quinta-feira, 31 de maio de 2012

A DAMA DO TÚMULO


A LENDA DA MULHER DO TÁXI
Dedicado à Memória de Josefina Conty, a Mulher do Táxi. Que sua alma descanse em paz...
Em vida, durante seu aniversário, seu pai lhe dava como presente uma corrida de táxi pela cidade de Belém, por seus pontos turísticos. Tal costume, como testemunha a lenda popular, perdurou mesmo após a vida, pois toda a noite de seu aniversário ela costuma ainda, à meia-noite, pegar táxi e vagar pelas ruas de Belém.
 Conta a lenda que tudo começou numa noite de seu aniversário, em que um taxista avistou uma moça bela, morena, vestida de branco, enfrente ao cemitério. Parou o carro e permitiu que a passageira embarcasse. Após rodar pelas ruas da cidade a moça pediu para que a deixasse em sua casa, na avenida Gentil Bitencourt. Ao descer do carro, a moça gentilmente pediu ao motorista se este não podia vir em outro dia, em sua casa, em busca de seu pagamento. Este concordou e, ela ao entrar na casa, o motorista partiu. No outro dia o motorista foi à casa; ao chegar lá, uma velha senhora lhe atendeu; ele lhe disse que estava ali para receber por uma corrida que uma moça tinha lhe pedido para buscar outro dia. A senhora lhe respondeu que a única mulher que morava na casa era ela, à anos. Disse ele que não podia ser, pois tinha visto a mulher entrar na casa. Após tentar várias vezes convencer a senhora, eis que o vento abre a porta de um cômodo que dava para a sala, expondo um retrato na parede. O motorista imediatamente observou: veja, foi aquela moça. A senhora imediatamente lhe respondeu: mas esta é minha filha já morta alguns anos...
O CONTO: A DAMA DO TÚMULO
 Este conto é dedicado a todos os fantasmas; a essas
criaturas tristes e solitárias, que alegram minhas madrugadas.
  - TUDO COMEÇOU NAQUELE DIA, QUANDO CHEGUEI ATRASADO AO ENTERRO...
O enterro estava marcado para às quatro horas da tarde; porém, cheguei às seis da tarde ao cemitério. Não havia mais quase ninguém naquela velha cidade da morte. Aproveitei então para dar um pequeno passeio pelas redondezas, por aquelas últimas moradas. E após andar por alguns minutos, por entre aquele imenso labirinto da morte, encostei-me, casualmente, em um velho túmulo para fumar um cigarro. E enquanto fumava, pus-me a examinar o local. Olhei então para o túmulo que estava em minha frente. Vi sobre a lápide uma foto de mulher, de uma bela mulher que aparentava estar na flor da idade, vestida em seu belo vestido. Vestido que deve ter lhe acompanhado em alguns momentos mais felizes de sua vida, mas que agora jazia sob o frio daquela pequena construção de mármore.
O túmulo aparentava ter sido abandonado por seus familiares, há algum tempo. E, em alguns lugares, o mato crescia, como o terrível símbolo do esquecimento que inevitavelmente causa a morte. Olhei ao redor, todos os túmulos ostentavam flores, menos o dela. E, ao olhar, vi uma pequena árvore, que embora pequena, transbordava de flores. Apanhei algumas e pus sobre seu túmulo, dizendo: “Que a uma dama jamais se negue flores!”.
A tarde já se esvaia em um maravilhoso tom vermelho, como as últimas gotas de sangue de uma lenta, e pálida hemorragia, quando me despedi daquele túmulo, caminhando, cruzando o cemitério, em direção de sua saída. E por mais que andasse por aquelas avenidas lúgubres, não conseguia pôr-me em direção a saída. Olhava o céu agora já em um tom azul marinho, que aos poucos tornava-se escuro. As luzes do cemitério se acendiam, e mal clareavam o caminho. Foi quando me senti preso em um labirinto. Em um labirinto de pequenos cubículos, que eu sabia que não estavam vazios. A sensação de não estar sozinho evadia minha alma, que ao cruzar pela terceira vez a mesma avenida, me desesperava... Olhei e senti algo familiar naquela avenida; era a avenida que abrigava aquele velho túmulo. Dirigi-me então para o mesmo. Observei que as flores já não estavam mais sobre ele. E que havia naquele rosto, da foto, detalhes que não havia antes visto, como um leve sorriso, que agora despontava daquele belo rosto. Pude ler então seu nome: Josefina. Imediatamente, pus novamente as flores no lugar e segui o meu caminho...
O cemitério estava agora totalmente vazio; nem uma voz se ouvia, somente o vento por entre aquelas construções sem vida. E ao cruzar pela quarta vez por aquela, agora, familiar avenida, percebi que estava andando em círculos. Decidi então cruzar pelo velho túmulo e seguir em linha reta, adiante, sempre adiante, tentando lembrar o caminho seguido antes. E ao passar novamente pelo túmulo, reparei que as flores não estavam novamente lá. Pensei no vento, e na possibilidade deste as ter derrubado; e pus novamente elas no lugar. Foi quando, curiosamente, olhei novamente para a foto. Além do leve sorriso, pude ver agora um suave olhar para mim. As luzes pareciam terem feito seu semblante mudar, acrescentavam agora um delicado piscar. E, de repente, pude ouvir, então, uma ofegante respiração, por entre os túmulos, aumentando... aumentando... aumentando... Até que, uma mão pôs-se sobre meu ombro. Um imenso arrepio percorreu por todo o meu corpo; virei-me então para olhar... Era um velho coveiro, que dizia-me:
- O Senhor está perdido? Estamos na hora de fechar.
- Sim, sim. Vejo que perdi a hora – disse eu a este secretário dos mortos.
- Então, favor, siga-me.
E assim, segui-lo. E pude, finalmente, encontrar a saída, tão almejada.
*  *  *
À noite, mal pude dormir, pensava no meu amigo, na sua morte, na falta que me faria, e em não ter podido, dele, me despedir. E, nas poucas vezes que conseguia dormir, sonhos evadiam minha mente. O mesmo sonho recorrente. Sonhava com a mulher do túmulo, vestida em seu belo vestido branco, rodopiando em um grande salão antigo, com grandes janelas e cortinas de veludo vermelho e, no teto, um grande lustre cor de prata, clareava o ambiente, que explodia em alegria. Ela dançava com alguém, em meio à dezenas de casais que dançavam com leveza e graça. E ao rodopiar ao lado de um imenso espelho, pude ver que o cavalheiro, com quem ela dançava, era eu, vestido em trajes antigos, também. Espantado, soltava suas mãos e tentava fugir do salão. Porém, os casais, rodopiando ao redor do mesmo, não me deixavam sair. Ela olhava-me, chamando-me com suas mãos estendidas. Os casais ao redor, ao passarem ao meu lado, diziam-me: “Vamos Bosco, dance com Josefina Conty”.
