terça-feira, 6 de agosto de 2024

DANIEL MASTRAL — ASSASSINATO OU SUICÍDIO?




DANIEL MASTRAL — ASSASSINATO OU SUICÍDIO?

Marcelo Agostinho Ferreira, mais conhecido como Daniel Mastral, foi encontrado morto no último domingo (04/08), com um ferimento na cabeça nas proximidades de sua casa, em Barueri. A polícia configurou a morte como suicídio, o que foi confirmado por seu irmão em sua rede social.


Daniel Mastral tornou-se bastante conhecido por sua participação em vários podcast, onde se dizia ter participado de seita satânica, ter desistido dela e ter se convertido ao cristianismo. Dizia-se também ser ameaçado de morte por membros de tal seita. O que motivou vários religiosos, em seus canais de youtube, a afirmarem que ele não tirou a própria vida, mas que foi assassinado por satanistas.


Postagem do Irmão de Mastral Afirmando Ter Sido Suicídio


Vamos a algumas teses defendidas por Daniel Mastral.


Tráfico de Crianças para Extração de Adrenocromo

Daniel Mastral ficou bastante conhecido por defender várias teorias conspiratórias, entre elas a crença na existência de um organização satânica mundial que sequestraria crianças para ser torturadas e delas ser extraído o adrenocromo, substância que serviria como uma espécie de fonte da juventude, que manteria jovens ricaços de vários países.


Mastral chegava a apontar como exemplos famosos atores e atrizes de Hollywood --- Tom Cruise, Brad Pitt e Cher ---, que se mantinham jovens apesar de suas avançadas idades --- É, Mastral não levava em conta as modernas técnicas de cirurgia plástica e outros procedimentos modernos.



O adrenocromo nada mais é do que adrenalina oxidada --- uma substância há tempos conhecida e bastante estudada, com vários estudos que não apontam nenhuma propriedade capaz  de manter pessoas jovens, ao contrário, pesquisas durante as décadas de 50 e 60, relataram que a substância seria nociva ao corpo humano, produzindo distúrbios mentais.


Não há também evidências alguma de que crianças sejam raptadas para ser torturadas e extraídas delas tal substância. No entanto, para Mastral isso era algo tão claro ao ponto dele ter afirmado, no podcast Lendacast, que uma das causas da guerra entre Rússia e Ucrânia, foi que Putin havia descoberto que existiria laboratórios de extração de adrenocromo, que manteria dezenas de crianças prisioneiras e torturadas.


Raptos de crianças para extração de adrenocromo, tem sido visto como mais uma lenda urbana disseminada pela internet, e pelo ator Jim Caviezel que tem disseminado não apenas esta lenda, mas também a crença antisemita de que o mundo é comandado pela família de banqueiros judeus Rotsshield, responsáveis também por praticar sacrifícios de crianças pobres no mundo para extrair remédios para viverem para sempre.


Jim Caviezel tem também usado suas denúncias para justificar porque foi Hollywood não mais o chamou para novos trabalhos, após o polêmico filme A ùltima Tentação de Cristo, de Mel Gibson. Nunca lhe ocorreu que ter um ator metido com opiniões tão infundadas e polêmicas pode ser um grande problema para as produtoras de filmes.


Daniel Mastral e a Seita Satânica

Mastral afirmava ter participado e rompido com uma seita satânica e se convertido ao cristianismo, alegando estar sendo perseguido por seus membros --- ao ponto dele ter advertido, em vídeo, que se caso fosse encontrado morto, que nunca acreditassem que tivesse sido suicídio. Tal fato, como era de se esperar, chamou bastante atenção do público, principalmente evangélico, e ajudou ele a atrair para seu canal do youtube, para suas palestras e cursos, milhares de participantes. Este mesmo fato tem levado pessoas a afirmarem que ele não se matou, mas que foi assassinado.


Vamos aos fatos:


A seita satânica que ele se refere, é a Church of Satan --- uma organização criada por de Anton Lavey, um músico e artista de circo (domador de leões), que durante os anos 60 aproveitou o modismo da cultura hippie para criar sua igreja, que concebia o diabo, não da forma tradicional, mas como uma energia benéfica da natureza. Lavey escreveu sua bíblia, a Bible of Satan, composta por preceitos éticos bastante rígidos, que buscava livrar-se dos duros preceitos morais do cristianismo, ligados à ideia de pecado, para dar maior liberdade psicológica, sexual e moral para seus adeptos.


