quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A LENDA DA BELA DA JANELA DO PALACETE BIBI COSTA


NOS ANOS DE 1920, em Belém, quem passasse pela travessa Joaquim Nabuco com Avenida São Gerônimo (hoje Av. José Malcher), e olhasse para a janela de uma das torres do Palacete Bibi Costa, veria uma bela jovem de olhar tristonho a pentear seus longos cabelos loiros, a observar a rua. Era Maria da Glória, cujo pai a mantinha presa desde que nascera para que não pudesse conhecer outro rapaz além daquele que ele havia escolhido para ser seu noivo.


E por ser vista sempre na janela, passou a ser chamada de “A Bela da Janela”, gerando uma velha lenda, que ainda é lembrada pelos mais velhos moradores de Belém.


Reza a lenda que Maria da Glória não era a única filha do Coronel Júlio de Andrade. Ela havia nascido grudada a uma irmã gêmea, Maria Isabel, unidas pelo peito, com um único coração que era dividido por elas.



Dizia-se que quando uma sentia fome, a outra se punha a chorar; se em uma fosse feito cócegas, a outra ria como se tivesse sido nela. Mas Maria Isabel logo morreu, devido a complicações da má formação. Foi quando puderam ser finalmente separadas por cirurgia.


A menina cresceu com saúde, mas, diziam, que estranhos fenômenos passaram a acompanhá-la por toda a vida.



Moradores relatavam que, ao caminhar na Travessa Joaquim Nabuco com Nazaré, à noite, a viam passear, branca feito tapioca, em um longo vestido branco esvoaçante, sem tocar o chão com os pés; e quando passavam em frente ao palacete, lá estava ela, na janela, como sempre, penteando seus longos cabelos.


Dizia-se que o vulto branco era a irmã morta que ao morrer havia se separado apenas no corpo, pois que na alma, elas continuavam grudadas como no tempo em que dividiam o mesmo coração; e que a irmã morta a visitava todas as noites, e fazia pela outra o que esta não podia fazer por si própria por estar presa pelo pai ao quarto, como dividir com a irmã a simples sensação de passear na rua deserta à noite.



Reza a lenda que Maria da Glória se enamorou de um jovem rapaz que um dia ao passar a viu na janela, e por meio de amorosos bilhetes jogados pela janela, com a ajuda dele e da irmã morta, conseguiu se livrar do cativeiro do pai, sendo substituída pela visagem da irmã durante seu casamento, enquanto Maria da Glória fugia com o rapaz para Portugal.


Dizem, ainda, que no casamento tudo ocorreu bem, exceto o estranho frio das mãos e a palidez excessiva da noiva.


* Ilustrações Meramente Ilustrativas, Exceto do Palacete Bibi Costa.


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domingo, 6 de fevereiro de 2022

DRÁCULA DA LITERATURA VERSUS DRÁCULA DO CINEMA

DRÁCULA DA LITERATURA VERSUS DRÁCULA DO CINEMA

Finalmente li o famoso romance de terror, Drácula, de Bram Stoker (1847 - 1912), de 1897. A demora deveu-se a eu achar que o romance, por ter sido bastante adaptado ao cinema, não teria nenhuma surpresa, o que o tornaria enfadonho. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que eu estava enganado --- embora confesso que algumas das surpresas foram acompanhadas de certa estranheza e decepção motivado pela inevitável comparação entre o Drácula original com sua versão para o cinema, que o leitor moderno conhece primeiro, e fonte principal de decepções relatadas por alguns leitores. Então vou ressaltar aqui alguns pontos que devem causar estranheza aos leitores modernos. 