Naquela noite acordei assustado; minha alma transbordava o negrume da morte, pois algumas pessoas que tinha visto no sonho já tinham a muito morrido; eram parentes e amigos. Lembrei-me de ter visto também entre eles Raimundo, o amigo recentemente falecido.
Passei todo o dia pensativo. Liguei para a mãe de Raimundo, e me desculpei por não ter chegado a tempo ao seu enterro. Pedi seu último endereço e prometi visitá-lo, imediatamente.
À tarde, como prometido, voltei novamente ao cemitério, desta vez para visitar o túmulo de meu amigo. Levava comigo algumas garrafas de vinho, flores e o mapa do cemitério, que peguei com a portaria. Desta vez não me perderia...
Após visitar o túmulo do amigo, e depositar em seu túmulo flores e uma garrafa de vinho, em nome das noites de boêmia, fui compelido, por uma curiosidade mórbida, ao visitar o túmulo da bela dama morta.
Ao chegar, surpreendeu-me verificar que as flores não estavam murchas, mas organizadas e umedecidas em um vazo sobre seu túmulo. Lembrei-me então do sonho; e curioso verifiquei seu nome. Percebi então que seu nome se deteriorara, permanecendo apenas o nome Josefina. Depositei novas flores; observei sua foto por alguns minutos, e, em seguida, voltei para casa.
*  *  *
À noite, novos sonhos me assombraram. Sonhava novamente com a dama morta. Esta vinha à minha cama agradecer-me pelas rosas depositadas. Chamava-me por meu nome: “Bosco... Bosco... Bosco... obrigado pelas flores... Venha querido... Venha comigo”. Levantei-me da cama, e, de mãos dadas, pus-me a caminhar ao seu lado. Ela, levou-me para um outro quarto, de mobílias antigas e cama de colunas de carvalho. Um quarto que não pertencia a minha casa. Beijava-me a boca, e lentamente tirava o seu belo vestido; surpreendendo-me com um lindo corpo lívido, que me extasiava, absorvido em um misto de delírio e prazeres contínuos.
Na manhã seguinte, acordei-me nu e fraco, totalmente exaurido. Manchas de suor cobriam ainda o leito, tantas vezes nele dormido. Lembrei-me dos sonhos eróticos de minha infância. Porém, neste havia um sabor que nenhum outro tinha: um misto de prazer e terror, que eu jamais tinha visto.
O dia transcorreu sob uma angústia inquietante. Vozes e pensamentos me torturavam. Um sentimento estranho de saudade me abalava. Tornava-me um ser com indisposições estranhas e inexplicáveis.
Na noite seguinte, após logo deitar-me e fechar os olhos, senti a sensação de parte do colchão afundar, pouco a pouco, como se alguém cuidadosamente se deitasse ao meu lado, não querendo me acordar. E ao sentir isso, virei a cabeça para verificar, e ao olhar, verifiquei que não havia ninguém ao lado! Nesse momento, o medo e o espanto apoderam-se de mim, e me perseguiram durante outras noites. O medo que da próxima vez se repetisse e que a visão fosse terrível...
*  *  *
Seu túmulo não saia de minha mente. Todos os dias, algo me compelia a visitá-lo. Uma obsessão tomou conta de mim: um misto de prazer e agonia em observá-lo.
Sonhos evadiam minha mente. Sonhava com ela, todas as noites. Sonhos lúbricos, e lascivos, parecia nutrirem-se de mim. E quanto mais fraco eu tornava, mais forte os sonhos ficavam; ao ponto de não mais saber se eram sonhos ou realidade.
 Os floristas já me conheciam. Olhavam-me como alguém que teria perdido um ente querido; do qual, da saudade, não conseguia se desvencilhar.
*  *  *
Os dias transcorriam em estranha normalidade. Porém, numa noite, enquanto estava no banho, ouvi pequenos sons de pisadas pela casa. Pareciam com sons de passos femininos, que pisavam com suavidade. Imediatamente sai do banho, para verificar de onde vinham. Nada vi, exceto um vulto branco que cruzou-me próximo ao quarto. Estranhamente minhas roupas não estavam onde eu as tinha deixado. Procurei, por elas, por todos os lados. Por fim, encontrei-as no cabide, bem no escuro do quarto. Então, ao apanhá-las, um imenso calafrio invadiu minha alma, e tombei ao chão desmaiado... Ao acordar, tudo estava escuro. Porém, ao acender a luz, meu amigo, lá estava ela, ao olhar-me com aqueles belos olhos! Sim, era ela Josefina, que me espreitava. O susto, em seguida, deu lugar a volúpia, como os de corpos que se tocam, com cumplicidade. Tudo parecia real, seu corpo, seu toque, seu hálito. Porém, ao abraçá-la, um estranho frio de seu corpo emanava...
Ao acordar, tudo parecia ter sido apenas sonho, mas algo havia naquilo que me fazia discordar. A dúvida evadia minha alma: teria tudo sido apenas sonho? Estava eu vivendo uma alucinação, daquelas que atormentavam tanto a alma? Foi quando a resposta me veio à tona...
Ao visitar mais uma vez o cemitério, procurei as origens daquele túmulo que tanto me fazia pensar. E ao pegar um velho livro de registro, pude, finalmente, comprovar, que ali jazia Josefina Conty, morta em 1931, em plena flor da idade, em seus belos vinte anos. A verdade tinha vindo à tona, do modo mais pungente. Sim, seu nome correspondia ao sonho que eu tivera anteriormente, aquele que sonhara com um grande salão de baile.
Cheguei em casa, nesse dia, embriagado. Ao abrir a porta de casa, senti um suave perfume de flores. Perfume que exalava por toda a casa. Fui para o banheiro, lavar o rosto. Olhei-me no espelho enquanto me banhava. Vi um pequeno pente ao meu lado, sobre a pia. E ao olhar para o meu reflexo no espelho, vi o pente, por trás de mim, levantar-se, à minha altura; olhei para trás... Você não vai acreditar!, lá estava ela, novamente, desta vez em carne e osso, se penteando, com aqueles belos olhos verdes à espreitar-me. Olhei para o espelho, novamente, não via nada. Ela agarrou-me, beijou-me a boca; senti como se a vida se esvaí-se de mim, pouco a pouco. Ah!, aquela boca me tragava a vida...
