sábado, 26 de março de 2022

CASO DA ESPOSA E O MENDIGO: SURTO PSICÓTICO, PARAFILIA, OU APENAS SEXO CASUAL?



CASO DA ESPOSA E O MENDIGO: SURTO PSICÓTICO, PARAFILIA, OU APENAS SEXO CASUAL?


O caso do personal trainer que pegou sua mulher mantendo relações sexuais em seu carro com um mendigo após esta ter saído para fazer doações a moradores de rua, se tornou a notícia mais comentada dos últimos tempos, principalmente após a entrevista de Givaldo Alves, o morador de rua, de 48 anos, espancado por Eduardo Alves, o marido traído, de 31 anos, contando como aconteceu o ocorrido em seus mínimos detalhes. 



Durante sua primeira entrevista, o mendigo declarou que tudo foi consensual e prazeroso para Sandra Mara Fernandes, de 33 anos, a esposa, enquanto para Eduardo Alves, o marido, a esposa teve um surto psicótico; por sua vez, a esposa declarou que só manteve relações sexuais com o mendigo porque viu nele a imagem de Deus e do marido. Após o surto, segundo o marido, Sandra Fernandes foi recolhida a tratamentos psiquiátricos em uma casa de saúde mental, na cidade de Planaltina, no estado de Goiás, onde ocorreu o fato.



Mas com quem estaria a verdade, com o mendigo falastrão que surpreendeu o público com seu linguajar poético, afirmando que a esposa o procurou em busca de prazer sexual, ou com a esposa que relatou o fato como efeito de um surto alucinatório?


Alucinações Religiosas

Alucinações religiosas são mais comuns do que se  pensa, uma vez que o clima religioso, a crença fervorosa e a dedicação exigida, são capazes, sim, de sugestionar o devoto fazendo-o interpretar fatos de acordo com suas crenças, ou mesmo ter alucinações causadas por sugestões religiosas, produzindo até mesmo alucinações sexuais, como é o caso da cultuada santa espanhola Santa Teresa d’Ávila (1515 - 1582).


Durante seus êxtases religiosos Santa Tereza d’Ávila tinha em sua mente imagens religiosas que se assemelhavam muito a relações sexuais com o próprio Deus;  relatou ela em um de seus belos escritos:


“Vi na sua mão uma comprida lança de ouro, em cuja ponta de ferro havia um pequeno fogo. Ele parecia enfiá-la de vez em quando no meu coração, até perfurar minhas entranhas; e quando a puxava para fora arrastava tudo consigo, e me deixava em chamas, com um grande amor por Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer; e no entanto era tão extraordinária a doçura dessa dor excessiva que eu não queria que ela parasse”.


Escultura de Bernini (1598 - 1680)  Retratando Madre Teresa d'Ávila

Substitua a lança por um pênis, e você verá a descrição de uma relação sexual com Deus; claro que a descrição recorre a elementos simbólicos para o ato sexual, afinal é uma freira que nos relata suas alucinações religiosas. 


E se o mesmo tivesse ocorrido com a esposa do personal trainer traído, ela  diferente de uma freira, não teria necessidade de recorrer a símbolos para descrever o ato sexual, ela cometeria o ato, sem pudor e em total entrega, afinal para ela seria um ato de amor com o próprio Deus.


Detalhe da Escultura de Bernini Mostrando o Semblante de Prazer da Santa


Mas o ato sexual entre a esposa e o mendigo parece ter acontecido sem os sintomas de um surto psicótico, pois surtos psicóticos são acompanhados de sofrimento, angústia, ansiedade, desespero, o que faria com que a esposa não se entregasse por completo ao ato sexual, e provocaria nela comportamentos exagerados, gritos, falas altas, etc., o que teria chamado a atenção dos moradores próximos, o que não ocorreu, ocorrendo somente quando o marido passou a gritar, socar o carro e bater no mendigo.



Mas se não foi um surto psicótico, nem alucinação religiosa, poderia ter outra causa psicológica? Sim, ela poderia  ter tido relações sexuais sob influência  de parafilia.


Parafilia

Parafilia é o nome que se dá a desejos sexuais incomuns. Algumas delas:  

Masoquismo: sexo acompanhado com o prazer de ser humilhado ou espancado;

Voyeurismo: prazer sexual em ver pessoas transando;

Fetichismo: quando o prazer sexual é por partes dos corpos que não estão ligados diretamente ao sexo, como excitação por pés, mãos, cabelos, etc., ou por objetos acoplados ao ato sexual, como  sapatos de salto atos, roupas de couro pretas; e também prazer por odores de roupas íntimas usadas, etc.