Um Drácula com Bigodes e Barba

Bela Lugosi

A primeira surpresa que o leitor moderno terá ao ler o livro, já no início da história, é se deparar com um Drácula que possui bigodes e barba branca, um velho com aspectos desagradáveis, com as palmas das mãos peludas e que emana cheiro desagradável, que Jonathan Harker, o enviado da corretora londrina encarregado de vender alguns imóveis para o conde, faz questão de salientar em seu diário; é um Drácula bem diferente do personagem charmoso, sedutor e  elegante, retratado pelo cinema que causava um misto de medo e suspiros apaixonados no público feminino, principalmente a partir da atuação do ator húngaro Bela Lugosi (1882 - 1956), em filme homônimo de 1931; ator que emprestou charme e elegância ao personagem, que ficou tão conhecido pelo seu papel de Drácula que, ao morrer, pediu para ser enterrado vestido de Conde Drácula. A elegância, a sensualidade e o charme serão definitivamente incorporados pelo cinema a figura do Drácula, que usará de tais atrativos para seduzir suas vítimas, bem diferente do Drácula de Bram Stoker, que usa de poderes hipnóticos e sobrenaturais para conquistar suas vítimas e fazerem ignorar sua aparência repulsiva. 

Uma Narração Fragmentada

Outra coisa que deve chamar a atenção do leitor, dessa vez não de modo imediato, é a forma com que o autor escolheu para contar sua história, por meio de vários narradores, que utilizam trocas de cartas e diários pessoais, um artifício já bastante popular na literatura, conhecido como romance epistolar, mas que Bram Stoker modernizou ao juntar novidades tecnológicas da época, como mensagens de telégrafo, notas de jornais, textos datilografados, e até áudios gravados em fonógrafo, um instrumento recém inventado. Tal uso foi genial, pois, além de dar à narrativa um aspecto fragmentário, de quebra-cabeça, que por si só já prende o leitor, permite que a história possa ser vista das mais variadas perspectivas dos personagens --- embora o autor não tenha imprimido aos diários e cartas as características pessoais dos personagens, o que deixaria o artifício ainda mais interessante. 


A Atmosfera Religiosa do Romance



A atmosfera extremamente religiosa do romance, que transparece por meio das inúmeras expressões religiosas e referências bíblicas citadas pelas personagens, também poderá será recebida com estranheza pelo leitor de hoje, principalmente se não for a feita a religião cristã, fato que me incomodou algumas vezes por seus exageros, dando-me a sensação de estar lendo mais um texto religioso, de propaganda cristã, do que um romance de terror. Mas isso tem uma explicação. Bram Stoker se valeu do clima extremamente religioso da Inglaterra do final do século XIX para transformar sua história em uma luta entre o bem e o mal, uma guerra entre virtuosos cristãos, de um lado, e forças malignas pagãs, do outro, associando Drácula ao Diabo. Isso, sem dúvida, foi um ótimo recurso para a identificação dos leitores da época com os personagens do livro, que certamente foi uma das causas para o sucesso do livro na Inglaterra vitoriana.


Drácula em Doses Homeopáticas



Mas certamente o que mais o leitor de hoje deverá estranhar ao ler Drácula, será a pouca presença do famoso vampiro nas páginas do livro que, ao contrário dos filmes que exploram ao máximo sua presença, no livro ele está apagado, só aparecendo pra valer mesmo, nos quatro primeiros capítulos de um total de 27 capítulos, quando o conde recebe o advogado Jonathan Harker em seu castelo e o mantém prisioneiro. Depois disso ele some, aparecendo apenas em umas três ou quatro cenas de curtíssima duração, sem grande destaque. Sua ausência é preenchida por citações e referências feitas pelos demais personagens a ele durante a busca por seu paradeiro, de modo que ele está sempre presente, mas indiretamente; este recurso foi bastante elogiado pelo escritor Stephen King, que disse ter sido feito com grande maestria, único na literatura inglesa. Mas a verdade é que isto deverá frustrar a maioria dos leitores modernos, que esperavam uma maior participação do rei dos vampiros, afinal, o livro leva o nome dele. Por isso, é impossível evitar a pergunta: Como um personagem que aparece tão pouco se tornou tão famoso?

