SERIAL KILLERS, CYBERPUNK, FETICHES E DARK WEB - ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN SOBRE NOVO LIVRO
Em “Fetiche — Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web”, é narrada a busca por um predador sexual que se utiliza de um perigoso fetiche para matar suas vítimas, descartando seus corpos em rios próximos à cidade de Belém/PA.
O leitor acompanha a investigação em busca do assassino, que o conduz ao curioso mundo dos fetiches, dos clubes de swing e das histórias sombrias da dark web, revelando o lado sombrio da pornografia.
A história se passa no futuro, em uma Amazônia distópica, marcada pela chuva ácida, coberta de fuligem das queimadas e assolada por um calor insuportável, que obriga a cidade a adotar uma vida noturna. Tudo efeito da devastação ambiental e da chegada dos data centers, que consomem toda a água dos rios e despejando calor na atmosfera.
Nesse futuro distópico, a cidade de Belém tornou-se dominada pela prostituição e centro mundial do turismo sexual, atraindo os mais perversos predadores sexuais.
O lançamento do romance será na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro, no dia 5 de setembro no Hangar, no estande Amazônia Fantástica.
O Bornal convidou o autor Bosco Chancen para um bate-papo sobre seu novo romance.
Bornal: A primeira coisa que chama atenção no romance “Fetiche — Um Thriller Policial Sobre o Criminoso Mundo da Dark Web” é a ambientação: a história se passa quase que totalmente em um clube de swing, o que é uma grande novidade às histórias de serial killers, mas que pode afastar leitores mais conservadores; você não acha?
Bosco Chancen: Sim, mas também poderá atrair pessoas curiosas com estes ambientes, que não estão lá somente pra chamar atenção, são importantes para a trama do livro, já que por meio deles busca-se entender a mente do predador sexual e seu fetiche assassino. Por isso tornou-se necessário a descrição das atividades e regras de um clube de swing, o simbolismo por trás das práticas sexuais, além de conceitos fundamentais da sexologia, como o de parafilia. Contudo, evitei cenas muito descritivas ou desnecessárias, pois o romance é um thriller policial não uma história pornográfica.
![]() |
| Ilustração de Robson Marone para o Livro Fetiche |
Bornal: Como foi a pesquisa para a criação dos ambientes e das cenas de fetiche?
Bosco Chancen: Tomei como modelo clubes de swing franceses e praias de nudismo de Cap d’Agde, na França, lugares dedicados ao sexo livre. Acompanhei entrevistas com criadoras brasileiras de conteúdo sexual sobre o funcionamento das mais famosas casas de swing brasileiras, sobre seus ambientes e suas regras. A internet foi uma grande fonte de pesquisa sobre os fetiches atuais. De modo que, tudo que está no livro é real, mesmo as coisas mais absurdas ligadas ao sexo e às mutilações corporais descritas. Aliás, gosto muito de apresentar fatos reais que, por serem tão absurdos, apareçam irreais.
Bornal: Como surgiu a ideia do romance?
Bosco Chancen: Surgiu das minhas leituras dos livros do Marquês de Sade e também das histórias sobre serial killers reais, em que constatei que a grande maioria deles eram motivados por alguma forma de fetiche ou parafilia. Ted Bundy, por exemplo, tinha predileção em assassinar mulheres de cabelos lisos e escuros e flertava com a necrofilia: ele voltava ao corpo, dias depois, para manter relações sexuais com os cadáveres; o assassino Dennis Rader, que resumiu seus fetiches ao se autonomear de BTK (iniciais inglesas para os atos de “amarrar, torturar, matar”), tinha fetiche por bondage, vestir roupas femininas de suas vítimas e ser sádico.
Sade foi o primeiro autor a fazer dos assassinos e de seus fetiches os protagonistas de suas histórias e também o primeiro a mostrar o lado violento e sádico da sexualidade humana, que aparece de forma extrema nos serial killers. Não é à toa que seu nome foi usado para criar o termo sadismo, que é o prazer em provocar dor e sofrimento aos outros. Então, pensei que seria uma boa ideia usar a obra dele para criar uma história sobre um assassino sexual que utiliza de um fetiche para matar suas vítimas; também aproveitei sua obra para criar os perfis psicológicos dos criminosos, pois nada mais coerente do que utilizar a obra daquele que inspirou o termo sadismo para definir uma mente sádica.