Entre essas várias formas de parafilia, uma poderia ter influenciado o sexo de  Sandra Fernandes com o mendigo, trata-se da RIPAROFILIA, que é a atração sexual de certos indivíduos por mulheres/homens sujos, de baixa condição social e higiênica, que  tem na figura dos moradores de rua seu maior representante.


A Riparofilia de Sandra poderia ter surgido através de sua assistência religiosa aos mais necessitados, por meio de associações simbólicas entre os necessitados e o amor de Deus, tornando-se objeto de fantasias sexuais, e fortalecendo-se ainda mais por meio do prazer da transgressão, pois, como sabemos, tudo que é proibido torna-se mais atraente. E após suas fantasias terem atingido o ponto mais alto de intensidade, encontrou o momento propício para sua realização no encontro com o mendigo Genival Alves.


Quais dessas possibilidades você apostaria ser a verdadeira?


segunda-feira, 14 de março de 2022

CASPAR DAVID FRIEDRICH: UM PINTOR GÓTICO



CASPAR DAVID FRIEDRICH: UM PINTOR GÓTICO

Sublime é a sensação que sentimos quando contemplamos a imensidão de algo que nos ultrapassa em tamanho, poder ou intensidade, que excede nossa capacidade de entendimento, que nos causa ao mesmo tempo admiração e terror.


Caspar David  Friedrich

E poucos pintores captaram tão bem a relação entre o homem e o sublime, quanto o alemão Caspar David Friedrich (1774 - 1840), mostrando a insignificância do homem perante a imensidão e poder da natureza.



Suas abadias e antigos cemitérios em ruínas, símbolo da ação do tempo, que tudo destrói, mostra ao homem sua finitude e a incontrolável a ação do tempo, que juntas de suas árvores desfolhadas e retorcidas, com seus galhos feito garras, transmitem, por excelência, uma atmosfera de desolação e solidão, que anos depois, seriam usadas em filmes de terror.








segunda-feira, 7 de março de 2022

RELATO DO LEITOR: A Rua do Cemitério (por Bosco Silva)



A Rua do Cemitério (por Bosco Silva)

A casa dos meus avós maternos ficava em uma encruzilhada. Bem ao lado direito dela havia a estrada de terra batida, por onde os ônibus de viagem chegavam; na frente da casa, a rua que passava pela entrada do único cemitério da cidade.


Numa das noites de férias, durante minha infância, no silêncio profundo da sala clareada pela fraca luz de uma lamparina, deitado na rede, sem sono, único que aparentava estar acordado tarde da noite, passei a ouvir de repente um estranho barulho, que no inicio não chamou-me atenção, mas com sua repetição, logo fiquei atento a ele. Era um barulho surdo como um baque que parecia ser dado diretamente no chão; o barulho começou baixo dando a impressão de que soava distante, vindo da estrada de terra batida; o som era seguido de um pequeno intervalo, quando ressurgia mais alto, indicando estar se aproximando da casa; até que, após outro breve silêncio, o baque ressoou bem ao lado da casa… Nesse instante senti uma mistura de medo e apreensão, pois imaginava que o próximo baque fosse dentro da casa, ou, quem sabe, próximo da minha rede; e assim permaneci, esperando assustado pelo próximo baque. Mas, após outro intervalo, este ressoou mais adiante, já na rua da frente, aparentando ter dobrado a esquina e seguido em direção ao cemitério.


Me embrulhei no lençol e acabei dormindo. Na manhã seguinte, ainda intrigado com o estranho barulho, fui até o quintal e dei de cara com a enorme mangueira que havia lá, cheia de frutos. Pensei que aquele barulho poderia muito bem ser explicado pelo cair das mangas durante a madrugada; mas não me convenci por completo, pois forçosamente também teria que ter ouvido o som da folhagem e dos galhos quebrados produzidos pela queda dos frutos. Perguntei então ao meu avô, o que seria aquilo. Ele, em um tom tranquilizador, disse que eram pescadores que, ao seguirem para a maré com remos nas mãos, tinham o hábito de bater com eles no chão enquanto caminhavam. Bem, a explicação também não me convenceu por completo, pois o som não parecia se deslocar com a mesma velocidade de alguém andando e teria que ter um número maior de baques, um para cada passo. Seja como for, ate hoje aquele estranho barulho ainda me intriga.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A LENDA DA BELA DA JANELA DO PALACETE BIBI COSTA


