sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

EXPERIMENCECINTAÇÃO - CRIAÇÃO COLETIVA (Oficina de Vicente Cecin)


by Goya

O trabalho é resultado de uma oficina com o Vicente Cecin após duas semanas no Centur.
 
EXPERIMENCECINTAÇÃO: Criação coletiva no laboratório da linguagem criativa. 08/02/2012

                                           Ocidente Fragmento Acaso Oriente

                                  SE TIVESSES ME OFERECIDO TEU PRÓPRIO VENENO

 Os dados foram jogados!                                           Mortalmente atingido pela sua criação
Como chegar aos ouvidos surdos?                            Hoje primeiro logo amanheceu
                                      Entre o reflexo e o silêncio: o impacto
Existe um cachorro                                                        Saí do ocidente fui bater no oriente
                                      Oco profundo em infinito gelado congela luzes da lua em volta
Há sede de guerra neste velho mundo no encontro crucial de todas as coisas
A canoa de bubuia e o naufrágio do boi rabudo     Ordem na desordem do caos
O dia está belo  ... .................conhecimento para a vida
                                     Ocidente? Oriente? Certo? Errado? Bonito? Feio?
Dentro e fora de mim. Capumba.                               Pés descalços tocam o chão.                                      
Égua do calor em plena manhã.
                                    Na madrugada no meu quarto ouço o que o silêncio tem a dizer
A tristeza que de mim emana.......                            Na parede o átomo atônito pousa em mim
Medo coragem que busco                                           Liláz e pingo translúcido. Verdade.
Cheguei agora!                                                               Shiva na canoa flutuando rio afora
                                  Inflamação envolve o meu ser
                                  Eu sou assim como a noite e o dia
                                  Azul azul azul secia tua voz                                        
                                  Devemos nos opor a tudo.                                        Chegou a minha vez.

O SAGRADO PÊNIS DE RASPUTIN



Nas terras geladas da Sibéria vivia uma pobre mulher chamada Catarina, que havia perdido seu marido há alguns anos na grande guerra da Sibéria. A tristeza a dominava por completo. Esta tornou-se reclusa, renunciando ao mundo, e a todos seus prazeres, menos ao prazer da gula; que ao mesmo tempo tornava-se motivo de prazer e também de castigo para ela. Passava dias e dias se dedicando a este único prazer que lhe restava. Comia sem parar, e também se torturava sobre os mesmos. Seu corpo aumentava em proporções gigantescas a cada dia, enquanto sua boca havia se fechado para o mundo; dela nada saia nem mesmo palavras ou secreções impuras.



Porém, um dia um santo homem bateu em sua porta, convidado por sua família, como meio de exorcizá-la. Este era um homem circunspecto, feio e sujo, com um olhar profundo que parecia penetrar a todos, contudo, com uma qualidade que causava inveja em muitos homens e grande atração em muitas mulheres: um pênis enorme e santo. Isso mesmo: santo! “O santo pênis de Raputin”, era o que todas as mulheres diziam. Muitas aguardavam ansiosas para ver aquele instrumento de poder, que apenas as mulheres da nobreza russa conheciam. Era como o bastão sagrado de Moises, aquele que com um cajado havia separado o mar vermelho, ou os longos cabelos de Sansão, ao qual, por meio deste, o bom Deus havia lhe doado o poder, a soberania, a força e justiça, e assim como estes, Rasputin havia também ganhado de Deus um dom em forma de um enorme falo, tão grande que este enrolava tão precioso símbolo de Deus preso junto a coxa, sob algumas voltas na mesma.  
A mulher, ao vê-lo, caiu sobre este de joelhos; lagrimava e chorava, chorava e lagrimava com fervor, implorando por ser penetrada por aquele pênis divino. A mulher, então, mandou a mão sob as vestes de Rasputin: uma longa túnica negra; e após não ser atendida, surpreendentemente, com a rapidez que lhe era familiar, empunhou com sua mão direita, sem aquele perceber, o enorme membro, que fez a pequena multidão pronunciar pequenas frases de admiração e espanto; algumas mulheres desmaiaram ao ver aquele cajado mágico, enquanto o santo padre, estupefato, jogava sobre a cabeça da mulher pingos sagrados de água benta; e como o cajado de Moisés,  Rasputin desferiu com ele alguns toques sobre a cabeça da pobre mulher, que soluçava ajoelhada. Foi quando esta, como por milagre, pôs-se a falar, pela primeira vez em anos, surpreendendo a todos, que pronunciavam palavras contínuas de admiração e espanto:
“Ah! Senhor Deus! Eis que a minha alma não foi contaminada, pois desde a minha mocidade até agora, nunca comi daquilo que morrer de si mesmo, ou que é despedaçado por feras; nem carne abominável entrou na minha boca” – pronunciou a pobre mulher.
Ao que alguns presentes comentaram:
“São palavra de Ezequiel, o profeta”
“Sim, sim” – disse o santo padre com autoridade, e completou o mesmo:
“Ezequiel 4:14”
A mulher, após dizer tão sagradas palavras, pôs tão rápido aquele enorme membro à boca, com toda a gula que lhe era familiar, sugando-o com vigor e delícia, como se nada tão saboroso havia comido.
A multidão assustou-se com tão brusco ato, enquanto as mulheres invejavam-na caladas.
A cena perdurou por algum tempo, até que daquele membro jorrou o mais espesso líquido, que caia como pequenas gotas de chuva. As mulheres, então, os aparavam com a boca, misturando-os a suas salivas.
Fora um milagre! Fora um milagre – gritavam todos.
Desde esse dia Catarina jamais foi a mesma, estava maravilhosamente curada.