Bella Lugosi como Drácula

A verdade é que a fama de Drácula não se deve ao livro, mas às suas adaptações para o cinema. Todas as qualidades que fizeram dele um personagem cativante e ainda hoje tão conhecido, mesmo por aqueles que nunca leram o livro, não estão contidas no livro de Bram Stoker, mas nos filmes. O livro já tinha uma estrela programada para brilhar que absorveu todo o conhecimento do autor, e capítulos e mais capítulos para mostrar sua genialidade, talento e conhecimentos, e este personagem não era Drácula, mas o professor Van Helsing, que no livro está mais para um padre exorcista do que um estudioso erudito. É bem possível que, se Bram Stoker tivesse tido a oportunidade de ver o grande sucesso de Drácula no cinema, se surpreenderia muito, pois ele o criou para ser temido e odiado, não amado pelos fãs de filmes de vampiros, filmes que o despiu de todo primitivismo e características desagradáveis criadas por seu criador, e o dotou de sensualidade, elegância e charme, qualidades fundamentais que realmente foram as responsáveis pelo sucesso de Drácula. 


O cinema, com sua linguagem cheia de reviravoltas, também deu a história de Drácula as reviravolta que a história original não possui, originando mais uma causa de estranheza no leitor moderno tão acostumado com a linguagem do cinema, causa de muitos leitores não gostar do desfecho do romance de Bram Stoker.




Então, pelo o que vimos aqui, para bem saborearmos a escrita e a história criada por Bram Stoker, torna-se necessário separarmos o Drácula criado por este de sua versão cinematográfica, embora seja algo quase impossível ao leitor moderno, mas não custa tentar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

CONHEÇA OS PERIGOS DO VÍCIO EM PORNOGRAFIA


 

CONHEÇA OS PERIGOS DO VÍCIO EM PORNOGRAFIA 

A pornografia não nasceu com o vídeo, muito menos com o cinema. De fato, é bem mais antiga do que eles. No século XVIII, já estava presente na literatura por meio de livros, de autores anônimos, com histórias descrevendo cenas de sexo e ilustrados com desenhos picantes, vendidos de forma escondida, por baixo do balcão das livrarias. Na França, durante o mesmo período, tais livros eram chamados de “livros para ler com uma só mão”, pois dizia-se que enquanto o leitor o segurava com uma mão, com a outra, se masturbava. Mas foi com a invenção da fotografia e do cinema que a pornografia alcançou o status de uma das mais ricas e poderosas indústrias culturais da modernidade.


A Indústria Pornográfica Hoje



Se com o surgimento dos filmes pornográficos a indústria pornográfica tornou-se uma indústria bilionária, com o surgimento da internet ela se tornou uma das mais influentes indústrias culturais de todos os tempos. Pois, se antes para se ter acesso a pornografia era necessário ir a sua procura (cinema, sex shop), em geral lugares não tão acessíveis, principalmente a menores de idade, hoje é ela que vem até nós, à nossa casa, ou em qualquer lugar que estejamos, por meio da internet. Nunca foi tão fácil obter material pornográfico quanto em nossos dias. Hoje, crianças, em média, começam com 8 anos de idade a ter contato com filmes pornográficos; bem diferente do passado.


A pornografia tornou-se tão influente em nossos dias, que comportamentos usados apenas em cenas de filmes pornográficos saiu dos estúdios de gravação e passou a fazer parte do comportamento da grande maioria das pessoas, mesmo que elas não saibam disso; um bom exemplo disso é a moda da depilação total da vagina, bastante comum hoje em dia, que nasceu na década de 1990 como uma exigência dos diretores de filmes pornôs sobre suas atrizes com o objetivo de obter melhor captação das imagens das penetrações sexuais pelas câmeras, sem o obstáculo dos pelos pubianos; outra forte influência, além da distorção do comportamento sexual humano, foi que mulheres passaram a relacionar maior prazer sexual ao tamanho do pênis do parceiro (então uma preocupação apenas dos homens, demonstrando a influência machista dos filmes pornôs) embora o canal vaginal seja, em média, de 7 a 13 cm de extensão, e que o mais importante órgão do prazer sexual feminino, o clitóris, seja um órgão externo a vagina.