Daniel Mastral disse, no podcast Lendacast, que com 17 anos ele se correspondeu via cartas com a Church of Satan, obtendo resposta, e que um dia em uma biblioteca em São Paulo, um homem o encontrou e confirmou se ele queria mesmo participar de seus cultos, afirmando que uma vez que ele entrasse, jamais sairia. Ele foi levado, com mais outros jovens, a uma mansão, onde obteve ensinamentos sobre a seita e medicamentos que o preveniria de pandemias, promovidas pela própria seita.


Esta afirmação não deixa de ser estranha, pois é estranho que uma pequena organização, como a Church of Satan --- e bastante decadente durante os anos 80 ---, tivesse meios e interesse em arregimentar pessoas tão distantes de sua sede, com tantas pessoas que iam até ela, e ainda tendo o interesse de o responder, mesmo Mastral escrevendo sempre em português, como foi alegado por ele.


Além disso, Daniel Mastral disse ter entrado para a organização satânica com 17 anos, e que teria sido membro por 8 anos. Ou seja, teria saído da organização com 25 anos; sofrido perseguição e ameaça de morte por revelar segredos da organização, e por fim, morto 31 anos depois. 


Trinta e um anos parece ser um período bastante longo para alguém jurado de morte, e que se expunha tanto e não tomava nenhuma precaução; o que ficou claro por meio de suas entrevistas.


Também não deixa de ser estranho que alguém tenha sido morto por uma suposta organização que se sentiu ameaçada, sem ter ele realmente dito alguma informação substancial, concreta, palpável, sobre tal organização e seus membros, recorrendo apenas a teorias conspiratórias infundadas em suas entrevistas, que nunca são levadas à sério pelas autoridades responsáveis. 


Hipótese de Suicídio

Daniel Mastral com a Suposta Arma que lhe Tirou a Vida

Um dos motivos que está levando muitos a argumentar que Daniel Mastral não se matou mas foi assassinado, é que dias antes do dia fatídico, ele estava cheio de planos de reatar seu perfil em redes sociais e não havia relatado nada de ruim que pudesse o levar aquele destino trágico. Mas a verdade é que isso não é motivo suficiente para não acreditar em suicídio, já que muitos suicídas camuflam seu estado psicológico, e podem ser levado a tomar tal atitudo por uma decisão de momento, por uma notícia inesperada, ou por um gatilho psicológico.


Mastral com Filho e Esposa Mortos


Soma-se a isso o suicídio de seu filho de 15 anos, em 2018, a morte da primeira esposa, fatos que ainda tinham sobre ele, influências dolorosas, apesar de sua esposa atual ter lhe dado um filho recente; soma-se a isso também o fato dele já ter tentado se matar --- o que foi dito pelo próprio em entrevistas para podcasts.


Além disso, o irmão de Daniel --- policial experiente, certamente acostumado com cenas de suicídios --- afirmou que ele se matou com a própria arma, com um único tiro na cabeça (fato comum aos suicídios por meio de arma de fogo). 


A hipótese de suicídio tem também ao seu favor, imagens de câmeras de segurança próxima ao local do suposto suicídio, que mostra Mastral saindo só de seu carro para o local em que foi encontrado morto.



quinta-feira, 1 de agosto de 2024

RELATO do LEITOR: A Estranha Sensação de Prever o Futuro (por Bosco Chancen)





RELATO do LEITOR: A Estranha Sensação de Prever o Futuro (por Bosco Chancen)

Quem já passou pela experiência de ter previsto algum acontecimento futuro, mesmo que corriqueiro e insignificante, com toda certeza teve admiração e espanto.


Alguns relatam que isto sempre vem acompanhado de um dèjà vu --- aquela sensação de sentir que o que estamos vivenciando naquele momento já vivenciamos no passado.  


Você está vendo determinada cena e tem a sensação de já tê-la visto antes, e prevê que, um segundo depois, um carro vermelho irá cruzar a esquina, porque teve também a sensação de tê-lo visto. E pronto. Um segundo depois, lá está o carro dobrando a esquina.


