quinta-feira, 13 de junho de 2013

UMA CARONA E UMA GRANDE POLÊMICA (Por Bosco Silva)




VEJA OS VÍDEOS ABAIXO E DEI SUA OPINIÃO



ABAIXO, ALEXANDRE RESPONDENDO AS CRÍTICAS DO VÍDEO ACIMA


NOVA EDIÇÃO DE "SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATOS" (de Bosco Silva)



AO LEITOR

"O PÊNIS É A MENOR DISTÂNCIA ENTRE DUAS ALMAS"
MARQUÊS DE SADE

AO LEITOR
Antes que você, meu caro leitor, se pergunte, com horror em seus olhos, “o que deve se passar na mente de alguém que escreve sobre estupro, incesto, pedofilia, blasfêmia, bestialidade...” - pergunta tantas vezes feita a mim em silêncio -, chegando a concluir, erroneamente, a existência de certa atração criminosa do autor por tais práticas, devo lhe dizer que, em primeiro lugar, você desconhece uma das grandes funções da arte, e, certamente, um dos grandes motivos que alimenta o artista em sua prática: o prazer de criar mundos novos com o poder inesgotável da imaginação; o que não quer dizer que o autor não participe com sua experiência de vida em sua obra, mas que, sendo uma obra de ficção, a imaginação é o elemento fundamental para sua feitura. Portanto, nunca confunda o autor com sua obra: o escritor com o livro, ou o ator com seu personagem.
Gostaria também de lhe dizer que grande parte de seu horror se deve ao seu total desconhecimento da obra daquele que, sem dúvida, é o grande personagem do livro, o escritor francês Marquês de Sade: autor que passou grande parte de sua vida em hospícios e presídios por suas ideias e por seu comportamento sexual desregrado, com obras contendo práticas sexuais tidas como não convencionais; e, por fim, tornando-se (negativamente) conhecido ao tornar-se modelo, emprestando seu nome ao conceito psiquiátrico de sadismo: “prazer em infligir dor ou humilhação ao outro; bem como de sentir prazer com o sofrimento alheio”.
E como escrever um livro sobre Sade sem que choque uma grande parte do público, por conter descrições cruas e duras da sexualidade humana, que lhe fizeram ser tão original em sua arte? Impossível sem perder a coerência de seu pensamento. Pois esta é a tarefa que se propõe o texto presente: trazer Sade através de seu pensamento e obra, por meio de uma divertida história policial, cheia de humor e reviravoltas, ao nosso moderno mundo, cheio de turistas sexuais e de saites pornôs da internet, capazes de saciar os gostos sexuais mais extremos de seus milhares de frequentadores. A obra tem também a tarefa de mostrar o quanto ainda é útil o pensamento de Sade na análise da sexualidade humana.
Por fim, aconselhamos ao leitor que prosseguir com sua leitura: leia o livro tendo em vista tais ideias, esquecendo por um breve momento suas concepções morais sobre o tema; e aos leitores que porventura possam se ofender com o que nele está contido, não culpe o autor pela descrição crua da sexualidade humana, mas culpe a vida por ela não ser como você gostaria que fosse.
O autor

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A NOVA LEI (de Bosco Silva)


JÁ FAZ SETENTA ANOS QUE A LEI CONTRA OS LIVROS foi instaurada no Brazil.
A coisa começou timidamente. No início pouco incentivo era dado a educação: os professores ganhavam mal, tornavam-se relapsos e ignorantes por não ter como comprar livros; os alunos aprendiam bem menos e passaram a escrever apenas o necessário; escolas tornaram-se apenas ponto de tráfico de drogas e prostituição; professores eram espancados por alunos em plena sala de aula; e para compensar a escrita limitada dos poucos que ainda sabiam escrever da população, o governo criou um novo ministério, o MINISTÉRIO DAS LETRAS, que imediatamente passou a proibir o que julgava ser desnecessário; logo o trema foi proibido da língua portuguesa, assim como verbos e muitos, muitos sinônimos que jugavam também desnecessários.


