eram novas e misteriosas. "Ela vive em táxis".

"Assim vai engordar" — disse Harry com frieza, tocando a campainha para que o jantar fosse servido. "Um perigo assustador para mulheres louras".

"Harry, não diga isso" — advertiu Bertha, rindo.

Veio outro breve momento, enquanto esperavam rindo e conversando, só um pouquinho à vontade demais, um pouquinho descontraídos demais. Aí chegou Pearl Fulton, toda prateada, com uma tira de prata prendendo seus cabelos loiros, sorrindo, com a cabeça pendendo um pouco para o lado.

"Estou atrasada?".

"Não, absolutamente" — disse Bertha, pegando-a pelo braço. "Venha comigo". E entraram na sala de jantar.

O que havia naquele braço frio, que podia avivar — começar a atiçar — atiçar — o fogo da felicidade com o qual Bertha não sabia o que fazer?

Pearl Fulton não olhava para ela; quase nunca olhava as pessoas diretamente. Suas pálpebras pesadas estavam sempre semicerradas, e em seus lábios um estranho sorriso ia e vinha, como se ela, em vez de ver, preferisse ouvir. Mas Bertha soube, de repente, como se o mais longo, o mais íntimo olhar tivesse sido trocado entre elas, como se tivessem dito uma à outra "Você também?", que Pearl, ao mexer a bela sopa vermelha em seu prato cinza, sentia exatamente o que ela estava sentindo.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, suas colheres subindo e descendo, tocando os lábios com os guardanapos, fazendo bolotas com miolo de pão, brincando com garfos e copos, conversavam.

"Eu a encontrei no show do Alpha — uma figurinha muito esquisita. Ela havia não apenas cortado rente os cabelos, mas também parecia ter tirado um bom pedaço dos braços e das pernas, do pescoço e do pobre narizinho também".

"Ela não é muito liée a Michael Ost?".

"O homem que escreveu Love in False Teeth?³".

"Ele quer escrever uma peça para mim. Um ato. Um homem. Ele decide suicidar-se; discute todas as razões pró e contra. E exatamente quando chega a uma conclusão sobre o que fazer... cai o pano. Uma idéia nada má".

"Como ele vai chamá-la? Dor de estômago?".

"Acho que encontrei a mesma idéia numa revistinha francesa inteiramente desconhecida na Inglaterra".
Não, eles não compartilhavam. Mas eram queridos — queridos — e ela gostava muito de tê-los ali, em sua mesa, oferecendo-lhes comida e vinho deliciosos. Na verdade, ela desejava dizer-lhes o quanto eles eram encantadores e que grupo decorativo formavam; como eles pareciam avivar uns aos outros e como eles lhe faziam lembrar uma peça de Tchekov!

Harry estava gostando do jantar. Era próprio dele — bem, não sua natureza, exatamente, e não, certamente, uma pose — bem, um pouco de cada coisa — falar sobre comida e alardear sua paixão "impudica por carne branca de lagosta e o verde dos sorvetes de pistache, verdes e frios como pálpebras de bailarinas egípcias".

Quando ele levantou os olhos para ela e disse: "Bertha, este soufflé está maravilhoso!", ela quase poderia ter chorado, com prazer infantil.

Ah! O que fazia com que ela se sentisse tão terna com todo mundo, hoje? Tudo era bom, tudo estava certo. Tudo o que acontecia parecia encher de novo até a borda sua taça de felicidade.

E havia ainda, no fundo de sua mente, a pereira. Ela estaria prateada, agora, sob a luz da lua do pobre Eddie, prateada como Pearl Fulton, que lá estava, sentada, fazendo girar uma tangerina com seus dedos finos e tão pálidos que um raio de luz parecia sair deles.

O que, na verdade, não podia compreender, o que era miraculoso, era como percebera o estado de espírito de Pearl Fulton de modo tão rápido e exato. Porque ela não tinha a menor dúvida de estar certa e, no entanto, em que podia se basear? Menos que nada.

"Acho que isso acontece muito, muito raramente entre mulheres. Nunca entre homens", pensou Bertha. "Mas enquanto eu estiver fazendo o café, talvez ela me "dê um sinal", da sala de jantar."