Uma dessas sensações me ocorreu uma noite, após eu encher um copo com água e pôr sobre a pia da cozinha, antes de ir para a sala, e o pensamento me vir à mente: “E se, do nada, enquanto eu for à sala, uma barata surgir próxima do copo?”. Não dei tanta importância ao pensamento, afinal o asco pelo inseto, nos leva a manter a cozinha sempre limpa. Deixei então o copo na pia e segui para a sala. Ao retornar, um minuto depois, não é que, de fato, encontrei uma barata próxima do copo, igualzinho como eu havia previsto!

 

Teria sido apenas coincidência? Ou eu havia tido uma premonição?


Seja como for, ter antecipado o acontecimento me causou sentimento de estranheza: teríamos o poder de prever o futuro mesmo que fosse apenas alguns segundos à frente?


segunda-feira, 29 de julho de 2024

FESTA DOS DEUSES E A ABERTURA DAS OLIMPÍADAS




FESTA DOS DEUSES E A ABERTURA DAS OLIMPÍADAS

Não é de hoje que cristãos se acham o centro do universo, e acreditam que toda a cultura da humanidade se resume à sua própria crença, mesmo que a cultura pagã seja milhares e milhares de anos mais antiga. 


Assim não é de estranhar que tenham confundido a cena dos deuses pagãos reunidos à mesa, durante a abertura das olimpíadas na França, com a cena cristã do quadro de A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, mesmo que lá esteja presente, ao centro, o deus pagão Dionísio (deus do vinho e da alegria) em meio a frutas e flores; também ignoraram que a palavra “Olimpíada” tem origem no termo grego “Olimpo”, nome do lugar dos deuses gregos e que as olimpíadas têm origens pagãs e nascida na Grécia antiga. Portanto, tendo mais a ver com deuses pagãos da alegria e da união, do que com uma cena cristã.



Mas há uma razão para a confusão: a ignorância de outras culturas e crenças religiosas por parte dos cristãos, que ignoram, por exemplo, que encontros de entidades religiosas em banquetes não é cena única do cristianismo, deuses da mitologia nórdica se reúnem à mesa em Valhala, em grandes banquetes com seus guerreiros; também deuses gregos, como Dionísio, se reuniam em banquetes e reuniões festivas para compartilhar seu sangue (vinho) com devotos; mais tarde copiado pelas missas católicas.



Outro elemento que ajudou a confusão, foi o fato da figura central da mesa possuir uma coroa de raios sobre a cabeça, que foi confundida com a auréola de cristo. A coroa de raios é um símbolo pagão antigo, simbolizando o sol, a iluminação e a sabedoria; símbolo que, mais tarde, seria copiado por pintores cristãos e atribuído em suas pinturas ao Cristo.


domingo, 28 de julho de 2024

RELATO do LEITOR: O Cheiro Fantasma (por HB Silva)




RELATO do LEITOR: O Cheiro Fantasma (por HB Silva)


(FANTOSMIA É O NOME DA SENSAÇÃO de sentir odores que não existem. Pode ter várias causas fisiológicas, mas também é vista por alguns cultos religiosos como manifestações espirituais)


A primeira vez que senti a sensação de fantosmia foi logo após o falecimento de minha mãe. 


Durante as madrugadas, passei a sentir cheiro de formol, como o que exalava do corpo dela durante o velório.  


A alucinação olfativa era acompanhada de alucinação auditiva: eu sentia o cheiro de formol e ouvia a voz dela me chamar pelo meu nome, como ela fazia quando viva.


Estas alucinações duraram apenas alguns dias. Mas, com os anos, uma outra forma de fantosmia se manifestou.


Passei a sentir um cheiro forte de fumaça de cigarro, como se alguém estivesse fumando por perto. E como não havia nenhum fumante em casa, ia pra frente de casa e não via ninguém por perto. Achava que tinha sido alguém que havia passado fumando e seguido seu caminho. E assim mantive essa crença.


Até que passei a sentir o mesmo cheiro de madrugada em meu quarto. Então percebi definitivamente que não poderia ser alguém fumando, pois não somente meu quarto estava fechado, mas também minha casa.


Até hoje eu ainda sinto o cheiro de cigarro.


Uma pequena busca na internet, encontram-se explicações religiosas. Em crenças de origem afro, é descrito como algo bom, o sinal de um protetor por perto; já para crenças pentecostais, é a manifestação de um espírito ruim, obsessor. Mas há também a explicação médica, que vê em causas corporais e psicológicas (ansiedade, traumas), a origem de tal sensação.