Bornal: Quais os fetiches mais assustadores que você encontrou durante a pesquisa?
![]() |
| Ilustração de Robson Marone para o Romance Fetiche |
Bosco Chancen: Antes de mais nada, é preciso dizer que fetiches e fantasias sexuais fazem parte da sexualidade humana normal, embora alguns possam se tornar perigosos, principalmente quando relacionados à mentes perturbadas. A hibristofilia é um desses casos, embora seja uma parafilia, que consiste em se ter atração por pessoas que cometeram crimes graves e que, por isso, pode levar pessoas a se relacionar amorosamente com pessoas perigosas e ser um risco de vida para elas. É o que vemos muito em notícias de jornais, de jovens mortas por se relacionar com traficantes e ser mortas por facções rivais ou pelo próprio namorado.
![]() |
| Wade Wilson |
O Maníaco do Parque, que matou 9 mulheres, ainda hoje recebe centenas de pedidos de namoro e casamento de mulheres. O americano Wade Wilson, que explorava mulheres e as espancavam, matou duas, covardemente, recebe inúmeras cartas de admiradoras, inclusive houve um abaixo assinado de mulheres para que ele tivesse a pena reduzida. É muito louco alguém se sentir atraído por uma pessoa que não perderia a primeira chance de explorá-la, espancá-la e matá-la. O tesão está, em parte, na atração pelo perigo, pela possibilidade de morte.
A atração pela morte também está presente em outro fetiche perigoso, que é o bareback, que consiste em participar de orgias sexuais, sem proteção, contendo entre seus participantes pessoas contaminadas com a Aids. Esse fetiche é uma verdadeira roleta russa.
É claro que existem atividades sexuais ainda mais perigosas e absurdas, ligadas ao sadismo. Uma das mais doentias e perigosas é a que é praticada pelo assassino do meu livro. Mas, para saber, tem que ler o livro.
Bornal: E quanto a dark web?
Bosco Chancen: O livro discorre sobre suas lendas urbanas, como os snuff videos, que são vídeos com cenas de mortes de pessoas encomendadas pelo pagante. Em 2001, um trio de ucranianos que tinham assassinado 21 pessoas e filmado.as mortes, foi pego pela polícia e confessou que os vídeos seriam vendidos na internet. Então, essas lendas não são tão lendas assim. A formação de grupos de criminosos sexuais tornou-se mais fácil com a internet, já que não importa mais a distância entre eles. Hoje, por exemplo, pedófilos do mundo todo podem se reunir por meio de sites da dark web, enquanto indivíduos sádicos que gostam de assistir a pessoas sendo torturadas não precisam sequer acessar a dark web, eles se reúnem através de aplicativos comuns, como o Discord, nos quais adolescentes se juntam em “panelas”, como são chamadas grupos de adolescentes que chantageiam e obrigam meninas a se mutilarem, matar seus animais de estimação e até tirarem a própria vida, tudo assistido ao vivo por eles. Essas atividades sádicas proporcionadas pela internet e os novos fetiches que surgiram com ela também são explorados pelo livro, que, mais uma vez, encontra em Sade uma origem.
Bornal: Já que o Marquês de Sade foi tão importante para o projeto do romance e está presente no livro, apresenta ele para os que não o conhecem.
![]() |
| Marquês de Sade por Robson Marone, Ilustração para o Livro Fetiche |
Bosco Chancen: O Marquês de Sade, que alguns já ouviram falar por meio do filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, foi um nobre francês que viveu de 1740 a 1814. Teve uma vida cheias de aventuras sexuais, que incluía o prazer de receber e ofertar chicotadas durante os atos sexuais. É famosa a passagem em que ele levou a prostituta Rose Keller para seu castelo, amarrou-a à cama, chicoteou-a e a feriu com pequenos cortes que estancou com pingos de cera quente de uma vela. Durante a primeira de suas prisões, motivada por sua sogra, devido ele ter fugido com sua cunhada, ele escreveu seu primeiro livro, Os 120 Dias de Sodoma, em que conta a história de quatro homens ricos que, junto de suas filhas, vão para um castelo para praticarem 600 formas de perversões sexuais, com 46 pessoas (homens, mulheres, jovens e velhos) levadas à força. Suas histórias mistura sexo e crueldade. Com suas histórias ele queria demonstrar, ao contrário de Rousseau, que afirmava que os homens nascem bons e a sociedade que os corrompe, que na verdade os homens nascem maus, sádicos e a sociedade os torna hipócritas.