O que queria dizer com isto ela não sabia, e o que viria a acontecer ela não podia imaginar.

Enquanto pensava, ela se via conversando e rindo. A vontade de rir fazia-a conversar.

"Eu preciso rir ou morrer".

Mas, ao notar o hábito engraçado que tinha Face de empurrar alguma coisa pelo decote abaixo — como se ela tivesse ali uma reserva de nozes ou algo assim — teve de fechar as mãos com tanta força a ponto de enterrar as unhas nas palmas das mãos, para não rir demais.

Tinham acabado, por fim. "Venham ver minha máquina de fazer café", disse Bertha.

"Só a cada quinze dias temos uma nova máquina de fazer café nesta casa", disse Harry. Desta vez Face pegou Bertha pelo braço; Pearl Fulton inclinou a cabeça e seguiu-as.

O fogo tinha-se reduzido na sala, para tornar-se um crepitante e rubro "ninho de filhotes de Fênix", segundo Face.

"Não acendam as luzes, por enquanto. Está tão agradável!". Ela agachou-se perto do fogo. Sempre tinha frio... "quando está sem sua jaqueta de flanela vermelha de mico de realejo, é claro", pensou Bertha.

Naquele momento Pearl Fulton "deu o sinal".

"Vocês têm um jardim?" disse a tranqüila voz sonolenta. Foi tão refinado da parte dela que tudo o que Bertha pode fazer foi obedecer; atravessou a sala, afastou as cortinas e abriu aquelas longas janelas.
"Lá", suspirou.

E as duas mulheres permaneceram de pé, uma ao lado da outra, olhando para a esguia árvore florida. Embora o ambiente estivesse tão tranqüilo, a pereira parecia a chama de uma vela a alongar-se, apontar para o alto, tremer no ar brilhante, tornando-se cada vez mais alta enquanto elas olhavam, até quase tocar os bordos prateados da lua redonda.

Quanto tempo elas ficaram ali? Ambas como que presas àquele círculo de luz sobrenatural, compreendendo-se perfeitamente uma à outra, criaturas de um outro mundo, e perguntando-se o que iriam fazer neste mundo com todo aquele alegre tesouro de felicidade que queimava em seus peitos e caía, como flores de prata, de seus cabelos e mãos?

Para sempre? Por um momento? E Pearl Fulton pareceu ter murmurado: "Sim, isso mesmo." Ou Bertha sonhara isto?

Então a luz foi acesa, Face fazia o café e Harry dizia: "Minha querida Senhora Norman Knight, não me pergunte pe!a minha filha. Eu jamais a vejo. Não terei por ela o menor interesse até o dia em que tenha um amante", e Mug tirou o monóculo, e tornou a colocá-lo, e Eddie Warren tomou seu café e colocou a xícara no lugar com um rosto angustiado, como se ele tivesse engolido uma aranha e percebido o que fizera.

"O que eu quero é dar lugar aos outros jovens. Acho que Londres está fervilhando com excelentes peças ainda não escritas. Quero lhes dizer: Aqui está o teatro; vão em frente!".

"Sabe, querida? Vou decorar uma sala para os Jacob Nathan. Estou muito tentada a fazer um projeto tipo peixefrito, com o encosto das cadeiras em forma de frigideiras e lindas batatas fritas espalhadas por toda parte nas cortinas".

"A dificuldade com nossos autores jovens é que eles são ainda demasiadamente românticos. Ninguém deve se lançar ao mar contando que não vai enjoar e dispensando uma bacia. Bem, por que não terão eles a coragem de usar essas bacias?".

"Um poema chocante sobre uma menina que foi violentada por um mendigo sem nariz, num pequeno bosque".

Pearl Fulton sentou-se à vontade na poltrona mais baixa e mais funda, e Harry ofereceu cigarros a todos. Pela maneira como ele se pôs à frente dela, sacudindo a caixa de prata dizendo asperamente "Egípcio? Turco? Virginiano? Estão todos misturados", Bertha constatou que ela não apenas o aborrecia; ele realmente não gostava dela. E deduziu, pelo modo com que Pearl disse "Obrigada, não vou fumar", que ela também o sentira, e se magoara.