O poderoso partido do governo passou a policiar jornais, revistas, livros, propagandas, internet etc., impondo suas novas leis da escrita por meio do Politicamente-Correto. Também foi criado o MINISTÉRIO DA FALA que passou aplicar as novas leis da escrita à linguagem falada; pessoas eram vigiadas nas ruas, e quando era pronunciada uma das palavras proibidas estas pagavam multas ou eram trancafiadas em prisões. Escritores eram caçados, mortos ou presos em prisões de segurança máxima. Livros tiveram que ser reescritos, e somente aqueles que obedeciam à nova lei eram permitidos, os antigos eram proibidos e recolhidos; os clássicos eram adulterados.


Pequenos levantes contra o governo surgiram de universidades, que reclamavam da deturpação dos antigos livros; mas eram logo massacrados. Porém a coisa ficou pior, pois como forma de acabar com o tráfico de livros antigos, estes passaram a ser queimados em grandes fogueiras em praça pública. Contudo, logo o governo reconheceu seu erro: os leitores sempre foram tão poucos no Brasil que mais fácil foi queimar os poucos que liam do que os livros.

BRAZIL. ANO: 2069: ÚLTIMO RELATÓRIO ESCRITO POR UM COMPUTADOR........ EM.......
................LÍNGUA.........
....................................................PORTUGUESA.............................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 

A DAMA DO CACHORRINHO (de Anton Tchekhov)



Dizia-se que havia aparecido à beira-mar uma nova personagem:
uma senhora com cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gurov,
que já passara em lalta duas semanas e habituara-se àquela
vida, começou a interessar-se também por caras novas. Sentado
no pavilhão de Verne, viu passar à beira-mar uma jovem
senhora, de mediana estatura, loura, de boina. Corria atrás dela
um lulu branco.
Mais tarde, encontrou-a diversas vezes ao dia, no parque
e nos jardinzinhos públicos. Passeava sozinha, sempre com a
mesma boina e acompanhada do lulu branco. Ninguém sabia
quem era e chamavam-na simplesmente: a dama do cachorrinho.
"Se está aqui, sem marido e sem conhecidos", calculou
Gurov, "não seria mal travar relações com ela".
Embora com menos de quarenta anos, ele tinha já uma
filha de doze e dois filhos no ginásio. Haviam-no casado cedo,
quando cursava ainda o segundo ano da universidade, e agora
sua mulher parecia vez e meia mais velha que ele. Era uma
mulher alta, de sobrancelhas escuras e porte rígido, importante,
grave e "pensante", como ela mesma se chamava. Lia
muito, escrevia carta simplificando a ortografia, chamava o
marido de Dimítri em lugar de Dmítri, e ele, secretamente,
considerava-a pouco inteligente, tacanha, deselegante, temia-a
e não gostava de ficar em casa. Havia muito que passara a
traí-la, fazia-o com freqüência e, provavelmente por este
motivo, referia-se quase sempre mal às mulheres; quando, em
sua presença, falavam nelas, exclamava:
- Raça inferior!
Parecia-lhe que fora suficientemente instruído por sua
amarga experiência, para chamá-las como lhe aprouvesse, mas,
apesar de tudo, não poderia passar dois dias sem a "raça
inferior". Aborrecia-se em companhia de homens e mostrava-
se frio, pouco loquaz, mas, encontrando-se no meio de
mulheres, sentia-se despreocupado e sabia do que falar e
como se portar; era-lhe, mesmo, fácil calar-se em companhia
delas. Em seu aspecto exterior, em seu gênio, em toda a sua
personalidade, havia algo atraente, imperceptível, que predispunha
as mulheres a seu favor, que as atraía; ele sabia
disso e, por sua vez, sentia-se impelido para elas.
Uma experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe,
havia muito, que toda aproximação, a qual constitui a princípio
uma variação tão agradável na vida e apresenta-se como uma
aventura ligeira e aprazível, converte-se invariavelmente, em
se tratando de pessoas corretas, especialmente moscovitas,
indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro, problema,
extraordinariamente complexo, e a situação, por fim, torna-se
verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com uma
mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da memória,
vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.
Eis que certa vez, à noitinha, estava jantando no jardim,
e a senhora de boina aproximou-se, em passo lento, para
ocupar a mesa vizinha. A expressão de seu rosto, o andar,
a roupa, o tipo de penteado, diziam-lhe que ela era de boa
sociedade, casada, estava em Ialta pela primeira vez, sozinha,
e que se aborrecia. .. Havia muita mentira nas histórias que
corriam sobre a depravação dos costumes locais, ele desprezava
aquelas histórias e sabia que, geralmente, eram inventadas por
gente que gostaria de pecar se soubesse fazê-lo, mas, quando
a senhora sentou-se à mesa que ficava a três passos da sua,
ele se lembrou daquelas histórias sobre fáceis conquistas e
passeios na montanha, e tomou dele a idéia tentadora de uma
ligação fulminante, de um romance com uma mulher
desconhecida, da qual não se conhece o nome, nem o sobrenome.