RASPUTIN, O SANTO DEVASSO
Rasputin se chamava Grigori Yefimovich Novykhn, foi um místico russo, que nasceu, aproximadamente, em 1869, e morto em 1916.
Rasputin era considerado um homem santo, com poder de curar pessoas e prever o futuro. Dom que o levou graças a suposta cura do príncipe Aleksei, de hemofilia, então futuro rei da Rússia, a ser recebido pelo rei Nicolau II e a rainha Alexandra em sua corte.
Com o tempo Rasputin acumulou bastante poder e influência na corte russa, tornando-se mesmo um grande conselheiro do rei Nicolau II. Muitos atribuíam a ele o poder de exercer influência em outras pessoas, principalmente em mulheres que, apesar de sua feia figura, se sentiam fascinadas por ele.
Raputin possuía um vigor sexual descomunal; participava frequentemente de grandes orgias, com dezenas de mulheres, mulheres que o procurava devido seus dons de amante sexual; ele se orgulhava muito do tamanho de seu pênis e atribuía a ele poderes sobrenaturais; muitos homens chegavam a oferecer suas esposas entroca de favores políticos a ele. E devido a um destes favores Rasputin encontrou, finalmente, a morte. Ele foi atraído por um nobre russo, que queria lhe apresentar a esposa, Rasputin foi levado a beber vinho e comer doces envenenados com cianureto. Após este tomar dezenas de copos de vinho e comer doces envenenados, que pareciam não fazer-lhe o menor efeito, foi por fim alvejado por tiros de revolver do homem que desejava impacientemente sua morte. E após sua morte Rasputin teve seu famoso pênis cortado e exposto como relíquia.



Hoje seu pênis se encontra, desde de abril de 2004, no primeiro Museu Erótico da Rússia, como atração principal do mesmo; atraindo ainda hoje centenas de pessoas; muitas vão para cultuá-lo como um instrumento sagrado, atribuindo-lhe o poder de cura.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DIANTE DE KANT (de Ageu Pazoud)


Tomei de minha estante um encapado,
Empoeirado, a ermo.
Sem pretensões maiores.
Tomei-o à mão
E fui ao seu encontro.
Ao cumprimentá-lo, foi grosseiro.
Me disse que em si continha
Prolegômenos!
Senti-me estranho
- “Que contato mais sem causa”
Me senti mais estranho.
Ricocheteou algo dentro de mim:
- seu afetado!
Sou aprendiz, não sou mestre.
Pobre...desaprendiz de filosofia.
Por isso invento que sei,
pois nada sei de tais prolegômenos.
Deles não posso
mais saber.
Senti-me estranho, e agora velho.