"Não tenha essa antipatia por Pearl, Harry! Você está redondamente enganado a respeito dela. Ela é maravilhosa, maravilhosa! Além disso, como você pode pensar de modo tão diferente de mim, sobre alguém que significa tanto para mim? Tentarei contar-lhe mais tarde, quando estivermos na cama, o que está acontecendo. O que eu e ela estamos compartilhando".

A essas últimas palavras, alguma coisa estranha e quase aterrorizante penetrou na mente de Bertha. E essa coisa cega e sorridente sussurrou-lhe: "Logo essas pessoas irão embora. A casa ficará tranqüila, tranqüila. As luzes serão apagadas. E você e ele ficarão a sós um com o outro, no quarto escuro, a cama quente...".

Ela saltou da cadeira e correu para o piano.

"Que pena que ninguém toque!" — bradou. "Que pena que ninguém toque!".

Pela primeira vez na vida Bertha Young desejou seu marido.

Ah! Ela o amava! Ela o amara sempre, é claro, mas com outras formas de amor, não com o que sentia agora. E também, é claro, ela havia compreendido que ele era diferente. Haviam discutido isto inúmeras vezes. Ela havia se afligido horrivelmente, a princípio, ao descobrir sua própria frigidez, mas, com o passar do tempo, isso deixara de incomodá-la. Havia tanta franqueza entre os dois, eles eram tão bons companheiros! Nisso estava a grande vantagem de serem modernos.

Mas agora — era com tesão! Com tesão! A palavra doía em seu corpo em brasa. Era a isto que o seu sentimento de felicidade tinha levado? Mas então, então...

"Querida" — disse a Sra. Knight —, "é uma pena, mas você sabe que somos vítimas do tempo e do horário do trem. Moramos em Hampstead. Foi uma noite tão agradável!".

"Vou acompanhá-los até a porta", disse Bertha. "Foi um prazer tê-los conosco, mas vocês não podem perder o último trem. É tão desagradável isto, não é mesmo?".

"Antes de sair, você aceita um uísque, Knight?" convidou Harry.

"Não, obrigado, amigo velho".

Àquelas palavras, Bertha despediu-se dele com um forte aperto de mão.

"Boa-noite, até outra vez!" gritou ela do alto da escada, sentindo como se uma parte de si estivesse se despedindo deles para sempre.

Ao chegar à sala, encontrou os demais convidados preparando-se para sair.

"Então, você pode fazer parte do trajeto em meu táxi...".

"Eu lhe agradeço muitíssimo por não ter outra vez de enfrentar sozinho uma corrida de táxi depois da terrível experiência da vinda até aqui".

"Vocês podem tomar um táxi logo no fim da rua, há um ponto lá. Não terão de andar mais que uns poucos metros".

"É mesmo? Que bom! Vou vestir meu casaco".

Pearl Fulton encaminhou-se para o vestíbulo e Bertha a ia seguindo, quando Harry quase puxou-a para trás.

"Permita-me ajudá-la".

Bertha viu que ele tinha se arrependido de sua rudeza e deixou-o à vontade. Em certas coisas ele era um menino — tão impulsivo — tão simples.

Ela e Eddie foram deixados perto da lareira.


"Você já viu o novo poema de Bilke "Mesa de Convidado"?" perguntou Eddie, baixo. "É tão maravilhoso! Na última Antologia. Você tem um exemplar? Gostaria muito de mostrá-lo a você. Começa por uma belíssima linha: "Por que deve ser sempre sopa de tomate?".

"Sim", disse Bertha. Em silêncio, encaminhou-se para uma mesa, no lado oposto à porta, e Eddie acompanhou-a, também silencioso. Ela pegou o livro e entregou-o ao amigo; não tinham feito o menor ruído.