Chamou carinhosamente o lulu e, quando este se aproximou,
ameaçou-o com o dedo. O lulu rosnou. Gurov tornou
a ameaçá-lo.
A senhora olhou para ele e baixou os olhos.
- Não morde - disse ela e corou.
- Posso dar-lhe um osso? - e, quando ela assentiu
com a cabeça, ele perguntou afavelmente: - A senhora chegou.
a Ialta há muito tempo?
- Há uns cinco dias.
- E eu já estou completando aqui a segunda semana.
Seguiu-se um silêncio.
- O tempo passa depressa e, no entanto, a gente se
aborrece tanto aqui! - disse ela, sem olhar o interlocutor.
- É apenas uma convenção dizer que aqui é aborrecido.
Um habitante de Biélev ou de Jizdra vive em sua terra e não
se aborrece, mas, chegando aqui, repete: "Ah; que cacete!
Ah, que poeira!". Pode-se pensar que chegou de Granada.
Ela riu. Continuaram a comer em silêncio, como desconhecidos.
Depois do jantar, porém, caminharam lado a lado
e iniciou-se, entre eles, uma conversa ligeira, brincalhona, de
gente livre, satisfeita consigo, e à qual fosse indiferente aonde
ir e do que falar, Ficaram passeando e conversaram sobre o
modo estranho, pelo qual estava iluminado o mar: a água
tinha uma cor lilás, macia e tépida, e sobre ela a lua deitava
uma faixa dourada. Falavam em como o ar ficava sufocante,
após um dia de calor. Gurov contou que era moscovita, formado
em Filologia, mas que trabalhava num banco; noutros
tempos, preparara-se para cantar num teatro particular de
ópera, mas desistira; possuía em Moscou duas casas... Por
sua vez, soube dela que fora criada em Petersburgo, mas
casara-se na cidade de S., onde residia havia dois anos, que
passaria ainda em Ialta cerca de um mês e que era provável
vir buscá-Ia o marido, que também queria descansar. Não
sabia explicar direito em que repartição, ele trabalhava, e ela
mesma achava engraçado esse fato.Gurov soube, ainda, que
ela se chamava Ana Sierguéievna.
Voltando para o quarto, pensou nela e em que, no dia
seguinte; certamente haveria de encontrá-Ia. Deitando-se para
dormir, lembrou-se de que, ainda há tão pouco tempo, ela
estivera no colégio, estudara como agora a filha dele, lembrou-se
também de quanta irresolução e angulosidade havia ainda
em seu riso, em seu modo de falar com um desconhecido;
provavelmente era a primeira vez que se encontrava sozinha, em
tais circunstâncias, seguida e contemplada, e que alguém lhe
dirigia a palavra, com um objetivo secreto que ela não podia
deixar de adivinhar. Lembrou-se também de seu pescoço esguio,
frágil, de seus bonitos olhos cinzentos.
"Apesar de tudo, há nela qualquer coisa que inspira pena",
pensou, adormecendo.
Fazia uma semana que a conhecia. Era dia feriado.
Dentro de casa, o ar estava sufocante e, na rua, o vento arrastava
a poeira em turbilhão e arrancava os chapéus. Dava
sede o dia inteiro, e Gurov entrava com freqüência no pavilhão,
oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope,
ora sorvete. Ficava-se sem 'saber onde se meter.
Ao anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco,
foram até o quebra-mar, para assistir à chegada de um navio.
Havia muita gente passeando no cais; reunira-se um grupo,
com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se nitidamente
duas particularidades da bem vestida gente de Ialta: as
senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos
generais.
Em virtude do mar agitado, o navio chegou tarde, quando
o sol já se havia posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por
muito tempo, fazendo manobra. Ana Sierguéievna olhava
por um lorgnon para o navio e para os passageiros, como se
estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos fulguravam
quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia perguntas
entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o que
havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.
A multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se
Distiguiam mais os rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov
e Ana Sierguéievna permaneciam parados, como se esperassem
a descida de mais alguém do navio. Ela estava já silenciosa,
cheirando flores, sem olhar para Gurov.