NOS ANOS DE 1920, em Belém, quem passasse pela travessa Joaquim Nabuco com Avenida São Gerônimo (hoje Av. José Malcher), e olhasse para a janela de uma das torres do Palacete Bibi Costa, veria uma bela jovem de olhar tristonho a pentear seus longos cabelos loiros, a observar a rua. Era Maria da Glória, cujo pai a mantinha presa desde que nascera para que não pudesse conhecer outro rapaz além daquele que ele havia escolhido para ser seu noivo.


E por ser vista sempre na janela, passou a ser chamada de “A Bela da Janela”, gerando uma velha lenda, que ainda é lembrada pelos mais velhos moradores de Belém.


Reza a lenda que Maria da Glória não era a única filha do Coronel Júlio de Andrade. Ela havia nascido grudada a uma irmã gêmea, Maria Isabel, unidas pelo peito, com um único coração que era dividido por elas.



Dizia-se que quando uma sentia fome, a outra se punha a chorar; se em uma fosse feito cócegas, a outra ria como se tivesse sido nela. Mas Maria Isabel logo morreu, devido a complicações da má formação. Foi quando puderam ser finalmente separadas por cirurgia.


A menina cresceu com saúde, mas, diziam, que estranhos fenômenos passaram a acompanhá-la por toda a vida.



Moradores relatavam que, ao caminhar na Travessa Joaquim Nabuco com Nazaré, à noite, a viam passear, branca feito tapioca, em um longo vestido branco esvoaçante, sem tocar o chão com os pés; e quando passavam em frente ao palacete, lá estava ela, na janela, como sempre, penteando seus longos cabelos.


Dizia-se que o vulto branco era a irmã morta que ao morrer havia se separado apenas no corpo, pois que na alma, elas continuavam grudadas como no tempo em que dividiam o mesmo coração; e que a irmã morta a visitava todas as noites, e fazia pela outra o que esta não podia fazer por si própria por estar presa pelo pai ao quarto, como dividir com a irmã a simples sensação de passear na rua deserta à noite.



Reza a lenda que Maria da Glória se enamorou de um jovem rapaz que um dia ao passar a viu na janela, e por meio de amorosos bilhetes jogados pela janela, com a ajuda dele e da irmã morta, conseguiu se livrar do cativeiro do pai, sendo substituída pela visagem da irmã durante seu casamento, enquanto Maria da Glória fugia com o rapaz para Portugal.


Dizem, ainda, que no casamento tudo ocorreu bem, exceto o estranho frio das mãos e a palidez excessiva da noiva.


* Ilustrações Meramente Ilustrativas, Exceto do Palacete Bibi Costa.


Para Saber Mais, Leia: APÓS A CHUVA DA TARDE, de Bosco Chancen. Link para Compra: https://loja.uiclap.com/titulo/ua28848/



domingo, 6 de fevereiro de 2022

DRÁCULA DA LITERATURA VERSUS DRÁCULA DO CINEMA

DRÁCULA DA LITERATURA VERSUS DRÁCULA DO CINEMA

Finalmente li o famoso romance de terror, Drácula, de Bram Stoker (1847 - 1912), de 1897. A demora deveu-se a eu achar que o romance, por ter sido bastante adaptado ao cinema, não teria nenhuma surpresa, o que o tornaria enfadonho. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que eu estava enganado --- embora confesso que algumas das surpresas foram acompanhadas de certa estranheza e decepção motivado pela inevitável comparação entre o Drácula original com sua versão para o cinema, que o leitor moderno conhece primeiro, e fonte principal de decepções relatadas por alguns leitores. Então vou ressaltar aqui alguns pontos que devem causar estranheza aos leitores modernos. 