Enquanto ele o folheava, ela levantou a cabeça, olhando para o vestíbulo. E viu... Harry com o agasalho de Pearl Fulton nos braços e esta, de costas para ele, com a cabeça inclinada. Ele atirou o casaco para um lado, colocou as mãos nos ombros dela, e virou-a com violência para ele. Seus lábios diziam: "eu te adoro", e Pearl pousou os dedos finos sobre o rosto dele e sorriu aquele seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremiam; os lábios ficaram repuxados para trás, numa crispação horrível, enquanto ele sussurrava: "amanhã" — e, piscando os olhos, Pearl disse: "sim".

"Aqui está", disse Eddie. "Por que deve ser sempre sopa de tomate?". É uma verdade tão profunda, não acha? Sopa de tomate é tão incrivelmente eterna!".

"Se você preferir", dizia a voz de Harry, bem alto, no vestíbulo, "posso chamar um táxi pelo telefone".

"Não é necessário", disse Pearl Fulton e, chegando até Bertha, estendeu-lhe os dedos delicados.

"Até logo. Muito obrigada."

"Até logo", disse Bertha.

Pearl conservou os dedos da amiga entre os seus por um momento.

"Como é linda, a sua pereira", disse ela, baixinho.

E se foi, seguida por Eddie, como o gato preto acompanhando o gato cinzento.

"Vou fechar a casa", disse Harry, estranhamente tranqüilo e contido.

"Sua linda pereira...".

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?".

Mas a pereira estava tão linda como sempre, tão imóvel e florida como sempre.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

LIGAÇÕES PERIGOSAS - trecho "A Marquesa de Merteuil" (de Choderlos de Laclos)









“Digo meus princípios, e digo-o propositadamente; pois não provêm, como o de outras mulheres do acaso, nem são recebidos sem exame ou seguidos por hábito; são os frutos de minhas profundas reflexões; criei-os, e posso dizer que sou minha própria obra.
Entrando na sociedade em um tempo em que, solteira ainda, estava naturalmente voltada ao silêncio e à inação, aproveitei para observar e refletir. Enquanto me acreditavam estouvada ou distraída, dando, em verdade, pouca atenção ao que me procuravam dizer, muita prestava ao que procuravam esconder de mim.
Esta útil curiosidade, ao mesmo tempo que servia para me instruir, ensinava-me a dissimular [...] Se sentia alguma mágoa, aplicava-me a assumir um ar de serenidade, e até de alegria; levei o zelo a ponto de provocar dores voluntárias, a fim de procurar durante esse tempo a expressão do prazer [...] De posse dessas minhas primeiras armas, tentei servir-me delas; não satisfeita com não mais me deixar penetrar, diverti-me com mostrar-me sob diferentes formas; segura de meus gestos; controlei minhas palavras; regulei uns e outros de acordo com as circunstâncias e as minhas fantasias. A partir de então, minha maneira de pensar foi unicamente minha e só mostrei o que me era útil deixar transparecer [...] ainda algumas observações [... Depois de viúva] Reforcei-as pela leitura; não imagineis, entretanto, que foi toda ela do gênero que pensais. Estudei nossos costumes nos romances, nossas opiniões nos filósofos, procurei até nos moralistas mais severos o que exigiam de nós, e assegurei-me, assim, do que se podia fazer, do que se devia pensar e do que era preciso parecer. Uma vez a par disso tudo, verifiquei que somente a última coisa apresentava algumas dificuldades de execução; esperei vencê-las e meditei sobre os meios de fazê-lo.
Começava a aborrecer-me com meus prazeres rústicos, muito pouco variados para a minha cabeça ativa. Sentia uma necessidade de coqueteria que me reconciliou com o amor; não para senti-lo, em verdade, mas para inspirá-lo e simulá-lo. Em vão me tinham dito, e eu o lera, que não se podia simular esse sentimento; eu percebia, entretanto, que para consegui-lo bastava juntar ao espírito de um autor o talento de um comediante. Exercitei-me nos dois gêneros, e talvez com algum êxito; mas ao invés de procurar os vãos aplausos do teatro, resolvi empregar na minha felicidade o que tantos outros sacrificavam à vaidade [...] Comecei, então, a desenvolver no grande palco da sociedade os talentos que adquirira. Meu primeiro cuidado foi conquistar a fama de invencível. Para consegui-lo, os homens que não me agradavam foram sempre os únicos de quem fingi aceitar homenagens. Empregava-os utilmente para angariar as honras da resistência, enquanto me entregava sem receio ao amante preferido”.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A VINGANÇA DO CORNO (de Paulo Lins)