- O tempo melhorou – disse ele – Aonde iremos agora?
Vamos tomar um carro?
Ela não respondeu.
Ele a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e
beijou-lhe os lábios; foi envolvido pelo perfume e pela umidade
das flores e, no mesmo instante, espiou assustado em redor,
para certificar-se de que ninguém os vira.
- Vamos a sua casa... - disse em voz baixa.
E caminharam depressa.
O ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a
perfumes, que havia comprado numa loja japonesa. Olhando-a
agora, Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem
na vida!". O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres
despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que
lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve,
que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua
mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas,
afetadamente, com histeria, com uma expressão que
parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo
mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito
bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão
rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida
mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam
mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco
inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua
beleza passava a despertar nele ódio e julgava ver escamas no
rendado de suas roupas brancas.
Mas ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade
de juventude inexperiente, um sentimento de timidez; e
havia ainda uma sensação de perturbação, como se alguém
tivesse, de repente, batido na porta. Ana Sierguéievna, esta
dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um modo
particular, muito seriamente, como se fosse a sua perdição;
assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-lhe os traços e os cabelos compridos penderam-lhe tristemente
dos lados do rosto; ficou pensativa, em atitude desolada,
como a pecadora de um quadro antigo.
- Isto não está bem - disse ela. - Você, agora, é o
primeiro a não me estimar.
No quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov
cortou um pedaço e começou a comê-lo, sem se apressar.
Decorreu pelo menos meia hora em silêncio.
Ana Sierguéievna estava tocante, emanava dela a pureza
de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A vela
solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o rosto,
mas se via que estava sofrendo.
. - Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? -
perguntou Gurov. - Você mesma não sabe o que diz.
- Que Deus me perdoe! - disse ela e seus olhos marejaram-
se. - Isto é horrível.
- Você parece que está se justificando.
-  Com que vou me justificar? Sou uma mulher má, ignóbil,
desprezo-me e nem penso em me defender.
Não enganei o marido, mas a mim mesma. E não foi somente
agora, mas há muito que me engano. Meu marido talvez seja
um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não sei direito
o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas sei
somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha
vinte anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar
algo melhor. Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida".
Tinha vontade de viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me
a curiosidade... você não 'compreende isto, mas, juro por
Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém me
poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para
cá. . . E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como
uma louca. . . e eis que me tornei uma mulher infame, vulgar,
e qualquer um pode me desprezar.
Gurov já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-
O aquele tom ingênuo, aquele arrependimento tão inesperado
e fora de propósito. Não fossem as lágrimas nos olhos
e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando um
papel.
- Não compreendo - disse ele suavemente. - O que
é que você quer?
Ela escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.
- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo
uma vida honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma
não sei o que faço. A gente do povo diz: o diabo tentou.
E eu posso também dizer agora, a meu respeito, que o
diabo me tentou.
- Basta,basta.., - balbuciou ele.
Olhava-a nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-
lhe com ternura, e ela, aos poucos, acalmou-se e voltou-lhe
a alegria. Puseram-se a rir.
Depois, quando saíram, não havia viva alma à beira-mar.
A cidade com seu ciprestes parecia completamente morta,
mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a margem. Uma
barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela, sonolenta,
uma pequena lanterna.
Encontraram um carro de aluguel e foram a Oreanda.
- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome:
na portaria está escrito "Von Dideritz" - disse Gurov. -
Teu marido é alemão?
- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio
é ortodoxo.
Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da
igreja, olhando em silêncio o mar. Ialta mal se via através
da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto
aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as
árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado, do
mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno
que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando
ainda não existiam lalta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz
agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando
não existirmos mais. E nessa permanência, nessa completa
indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós,
oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do
incessante movimento de vida sobre a terra, da perfeição
imorredoura. Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao
alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao
ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens,
ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se se
refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com
exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos
esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa
própria dignidade humana.
Acercou-se deles um homem, provavelmente um guarda,
olhou-os e se afastou. E este pormenor pareceu igualmente misterioso
e belo. Viu-se chegar de Feodóssia um navio, iluminado
pela aurora e já de luzes apagadas.
- A erva está coberta de orvalho - disse Ana Sierguéievna,
depois de um silêncio.
- Sim. É tempo de ir para casa.