Um Drácula com Bigodes e Barba

Bela Lugosi

A primeira surpresa que o leitor moderno terá ao ler o livro, já no início da história, é se deparar com um Drácula que possui bigodes e barba branca, um velho com aspectos desagradáveis, com as palmas das mãos peludas e que emana cheiro desagradável, que Jonathan Harker, o enviado da corretora londrina encarregado de vender alguns imóveis para o conde, faz questão de salientar em seu diário; é um Drácula bem diferente do personagem charmoso, sedutor e  elegante, retratado pelo cinema que causava um misto de medo e suspiros apaixonados no público feminino, principalmente a partir da atuação do ator húngaro Bela Lugosi (1882 - 1956), em filme homônimo de 1931; ator que emprestou charme e elegância ao personagem, que ficou tão conhecido pelo seu papel de Drácula que, ao morrer, pediu para ser enterrado vestido de Conde Drácula. A elegância, a sensualidade e o charme serão definitivamente incorporados pelo cinema a figura do Drácula, que usará de tais atrativos para seduzir suas vítimas, bem diferente do Drácula de Bram Stoker, que usa de poderes hipnóticos e sobrenaturais para conquistar suas vítimas e fazerem ignorar sua aparência repulsiva. 

Uma Narração Fragmentada

Outra coisa que deve chamar a atenção do leitor, dessa vez não de modo imediato, é a forma com que o autor escolheu para contar sua história, por meio de vários narradores, que utilizam trocas de cartas e diários pessoais, um artifício já bastante popular na literatura, conhecido como romance epistolar, mas que Bram Stoker modernizou ao juntar novidades tecnológicas da época, como mensagens de telégrafo, notas de jornais, textos datilografados, e até áudios gravados em fonógrafo, um instrumento recém inventado. Tal uso foi genial, pois, além de dar à narrativa um aspecto fragmentário, de quebra-cabeça, que por si só já prende o leitor, permite que a história possa ser vista das mais variadas perspectivas dos personagens --- embora o autor não tenha imprimido aos diários e cartas as características pessoais dos personagens, o que deixaria o artifício ainda mais interessante. 


A Atmosfera Religiosa do Romance



A atmosfera extremamente religiosa do romance, que transparece por meio das inúmeras expressões religiosas e referências bíblicas citadas pelas personagens, também poderá será recebida com estranheza pelo leitor de hoje, principalmente se não for a feita a religião cristã, fato que me incomodou algumas vezes por seus exageros, dando-me a sensação de estar lendo mais um texto religioso, de propaganda cristã, do que um romance de terror. Mas isso tem uma explicação. Bram Stoker se valeu do clima extremamente religioso da Inglaterra do final do século XIX para transformar sua história em uma luta entre o bem e o mal, uma guerra entre virtuosos cristãos, de um lado, e forças malignas pagãs, do outro, associando Drácula ao Diabo. Isso, sem dúvida, foi um ótimo recurso para a identificação dos leitores da época com os personagens do livro, que certamente foi uma das causas para o sucesso do livro na Inglaterra vitoriana.


Drácula em Doses Homeopáticas



Mas certamente o que mais o leitor de hoje deverá estranhar ao ler Drácula, será a pouca presença do famoso vampiro nas páginas do livro que, ao contrário dos filmes que exploram ao máximo sua presença, no livro ele está apagado, só aparecendo pra valer mesmo, nos quatro primeiros capítulos de um total de 27 capítulos, quando o conde recebe o advogado Jonathan Harker em seu castelo e o mantém prisioneiro. Depois disso ele some, aparecendo apenas em umas três ou quatro cenas de curtíssima duração, sem grande destaque. Sua ausência é preenchida por citações e referências feitas pelos demais personagens a ele durante a busca por seu paradeiro, de modo que ele está sempre presente, mas indiretamente; este recurso foi bastante elogiado pelo escritor Stephen King, que disse ter sido feito com grande maestria, único na literatura inglesa. Mas a verdade é que isto deverá frustrar a maioria dos leitores modernos, que esperavam uma maior participação do rei dos vampiros, afinal, o livro leva o nome dele. Por isso, é impossível evitar a pergunta: Como um personagem que aparece tão pouco se tornou tão famoso?

Bella Lugosi como Drácula

A verdade é que a fama de Drácula não se deve ao livro, mas às suas adaptações para o cinema. Todas as qualidades que fizeram dele um personagem cativante e ainda hoje tão conhecido, mesmo por aqueles que nunca leram o livro, não estão contidas no livro de Bram Stoker, mas nos filmes. O livro já tinha uma estrela programada para brilhar que absorveu todo o conhecimento do autor, e capítulos e mais capítulos para mostrar sua genialidade, talento e conhecimentos, e este personagem não era Drácula, mas o professor Van Helsing, que no livro está mais para um padre exorcista do que um estudioso erudito. É bem possível que, se Bram Stoker tivesse tido a oportunidade de ver o grande sucesso de Drácula no cinema, se surpreenderia muito, pois ele o criou para ser temido e odiado, não amado pelos fãs de filmes de vampiros, filmes que o despiu de todo primitivismo e características desagradáveis criadas por seu criador, e o dotou de sensualidade, elegância e charme, qualidades fundamentais que realmente foram as responsáveis pelo sucesso de Drácula. 