Duas vizinhas conversavam na Quadra Catorze.
- Seu marido não te chupa, não? Ah, minha filha... Você não conhece as coisa boa da vida. Antes do meu meter, tem que cair de língua uma meia hora. E no cu? Você não deixa ele colocar no teu, não? Você não sabe o que é bom. Nas primeiras vezes dói, mas depois vai que é uma beleza. Você pega uma banana, esquenta ela um pouquinho, enfia na xereca e manda ele colocar atrás. Parece que você vai voar. Você já fez carrossel? Saca-rolha? Trenzinho? Funil? Dedinho? Meia nove? Tapadinho? Enrola-enrola? Entupidinho? Suga-suga...? 
A cearense decidiu: quando o marido chegasse iria lhe propor as maravilhas do amor. Mas não deu certo, o marido, além de não querer tal safadeza, ainda deu-lhe uma surra para ela parar de pensar em putarias.
Seguro da proveniência de tamanho descaramento, ele ainda a proibiu de conversar com as vizinhas. A cearense, enquanto apanhava, pensava em arrumar um homem que fizesse as tais maravilhas com ela, se vingaria do marido sentindo prazer de verdade, mas tinha que ser com um crioulo, porque a vizinha garantira que todo negão tinha pau grande. Quanto mais apanhava, mais vinha à mente a imagem de um negro com o pênis avantajado mandando ver atrás e ela com a banana esquentada na frente. 
No outro dia, não saiu de casa. Fez compressas com erva de Santa Maria para curar os hematomas, passou abacate com gema de ovo no cabelo para que ele tomasse jeito, emplastou o rosto de mel com limão. Bom remédio para manchas, cravos e espinhas. O dia passava lento numa trama de traição. Sim, iria meter com o peixeiro e isso seria mole, porque homem é que nem rato: é só mostrar o queijinho que ele vem correndo. Poderia vestir uma camisola vermelha e puxá-lo para dentro de casa na hora em que ele fosse entregar o peixe, ou segui-lo até um local seguro para poder atacá-lo. Quem sabe se um menino da rua lhe entregasse um bilhete, seria fácil se soubesse seu endereço, chegaria em sua casa, antes de ele sair para o trabalho, e o pegaria descansado ou então, se nada disso desse certo, chegaria pertinho dele na próxima vez que o visse e diria: "Vem cá, pirocudo, bota aqui com vontade!".