Regressaram à cidade.
Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar,
almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com
o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe
batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas,
perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele
não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque
ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém
nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a
apaixonado, Àquele ócio, completo, aqueles beijos em pleno
dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor,
a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem
vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado completamente.
Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e
tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a
deixava por um momento. Ela ficava freqüentemente pensativa,
pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava,
não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente
uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado
o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda
ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem sucedidos,
deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.
Esperavam a vinda do marido. Mas chegou dele uma
carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava
à mulher que regressasse o quanto antes. Ana Sierguéievna
apressou-se a voltar.
- É bom que eu parta - disse ela a Gurov. – É o
próprio destino.
Partiu de carro e ele a acompanhou. Viajaram um dia
inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo sinal,
ela disse:
- Deixe que olhe para você mais uma vez... uma vez
mais. Assim.
Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e. tremia-lhe
o rosto...
- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique
com Deus. Não guarde má lembrança de mim. É uma despedida
para sempre, tem que ser assim, pois nem nos devíamos
ter encontrado.Bem,vá com Deus...
O trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes
depois, não se ouvia mais qualquer ruído, como se
tudo se tivesse combinado propositalmente, para fazer cessar
o quando antes aquele doce alheamento, aquela loucura.
Sozinho na plataforma da estação, e olhando para a negra
distância, Gurov ficou ouvindo o canto dos griios e a zoada
dos fios telegráficos, com a sensação de haver acordado somente
naquele instante. Pensava que em sua vida ocorrera mais
uma aventura, um episódio,que também terminara,deixando
apenas uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia
um ligeiro arrependimento. Aquela mulher jovem, que não
veria mais, não fora feliz com ele. Tinha sido com ela afável,
afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu modo de tratá-la, no tom
de sua voz e nos carinhos que lhe fizera,
transparecia a sombra de uma ligeira ironia,
o sentimento algo rude de uma
superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase
o dobro de idade. Durante todo o tempo, ela o chamara de
bondoso, extraordinário, superior. Certamente, Gurov aparecia-
lhe como alguém diferente do que era na realidade; por
conseguinte,enganava-a sem querer...
Na estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca. -
"É tempo de partir também para o norte” pensou Gurov,
saindo da plataforma. "É tempo!".
Em casa, em Moscou, tudo já havia adquirido um aspecto
hibernal. Acendiam-se as estufas e, de manhã, quando as
crianças preparavam-se para ir ao ginásio e tomavam chá,
estava tão escuro que a babá acendia, por algum tempo, as
luzes. Começou o frio. Quando cai a primeira neve, no
primeiro dia de passeio de trenó, é aprazível ver a terra branca,
os telhados brancos, respira-se suave e docemente e, nessa
hora, lembram-se os anos de juventude. As velhas tílias e
bétulas, alvas de geada, têm uma expressão benevolente,
estão mais próximas do coração que os ciprestes e palmeiras,
e, junto delas, não se quer mais pensar no mar e nas montanhas.
Gurov era moscovita. Regressando a Moscou num dia
Bom, frio, vestindo a peliça e as luvas de inverno, passeando
pela Pietrovka e ouvindo sábado à noite o som dos sinos,
aquela viagem que fizera havia pouco e os lugares que vira
perderam para ele todo encanto. Mergulhou pouco a pouco
na vida moscovita, lia já, sequiosamente, três jornais por dia
e afirmava não ler jornais moscovitas por uma questão de
princípio. Sentia-se já atraído pelos restaurantes, pelos clubes,
pelos jantares festivos, pelas homenagens a alguém, e já ficava
lisonjeado pelo fato de ser visitado por advogados e artistas
famosos e porque, no clube dos médicos, jogava baralho com
um catedrático. Era já capaz de comer toda uma porção de
sielianka com frituras...
Passaria um mês, mais ou menos, e Ana Sierguéievna,
tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e
somente de raro em raro aparecer-lhe-ia em sonho, com seu
tocante sorriso, tal como outras apareciam. No entanto,
decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno,
mas tudo permanecia nítido na memória, como se a separação
com Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera. E as recordações
tornavam-se cada vez mais intensas. Quer lhe chegassem
ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes
das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão
ou uma canção no restaurante, quer ainda uivasse o vento na
lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o
que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela
névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia,
os beijos. Passava muito tempo caminhando pelo quarto e
recordando, sorria e, depois, as lembranças transformavam-se
em sonhos e o passado misturava-se, em sua imaginação, ao
que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela
o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o.
