Prezado Charles,
Escrevo-te porque me preocupo contigo.
Mentira.
Escrevo-te porque preocupo-me comigo e sinto por ti um desprezo que me incomoda
mas me atrai. Mal nos conhecemos, já li algumas coisas suas. Gosto, mas não
muito. Confesso que isso tudo pode estar alojado em um violento asco pela
maneira como você se refere às mulheres, mas acho que compreendo tal
necessidade. Fato é que me parece apelativo esse seu caminho escatológico de
lidar com a vida, com o amor e o sexo (Aliás, acreditas no amor?). Você parece
fazer questão de expressar as palavras mais grotescas e chulas, achando que
isso o torna um pessimista profundo? Desculpe, mas a mim não convence. Acho que
você não sofre como faz parecer que sofre. Por exemplo, se eu escrever, no meio
dessa minha carta, um "Hank, seu grande filho da puta. Por que não
podes suportar me comer direito?"
todo mundo olharia diretamente para essa frase e
interessar-se-ia por essa carta pelo simples fato de ver uma palavra suja, e
consequentemente achar que algo desse teor estaria envolvido nela. As pessoas
precisam que alguém extravase no lugar delas não é mesmo? Talvez você
me ache uma romântica idealista e boba, e que meus textos cativam mulheres
solitárias e mal amadas, apenas. Até pode ser. Eu sou uma solitária. Se não
fosse, porque diabos estaria eu escrevendo uma carta a alguém que eu
supostamente desprezo? Às vezes tenho pena de mim, ao contrário do que
transpareço em minhas ultimas entrevistas na TV. Talvez não sejamos tão
diferentes, afinal. Eu, fingindo uma profundidade atrás dessa rudeza e
pequeneza feminina, e tu fingindo boemia e transgressão atrás dessa insegurança
masculina.
A verdade é que hoje percebo que existem os homens, as
mulheres e os escritores. Talvez a gente não tenha as habilidades normais das
pessoas para nos relacionar. Eu não descobri o mundo através de uma barata como
minha personagem Joana, e você, velho safado, não me parece ter comido tantas
bundas como escreves. Somos mentirosos muito bem sucedidos, não lhe parece? E
as pessoas nos adoram por acharem que somos verdadeiros e expressamos desejos
que são ocultos em todos e que todos gostariam de colocar em palavras.
Não sei, Buk (permita-me tal intimidade. Comecei essa
carta para achincalhar-te e agora tenho em ti um rápido amigo) mas talvez meu
sentimento de desprezo por ti esteja me atrapalhando e fazendo com que eu
esteja te desrespeitando. Mas acho que isso não te preocupa nem um pouco,
certo? Talvez eu precise fazer as mulheres me amarem, ao passo que tu necessita
fazer com que elas te odeiem. Somos farsantes solitários.
Paro por aqui desculpando-me pelo desabafo, e agora não
mais secretamente desejando que um dia quem sabe ainda possamos nos sentar
juntos, depois de uma noite de amor, fumando um cigarro e tomando um bom
whisky, para que tu me digas quem sou eu em teus olhos e me ensine um pouco
mais sobre nossos podres todos.
Clarice.
Clarice.
Sem mais delongas, um achado nas minhas "viagens" pela internet!!
Tão surreal que nem fiz questão de ver a veracidade, visto que lemos por ai tantas baboseiras que alguém supostamente registra como se fosse obra da grande Clarice Lispector, mas ao ler essa "Carta para um velho safado" não tenho dúvidas que só uma mente tão linda quanto a de Clarice poderia ousar, e quem em sã consciência não gostaria de escrever o mesmo ao grande Bukowski??
(ando meio desligada e sem inspirações, mas em breve apareço com meus escritos por essas bandas, sinceramente aqui no meu território emocional as coisas estão meio nubladas, e a lua não apareceu pra me trazer inspirações pelas madrugadas. Em breve numa esquina qualquer eu ressuscitarei e me encontrarei com meu lado notívaga e encantada de ver a vida.)
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