Mas sempre me pergunto: Será mesmo apenas alucinação? 

quarta-feira, 10 de julho de 2024

(RESENHA): "PSSICA", de Edyr Augusto


(Resenha): "PSSICA", de Edyr Augusto

Pssica, na linguagem de Belém do Pará, significa azar; é também nome do pequeno romance, de 2015, do escritor paraense Edyr Augusto Proença. Nele Janalice, de quatorze anos, após ter um vídeo publicado na internet fazendo sexo oral no namorado, é mandada morar com uma tia, próximo da Praça da República. Na casa da tia é assediada pelo namorado da tia, forçada a fazer sexo com ele e ameaçada se contar. Faz amizade com uma moradora da vizinhança, que a leva a conhecer o mundo das drogas, e que a vende para traficantes de escravas sexuais que a levam para Marajó e, posteriormente, para Caiena.


O romance apesar de pequeno (92 páginas), é incrivelmente denso, com histórias de outros personagens que se cruzam; abordando também os ratos d’água, assaltantes de embarcações que transitam pelos rios da ilha de Marajó.




Em Pssica, o tema principal é o tráfico de mulheres para o comércio de escravas sexuais, feitos por criminosos que se valem da extrema pobreza de nossa região e a pouca assistência dos poderes públicos, para traficar meninas de cidades pobres para regiões de garimpo no Suriname e outras regiões fora do Brasil.


Pssica é extremamente violento, com descrições de abusos sexuais chocantes feitos pelos ratos d’água, que não querem apenas roubar e espancar os passageiros, mas humilhar. As descrições são capazes de chocar mesmo o leitor mais acostumado com descrições perversas. Numa cena, durante assalto a uma embarcação, os assaltantes obrigam os passageiros homens a fazerem sexo oral um nos outros, sob a ameaça de apanhar e ser morto se não tiverem ereção, tudo descrito com uma linguagem crua, realista e bastante vulgar. 


Edyr Augusto Proença


Aliás, em Pssica o sexo nunca aparece associado ao amor ou carinho, mas sim como forma de dominação sobre o outro, por meio da maldade pura. Não sei se isso é recorrente na obra de Edyr Augusto Proença (li apenas o referido romance), que parece ter a violência e a criminalidade como temas recorrentes.


Outra coisa que chama atenção no livro de Edyr Augusto, é sua escrita, em que falas de personagens e do narrador dividem o mesmo parágrafo, sem separação entre elas. O que causa certa confusão ao leitor, porém dá bastante agilidade, principalmente durante as cenas mais tensas.


O final achei forçado devido às coincidências criadas pelo autor para facilitar a fuga de Janalice das mãos dos traficantes de escravas sexuais. Parece que o autor sentiu grande necessidade de dar um final feliz aos personagens principais de seu livro, ao ponto de facilitar muito as coisas para eles. Interessante também notar que Edyr Augusto quando retrata o amor entre personagens --- no caso a retomada do amor pelo sofrido viúvo Portuga ---, ao contrário da sua criatividade em retratar as cenas de violência, aqui, ele descreve uma piegas história de amor, digna das novelas da Globo. Apesar disso, Pssica é um ótimo livro.




Pssica se tornará minisérie da Netflix, as gravações já começaram a ser feitas em Belém.   


quinta-feira, 20 de junho de 2024

HELLRAISER - RENASCIDO DO INFERNO (RESENHA)




Hellraiser - Renascido do Inferno (Resenha)

Finalmente li um clássico do horror contemporâneo: “The Hellbound Heart”, do inglês Clive Barker, que passou a ser mais conhecido por Hellraiser --- nome de sua adaptação pro cinema, feito pelo próprio autor (diretor e roteirista), que deu origem a uma série de filmes que seguiram com outros diretores e roteiristas até a 11ª produção.



A pequena novela (de 150 páginas pela edição da editora Darkside), saiu originalmente em 1986, numa coletânea com outros autores, tornou-se a obra prima do autor.