* * *
Depois de dois dias, ainda que com medo, o peixeiro estava atrás da cearense mandando bala, e ela com a banana esquentada em seu devido lugar. 
O marido, depois do trabalho, ia à birosca do Chupeta jogar sinuca e embriagar-se a cada bola morta num dos seis buracos desta vida. Deixava a hora passar porque homem que é homem não pode chegar na hora prometida, tem de chegar na hora que bem entender, com cheiro de cachaça misturado ao de suor do trabalho pesado. Queria que a esposa fosse decente igual fora sua mãe. Não admitia que ela ficasse de papo com as crioulas da rua, proibiu-a de usar blusas decotadas e saias curtas, e calças compridas só se fossem bem largas, de pano grosso para que ninguém visse as marcas da calcinha. 
A esposa não relaxou com os afazeres domésticos, mas não ligava mais para o marido, agia friamente na hora daquele sexo sem nenhuma novidade. Por duas vezes fingiu doença na hora do vamos ver. Depois de alguns dias, resolveu tratar o marido normalmente, seguindo o conselho da vizinha. Mostrou-se arrependida das indecências propostas. O cearense sentiu-se vitorioso, finalmente a mulher compreendera que ele estava certo. Passou a chegar em casa cedo.
No sábado seguinte, depois das compras, levou a esposa ao parque de diversões. Comeram maçã do amor, pipoca doce, deram tiro ao alvo, jogaram argolas e, ainda, andaram na roda-gigante. Tudo isso para agradar a esposa, que. agora sim, parecia com sua mãe. No domingo, ao invés de comprar a maldita carne de porco, de que ele tanto gostava e que ela odiava, optou pela galinha, prato predileto da esposa que continuou a receber o peixeiro todos os dias da semana. 
Numa segunda-feira, o cearense, como de costume, chegou ao trabalho cedo, já havia se trocado para o batente quando recebeu a notícia de que não haveria expediente. Ainda bebeu uma dose com os amigos antes de tomar o caminho de casa.
O peixeiro já havia feito a esposa do outro atingir o orgasmo três vezes, estava se recuperando para começar tudo de novo. 
O trabalhador desembarcou do ônibus lá na frente. Resolveu comprar uma dúzia de limões para passar o dia bebendo caipirinha, tirando o gosto com sardinha frita. A maluca da sua mulher dera agora para comer peixe como nunca. Se quisesse comer um torresmo ou uma linguiça frita tinha de ir à birosca. Mas estava tudo bem, pois depois dos tabefes ela tinha se tornado uma mulher de respeito. Era feliz. 
Em sua casa, o peixeiro deixava a língua escorregar, entrar e sair, hirimbolar na xereca da cearense. A primeira vez que ela pediu para fazer sexo oral, ele contestou. Imaginava que havia resto de porra do marido, gotas remanescentes da última mijada. Na segunda vez, caiu de língua com mais vontade, chegou até a machucar a mulher. Na terceira vez, esfregou o nariz, depois lambuzou o rosto todo. Daí em diante ficava ali esfomeadamente. 
O cearense passou em frente à Padaria Verde e Rosa, fazendo e desfazendo sombras de pernas no caminho.
Acendeu um cigarro ao entrar na praça da Quadra Vinte e Dois. Antes de atravessar a rua para ganhar a praça dos Garimpeiros, parou para jogar conversa fora com uns amigos. Andou mais uma quadra, avistou o muro de sua casa. Pensou em chamar a mulher para dar um bordejo na ilha de Paquetá, mas não, seria melhor ficar em casa, esticar em sua própria cama a soneca que costumava tirar depois do almoço em cima de uma tábua, na obra. Entrou em sua rua, achou estranho o rádio desligado, pois daquela distância poderia ouvir Cidinha Campos berrando no transmissor, ou então sua mulher cantarolando junto com o rádio. Quando faltavam dois passos para seu corpo ser envolvido pela sombra que o muro de sua casa dava àquela hora da manhã, viu a desgraçada da vizinha olhando, pela greta da janela, a rua desavisada. Remexeu o bolso à procura das chaves, seus dedos huliram a caixa de fósforo, as moedas, o canivete e as fichas de telefone. Teve dificuldade de rodar a chave no tambor, empurrou o portão de ferro vagarosamente. A janela da frente estava fechada, assim como a porta e o basculante do banheiro. A areia e as pedras que havia comprado estavam lá no canto esquerdo do quintal. No chiqueiro, Margarida dormia na manhã que se estendia da caçarola sem alça até a bacia furada. As galinhas estavam quietas nos poleiros, sinal de que já haviam sido alimentadas. No pequeno jardim, os girassóis vergavam ao vento brando. O cearense preocupou-se por causa do silêncio, sua mulher não era de dormir até tarde. Foi para o lado esquerdo do quintal olhando para o chão. Acendeu outro cigarro, caminhou para a porta de casa, enfiou a chave na fechadura, dessa vez não teve nenhuma dificuldade em rodar o tambor. A cozinha mantinha-se sem nenhuma louça suja. Na sala, um filete de luz solar desafiava a janela e fazia o cearense ver uma reta de poeira boiando no espaço. A imagem de padre Cícero, de frente para a porta, nada resmungava. O barulho da água caindo na caixa era o único dentro da casa arrumada, com o cheiro de peixe destoando da limpeza que seus olhos constatavam. O tapete cor de sangue pisado não estava no lugar de costume, ajeitou-o mecanicamente com os pés. Caminhou para o quarto, viu a esposa caída por cima da calça de tergal, que ele pedira para costurar, fingindo sono profundo. 
- Que que houve? - perguntou a cearense depois de sacudida pelo marido. 
Nosso encarregado dispensou nós hoje. O engenheiro bateu as botas - respondeu o cearense, que, ao invés de preparar a caipirinha, vestiu uma bermuda e foi para o quintal cavucar a terra. 
- Você em vez de aproveitar para descansar já vai arrumar trabalho, homem de Deus? 
- Vou fazer uma cisterna aqui do lado. Essa caixa-d'água é pequena demais pro meu gosto, se faltar água uma semana nós morre de sede. 
Lá pelas treze horas, já havia escavado catorze palmos de terra. Resolveu parar o serviço, almoçar e tirar um cochilo. A mulher aproveitou o dia remendando as roupas velhas. Volta e meia pensava: "Depois que virou corno esse homem está que é um carneirinho".
A noite veio rápida.