E hoje, já se começa a ter uma ideia mais clara da influência perniciosa do excesso de pornografia.


A Exploração de Mulheres pela Indústria Pornográfica


O documentário Hot Girls Wanted, da Netflix, acompanha jovens norte-americanas durante a tentativa de se tornarem famosas por meio de filmes adultos. 


Munidas de um agenciador, que as hospeda e que procura oportunidade de cena em filmes pornô para elas, e que lucra uma porcentagem em cima do que elas ganharem. 


Em geral, são dadas a elas três oportunidades de participação em filmes adultos para acontecerem. Caso isso não ocorra (o que não ocorre com 99% destas jovens), se quiserem continuar na profissão, terão que aceitar papéis em sites pornográficos cada vez mais violentos e degradantes. No documentário uma delas participa, sem saber, de um site dedicado a sexo violento e humilhante, que simula estupro e que força sexo oral nas atrizes até que estas vomitem.


O documentário afirma que pesquisa recente garante que 40% dos filmes e vídeos dedicados a pornografia desonra e rebaixa a imagem da mulher, fazendo com que seu público veja a mulher apenas como um objeto sexual.




O documentário também aborda o caso de doenças sexualmente transmissíveis, já que é uma exigência da indústria pornográfica filmes feitos sem o uso de preservativos, embora seja obrigatório exames frequentes, abordando o caso da contaminação de uma das participantes por um tumor vaginal.


Uma das cenas curiosas do documentário, é quando, ao conversar com seu namorado, uma das meninas ouve dele de que o que elas fazem nada mais é do que uma forma de prostituição; a moça se surpreende com a afirmação dele, o que o leva a afirmar que é a mesma atividade já que elas fazer sexo em troca de dinheiro. A afirmação dele a deixa pensativa.


E, de fato, é curioso como a indústria da pornografia cria um falso glamur entorno da profissão de atriz pornô, escondendo que a maioria das candidatas a atriz pornô acabam não tendo sucesso e terminando por se entregar definitivamente a atividade de prostituição. Contribuindo com isso, há termos usados que amenizam o pesado termo “prostituta”, o que ajuda ainda mais a esconder a realidade, termos comuns hoje, como “garota de programa”, “acompanhante”, “modelo”. 




Por fim, Hot Girls Wanted termina por mostrar o sonho de fama desfeito de algumas das meninas, que ao desistirem de se tornarem atrizes pornô, escolhem outra profissão, e retomando sua vida em família.


Vício em Pornografia



Hoje, muito se discute sobre o vício em pornografia. Pesquisas mostram que a pornografia pode ser tão viciante quanto drogas. E pode estragar relacionamentos amorosos, causar impotência sexual e baixa autoestima, prejudicar a atenção no trabalho, causar masturbação compulsiva e a levar a formas criminosas de sexo.


Como uma droga qualquer, os filmes pornôs estimulam substâncias cerebrais responsáveis pelo prazer; e com o tempo exigirá que o usuário procure por vídeos mais audaciosos para sentir o mesmo grau de prazer passado. Isto é, se um vídeo com um homem e duas mulheres, não causa mais o prazer da novidade, o usuário passará a procurar vídeos com cenas com mais de três pessoas fazendo sexo; logo estará vendo filmes com dezenas de casais em ato sexual para lhe trazer o mesmo prazer da novidade de antes. O que o levará a não mais ver graça no sexo comum feito com a namorada ou esposa, preferindo assistir filmes pornô e se masturbar do que fazer sexo com sua companheira, gerando descontentamento, desavenças e, por fim, crise em seus relacionamentos amorosos.