Sinopse



Hellbound Heart conta a história de Frank que, após ter experimentado toda forma de prazeres sexuais, busca encontrar novos e intensos prazeres por meio da lendária Caixa de LeMarchand --- uma espécie de quebra-cabeça que, uma vez resolvida, levaria seu portador a ter contato com os cenobitas, monges capazes de oferecer intensas experiências ao portador da caixa. 


De posse da caixinha e do segredo dela, Frank descobre, tarde demais, que o que os cenobitas consideram como prazer é a mais pura dor. 


A novela se concentra toda na tentativa de Frank refazer seu corpo, destruído pelos cenobitas, e fugir do domínio deles.


Leitura



Minha experiência com a leitura da famosa obra foi muito prejudicada por eu ter assistido antes sua adaptação para o cinema, contendo muito mais descrições gráficas sanguinárias e com maior papel atuante do famoso cenobita Pinhead (nome dado ao personagem pela produção das versões cinematográficas pós Clive Barker), que fez com que a versão original me parecesse apenas uma pálida versão do filme. Contudo abriu espaço para a escrita do autor que me chamou atenção por ser poética apesar do clima de horror e violência da trama --- um ponto positivo para o livro.


Estilo



A novidade de Clive Barker é que, além de sua escrita poética, ele trouxe para o horror a estética sadomasoquista, o que fica melhor evidenciado na versão cinematográfica de Hellraiser, com os ganchos rasgando carne humana, correntes e o visual dos monges sadomasoquistas dos cenobitas. Sua associação de desejo sexual e violência, lembra muito as obras do Marquês de Sade --- com toda certeza Clive Barker leu Os 120 Dias de Sodoma, de Sade, em que a associação entre sexo e violência chega ao seu ponto máximo na última parte de seu livro, em que o gozo sexual, o assassinato e a destruição do objeto do desejo torna-se uma só coisa. É aqui, que se torna claro o porquê dos cenobitas encontrarem na dor máxima o máximo prazer, pois eles sabem que, uma vez experimentados todos os prazeres da terra, como fez Frank, em que um prazer intenso exige doses cada vez mais fortes de prazer para causar a satisfação anterior, apenas a dor pode renovar o prazer anterior, ao ponto deste se tornar prazer.



Contudo, o autor de Hellraiser trouxe para sua mistura de sexo e violência, elementos sobrenaturais alheio ao sadismo de Sade (um materialista radical, antirreligioso e antisobrenatural convicto, até mesmo na ficção) que dá a dimensão de terror ao clima sadomasoquista de seus livros e filmes.


terça-feira, 18 de junho de 2024

ROMANCE PARAENSE DIVULGA MAGIA, MITOS E LENDAS DA AMAZÔNIA





Encantaria Marajoara

A encantaria marajoara é um conjunto de crenças religiosas de origem africana e indígena da ilha de Marajó/Pa, profundamente relacionada com a natureza, compostas de lendas e narrativas orais, que tem como ideia principal a crença de que, ao lado do mundo em que vivemos, existem mundos paralelos habitados por seres mágicos. Para essa crença a morte não existe para alguns indivíduos, que se tornam “encantados”, tornando-se seres lendários: curupiras, botos, sereias. Ou  seres da natureza: animais, plantas ou objetos inanimados, que passam a viver entre o mundo dos humanos e dos seres encantados.


Curiosamente, lendas amazônicas possuem muitos pontos em comum com lendas europeias, apesar de toda a distância e diferença cultural entre seus povos. Seria por que as lendas trazem em si uma gramática universal dos anseios humanos, como acreditava o antropólogo Lévi-Strauss? Ou porque trazem símbolos elementares de um inconsciente coletivo presente em todos os indivíduos, produto de nossa evolução, que conta nossa história evolutiva, como pensava o psicólogo Carl Jung?; eis algumas delas:


Encantados



Assim como na encantaria amazônica, em que os “encantados” são transportados para outro mundo sem passar pelo advento da morte, o mesmo pode ser encontrado em lendas europeias, na lenda portuguesa do rei Dom Sebastião (1554 - 1578) que, dizem, teria se “encantado” em plena batalha contra os muçulmanos no ano de 1578, no Marrocos, e transportado para um mundo encantado --- lenda que deu origem ao Sebastianismo, movimento messiânico que professa a crença de que um dia Dom Sebastião voltará para tomar para si o trono de Portugal.