Fechando os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem,
mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia
melhor do que tinha sido naqueles dias em Ialta. Ao anoitecer,
ela o espreitava de dentro do armário de livros, da lareira,
do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru carinhoso
de suas roupas. Na rua, acompanhava mulheres com o
olhar, procurando alguma que a ela se assemelhasse...
Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com
alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar
de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com
os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além
disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, porventura,
algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante,
em suas relações com Ana Sierguéievna? Tornava-se necessário
conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres,
e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua
mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:
- Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.
Certa vez, à noite, saindo do clube dos médicos, em companhia
de um funcionário, seu parceiro no jogo, não se conteve  e disse:
- Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em
Ialta!
O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas, de repente,
voltou-se e chamou-o:
- Dmítri Dmítritch!
- Que é?
- Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!
Aquelas palavras, tão comuns, deixaram Gurov indignado,
sem que soubesse por que, pareceram-lhe humilhantes,
impuras. Que selvagens costumes, que rostos! Que noites
estultas, que dias desinteressantes, anódinos! O jogo desenfreado,
a gula, a bebedeira, as imutáveis conversas sobre o
mesmo assunto. As ocupações desnecessárias e as conversas
invariáveis ocupavam a melhor parte do tempo, as melhores
energias e, por fim, sobrava apenas uma vida absurda, sem
asas, uma mixórdia qualquer, da qual não se podia fugir, como
se se estivesse num manicômio ou numa prisão!
Ficou a noite toda sem dormir, indignando-se, e passou
o dia seguinte com dor de cabeça. Nas noites que se seguiram,
dormiu mal também, ficava sentado na cama, pensando, ou
andava de um canto a outro do quarto. Aborrecia-se com
as crianças, com o banco, não tinha vontade de ir a lugar
algum, de falar em coisa alguma.
Nos feriados de dezembro, preparou-se para viajar. Disse
à mulher que ia a Petersburgo, a fim de pedir certos favores
de pessoas influentes, para um jovem, mas viajou para S.
Para quê? Ele mesmo não sabia ao certo. Tinha vontade
de ver Ana Sierguéievna, falar com ela, ajeitar uma entrevista,
se possível.
Chegou a S. de manhã e alugou o melhor quarto do hotel;
o assoalho estava ali inteiramente forrado com pano cinzento,
de uniforme militar; sobre a mesa, havia um tinteiro, pardo
de poeira, ornado de um cavaleiro que perdera a cabeça e
mantinha levantado um braço com chapéu. O porteiro deu-lhe
as necessárias informações: Von Dideritz morava na rua
Staro-Gontchárnaia, em casa própria; era perto do hotel, ele
vivia com fartura, possuía cavalos, todos o conheciam na
cidade. O porteiro pronunciava: "Dridiritz".
Gurov caminhou, sem se apressar, para a Staro-Gontchárnaia
e procurou a casa. Bem em frente, estendia-se um muro
cinzento, comprido, coberto de pregos.
"Qualquer um teria vontade de fugir de um muro assim",
pensou Gurov, olhando ora para as janelas, ora para o muro.
Calculava: não era dia de expediente, e o marido estaria
provavelmente em casa. Além disso, seria falta de tato entrar
e deixá-la perturbada. Se mandasse um bilhete, este poderia
cair nas mãos do marido e então tudo estaria perdido. O melhor
seria confiar-se ao acaso. E ele passou muito tempo andando
pela rua e junto ao muro, esperando aquele acaso. Viu atravessar
o portão um mendigo, que foi assaltado por cachorros;
passada uma hora, ouviu tocar o piano, mas os sons chegavam-lhe
fracos, pouco nítidos. Provavelmente era Ana Sierguéievna
quem tocava. De repente, abriu-se a porta principal e por ela
saiu uma velha, acompanhada pelo lulu branco, que ele conhecia.
Gurov quis chamar o cachorro, mas, de súbito, começou
a bater-lhe precipitadamente o coração e, perturbado, não
conseguiu lembrar o nome do lulu.
Ficou andando; odiava com intensidade crescente o muro
cinzento e pensava já, com irritação, que Ana Sierguéievna
esquecera-o e talvez já se divertisse com outro, o que seria
muito natural na condição de mulher jovem, obrigada a
ver, de manhã à noite, aquele maldito muro. Voltou para
o quarto do hotel e passou muito tempo sentado no divã,
sem saber o que fazer; jantou, depois dormiu bastante.