* * *
Depois de molhar as plantas, a esposa foi para o portão conversar com a vizinha, naquela nova manhã de sol largo no céu:
- Foi por pouco, hein? 
- Ah... Mas Deus é pai, minha filha! 
- Eu acho que ele está desconfiado. Quantas vez ele já veio assim sem avisar? 
- Só uma vez que deu uma dor aqui, lá nele - apontava para o braço -, e um amigo dele veio trazer ele em casa. 
- Foi Deus que te ajudou, se eu não vejo ele no mercado, ele ia dar maior fraga em vocês... Se eu fosse você, eu ia saber pra ter certeza. 
- De que jeito? 
- Vamo lá no terreiro da minha cunhada que ela chama a pombagira pra você. 
Saíram depois do almoço. Haveria de resolver tudo sem demora, porque, às vezes, o cearense chegava antes das cinco. 
- Eta, moça formosa! Eu já sei tudo que essa filha da terra quer saber... É só colocar presente pra mim na encruza, que quanto mais você for com o outro ele mais acredita em você - a pombagira afirmou e gargalhou em seguida. - O negócio da banana deu certo, hein, moça? - continuava a pombagira. - O negócio tá bom lá, né? Aqui na terra de vocês o melhor de tudo é fuder até dizer chega. Já que o de casa não sabe fazer gostoso, teve que arrumar na rua, né, moça? - gargalhava. - Você compra tudo que eu lhe mandar e coloca na encruzilhada à meia- noite... 
- Mas eu não posso sair de noi... 
- É só dar o zimbrador pro cambone que ele compra tudo e faz o despacho pra você - finalizou a pombagira dando gargalhadas e jogando marafo em cima da cearense. 
No outro dia, a esposa não esperou meia hora da saída do marido para ir atrás do peixeiro: 
- Vamo lá pra casa. Agora eu me sinto segura. Ontem a gente deu azar. 
De imediato o peixeiro se contrapôs à mulher, mas depois de ouvi-la montou-a na garupa da bicicleta e partiram para a casa dela. A rua estava cheia de crianças em diversas brincadeiras e comadres em fofocas matinais. A cearense não teve o mínimo pudor de adentrar o quintal levando o peixeiro pela mão. Depois da cearense abrir a porta da casa, o peixeiro tomou-a pelo braço e tascou-lhe um beijo quente. Alisava com fervor a intimidade de seu corpo, ela fazia o mesmo, O amante já ia desabotoando-lhe a blusa quando recebeu a paulada que o levou ao chão. 
Antes que a cearense emitisse o grito que seu desespero ensaiara, foi amordaçada, em seguida amarrada e jogada no buraco cavado pelo corno no dia anterior. O marido enfiou sua peixeira afiada no peixeiro, arrastou o corpo para cima da cearense que se revirava no fundo do buraco, foi cobrindo-os de terra. A mordaça desprendeu-se, ela ia gritar, mas a terra que recebeu no rosto a impediu. O cearense, depois de cobri-los, fez uma massa forte de cimento e terra preta, jogou-a por cima da catacumba improvisada.
 Depois do serviço pronto, passou a mão na mala, conferiu a passagem e cascou pro Ceará.