O cinema, com sua linguagem cheia de reviravoltas, também deu a história de Drácula as reviravolta que a história original não possui, originando mais uma causa de estranheza no leitor moderno tão acostumado com a linguagem do cinema, causa de muitos leitores não gostar do desfecho do romance de Bram Stoker.




Então, pelo o que vimos aqui, para bem saborearmos a escrita e a história criada por Bram Stoker, torna-se necessário separarmos o Drácula criado por este de sua versão cinematográfica, embora seja algo quase impossível ao leitor moderno, mas não custa tentar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

CONHEÇA OS PERIGOS DO VÍCIO EM PORNOGRAFIA


 

CONHEÇA OS PERIGOS DO VÍCIO EM PORNOGRAFIA 

A pornografia não nasceu com o vídeo, muito menos com o cinema. De fato, é bem mais antiga do que eles. No século XVIII, já estava presente na literatura por meio de livros, de autores anônimos, com histórias descrevendo cenas de sexo e ilustrados com desenhos picantes, vendidos de forma escondida, por baixo do balcão das livrarias. Na França, durante o mesmo período, tais livros eram chamados de “livros para ler com uma só mão”, pois dizia-se que enquanto o leitor o segurava com uma mão, com a outra, se masturbava. Mas foi com a invenção da fotografia e do cinema que a pornografia alcançou o status de uma das mais ricas e poderosas indústrias culturais da modernidade.


A Indústria Pornográfica Hoje



Se com o surgimento dos filmes pornográficos a indústria pornográfica tornou-se uma indústria bilionária, com o surgimento da internet ela se tornou uma das mais influentes indústrias culturais de todos os tempos. Pois, se antes para se ter acesso a pornografia era necessário ir a sua procura (cinema, sex shop), em geral lugares não tão acessíveis, principalmente a menores de idade, hoje é ela que vem até nós, à nossa casa, ou em qualquer lugar que estejamos, por meio da internet. Nunca foi tão fácil obter material pornográfico quanto em nossos dias. Hoje, crianças, em média, começam com 8 anos de idade a ter contato com filmes pornográficos; bem diferente do passado.


A pornografia tornou-se tão influente em nossos dias, que comportamentos usados apenas em cenas de filmes pornográficos saiu dos estúdios de gravação e passou a fazer parte do comportamento da grande maioria das pessoas, mesmo que elas não saibam disso; um bom exemplo disso é a moda da depilação total da vagina, bastante comum hoje em dia, que nasceu na década de 1990 como uma exigência dos diretores de filmes pornôs sobre suas atrizes com o objetivo de obter melhor captação das imagens das penetrações sexuais pelas câmeras, sem o obstáculo dos pelos pubianos; outra forte influência, além da distorção do comportamento sexual humano, foi que mulheres passaram a relacionar maior prazer sexual ao tamanho do pênis do parceiro (então uma preocupação apenas dos homens, demonstrando a influência machista dos filmes pornôs) embora o canal vaginal seja, em média, de 7 a 13 cm de extensão, e que o mais importante órgão do prazer sexual feminino, o clitóris, seja um órgão externo a vagina.


E hoje, já se começa a ter uma ideia mais clara da influência perniciosa do excesso de pornografia.


A Exploração de Mulheres pela Indústria Pornográfica


O documentário Hot Girls Wanted, da Netflix, acompanha jovens norte-americanas durante a tentativa de se tornarem famosas por meio de filmes adultos. 


Munidas de um agenciador, que as hospeda e que procura oportunidade de cena em filmes pornô para elas, e que lucra uma porcentagem em cima do que elas ganharem. 


Em geral, são dadas a elas três oportunidades de participação em filmes adultos para acontecerem. Caso isso não ocorra (o que não ocorre com 99% destas jovens), se quiserem continuar na profissão, terão que aceitar papéis em sites pornográficos cada vez mais violentos e degradantes. No documentário uma delas participa, sem saber, de um site dedicado a sexo violento e humilhante, que simula estupro e que força sexo oral nas atrizes até que estas vomitem.