Mais o pior e o mais grave, é que, assim como no caso das drogas, em que o viciado procurará por drogas mais pesadas para se satisfazer, o viciado em pornografia poderá procurar por filmes com formas de sexo mais audaciosos, chegando a formas de sexo bizarro, e até mesmo criminosos, envolvendo tortura, pedofilia e até sexo com cadáveres. E não é mais necessário procurar na famosa Deep Web materiais dessa forma de sexo, eles já se encontram em sites gratuitos da internet comum, com filmes que simular relações sexuais entre pais e filhos, mulheres vestidas como crianças, simulando sexo com crianças, sexo simulando estupro, ou sexo com cadáveres. Daí para a procura de filmes com cenas reais, é um grande estímulo, não apenas isso, como também para a realização de tais práticas sexuais criminosas.


domingo, 2 de janeiro de 2022

A VISAGEM DO CEMITÉRIO DOS INDIGENTES, DO GUAMÁ


A VISAGEM DO CEMITÉRIO DOS INDIGENTES, DO GUAMÁ


Guamá, 1934, Hospício dos Lázaros do Tucunduba


Duas enfermeiras saíam tarde da noite do Hospício dos Lázaros do Tucunduba, devido a preparação da maniva para a maniçoba que já estava a oito dias sendo cozida em cinco latões de manteiga ao fogo da lenha, que seria servida aos internos no almoço do Círio daquele ano. 


Pelo caminho, as duas conversavam sobre as tarefas do dia e dos seus planos para o Círio, quando passaram ao lado de pequenos amontoados de terra, com cruzes de madeira envelhecidas e carcomidas em cima, que eram clareadas pela luz do candeeiro que levavam consigo. Era o cemitério dos indigentes do Hospício dos Lázaros do Tucunduba, que ficava no caminho e que tinham de passar todo dia para ir para suas casas. O cemitério possuía apenas uma estreita faixa de mato rasteiro que o separava do caminho tomado por elas.

 

— Não lhe dá medo de cruzar esse caminho à noite, Dona Felícia? 

— Nem um pouco, piquena. 

— Mas nem um pouquinho mesmo?! Pois eu morro de medo. 

— Sabe que eu até gosto de ter eles de companhia durante a caminhada! 

— Cruz credo, Dona Felícia! 

— E lembro de cada um deles e do dia dos enterros, também. 

— Ave-maria, mulher, isso não te assusta mesmo? 

— Não. Passo aqui e ainda aceno pra eles. 

— Aff, Maria! 

— De quê temer se tão mortos, ora! É dos vivos que devemos ter medo, piquena. E desses, eu tenho medo, sim! 

— É, a senhora não deixa de ter mesmo razão. E deviam era pôr um muro pra proteger o cemitério dos tatus e porcos do mato que cavucam a terra para comerem as carniças dos mortos. Não é porque eram pobres que não se vai ter um pouco de respeito por eles. 

— Nosso destino é mesmo morrer e virar comida de tatu, piquena, não tem jeito. Ontem mesmo vi dois buracos grandes em uma cova, não era de tatu, mas de porco do mato, deviam ser dois porcões, e o que sobrou da carcaça do defunto estava espalhada por cima da cova. 

— Mas para as autoridades um muro de tijolo é luxo para quem morou a vida toda em casa de barro! 

— É, piquena. Não tiveram cuidados com eles quando estavam vivos, vão ter agora que estão mortos? Ora! 

— Isso é verdade. O que me deixa sem esperança alguma na vida, Dona Felícia. 


Enquanto contornavam o cemitério, as duas enfermeiras ficaram em silêncio, absorvidas pelos pensamentos que nos ocorrem quando encaramos nosso destino inevitável. O silêncio durou até que Dejanira passou a ouvir um estranho ruído de roer de dentes, e não pôde deixar de pensar nos tatus. 