- É! É uma história e tanto! – disse-me o amigo esboçando dúvida, mas acima de tudo curiosidade. E continuou a interrogar-me:
– E como se desenrolou essa história?
- Ah! Ela levou-me para o quarto. E quanto mais me beijava, com seu belo corpo nu, mas sentia-me fraco... fraco... fraco... E após esse dia, todas as vezes que voltava para casa, lá estava ela à esperar-me, com seu belo corpo, que a cada dia mais me extasiava, num contínuo mundo de prazeres sem fim. E à olhos vistos, meu amigo, cada vez mais me degradava... Ela tornou-se, para mim, como um vício, que embora tornava a vida prazerosa, viver em sua companhia, cada vez mais algo de mim tirava...
Porém, uma noite, ao chegar em casa, feliz em poder desfrutar mais uma vez de sua companhia, notei que ela não estava. Chamei-a, e, por mais que a chama-se, ela não vinha. Fui então para o cemitério, em plena madrugada, dormi sobre sua lápide fria, fria como seu belo corpo. Acordei-me com ela me olhando. Acariciou-me os cabelos, e disse-me, que se continuasse me mataria. Ah, meu amigo, cai em pranto, e de joelhos, e lhe supliquei que continuasse. Que nada me importava, nem mesmo a vida, sem sua companhia...
- Bem, parece-me ser a primeira vez que ouço uma história de fantasma que parece ser agradável. Era ela, então, um belo fantasma?
- Sim, sim, do tipo de mulher que qualquer homem desejaria. Era maravilhoso viver em sua companhia. Todo dia não via a hora de chegar em casa. Porém, nem tudo é perfeito!, meu amigo.
- Por quê?
- Porque descobri que Josefina me sugava a vida, como um vampiro.
- Como um vampiro?
- Sim, sim. E o que mais me entristece é que a cada dia menos vida eu tenho para lhe dar...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A BENDITA CACHAÇA DO PADRE FERDINANDO (de Bosco Silva)



Conheci o padre Ferdinando em um boteco. Isso mesmo, não em uma igreja, ou em uma catedral, ou mesmo em um encontro de jovens da paróquia em um dia de domingo, mas em um boteco, o boteco “Fé em Deus”. O lugar era um lugar como tantos outros, digo quanto a sua estrutura, pois aquele era um boteco diferente, possuía um padre como freguês.
Era um tipo incomum, um homem verdadeiramente pitoresco, um verdadeiro sábio, que conhecia a bíblia de cor. Citava cada passagem com enorme erudição e firmeza; e tinha um costume inusitado, pelo menos para um padre, um servo do bom Deus, de beber cachaça aos domingos após a missa. Sentava-se em um pequeno tamborete alto, ajeitava o saiote da batina e ficava lá acariciando sua proeminente barriga de frente para a rua, bem perto à porta da pequena venda. Quando lhe perguntavam por que cachaça e não vinho, padre Ferdinando lhes dizia que se vinho representava o sangue de Cristo, a cachaça, para ele, representava as lágrimas de Cristo. E antes de tomar seu primeiro gole benzia o copo, e, em seguida, tomava o líquido de uma lapada só. Quando alguém o olhava com olhar recriminatório ficava a explicar para os que estavam ao seu redor que beber não é pecado. Dizia também não entender os evangélicos, estes irmãos em Cristo, que proibiam tal ato; dizia que ao proibirem tal ato recriminavam o próprio Cristo, pois se tal fato fosse pecado, Cristo, nosso salvador, não teria, em uma festa de casamento, transformado água em vinho, e em um bom vinho, fazia questão de frisar o sábio homem, dando ênfase a sua frase apontando o dedo indicador da sua mão direita para cima. “E apenas”, continuava ele, “um grande conhecedor da matéria poderia criar um vinho tão bom como aquele”. Quando alguém o questionou de como poderia saber disso, sem ter provado o tal vinho. Padre Ferdinando disse: “E alguma vez, meu bom homem, Deus fez algo imperfeito? Pois este vinho teria que ser o melhor!”. Chegou mesmo, certamente, já tomado pelo efeito do límpido líquido, a argumentar que Cristo era um bom bebedor de vinhos, pois não foi à toa que escolheu tal bebida para representar seu sofrimento, já que sabia que ela, assim como Ele, não apenas foi sofrimento sob os pés de quem o pisou e lhe esmagou, afim de obter o precioso líquido, como também, ressuscitado em outra forma,  é festejo e alegria.
E lá pelas tantas, chegou a afirmar em tom de pilhéria, claro, que o cristianismo nascera mesmo no seio de grandes beberrões de vinho, e que estes foram seus primeiros seguidores, pois não seriam estes, verdadeiramente, perguntava o bom padre dando boas risadas, os primeiros a seguirem alguém que tivesse o maravilhoso dom de transformar água em vinho? Como prova citava que, como uma exigência feita por estes, o milagre do vinho foi o primeiro milagre feito por Cristo. E ninguém se atrevia a discordar dele, pois lá estava um homem que sabia muito bem do que dizia.
Ah, como era instrutivo e ao mesmo tempo delicioso ver aquele velho homem despojado, por alguns minutos, de toda sua autoridade a se entregar a tecer comentários sobre os mais intricados e variados assuntos da igreja.
A bendita cachaça do padre Ferdinando parecia cada vez mais levá-lo a questionar a si próprio, a suas crenças. Poder-se-ia mesmo dizer que ele possuía dois públicos, um composto pelas senhoras e senhores que frequentavam suas missas pela manhã e o pequeno público do boteco que atentamente ouvia seus comentários.
E após alguns goles a mais daquele bendito líquido, o padre Ferdinando, como um bom servo de Deus, usufruindo deste maravilhoso dom que Deus deu ao homem, a liberdade, botava-se a questionar cada vez mais suas crenças. Era um espetáculo que todos os homens deveriam ver. Ferdinando questionava que um homem branco, loiro, de olhos azuis, pudesse ter nascido em um povo tão moreno quanto os judeus daquele tempo. Ele argumentava que aquela não poderia ser a verdadeira imagem de Cristo; dizia ser um artifício do homem europeu através da imagem loira de Cristo, de impor uma falsa pureza e superioridade dos brancos europeus a outros povos morenos e negros.  Ferdinando chegava mesmo a argumentar, já um tanto tomado pelo doce efeito da bebida, em um tom irônico, se não seria a imagem daquele homem loiro e bonito um motivo a mais de atrair mulheres para a igreja, como hoje já se sucede com os padres cantores. “Chego mesmo, que Deus me perdoe”, dizia o padre, unindo as mãos para cima, e beijando o crucifixo, trocando, em seguida, sua seriedade por novamente gargalhadas, “a pensar, por um momento, ser um culto de maricas, quando vejo aqueles pais de famílias, sérios, com seus bigodões, beijando a imagem daquele belo homem de cabelos loiros”.   