"Quanta estupidez e nervosismo", pensou, acordando e
olhando para as janelas escuras, pois anoitecera. "Dormi não
sei para quê. E o que vou fazer de noite?"
Estava sentado na cama, com um cobertor barato, cinzento,
que parecia de hospital, e zombava de si mesmo, com despeito:
"Aí tem você a dama do cachorrinho. Aí tem você
uma aventura... Por isso mesmo, fique sentado aí."
Ainda de manhã, na estação, havia-lhe saltado aos olhos
um cartaz, de letras muito graúdas, anunciando a estréia
de "Gueixa". Lembrou-se disso e foi ao teatro.
"É bem possível que ela costume freqüentar as estréias",
pensou.
O teatro estava cheio. Como sempre acontece nos teatros
de província, havia uma névoa pairando sobre os lustres, a
galeria inquietava-se ruidosamente. Antes de começar o espetáculo,
os elegantes locais ficavam de pé, na primeira fila,
as mãos atrás. No camarote do governador, estava sentada,
na frente, a filha deste, de boá, enquanto o próprio governador
ocultava-se modestamente atrás de uma cortina, deixando
aparecer apenas as mãos. O pano de cena balançava-se,
os músicos da orquestra passaram muito tempo afinando os
instrumentos. Enquanto os espectadores entravam e ocupavam
os lugares, Gurov ficou procurando ansiosamentecom os olhos.
Ana Sierguéievna entrou também. Sentou-se na terceira
fila e, quando Gurov a olhou, sentiu apertar-se o coração e
compreendeu com nitidez que não existia, agora, para ele, em
todo o mundo, pessoa mais próxima, querida e importante.
Aquela pequena mulher, perdida no meio da multidão provinciana,
que não se distinguia das demais e tinha nas mãos um
lorgnon vulgar, enchia-lhe agora a vida, era sua aflição e sua
alegria, a única felicidade que almejava. Ao som da orquestra
ordinária, dos péssimos violinos locais, ele pensava em como
ela era bonita. Pensava e sonhava.
Entrou com Ana Sierguéievna e sentou-se a seu lado um
homem moço, de suíças pequenas, muito alto,um tanto
curvado. A cada passo, balançava a cabeça e parecia estar
cumprimentando incessantemente alguém. Era provavelmente
o marido, que ela, num acesso de amargura, chamara, lá em
Ialta, de lacaio. Com efeito, havia em seu vulto alongado,
nas suíças, na calva pequena, algo modesto e servil, sorria com
doçura e, na lapela. fulgia-lhe uma douta insígnia, que parecia
também uma chapinha de lacaio.
No primeiro intervalo, o marido foi fumar, ela permaneceu
sentada. Gurov, que estava também na platéia, aproximou-se
dela e disse, com voz trêmula e um sorriso forçado: - Boa noite.
Ela o olhou e empalideceu, depois tornou a olhá-lo apavorada,
sem acreditar no que via, e apertou fortemente nas
mãos, ao mesmo tempo, o leque e o lorgnon, lutando, sem
dúvida, consigo mesma para não desmaiar. Permaneceram
calados. Ela estava sentada, ele, de pé, assustado com a perturbação
dela e não ousando sentar-se ao lado. Os violinos
e a flauta, que estavam sendo afinados pelos músicos, começaram
a cantar, veio uma sensação de medo, tinham a impressão
de que em todos os camarotes havia gente olhando para
eles. Mas, eis que ela se levantou e caminhou depressa para
a saída; Gurov acompanhou-a. Caminharam sem destino.
por corredores e escadas, ora acima, ora abaixo, e aos seus
olhos perpassou gente com uniformes de juiz, de estudante;
de funcionário, todos com as respectivas insígnias. Apareciam
senhoras, peliças em cabides, soprava um vento encanado,
repassado do cheiro de tabaco. E Gurov, que tinha o coração
batendo precipitadamente, pensou:
"Oh, meu Deus! Para que essa gente, essa orquestra..."
Naquele momento, lembrou-se de repente de como, certa
noite, numa estação de estrada de ferro, tendo acompanhado
Ana Sierguéievna ao trem, dissera a si mesmo que tudo estava
terminado e que não se tornariam a ver jamais. Mas, como
estava longe ainda o fim de tudo!