— Foi só falar neles que os sacripantas já começaram a cavucar a terra. Devem estar mastigando e repuxando as carcaças dos mortos para fora da terra, agora mesmo. O que a senhora acha, Dona Felícia? Hem, Dona Felícia? Dona Felícia?! 


Dejanira parou e viu que a velha enfermeira havia ficado para trás. Ao virar o candeeiro para trás de si, viu Dona Felícia acocorada no meio do caminho. 


— Vixe! E isso é hora de mijar, mulher! Me avise pelo menos e não me deixe falando sozinha! 


Dejanira caminhou, então, ao encontro da outra. 


— Cuidado com suas partes íntimas ao se levantar, mulher; com essa lua cheia clareando tudo, se tiver homem por perto, vai ver tudo!, e riu. 


Ao chegar mais perto da velha amiga, notou que o estranho barulho de dentes vinha dela, que parecia roer os próprios dentes agachada, passando as mãos por entre os cabelos deixando-os todo desgrenhado. 


— Dona Felícia? Dona Felícia? O que está acontecendo com a senhora? A senhora está bem?” 


Ao tocá-la no ombro com a mão, a velha suspendeu o rosto em direção à lua e se pôs a grunhir alto como um porco com os olhos revirados, convulsionando o corpo todo, em uma grande tremedeira. 


— Dona Felícia! NÃO!!!” 


Dejanira correu assustada daquilo deixando cair o candeeiro pelo caminho enquanto ouvia o grunhir e o bater de patas da coisa que passou a segui-la. Correu e correu, até que saiu do caminho de terra e entrou no mato, enquanto o imenso porco preto parava à beira da estrada sob a lua cheia que brilhava por sobre as árvores. De repente, um novo grunhido se fez ouvir vindo do mato, e um segundo porco preto apareceu no caminho de terra, arfante e faminto, se encontrando com o primeiro, e os dois passaram a correr juntos, um ao lado do outro, rumo ao cemitério dos indigentes.


* Tirado e Adaptado do Romance Após a Chuva da Tarde.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

APÓS A CHUVA DA TARDE: UM ROMANCE DE VAMPIROS PASSADO NA AMAZÔNIA


APÓS A CHUVA DA TARDE:

UM ROMANCE DE VAMPIROS PASSADO NA AMAZÔNIA

Na Ilha de Marajó, segundo a pesquisadora Dione do Socorro de Souza Leão, em seu artigo Cosmologias da Encantaria no Marajó/PA, uma antiga tradição ensina a amassar dentes de alho e jogar no rio a fim de afugentar o boto e impedir que ele entre nas casas dos ribeirinhos, em noites de lua cheia, transformado em um belo rapaz e encante as mulheres presentes. A mesma tradição também aconselha por crucifixos nas portas e jogar água benta no rio; deve-se também acrescentar a isso a crença de que botos são atraídos pelo sangue de mulheres menstruadas quando estas tomam banho de rio ou navegam em canoas, levando ribeirinhos a untar suas embarcações com óleo para prevenir que botos as farejam e virem a canoa em busca de seu objeto de desejo. 



A Inspiração para o Livro

É impossível não ver na atração do boto por sangue de mulheres férteis e nos procedimentos para afugentá-los, incríveis semelhanças com a lenda dos vampiros. Tal fato levou o autor do romance Após a Chuva da Tarde (título que alude ao nosso tradicional horário de chuva) a imaginar a vinda de vampiros europeus para a Amazônia para concertos no Theatro da Paz, convidados por Alice e Francisco Bolonha durante uma de suas viagens à Europa, em 1896, no auge do rico período da extração da borracha. O romance não tem apenas o Theatro da Paz como cenário, faz também do primeiro leprosário da Amazônia, o  Hospício dos Lázaros do Tucunduba, um importante cenário para sua história, contando um pouco de sua triste origem, de como foi um verdadeiro depósito para escravos doentes, abandonados por seus senhores à própria sorte, e de como toda uma comunidade de excluídos composto por seus descendentes se formou em tal lugar, dando origem ao bairro do Guamá. 