Ah!, nosso bom padre, segurando a barriga, ria bastante com seu próprio pensamento, e dizia, em seguida: “que povo tolo!”.
Quando via os devotos vindos da igreja, padre Ferdinando comentava: “todos querem ir pro céu, mas o engraçado é que ninguém quer morrer. Fogem da morte como o Diabo da cruz!”, dizia dando risadas.
E aos devotos, padre Ferdinando comentava: “Veja dona Clotilde, coitada, nunca vi mulher tão carola, vive sempre ao redor de minha batina ou rezando a Cristo ou dando esmolas aos pobres, pedindo por sua salvação. Bajula a todos: Cristo, eu e os santos. Será que Deus precisa de tantos bajuladores como estes para fazer o bem? Chego a pensar serem os ateus os únicos que merecem a salvação, pois, se fazem o bem, fazem espontaneamente, sem visarem sua salvação”.
* * *
Aos poucos, padre Ferdinando ia se ajeitando sobre o balcão atrás da porta e, calmamente, dormia com os braços e a cabeça sobre o mesmo. E durante seu sono podia-se ouvi-lo pronunciar um nome bem baixinho, era um nome de mulher: “Catarina... Catarina...”. Seria o doce nome de sua mãe ou o nome de uma doce mulher que este amou um dia?
Ah, durma meu bom velho, durma e sonhe com os belos momentos de sua vida, com um beijo amoroso dado na mulher amada, ou com os momentos mais sublimes de sua juventude.
Continuava a dormir o bom padre embriagado pelos verdadeiros valores da vida.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

A FILOSOFIA DO ORGASMO - Parte #1



RESUMO: O presente trabalho tem como finalidade demonstrar as terríveis consequências religiosas, morais, psicológicas e, principalmente, sexuais da mudança de mentalidade de um mundo calcado na ideia de IMANÊNCIA, para a mentalidade de um mundo moderno, baseado na noção religiosa de TRANSCENDÊNCIA, por meio da sexualidade humana.
INTRODUÇÃO
Houve uma época em que o homem era tido como uma parte da natureza, mantendo uma profunda e insolúvel harmonia com esta, fazendo tanto parte desta quanto os leões, os carvalhos, ou mesmo os minerais. Era uma época que ainda não se tinha inventado o pecado, e que o sexo não era visto como algo pecaminoso, mas divino, um dom da natureza ou um caminho que levava aos deuses: um meio de conhecimento e iluminação pessoal, capaz de mostrar ao homem uma parte então desconhecida de si próprio: sua identidade profunda com a natureza, com suas forças fundamentais. Foi a época das grandes religiões panteístas que concebiam Deus, não como um ser agindo fora do mundo, mas de dentro do mesmo, um ser imanente ao mundo, à natureza. Foi também a época dos grandes cultos a Afrodite, com suas sacerdotisas que em seus templos copulavam com os devotos da grande deusa; das bacantes, que por meio do vinho, e em nome do deus Baco, embriagavam os homens e os levavam a serem absorvidos por seus instintos sexuais, copulando com estes durante o culto de seu deus nos campos, bosques e prados; e do deus Príapo com seu grande falo, o deus da fertilidade, responsável pela fertilização dos animais e vegetais. Enfim, era uma época em que o sexo era tão sagrado quanto as religiões, e em que o sagrado feminino dominava o mundo e onde não se rejeitava nossa animalidade, nem nossos instintos.
Mas hoje tudo isso parece ser apenas uma velha história perdida em algum livro amarelado pelo tempo. Pois o homem passou a se sentir um ser superior e independente da natureza; um ser feito, erroneamente, à imagem de um deus, que assim como este, transcenderia a natureza, e a qual esta existiria apenas para lhe servir.
E assim, logo nos vimos divididos entre dois mundos, um natural e material, governado pelas leis naturais do corpo, e o outro, sobrenatural, comandado por leis superiores, imateriais, que não pertenceriam ao nosso mundo, nos levando a renegar nossa origem animal, como algo inferior e impróprio do homem, um arcabouço de sentimentos bestiais e bárbaros - mas devemos lembrar que os mais baixos sentimentos humanos não pertencem aos animais. Disso surgiram a moral e as proibições religiosas ao sexo, e a ideia de que devemos privilegiar nosso lado transcendente, tido como superior, em detrimento de nosso lado animal. Não admira, portanto, que o sexo como aquilo que mais uniria os homens aos outros animais tenha sofrido tanto com esta forma de pensar, transformando-se em algo indigno do homem. E assim criaram novas formas de conduta, passaram a nos ensinar a termos vergonha de nossos corpos, a odiarmos o que nós próprios somos, a termos vergonha de nossa própria natureza. Nossa moral e religião passaram a nos ensinar a associar rigor sexual à dignidade e liberdade, a não acatarmos os desejos do corpo, a mortificá-lo para não sermos escravos do mesmo, de seus apetites e desejos; o homem soberano, para esta forma de pensar, passou a não se deixar levar por seus impulsos e instintos.
Porém tal mudança não deixou de ter consequências terríveis para a humanidade, já que por trás de tal concepção se escondia uma luta ferrenha e doentia entre cada indivíduo consigo próprio: uma luta entre os impulsos mais naturais do homem e o desejo inútil de abafá-los, de calá-los; gerando assim sentimentos de culpa desnecessários ou, no mais das vezes, gerando o efeito contrário, já que tudo que é proibido tende a ser muito mais procurado, estimulando, assim, o que justamente tentam limitar. E sendo a transgressão e o sadismo elementos inerentes à sexualidade humana, o proibido tende não apenas a estimulá-los como distorcer o sexo, gerando por meio do sadismo e da transgressão comportamentos sexuais destrutíveis - como os modernos adeptos do bareback, que buscam, movidos pelo prazer da transgressão, serem contaminados pelo vírus da AIDS, em suas relações desprotegidas. Originando também as mais terríveis perseguições religiosas ao sexo e tornando as mulheres suas principais vítimas, como na Inquisição católica, em que mulheres que demonstrassem seus desejos e sua independência em relação a estes eram tidas como possuídas por um espírito demoníaco e como tal eram mortas.