Bornal: A trama do livro acontece em um futuro próximo, numa Amazônia devastada, com o calor insuportável e dominada pela prostituição. Isso é uma previsão?
Bosco Chancen: O romance é uma distopia, e toda distopia foca no futuro para criticar o presente e prever as consequências dos problemas atuais. As pesquisas recentes sobre a devastação da floresta amazônica prevê o aumento do calor em Belém, que a tornará uma das cidades mais quentes do mundo nos próximos anos, se não houver nenhum projeto para amenizar isso, como a arborização da cidade. Os moradores já percebem que já está mais quente do que no passado. No livro, o calor é agravado não apenas pelas mudanças climáticas, mas também pela vinda dos gigantescos data centers de IA, que consomem bilhões de litros de água de nossos rios, encarecem o preço da energia elétrica, causam poluição sonora e expelem ainda mais calor na atmosfera. E há um projeto atual dos políticos brasileiros para convidar empresas estrangeiras para instalar data centers em nosso país, não se importando com os prejuízos que trará para a população.
Bornal: E a referência à dominancia da prostituição, também se baseia na realidade atual?
Bosco Chancen: No livro, a prostituição e o tráfico de drogas são umas das poucas atividades humanas que ainda não foram totalmente dominadas pelas inteligências artificiais, embora, na trama, já exista concorrência com robôs sexuais. Contudo, ao contrário da glamourização atual dada às pessoas que se dedicam a produzir conteúdo sexual via internet, que sempre está associado à prostituição, o livro se volta para o lado ruim da pornografia e da prostituição, quanto à exploração e o perigo de vida, que torna garotas de programas alvos de predadores sexuais.
Bornal: Por isso a escolha de um cenário cyberpunk para o romance?
Bosco Chancen: Sim, os data centers, as grandes corporações tecnológicas comandando a política mundial e nossas vidas, as inteligências artificiais acabando com empregos e com as atividades que eram exclusivamente humanas, como compor música e produzir artes em geral, não são mais coisas de ficção científica, já vivemos isso, o mundo atual é cada vez mais cyberpunk.
![]() |
| Belém Cyberpunk Feita por IA |
Bornal: Mas o romance não foca apenas na visão pessimista do cyberpunk, quase que a metade do livro tem como cenário a estética do solarpunk, que aponta para um futuro otimista, sustentável, de harmonia com a natureza e com a vida humana; comente um pouco sobre essa oposição.
![]() |
| Belém Solarpunk Feita por IA |
Bosco Chancen: Tanto o cyberpunk quanto o solarpunk são duas formas de ver o futuro da humanidade, e no livro elas funcionam como uma oposição entre distopia e utopia, que o leitor sente a diferença sem ser algo panfletário. O solarpunk mostra que é possível criar projetos que tornem a humanidade mais harmoniosa com a natureza e principalmente com sua própria natureza interior. Mas se engana quem acha que o solarpunk é um mar de rosas, se fosse assim ele não teria a palavra ”punk” em seu conceito, possui seus desafios e sua rebeldia contra todo um sistema que explora o mundo de forma catastrófica.
Bornal: Alguma informação para fechar a matéria?
Bosco Chancen: Quem tiver interessado, o livro pode ser comprado pelo link da editora, clicando AQUI. E o livro é ilustrado pelo desenhista Robson Marone e estará presente no estande Amazônia Fantástica, na 29ª Feira Pan-Amazônica do livro, de 29 de agosto a 6 de setembro, no Hangar.