Portais Mágicos




Na Amazônia há toda uma mística oriunda dos povos originários que comporta portais mágicos, em que gigantescas árvores de samaúma são tidas como passagens místicas para seres encantados da floresta; portais que uniria o mundo dos humanos ao mundo dos seres encantados --- nada tão diferente da crença europeia de que velhos carvalhos seriam moradas de duendes.


Para povos originários da Amazônia, rios e igarapés também são considerados portais mágicos para cidades submersas dos caruanas --- seres espirituais, mediadores entre os pajés e os poderes da floresta.




Por seu poder de reflexo e brilho, rios e lagos também podem ser associados a espelhos (espelhos d’água”, cujas lendas europeias os concebem como portais mágicos capazes de tornar cativos espíritos dos mortos --- daí o antigo costume inglês de cobrir com tecido os espelhos da casa após a morte de um familiar.


Vampiros



Entidades vampíricas estão presentes em quase todas as culturas. E nesse imenso caldeirão de lendas e mitos, que é a Amazônia, não poderia faltar um de seus representantes: o boto.


A característica vampiresca do boto, em geral, é pouca conhecida da maioria, porém está presente nos relatos de ribeirinhos, que afirmam que botos são atraídos pelo sangue menstrual de passageiras em pequenas embarcações, ao ponto de vir até o barco para virá-lo.


O que gerou a tradição que ensina a amassar dentes de alho e a jogar no rio, a fim de afugentar botos e impedi-los de que, transformados em um belo rapaz, entrem nas casas de ribeirinhos, seduza mulheres presentes e as leve para o fundo do rio, como se pode ver pelo relato da tese de mestrado “Cosmologias da Encantaria da Ilha de Marajó”, de Dione Leão:


“Quando eu era criança e a gente morava no interior, meu pai viajou e ficou eu, minha mãe e meus três irmãos. Uma noite a gente tava dormindo e a mamãe assustada acordou a gente, pois ela sentia que tinha gente dentro da casa, no corredor. Quando ele fez o barulho, a coisa correu pela cozinha, desceu ao redor da casa e pulou na água. No outro dia, minha mãe amanheceu com muita dor de cabeça, febre, vômito e, em frente a casa um monte de boto boiando.. Foi preciso bater um monte de dente de alho dentro de uma cuia e meu irmão mais velho foi jogar lá no meio do rio pra espantar os bichos e, nós fomos pra casa da vovó pra ela cuidar da minha mãe.”


A mesma tradição também aconselha pôr “cruzes nas portas, jogar água benta no rio, dentre outras técnicas, além do tratamento com benzedores”.


É impossível não identificar os mesmos procedimentos usados em lendas europeias para afugentar vampiros.


Romance de Realismo Mágico Amazônico



O romance “Após a Chuva da Tarde --- A Lenda de Camille Monfort, a “Vampira da Amazônia” nasceu do interesse do autor, Bosco chancen, pelas curiosas semelhança entre lendas europeias e lendas amazônicas, da busca de entender o que são as lendas e o porquê de povos tão distantes entre si possuir lendas tão semelhantes, e também do desejo de extrair delas conhecimentos sobre a estrutura narrativa das lendas --- da magia da encantaria amazônica (hoje em vias de  desaparecer), da mitologia grega (particularmente do simbolismo iniciático do mito de Orfeu e Eurídice) e também da famosa lenda dos vampiros, que serve de referência entre lendas europeias e amazônicas (vampiro = matinta perera).


Para tanto, o romance aborda a breve estadia da enigmática cantora lírica francesa Camille Monfort (1869 - 1896) em Belém do Pará, para concertos no ano de 1896, em plena explosão da riqueza proporcionada pela venda da borracha amazônica para o mundo.. E de como sua estadia deixou um rastro de lendas e boatos nascidos não apenas de seu talento musical e grande beleza (que provocou interesse em ricos senhores e ódio em suas esposas), também por seu comportamento de mulher independente (ela incentivava o direito das mulheres ao conhecimento, algo incomum na época) e por seus misteriosos passeios noturnos à beira do rio Guajará; mas, sobretudo, por sua doentia palidez que, junto com desmaios de jovens mocinhas durante seus concertos e a chegada do surto de cólera à região, levou a suspeita de seu vampirismo e de sua misteriosa morte.