E assim, a mesma mulher que provocou a expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente, com sua natureza diferente, com seu sexo que atraia a natureza reprimida dos homens “santos”. Transformando a Inquisição na conclusão perfeita da longa história de preconceitos, de repressão, de intolerância, a mulher e ao sexo.
Por meio disso, dá para imaginar o grande choque que acometeu os portugueses ao descobrirem que em novas terras havia pessoas que viviam de outra forma: nus, e que não viam no sexo um sinal de pecado.
Todavia, para tais colonizadores, educados sob a visão de que a nudez devia ser ocultada pelo pecado, a culpa fazia parte de seu imaginário, sendo o corpo considerado como templo do diabo; e uma vez que as índias nuas eram objeto de extrema beleza e sedução para os brancos colonizadores. Havia apenas uma solução: vesti-las e impô-las sua falsa moralidade, calcada no terrível e degradante sentimento de culpa.
Porém onde há culpa, há também castigo e logo tal moralidade foi lhes imposta com total severidade.
Não admira, por isso, que as igrejas estejam abarrotadas de pessoas obcecadas com os sentimentos de culpa e de pecado, já que aprendem desde que nascem a identificarem em todas as coisas naturais expressões de pensamentos pecaminosos.
O afastamento do homem da natureza trouxe-lhe também doses desnecessárias de sofrimento psicológico, já que sendo o homem uma parte da natureza - e como a parte só tem sentido quando vista em seu todo - o afastamento do homem da natureza, não o deixaria se ver como parte de um grande todo, de um grande “plano”, gerando-lhe sensação de abandono e incompletude. Não admira, por isso, que após afastarem o homem da natureza, muitos religiosos digam que lhes falta algo, como um deus ou algo parecido.
Todavia, por meio da FILOSOFIA DO ORGASMO demonstraremos, nos próximos artigos, que, ao contrário do que nos é imposto, o homem verdadeiramente livre é aquele que segue a natureza, que não luta consigo próprio, contra sua própria natureza; não é alguém dividido entre o que se é e o desejo de negar a si próprio; enfim, ser livre jamais implica em renúncias, mas ao contrário, o verdadeiro escravo é aquele que ao reprimir seus impulsos naturais torna-se carrasco de si mesmo. Em suma, o presente trabalho, tenta, como no passado, harmonizar o homem à natureza por meio de sua sexualidade, tida como um meio de autoconhecimento, e ao harmonizar o homem com a natureza, harmonizará também consigo próprio, com que verdadeiramente somos. Demonstrando, enfim, que um maior grau de harmonia entre o homem e sua própria natureza é proporcional também a um maior grau de felicidade.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

DISSERTAÇÃO SOBRE A INÉRCIA (de Marlon Vilhena)

by Anton Semenov
        Ela disse nunca mais, seu filho da puta, nunca mais, tá me ouvindo?, e ele ficou ali, sem dizer palavra alguma, enquanto ela tremia levemente de raiva, pegava a bolsa pendurada na cadeira e saía da cafeteria em direção a qualquer lugar que fosse o mais distante possível dele, que demorou ainda alguns segundos sentado, vendo-a ir-se embora, ainda de boca fechada, não sentia necessidade alguma de pronunciar sequer um suspiro, então chamou o garçom e pediu para fechar a conta e percebeu que ainda teria de pagar tudo sozinho pela última vez, mas ao menos era a última vez, pensou um tanto aliviado, estava cansado daquela encenação, coisas de namoro, ter de paparicar aqui, ser cauteloso acolá, paciente ali do outro lado, merda, estava cansado daquilo tudo, até que foi bom ela ter tomado a iniciativa, pensou que talvez tivesse faltado um tapa em sua cara, a cara dele, para deixar bem claro, a fim de finalizar a situação com chave de ouro, não houve o tapa, então apenas balançou a cabeça para esquecer enquanto recebia o troco e se levantava para atravessar a rua, olhou para o lado por onde ela tinha seguido, mas foi mero ato mecânico, não que estivesse realmente interessado em saber para onde diabos ela estava indo, ela que vá para o inferno e que foda com o diabo que eu não quero nem saber, depois refletiu um pouco mais e concluiu que estava sendo meio duro, infantil provavelmente, então que ela vá à merda, agora sim, tudo devidamente consumado e definido em todos os termos.
        Carregava um pacote, um embrulho com papel pardo sob o braço direito, ainda não sabia o que continha naquele volume, pois acabara de receber da ex-namorada enfurecida e magoada até a última ponta de fio de cabelo, e não houvera tempo para abri-lo, ela não parava de falar, e falava rápido, e falava muito, e ele apenas ouvindo, como sempre, disso ela não podia reclamar jamais, aqueles ouvidos eram latrinas, mas latrinas caras que não se encontram em qualquer lugar, de qualquer modo lá estava ele, tentando acompanhar a verborréia que ela descarregava bem ali, em cima da mesa, junto com o café e os pastéis de queijo, a clientela do estabelecimento mirando disfarçadamente para ambos, alguns riam baixo, outros arregalavam os olhos, alguns outros se sentiam ofendidos com a baixaria, outros ainda faziam cara de quem já vira aquele filme vezes sem conta, como ele próprio, entretanto, como ia sendo dito, lá ia ele com o pacote sob o braço, ela dissera que aquilo era a única coisa que queria devolver-lhe pessoalmente, embora as suas roupas seriam mais tarde entregues no apartamento, pois ela não queria mais que ele pusesse os pés em sua casa, estava tudo acabado, etc. etc. etc., na verdade ele pensou em retrucar que ela pudesse fazer o que quisesse com aquelas roupas, queimá-las, doá-las, ele não se importava nem um pouco, porém ficou quieto, bem quieto, como havia aprendido logo no início do namoro, após as primeiras explosões da recém-namorada, e agora tentava lembrar como foi que começaram a ficar juntos e a se comprometer um com o outro, quem deu o primeiro passo?, certas coisas são para se arrepender, é bem o que parece no fim das contas, pensou lentamente enquanto alcançava a calçada do lado oposto.
