quarta-feira, 1 de julho de 2026

A LENDA DO BOTO PODE SER CONSIDERADA INCENTIVADORA DE ESTUPROS?





A LENDA DO BOTO PODE SER CONSIDERADA INCENTIVADORA DE ESTUPROS?


Algumas pessoas têm encarado a lenda do boto com revolta, pois veem nela um meio de encobrir estupros na região amazônica. É o que divulga um texto na internet, que será aqui postado em itálico e comentado cada parágrafo dele.




A lenda do boto é um dos contos mais conhecidos do folclore brasileiro, especialmente na Amazônia…. 


COMENTÁRIO: Antes de ser uma lenda do folclore brasileiro, a lenda do boto é um mito de origem indígena e parte de uma religião brasileira: a encantaria. Ou seja, para os povos originários e ribeirinhos, não se trata de uma simples lenda, mas de algo verdadeiro, presente em seu cotidiano, assim como as crenças cristãs o são para os cristãos.


Segundo a tradição popular, o boto-cor-de-rosa se transforma em um homem elegante durante a noite, encanta mulheres e retorna ao rio antes do amanhecer.


COMENTÁRIO: O simbolismo da transformação de deuses em animais ou de animais em deuses, no momento do contato com uma mulher para conceber um filho está presente em várias mitologias e religiões. Na mitologia grega, Zeus se transforma em um cisne para seduzir Leda e gerar nela um filho. No cristianismo, o Espírito Santo é representado pela imagem de uma pomba ao se aproximar de Maria para conceber nela Jesus Cristo. 


Zeus Transformado em Cisne Seduz Leda


Nada tão diferente da lenda do boto, em que o boto se transformaria em homem para encantar mulheres, gerando nelas os filhos de botos: crianças com dons especiais.


Com Menos Contato Físico, Seguindo a Moral Cristã, 
O Espírito Santo, em Forma de Pomba, Matem
 Contato com Maria para o Nascimento de Jesus Cristo


Além de seu valor cultural, pesquisadores apontam que, em determinados contextos históricos, a expressão “foi o boto” também acabou sendo usada para explicar gestações de meninas muito jovens, evitando que a verdadeira origem dessas situações fosse investigada.


COMENTÁRIO: Na lenda do boto, há uma importante advertência: é aconselhado às moças para que desconfiem de homens sedutores, no caso, que nunca tiram o chapéu da cabeça, pois, por baixo do chapéu, pode estar escondido algo horrível: o orifício por onde o boto respira, que demonstraria que ele não é o que aparenta ser e que esconde sua verdadeira intenção. Essa advertência pode ser aplicada a um abusador qualquer humano, que usa de sua posição familiar ou de amizade ou outra falsa aparência, para esconder sua verdadeira intenção. 


Assim a lenda do boto não seria um incentivador de estupros de mulheres amazônicas, mas, ao contrário, ela é uma forma de prevenir abusos, fazendo com que mulheres sempre desconfie da verdadeira intenção dos homens.  


É importante destacar que essa utilização não faz parte da essência da lenda, nem representa seu significado original.


COMENTÁRIO: Como foi visto, a lenda do boto não incentiva estupro, ao contrário, embora pessoas mal intencionadas possa usá-las para encobrir seus crimes. Mas isso pode acontecer com qualquer outra crença, inclusive com mitos do cristianismo, como já aconteceu, de freiras afirmarem terem ficado grávidas do Espírito Santo, ou de pastores usarem passagens bíblicas para obrigar sexo com adolescentes. 


Trata-se de uma interpretação social observada por historiadores e antropólogos ao analisar determinadas comunidades e períodos


COMENTÁRIO: O uso criminoso da lenda do boto é infinitamente menor do que as interpretações criminosas do cristianismo; no entanto, comentar tais distorções da lenda do boto sem chamar atenção para o fato de que esse tipo de apropriação indevida é comum a qualquer sistema de crença revela uma análise parcial e, em certa medida, até desonesta.    


Conhecer essa dimensão da história não diminui a importância do folclore brasileiro. Pelo contrário: amplia nossa compreensão sobre como narrativas populares podem refletir aspectos da sociedade da sua época e reforça a importância da proteção das crianças e dos adolescentes, da escuta qualificada e da responsabilização de quem comete crimes.

 

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