O romance também conduz o leitor pela grande seara e de ensinamentos da boa relação do humano com a natureza, oriunda dos ensinamentos dos povos originários e da encantaria amazônica, com seus portais mágicos que são explorados pelo livro através de descrições de experiências com seres mágicos da natureza por meio da ayahuasca.


O livro é narrado, tendo em vista as diferentes formas que a artista assumiu para os mais diferentes segmentos da sociedade amazônica: uma grande artista para os jornais da época; uma mulher à frente de seu tempo para os influentes membros da sociedade; uma matinta perera para membros do povo; e uma vampira para excêntricos.


Por meio do conceito de lenda --- narrativa oral nascida de algum acontecimento que impactou uma comunidade, ao ponto de ser acrescentado a ela posteriormente elementos mágicos --- o romance conduz o leitor a separar o imaginário do mágico e do real.




Para Adquirir o Romance “Após a Chuva da Tarde - A Lenda de Camille Monfort”, Clique AQUI.


terça-feira, 4 de junho de 2024

BLOG BORNAL NO BELÉM DE ARREPIAR




BLOG BORNAL NO BELÉM DE ARREPIAR


QUEM É CAMILLE MONFORT, A VAMPIRA DA AMAZÔNIA?


Quem foi a cantora lírica francesa que viveu em Belém no início do século XX? Segundo a lenda, ela cantava e encantava no Theatro da Paz; seduzia a corte com sua beleza estonteante provocando o fascínio nos cavalheiros e ciúmes desproporcionais entre as damas! Era um reboliço entre a sociedade ultra conservadora daquela época! A era de ouro da borracha. 




O assunto veio à tona com o lançamento do livro “Após a Chuva da Tarde” que traz na capa e no enredo a história desta fascinante mulher e outras lendas incríveis da Amazônia! 


A imagem enigmática e encantadora de vampira explodiu na internet, viralizou em vários países do mundo, provocando curiosidade em dezenas de países e trazendo à tona o mistério que ronda Camille Monfort! 




No episódio de hoje Nathan de Moura conversa com Bosco Chancen, autor do livro “Após a Chuva da Tarde” e da lenda do “Cão Fantasma do Palacete Bolonha” que traz um apanhado de histórias reais, lendas, romance e vampirismo tendo como pano de fundo o glamour da Belle Époque, misturando à atmosfera sombria da floresta amazônica, após a chuva da tarde. 




E o que será que Magalhães Barata, Waldemar Henrique, Inglês de Sousa, Paulino de Brito, Josephina Conte, tem a ver neste relato?! Você conhece Philipe Kling David? Estamos falando de lenda ou ficção? Aflorou a sua curiosidade? Então assista o episódio que está realmente elucidador e provocante! Compartilhe com os amigos e fique por dentro dos mistérios que assombram a nossa cidade!


BELÉM DE ARREPIAR.


Coordenação e texto @meg_martins.

Livro “Após a Chuva da Tarde - A Lenda de Camille Monfort”.




Adquira o Livro Clicando AQUI


segunda-feira, 3 de junho de 2024

RELATO do LEITOR: A Sereia




RELATO do LEITOR: A Sereia

Há alguns anos, eu acolhi atrás do meu bar um velhinho abandonado por seus familiares, ele estava com graves problemas de saúde. Em nossas conversas, ele me confidenciou que todo dia, às 14h mais ou menos, um pretinho vinha chamar ele pra ir ao encontro de uma sereia em baixo do Trapiche Municipal, era uma mulher de cabelos longos, nua da cintura pra cima e seios pequenos, eles conversavam dentro da água, ela oferecia um líquido para ele tomar. Ele ficou com medo e então foi atrás de um benzedor, que disse pra ele não tomar esse líquido, se não ele ia vê o que ia acontecer com ele, ela ia levar ele pro fundo. Ela sempre pedia pra ele não contar nada pra ninguém a respeito da sua aparição. O velhinho acha que devido ele ter me contado tudo, ela parou de mandar o pretinho chamar ele. Eu nunca fui atrás pra vê se a história era real, mas estranhava o fato dele sumir de repente e voltar todo molhado*.


* Relato de moradora da cidade de Breves, colhido da tese de mestrado Cosmologias da Encantaria no Marajó-Pa, de Dione Leão, que mostra toda a beleza do imaginário amazônico, um verdadeiro Realismo Mágico real.