        Primeiramente queria chegar ao seu apartamento e só então abrir o pacote, não que estivesse realmente interessado em descobrir o que ela resolvera lhe devolver pessoalmente, afinal de contas, depois de toda a encenação, parecia que tudo ficava um tanto sem graça, claro que era brincadeira, uma brincadeira de mau gosto, meio clichê, mas não encontrava outro jeito de passar o tempo enquanto caminhava em direção ao seu apartamento, que ficava a algumas quadras dali, cerca de vinte minutos, podia parar em algum mercado, comprar alguma coisa para preparar o jantar, ou talvez passar na locadora de vídeos e pegar alguns filmes para assistir mais tarde, mas preferiu seguir direto, a cabeça um pouco curvada para baixo, olhos encarando o concreto das calçadas, era uma tarde movimentada em uma cidade grande, não precisava se preocupar em olhar para os lados antes de atravessar qualquer esquina, bastava seguir o fluxo humano, por isso continuou pensando em brincadeiras de mau gosto enquanto se esbarrava com pessoas falando ao celular, pessoas saindo e entrando de lojas, pessoas carregando pacotes maiores que o seu, pessoas passeando simplesmente, quem diabos tem vontade de passear por uma rua entupida de gente, num bairro feio como aquele, numa cidade fedorenta como aquela e todas as outras grandes cidades?, pensou, isso não seria muita falta do que fazer?, pensou, entretanto estava só matando o tempo enquanto seguia em frente, o embrulho firme debaixo do braço, de uma coisa sabia, não era nada pesado, então provavelmente não era muito caro, ou seja, ela era muito esperta e ele podia esquecer reaver qualquer presente valioso, como joias, por exemplo, que ele tivesse lhe dado, ou isso ou ele definitivamente era um belo filho da puta, o que só fazia com que ajudasse a provar que as mulheres são, em linhas gerais, mais sábias e evoluídas do que os homens, pelo menos em quase tudo, mas não em tudo, ele finalizou o raciocínio ao dobrar a última esquina e avistar o prédio onde morava, um prédio simples e feio, como todo o resto do bairro, inclusive como a si mesmo, portanto, bem lá no fundo, não era tão ruim assim.
        Subiu as escadas até o terceiro andar, o edifício era baixo, não possuía elevadores, cumprimentou o zelador, seu Pereira, que descia com alguns sacos plásticos, cumprimentou a dona Zélia, que morava sozinha em um dos apartamentos do segundo andar desde o dia em que o marido morrera de infarto fulminante no meio da rua, acho que há cerca de dois anos, tentou recordar, acenou para uma garotinha que se mudara recentemente com a mãe para o apartamento no final do corredor do seu andar, e que, naquele momento, brincava com um carrinho de fricção, puxava o brinquedo para trás, apertando as rodas no chão de azulejos, depois o soltava para vê-lo colidir com a parede ao lado da porta, dava um pequeno sorriso, voltava a pegar o carrinho e recomeçar a diversão, estranho uma garota brincar com carrinhos, no meu tempo não era assim, mas o tempo dele já havia passado há muitos anos, nem sabia mais direito o que era o tempo dele, quem sabe ainda estivesse parado no tempo dele e não soubesse qual tempo era aquele, aquele mesmo em que se encontrava, com um pacote agora nas mãos, procurando as chaves no bolso da calça, observando uma criança estranha, é loirinha, só agora havia reparado em seus cabelos, a menininha levantou o rosto para ele, desta vez sem sorrisos, apenas um olhar de desconfiança, de quem ouviu direitinho quando os mais velhos repetiram centenas de milhares de vezes para não falar com estranhos, porém sua atenção se prendeu ao pacote que ele levava consigo, não, não é pra você, ele não disse em voz alta, somente formulou a frase em sua cabeça, percebeu que não adiantava falar nada disso para ela, enfiou a chave na fechadura, girou a maçaneta e empurrou a porta, não sem antes lançar-lhe outro aceno antes que ela voltasse os olhos para o carrinho meio esquecido em sua mãozinha meio gorducha, talvez cinco, talvez seis anos, não mais que isso, refletiu ao fechar a porta.
        Ligou a luz da sala, a iluminação natural à tarde não era muito boa, por isso o aluguel não era tão alto, ao menos foi o que o corretor dissera quando vieram visitar o recinto pela primeira vez, deixou o embrulho sobre a mesinha de canto ao lado do único sofá, de três lugares, normalmente este móvel possuía duas opções de uso, era onde dormia após uma noite de alguns filmes sem conseguir pegar no sono, ou então quando dormia com a namorada, e obviamente a partir daquela data as noites de filmes aumentariam de frequência durante as semanas, sentia isso, era um aficionado por filmes, já escrevera alguns roteiros e os enviara a algumas pessoas que conheciam outras pessoas que mantinham contato com grandes pessoas do mundo da mídia em geral, jornalistas, escritores, atores de primeira, segunda ou terceira linha, assistentes de diretores etc., mas até aquele momento não tinha obtido qualquer resposta, satisfatória ou não, sobre qualquer um dos textos, tinha a impressão de que os mesmos sequer chegaram às mãos e aos olhos de quem deveriam chegar, mas também não fazia muitos planos, mantinha os pés bem plantados no chão, e de repente se lembrou de uma conversa que tivera com a recente ex-namorada, uma conversa em, que mais uma vez, decidira não abrir muito a boca, se não para bebericar o vinho que havia comprado para comemorar o primeiro e único aniversário de namoro de ambos, uma conversa em que as palavras futuro e esforço e objetivo se mantiveram entre as cinco mais proferidas e enfatizadas por quase uma hora, não é necessário tentar lembrar quais as outras duas, quando ela resolvera parar de falar, ao olhar bem nos olhos dele, tomar um grande gole da taça de vinho nas mãos e ir para a sacada do apartamento pegar um ar fresco, claro que ele sabia que era com o intuito de evitar sua presença ali, embora isso fosse um pouco difícil, já que era ele próprio quem morava naquele endereço, então ela apenas voltou para dentro, pegou mais um pouco de vinho e voltou para a sacada, ele a chamou para vir assistir a um filme, ela respondeu que não estava afim, ele disse que tudo bem, não iria forçar nada, e foi quando ela veio de lá de fora, tomou outro grande gole da bebida, deixou sua taça sobre a mesinha de canto e pôs-se a falar e a falar, só que mais alto do que antes, com mais sentimento do que antes, sinceramente, com mais raiva do que mágoa de antes, gritando que ele nunca fazia nada diferente daquilo, que sempre era ela quem dizia, que sempre era ela quem se descontrolava, que era ela quem decidia, ele respondeu nesse momento que não era bem assim, que fora ele quem escolheu o vinho e a receita de frango que, aliás, estava quase pronto, faltavam poucos minutos para tirar do forno, então ela gritou, não, ela esbravejou alguma coisa como puta que pariu, ou então mas que merda, ele não lembrava muito bem dos palavrões, afinal todos significam a mesma coisa, e ela repetiu novamente e de novo as palavras futuro e esforço e objetivo, mais alguns palavrões, não exatamente nesta ordem, pegou a bolsa e disse que ele podia comer o frango todo sozinho e saiu, ele ficou um minuto parado no meio da sala, o controle remoto da televisão na mão, até perceber que já estava na hora de retirar o assado do forno.