A Ambientação do Romance

O livro também usa os belos Palacete Bolonha e Palacete Bibi Costa como cenários, aproveitando as sombrias lendas ligadas a estes e, mais uma vez, contando suas histórias e as de seus donos; destaque maior aqui para o belo Palacete Bolonha, que por meio dos famosos saraus de Alice Bolonha é tomado pelo livro como o centro da vida intelectual e artística da sociedade belenense da época, onde se desenvolve a maior parte dos mistérios do livro. O romance descreve também a Belém do final do século XIX, descrevendo suas ruas e largos com seus nomes antigos, e até mesmo seu cheiro, como os aromas de flores e ervas nativas vindos da fábrica da perfumaria Phebo, mas, isso acontece em uma outra época, em 1934, já que o romance se divide entre o período do auge da riqueza proporcionado pela extração da borracha e a decadência desta, causado pelo contrabando de sementes de seringueiras por um inglês que tem sua história contada no livro e que ainda hoje é considerado o maior caso de biopirataria já ocorrido mundialmente.



A Trama Principal

Contendo quatro tramas que se desenvolvem paralelas, focando em diferentes estilos de escrita (fantasia, terror gótico, realismo mágico, mitos folclóricos e lendas urbanas) mas se unindo em prol da trama maior que tem na história de uma enigmática cantora lírica francesa que, ao vir para Belém, adquire fama de ser uma vampira. Sua história é contada no livro de forma indireta, ora por meio de relatos de populares, que a considera uma vampira (ou como é chamada por eles no linguajar popular: uma matinta perera), ora por meio de personagens da elite belenense que a conheceram e por matérias de jornais da época que a consideram ter sido uma grande artista, à frente de seu tempo e das convenções de sua época; uma mulher de espírito independente que lutava pelo direito ao voto feminino, em pleno século XIX, com seu comportamento livre que chocou a conservadora sociedade belenense da época, dando origem, por puro preconceito, a lenda de que ela seria uma vampira. A trama nos leva a perguntar: Quem estaria certo, então?

Um Romance Amazônico

O romance, que se define como “romance gótico amazônico”, não se utiliza dos tradicionais cenários desse tipo de narrativa --- como casas vitorianas sombrias, ou paisagens noturnas com denso nevoeiro, ou ainda antigos cemitérios infestados de corvos --- para criar o clima de tensão e suspense propício a história de terror. Em vez disso, o adapta ao nosso clima tropical e aos belos palacetes de Belém, aproveitando-se da sombria atmosfera amazônica durante a chuva da tarde para contar histórias visagentas.

O livro, além de fazer interagir vampiros com criaturas fantásticas do folclore amazônico e de lendas urbanas de Belém (matinta perera, a princesa de Mayandeua, cobra grande e Josephina Conte, a famosa Moça do Táxi) tem algumas de suas aventuras regadas a doses alucinógenas de ayahuasca em meio a rituais místicos indígenas, e não esquece também de abordar temas ecológicos e sociais que nos afligem tanto atualmente, tomando importantes personalidades da história de Belém como personagens (Antônio Lemos, Magalhães Barata, Lauro Sodré, Francisco Bolonha, Waldemar Henrique, etc.), tendo como pano de fundo acontecimentos importantes da história da nossa cidade, o que faz do livro ser, não apenas uma forma de diversão, como também uma fonte de informação para as novas gerações, tendo em obras de historiadores, transcrita em notas de rodapé, uma base segura para abordar o que ficou conhecido como a Belle Époque belenense.

O romance Após a Chuva da Tarde está sendo publicado de forma independente.