Ela deteve-se numa escada estreita e sombria perto da
inscrição: "Entrada para o anfiteatro".
- Como você me assustou! - disse, respirando pesadamente
e ainda pálida, atordoada.- Oh, como me assustou!
Estou meio morta. Para que veio até aqui? Para quê? - Mas, compreenda, Ana, compreenda... - disse ele
a meia voz e apressadamente.- Eu lhe imploro, compreenda...
Ela o olhava com expressão de medo, de súplica, de amor,
olhava-o fixamente, para reter com mais intensidade na
memória os traços de seu rosto.
- Sofro tanto! - prosseguiu ela, sem o ouvir. -
Todo esse tempo, s6 pensei em você, só vivi com esse pensamento.
Ao mesmo tempo, tinha vontade de esquecer, esquecer,
mas, para que, para que foi que você veio?"
Mais em cima, entre dois lances de escada, havia dois
ginasianos fumando e olhando para baixo, mas Gurov não se
importava com coisa alguma, atraiu para si Ana Sierguéievna
e pôs-se a beijar-lhe o rosto, as faces, as mâos.
- Que está fazendo, que está fazendo? - disse ela horrorizada,
afastando-o.- Perdemos a cabeça. Vá embora hoje
mesmo, neste mesmo instante... Peço-lhe por tudo o que há
de sagrado, imploro-lhe. .. Vem gente aí! "
Alguém estava subindo a escada... – Você deve ir... -prosseguiu Ana Sierguéievna, num murmúrio. Está ouvindo, Dmítri Dmítritch?
Vou visitá-lo em Moscou. Nunca fui feliz, mas agora sou infeliz e jamais,
jamais terei felicidade! Não me obrigue, então, a sofrer mais
ainda! Juro-lhe que irei a Moscou. E agora, separemo-nos!
Meu querido, meu bom, meu amado, separemo-nos!
Ela apertou-lhe a mão e começou a descer rapidamente
a escada, voltando a cada momento a cabeça, e em seus olhos
percebia-se que, realmente, não era feliz... Gurov permaneceu
algum tempo parado, ouvindo seus passos; depois, procurou
o cabide e saiu do teatro.
Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo.
Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia
consultar um professor de Medicina sobre sua doença de
senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo
tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo
após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um
homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em
Moscou sabia disso.
Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu
encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera,
ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado,
pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho.
Caía uma neve graúda, molhada.
- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai
neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente
na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera
há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?
Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em
que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva
alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha
duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os
que o queriam, repassada de verdade e de mentira convencionais,
completamente semelhante às vidas de seus conhecidos
e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho,
talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para
ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele
era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o
cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo
o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que
se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu
trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior",
a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso
era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava
no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre,
sob o manto do mistério, como sob o manto da noite,
a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência
individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta
a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente
para ver respeitado o mistério individual.
Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se
ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu
mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o
vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a
tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida,
olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou
a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se
não se tivessem visto uns dois anos.
- Bem, como vai a tua vida lá? - perguntou ele.
Que há de novo?  - Espere, vou dizer daqui a pouco... Não posso.
Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça
e apertou o lenço contra os olhos.
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar
sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.
Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto
o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para
a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa
de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se
apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões!
Não estava destruída a vida de ambos? - Ora, basta! - disse Gurov.
Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria
logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade
crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo
aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros,
para acarinhá-la e gracejar um pouco e,
naquele momento, viu-se no espelho.
A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha.
Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido
tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado
as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se
daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que,
provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se,
como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre
parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era
na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa,
mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam
sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam,
todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com
ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a
mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo
podia ser tudo, menos amor...
E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha,
ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez
na vida.
Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima
e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos.
Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e
era incompreensível por que ele estava casado e ela também.
Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados
e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um
ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado,
perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele
amor os transformara.
Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara
consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as,
sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...
- Basta, minha boa menina, dizia ele. - Chorou e
chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma
idéia.
Depois, ficavam por muito tempo trocando conselhos,
falavam em como libertar-se da necessidade de se esconder,
de enganar, de viver em cidades diferentes e ficar muito tempo
sem se ver. Como libertar-se daqueles insuportáveis liames?
- Como? Como? - perguntava ele, pondo as mãos à
cabeça. - Como?
Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam
a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia,
em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda
estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.