        Isso foi dois meses antes, a relação não terminou daquela forma, eles, ou melhor, ela reatou o namoro alguns dias depois, disse que tinha feito um papelão, que não queria dizer aquelas palavras de verdade, mas que se preocupava com certas coisas na vida e ele parecia sempre um pouco alienado dessas mesmas coisas, mas tudo bem, não precisamos falar disso, se você não quiser, vamos assistir a um bom filme hoje, quem faz o jantar sou eu, ele aceitou e tudo pareceu voltar aos antigos eixos, até aquela tarde, quando ela marcou o encontro na cafeteria, a mesma que frequentavam desde que tinham se conhecido, ela havia ligado do escritório, ele pensava que podia ser algo grave, mas nem tanto, talvez apenas um papo para descontrair no final do dia, foi isso o que pensava quando ela adentrou o estabelecimento com um semblante sério e sequer provou dos pastéis que, aliás, estavam muito bons, e começou a dizer que havia pensado melhor, que aquela situação não estava dando certo, que era melhor cada um seguir o seu caminho etc., coisa e tal, ele não estava entendendo, disse isso, foi quando ela começou a ficar realmente alterada, retirou da bolsa o pacote e o deixou em cima da mesa, ao lado das xícaras de café, e desta vez, somente desta vez ele quis responder algo mais, indagar mais, então ela não se aguentou e soltou alguns palavrões, ele já estava acostumado àquilo, só ficou um pouco surpreso com o tal filho da puta, todos nós a partir daí já conhecemos a história, e era nisso tudo que ele pensava, encarando o embrulho pardo na mesinha de canto, sempre em silêncio, antes de buscar um copo de água na cozinha, ela parecia ter um problema preocupante com oscilações de humor, ou talvez fosse ele quem carregasse o problema, mas nunca tinha antes visto a relação por esse ponto de vista, fazia o que tinha de fazer, ligava em seu trabalho vez em quando, os dois passeavam vez em quando, os dois bebiam juntos vez em quando, de repente recordou um detalhe, o de que faziam sexo à luz de velas, especialmente uma noite em que haviam voltado de uma sessão do cinema, ele se preocupava com certas coisas como as velas, isto é, o que ela falara não era totalmente verdade, não que estivesse magoado com tal declaração, não sentia mágoa por assuntos pequenos, aquilo era um assunto pequeno para ele, então notou que realmente o problema poderia ser com ele, que não fazia muito além daquilo que fazia há tanto tempo, que escrevia roteiros que não sabia onde tinham ido parar, que não procurava buscar algo mais em sua vida, que buscava saber o que iria jantar e não se importava com o resto de seus dias medíocres, com querer um lugar melhor para viver, atitudes pequenas que se tornavam grandes para ela, que não se contentava com o escritório, que buscava reconhecimento dos outros, ele deveria também buscar reconhecimento dos outros, afinal de contas, você é ou não é um escritor?, na verdade roteirista, ora dá na mesma, não dá na mesma, é um pouquinho diferente, você pensa em um escritor como alguém que produz contos, romances, meu trabalho é um pouco diferente, você é louco, não sou louco, sou mais como alguém que tem um conceito diferente da maioria, você é louco, sim, você usa tanto a palavra diferente que acaba ficando igual à mesma maioria de que quer tanto se distanciar, não é verdade, você está delirando, acho melhor eu ir embora, preciso trabalhar muito cedo amanhã e não trouxe roupa para me trocar, e ele ficou nu no sofá, olhando através da sacada e pensando se seria uma obrigação ela ter de recordar toda vez o futuro, o futuro besuntado de esforço e objetivo, mesmo depois de um sexo em que ela havia tido dois orgasmos.
        Voltou com o copo de água da cozinha, bebeu um pequeno gole, era mais para molhar os lábios e ter algo com que ocupar as mãos enquanto não as avançava para cima do pacote, a despedaçar o papel pardo que agora estava um tanto amassado, fora ele quem o havia amassado e não se dera conta, no fundo, no fundo não queria tê-lo recebido, mesmo que não soubesse ainda o que escondia, não queria tê-lo aceitado daquela forma, pensou que poderia tê-la segurado na cafeteria enquanto conversavam um pouco mais, podia tê-la acalmado para não lhe dar o direito daquela briga entre os pastéis de queijo e o café, que ela devia ter ficado e bebido do café para se acalmar, mas que ideia estúpida, café não acalma ninguém, sua besta, não devia tê-la mandado à merda, mesmo que só tenha falado isso para si, minha nossa, tê-la imaginado foder com o diabo, quem era ele naquele momento?, estava muito errado, estava errado porque não era nada do que pretendia para ela, mas veio um rastro de pensamento obscuro de algum canto daquele apartamento, como uma pulga que se instala devagar atrás da orelha e começa a incomodar aos poucos, um pensamento estranho que ilumina feito uma lanterna com a pilha fraca, que vai tentando iluminar o caminho à frente e falha e ilumina e falha de novo, um pensamento que mostrava um quadro em sua mente e de que até então havia percebido somente a moldura, um pensamento que dava voz àquele quadro, uma voz rouca e baixa dizendo anda logo, abra esse maldito pacote e veja o que restou para você, o que restou para um medíocre como você, nesse pacote sobrou alguma coisa a qual ela dava importância e de que você fez pouco caso, veja o que ela deixou e então volte os olhos para mim, este quadro que você sabe bem o que representa, não precisa necessariamente dessa lanterna para me enxergar, sabe o que quero lhe mostrar e não tem coragem de me encarar, não é mesmo?, pois tome coragem dessa vez que pode ser sua última chance de ter realmente algum vislumbre do que virá a ser o resto de seus dias, deixe de bancar o roteirista pois agora é você o protagonista nesta história, largue esse copo de água e veja o rascunho de si próprio, então ele levantou o pacote com uma das mãos enquanto depositava a água sobre a mesinha de canto, arrebentou o barbante que o envolvia e o jogou para um lado, rasgou o papel pardo e o arremessou para o outro lado, sentou-se no sofá, suas mãos inertes sobre um monte de páginas juntas por uma encadernação plástica , seu nome escrito em letras maiúsculas no centro da primeira folha, o volume agora parecia pesar mais do que antes, como isso era possível ele não queria saber, respirou fundo e folheou depressa as páginas e viu que ali não havia palavra alguma, o volume inteiro mostrava um nada branco, nada senão seu nome no rascunho de capa, não entendia, aquilo não era dele, ou era e não se lembrava, aquilo estivera com ela e ele não entendia o porquê, não se lembrava de lhe ter deixado alguma vez um trabalho seu para apreciação, talvez fosse o prenúncio de uma autobiografia, uma ideia ridícula, não havia muito o que ele pudesse contar sobre si próprio, e foi quando ouviu a voz baixa e rouca novamente, agora cantarolando uma canção de sua infância, uma antiga e esquecida canção que estivera alojada no fundo de seu cérebro, em meio a teias e poeira dos anos passados por ele, isso mesmo, passados por ele simplesmente, ouviu a voz sentenciar que aquilo é o rascunho de si próprio, aquilo é o grande vislumbre do resto de si próprio, porém não era a mesma voz baixa e rouca, era sua voz saindo por sua garganta, sua voz que quase sempre se calara quando devia ser ouvida, de repente sentiu uma sede imensa, uma sede de uma vida inteira, procurou o copo na mesinha e esbarrou nele com os dedos trêmulos, o vidro se espatifou e no meio dele, sobre o assoalho, surgiu uma poça indefinida, como sua vida em branco, como aquelas páginas sem sentido, e descobriu num lampejo que a poça era o quadro revelado afinal, a moldura era o apartamento escuro, e tudo o que restava ali era o seu nome intitulando o calhamaço de um vazio que doía pesado em seu peito.