Ficha Técnica

Título: Após a Chuva da Tarde - A Lenda do Cão Fantasma do Palacete Bolonha

Autor: Bosco Chancen

Editora: Uiclap

Especificações: 284 páginas, 16x23 cm; brochura

Site de Compra: https://loja.uiclap.com/titulo/ua13930/

Para mais informações: bozco3535@gmail.com 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

RELATO do LEITOR: Eu Vi a Matinta Perera (por Berg Sombra)



RELATO do LEITOR: Eu Vi a Matinta Perera (por Berg Sombra)

Estávamos passando um final de semana na casa de um pescador numa ilha próxima de Belém. A casa, como toda casa de pescador da região, era de telhado de palha, a porta era trancada por uma corda e o banheiro era no quintal com a mata por trás.

Sentados à tarde, conversamos com o pescador, seu Batat, mais a mulher dele, ouvimos atentamente ele contar sobre a matinta perera que quase matou o pescador de nome Arraia, que conhecemos mais tarde nesse mesmo dia; seu Batat contou também sobre as visagens que apareciam pra eles em determinadas noites; e assim foi.

Na madrugada, durante a dormida, passamos a ouvir passos vindos da mata e indo até a cozinha, e o som de que algo mexia nas coisas de lá e voltava para a mata. Eu e meu amigo tentamos ir ver o que era, mas quando a lamparina apagou, voltamos pras nossas redes, e aí ouvimos aquele assobio medonho e passos no telhado onde víamos as marcas dos pés caminhando e marcando a palha. Eu acordei determinada hora sem poder me mexer (paralisia do sono?), mas senti quando alguma coisa passou por baixo da minha rede; chamei meu amigo e ele disse pra ficarmos acordados... Depois de 5 minutos, ouvi ele querendo falar, se debatendo na rede. Eu o chamei e ele, de olhos arregalados, me perguntou se eu tinha visto a mulher que mexia e acariciava ele na rede. Eu disse que não.

De manhã, contamos pra mulher do pescador o que aconteceu e ela confessou que tinha uma moradora que gostava desse meu amigo e que a primeira pessoa que parecesse na casa, seria a matinta... e ela foi a primeira pessoa que apareceu logo cedo querendo ver ele . 

Desse dia adiante, nunca mais duvidei dessas coisas.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

SHOPPING DE BELÉM É O PREFERIDO DOS SUICÍDAS



SHOPPING DE BELÉM É O PREFERIDO DOS SUICÍDAS

Hoje (21/05/22), ocorreu mais um suicídio no SHOPPING BOULEVARD em Belém, de um rapaz que saltou da parte interna do shopping apenas três dias após o suicídio da jovem Jamilly Kouri, de 28 anos.

Estes suicídios foram antecedidos pelo suicídio, ano passado, de uma mulher, de nome não revelado, que se jogou do estacionamento do shopping, falecendo no local.

Edifício Manoel Pinto da Silva 

O estabelecimento já comporta outros suicídios em seus 13 anos de funcionamento. O que nos leva a associá-lo a outro local que já fora o preferido dos suicidas de nossa cidade: o Edifício Manoel Pinto da Silva que, durante as décadas de 1970/1980, foi o palco de inúmeros suicídios;

Vários fatos assemelham-se no caso do Shopping Boulevard e do Edifício Manoel Pinto da Silva, além dois suicídios, assim como o shopping, o edifício Manoel Pinto também se dedicava a parte financeira, comportando inúmeros escritórios, o que permitia a entrada de grande número de pessoas que não eram moradores, facilitando, assim, a entrada de pessoas que iam lá apenas para se jogarem de sua altura. O crescente número de casos de suicídios levou a administração do prédio a permitir apenas a entrada de moradores e de pessoas que estavam ali visando obter algum serviço relacionado aos escritórios, o que fez com que o número de suicídios diminuísse muito.

Jamilly Kouri

Devido ao crescente número de suicídios, torna-se urgente que o Shopping Boulevard faça campanha de conscientização sobre depressão e que passe a usar em suas dependências redes de proteção para evitar novos suicídios.