O documentário afirma que pesquisa recente garante que 40% dos filmes e vídeos dedicados a pornografia desonra e rebaixa a imagem da mulher, fazendo com que seu público veja a mulher apenas como um objeto sexual.




O documentário também aborda o caso de doenças sexualmente transmissíveis, já que é uma exigência da indústria pornográfica filmes feitos sem o uso de preservativos, embora seja obrigatório exames frequentes, abordando o caso da contaminação de uma das participantes por um tumor vaginal.


Uma das cenas curiosas do documentário, é quando, ao conversar com seu namorado, uma das meninas ouve dele de que o que elas fazem nada mais é do que uma forma de prostituição; a moça se surpreende com a afirmação dele, o que o leva a afirmar que é a mesma atividade já que elas fazer sexo em troca de dinheiro. A afirmação dele a deixa pensativa.


E, de fato, é curioso como a indústria da pornografia cria um falso glamur entorno da profissão de atriz pornô, escondendo que a maioria das candidatas a atriz pornô acabam não tendo sucesso e terminando por se entregar definitivamente a atividade de prostituição. Contribuindo com isso, há termos usados que amenizam o pesado termo “prostituta”, o que ajuda ainda mais a esconder a realidade, termos comuns hoje, como “garota de programa”, “acompanhante”, “modelo”. 




Por fim, Hot Girls Wanted termina por mostrar o sonho de fama desfeito de algumas das meninas, que ao desistirem de se tornarem atrizes pornô, escolhem outra profissão, e retomando sua vida em família.


Vício em Pornografia



Hoje, muito se discute sobre o vício em pornografia. Pesquisas mostram que a pornografia pode ser tão viciante quanto drogas. E pode estragar relacionamentos amorosos, causar impotência sexual e baixa autoestima, prejudicar a atenção no trabalho, causar masturbação compulsiva e a levar a formas criminosas de sexo.


Como uma droga qualquer, os filmes pornôs estimulam substâncias cerebrais responsáveis pelo prazer; e com o tempo exigirá que o usuário procure por vídeos mais audaciosos para sentir o mesmo grau de prazer passado. Isto é, se um vídeo com um homem e duas mulheres, não causa mais o prazer da novidade, o usuário passará a procurar vídeos com cenas com mais de três pessoas fazendo sexo; logo estará vendo filmes com dezenas de casais em ato sexual para lhe trazer o mesmo prazer da novidade de antes. O que o levará a não mais ver graça no sexo comum feito com a namorada ou esposa, preferindo assistir filmes pornô e se masturbar do que fazer sexo com sua companheira, gerando descontentamento, desavenças e, por fim, crise em seus relacionamentos amorosos.


Mais o pior e o mais grave, é que, assim como no caso das drogas, em que o viciado procurará por drogas mais pesadas para se satisfazer, o viciado em pornografia poderá procurar por filmes com formas de sexo mais audaciosos, chegando a formas de sexo bizarro, e até mesmo criminosos, envolvendo tortura, pedofilia e até sexo com cadáveres. E não é mais necessário procurar na famosa Deep Web materiais dessa forma de sexo, eles já se encontram em sites gratuitos da internet comum, com filmes que simular relações sexuais entre pais e filhos, mulheres vestidas como crianças, simulando sexo com crianças, sexo simulando estupro, ou sexo com cadáveres. Daí para a procura de filmes com cenas reais, é um grande estímulo, não apenas isso, como também para a realização de tais práticas sexuais criminosas.


domingo, 2 de janeiro de 2022

A VISAGEM DO CEMITÉRIO DOS INDIGENTES, DO GUAMÁ


A VISAGEM DO CEMITÉRIO DOS INDIGENTES, DO GUAMÁ


Guamá, 1934, Hospício dos Lázaros do Tucunduba


Duas enfermeiras saíam tarde da noite do Hospício dos Lázaros do Tucunduba, devido a preparação da maniva para a maniçoba que já estava a oito dias sendo cozida em cinco latões de manteiga ao fogo da lenha, que seria servida aos internos no almoço do Círio daquele ano. 