        Tropeçando, saiu para o corredor lá fora. A menininha loira continuava com seu carrinho de fricção. Ele a fitou, ela o fitou e desta vez lhe sorriu. Largou o brinquedo e viu-o correr acelerado até se chocar no sapato daquele vizinho que queria chorar, chorar como ela quando queria atenção de sua mãe antes de dormir, e parecia haver desaprendido como se fazia isso.



quinta-feira, 19 de abril de 2012

MANIFESTO A FAVOR DO DIREITO AO ABORTO DE FETOS ANENCÉFALOS (de Bosco Silva)



Com 8 votos a favor e 2 contra, ministros do Supremo Tribunal Federal decidem a favor da interrupção da gravidez nos casos de fetos anencéfalos. Em outras palavras, o aborto nesse caso deixa de ser crime.
Fetos anencéfalos são fetos que não possuem cérebro. O que torna a vida extra-uterina para esses bebês inviável, causando inutilmente a suas mães perigos de saúde e traumas psicológicos já que a mulher passa a se afeiçoar de uma criatura que viverá apenas alguns minutos após o parto ou, muito excepcionalmente, alguns meses de uma vida vegetativa mantida por aparelhos.
Esta decisão, em termos de Brasil, país onde a religião ainda possui um grande peso, é um avanço da racionalidade contra o misticismo vazio, da emotividade sem fundo prático, da tradição não crítica e retrógrada etc. É uma vitória antes de tudo do chamado estado laico, um dos grandes pilares da democracia, que afirma que o estado deve ser neutro em relação a questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião. Gerando, por sua vez, livre culto a todas as formas de religiosidade ou de pensamento, e assim evitando mazelas do passado, como as perseguições religiosas. Porém, infelizmente, vemos que, como todas as decisões que tocam em questões de cunho religioso, muitos grupos religiosos, mais uma vez, tentam forçar uma regressão ao passado se opondo a decisões importantíssimas que afetam a saúde de muitos. E assim como se opõem ao uso de células-tronco na recuperação de doentes ou a campanhas em favor do uso de preservativo na luta contra a AIDS, seria de esperar que a discriminação do aborto de fetos anencéfalos fosse tomada com protestos, mesmo que nos últimos anos avanços tecnológicos permitam exames precisos para este tipo de malformação fetal e que seja cada vez mais evidente para muitos que ninguém vive sem um cérebro. (Embora muitos religiosos certamente discordem disso, argumentando que a consciência se encontra em outra parte do corpo, talvez no pé ou no coração, para defenderem tal posição).
Parece que para estes grupos seria agradável viver em um país em que sua mentalidade se situasse na idade média, como em muitos países árabes em que ainda vigora os estados que tem como base a religião por princípio, como as teocracias islâmicas dos países mulçumanos em que, por princípios religiosos, fazem, assim como na idade média, das mulheres suas principais vítimas, levando muitas, em pleno século XXI, a serem condenadas ao apedrejamento público em caso de adultério, ou tolhendo devotos de religiões rivais com a violência.
Todavia, é preciso lembrar que a descriminalização do aborto em casos de anencefalia, como todo direito, não é uma imposição, mas dá a mulher o direito de escolher manter ou não a gravidez, ou seja, não irá contrariar nenhuma mulher com relação a suas crenças religiosas, permitindo que tomem suas decisões com base apenas em sua vontade. Pena que muitos religiosos não veem isso. 
Contudo, não deixa de ser surpreendente que em pleno século XXI ainda haja pessoas que, baseadas em conceitos e ideias religiosas, como as de alma - ideias que jamais são comprovadas e que possuem tantas interpretações quanto queira a moda do dia ou da TV -, se acham do direto de influir nas decisões de outras pessoas, forçando-as a tomarem atitude e viverem conforme o que estas definem como o que seria o melhor modo, trazendo risco a saúde física e psicológica destas. Obrigando muitas mulheres a se arriscarem a procedimentos não confiáveis e inseguros de interromper gravidez. O que não deixa de ser contraditório já que são também estas mesmas pessoas que, baseadas em seus conceitos religiosos, afirmam que todos possuem o livre arbítrio, o poder de tomar decisões por si próprias, mas quando se trata de decisões tomadas por outros a respeito de sua sexualidade são imediatamente tolhidos e condenados à execração pública. A impressão que dá é que, para estes grupos, todos são livres desde que sigam sempre o que é unicamente ditado por eles. Mas que bela noção de liberdade, não é mesmo!
Em suma, de minha parte creio que todos temos o direito de acreditar no que quisermos, em deus, com seus milhares de tipos, espíritos, duendes, saci Pererê, em papai noel, em ideologias políticas etc., mas guarde para você suas ideias, não obrigue ninguém a viver conforme suas crenças. Respeite o modo de agir e pensar alheios, e só interfira se caso seus direitos forem ofendidos. E se, de modo geral, você é contra o aborto, então ótimo. Não faça um. Mas não obrigue uma mulher que, por qualquer que seja o seu motivo, a abortar numa clinica clandestina sofrendo infinitos riscos. Deixe que esta decisão seja tomada livremente por ela e que esta usufrua de seus direitos e que cada um seja plenamente responsável por seus atos.