Pelo caminho, as duas conversavam sobre as tarefas do dia e dos seus planos para o Círio, quando passaram ao lado de pequenos amontoados de terra, com cruzes de madeira envelhecidas e carcomidas em cima, que eram clareadas pela luz do candeeiro que levavam consigo. Era o cemitério dos indigentes do Hospício dos Lázaros do Tucunduba, que ficava no caminho e que tinham de passar todo dia para ir para suas casas. O cemitério possuía apenas uma estreita faixa de mato rasteiro que o separava do caminho tomado por elas.

 

— Não lhe dá medo de cruzar esse caminho à noite, Dona Felícia? 

— Nem um pouco, piquena. 

— Mas nem um pouquinho mesmo?! Pois eu morro de medo. 

— Sabe que eu até gosto de ter eles de companhia durante a caminhada! 

— Cruz credo, Dona Felícia! 

— E lembro de cada um deles e do dia dos enterros, também. 

— Ave-maria, mulher, isso não te assusta mesmo? 

— Não. Passo aqui e ainda aceno pra eles. 

— Aff, Maria! 

— De quê temer se tão mortos, ora! É dos vivos que devemos ter medo, piquena. E desses, eu tenho medo, sim! 

— É, a senhora não deixa de ter mesmo razão. E deviam era pôr um muro pra proteger o cemitério dos tatus e porcos do mato que cavucam a terra para comerem as carniças dos mortos. Não é porque eram pobres que não se vai ter um pouco de respeito por eles. 

— Nosso destino é mesmo morrer e virar comida de tatu, piquena, não tem jeito. Ontem mesmo vi dois buracos grandes em uma cova, não era de tatu, mas de porco do mato, deviam ser dois porcões, e o que sobrou da carcaça do defunto estava espalhada por cima da cova. 

— Mas para as autoridades um muro de tijolo é luxo para quem morou a vida toda em casa de barro! 

— É, piquena. Não tiveram cuidados com eles quando estavam vivos, vão ter agora que estão mortos? Ora! 

— Isso é verdade. O que me deixa sem esperança alguma na vida, Dona Felícia. 


Enquanto contornavam o cemitério, as duas enfermeiras ficaram em silêncio, absorvidas pelos pensamentos que nos ocorrem quando encaramos nosso destino inevitável. O silêncio durou até que Dejanira passou a ouvir um estranho ruído de roer de dentes, e não pôde deixar de pensar nos tatus. 


— Foi só falar neles que os sacripantas já começaram a cavucar a terra. Devem estar mastigando e repuxando as carcaças dos mortos para fora da terra, agora mesmo. O que a senhora acha, Dona Felícia? Hem, Dona Felícia? Dona Felícia?! 


Dejanira parou e viu que a velha enfermeira havia ficado para trás. Ao virar o candeeiro para trás de si, viu Dona Felícia acocorada no meio do caminho. 


— Vixe! E isso é hora de mijar, mulher! Me avise pelo menos e não me deixe falando sozinha! 


Dejanira caminhou, então, ao encontro da outra. 


— Cuidado com suas partes íntimas ao se levantar, mulher; com essa lua cheia clareando tudo, se tiver homem por perto, vai ver tudo!, e riu. 


Ao chegar mais perto da velha amiga, notou que o estranho barulho de dentes vinha dela, que parecia roer os próprios dentes agachada, passando as mãos por entre os cabelos deixando-os todo desgrenhado. 


— Dona Felícia? Dona Felícia? O que está acontecendo com a senhora? A senhora está bem?” 


Ao tocá-la no ombro com a mão, a velha suspendeu o rosto em direção à lua e se pôs a grunhir alto como um porco com os olhos revirados, convulsionando o corpo todo, em uma grande tremedeira. 


— Dona Felícia! NÃO!!!” 


Dejanira correu assustada daquilo deixando cair o candeeiro pelo caminho enquanto ouvia o grunhir e o bater de patas da coisa que passou a segui-la. Correu e correu, até que saiu do caminho de terra e entrou no mato, enquanto o imenso porco preto parava à beira da estrada sob a lua cheia que brilhava por sobre as árvores. De repente, um novo grunhido se fez ouvir vindo do mato, e um segundo porco preto apareceu no caminho de terra, arfante e faminto, se encontrando com o primeiro, e os dois passaram a correr juntos, um ao lado do outro, rumo ao cemitério dos indigentes.


* Tirado e Adaptado do Romance Após a Chuva da Tarde.