Repousei-o sobre a mesa
um velado e cínico sorriso
no canto da boca...
Dei-Lhe adeus.
Sirva-se a vontade quem o quiser,
vou à banca de revista.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

RESENHA DO LIVRO “OS CENTO E VINTE DIAS DE SODOMA”, DE SADE



“E agora, amigo leitor, prepare seu coração e sua mente para a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe, livro que não encontra paralelo entre os antigos ou entre os modernos.”

Assim adverte o escritor, MARQUÊS DE SADE (1740 – 1814), a leitura de seu primeiro livro, Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, ou A Escola da Libertinagem, escrito em 1785. Podemos dizer que Sade não exagera em suas palavras, nem um pouco, pois tal livro ainda hoje, passado mais de duzentos anos de sua feitura, não foi ainda superado em ousadia sexual e violência. 




O livro, assim como grande parte de sua obra, foi escrito durante uma de suas longas estadias na prisão, mais exatamente na Bastilha, e é incompleto, pois foi separado de seu autor quando este foi transferido para o hospício de Charenton; o que fez o marquês “chorar lágrimas de sangue”, ao ver-se longe de sua criatura. O manuscrito foi posteriormente encontrado, e somente na década de 1930, devido ao seu conteúdo forte, foi publicado pela primeira vez, apenas para um pequeno círculo de escritores e artistas, sendo liberado para publicação, bem como toda a obra de Sade, somente na década de 1950, não sem antes passar por obstáculos jurídicos, que em nome dos bons costumes, impediam a publicação das obras de Sade.

Eu posso quase ver Sade, em meio aos gritos de dor e lamentações, provindo das possíveis torturas feitas em outros prisioneiros, perdido em suas divagações em busca de uma nova forma de tortura ou de assassinato que fugisse dos tão conhecidos, e desgastados, métodos de seu tempo, já que, sem dúvida, uma dos grandes atrativos de sua obra é a sua criatividade em tal área.

O volumoso livro foi escrito em trinta e sete dias, sendo dedicado, por seu autor, a ele doze horas por dia em sua feitura, possivelmente o tempo em que o sol clareava sua cela. Tal obra foi escrita em um rolo de papel de vinte metros, e às escondidas, já que as autoridades tinham a tarefa de vasculhar, e destruir, qualquer escrito que por ventura pudessem achar de Sade.  O livro narra os 120 dias no castelo de Silling, para onde quatro nobres franceses (um padre, um financista, um juiz e um nobre francês), acompanhados de 46 pessoas, entre velhos, jovens e crianças, arrancados à força de suas casas, põem em prática, orientados por quatro das mais experientes e devassas prostitutas da França, todas as formas de práticas sexuais bizarras narradas por tais prostitutas, em um total de seiscentas formas. A obra é dividida em quatro partes, cada parte contém 150 formas diferentes de taras sexuais:


A primeira é dedicada às paixões simples, que nada mais são que sexo envolvendo pedofilia, secreções e excreções humanas, como urina e fezes; essa seção merece uma ressalva, pois não há penetração, mas apenas contato com os elementos citados acima;

A segunda parte, chamada de paixões duplas, além de novamente pedofilia, inclui sexo com blasfêmia, incesto, masoquismo e sadismo; aliás, sadismo como já se foi inúmera vezes comentado deriva do nome de Sade.


A terceira parte, denominada de paixões criminosas, se refere ao sexo anal, tanto passivo quanto ativo, vale lembrar também que o sexo anal durante o século XVIII era tido como crime, passível de prisão e mesmo de morte; também inclui, além de todas as paixões precedentes, um grau maior de sadismo, como o prazer de furar um olho, arrancar um dente, ou cortar os dedos do parceiro;

E, finalmente, as paixões assassinas, que como podemos deduzir inclui sexo em que sua maior atração está na morte do parceiro, de várias formas e meios, mas sempre de modo terrível e doloroso.

Por isso, o livro choca. E chocar naqueles tempos não era tarefa fácil, pois seria difícil chocar um público que já estava acostumado com os espetáculos das sentenças de morte feitas por decapitação nas praças da Paris de então; assim como aos nobres franceses que participavam das mais extremas orgias sexuais. E se pararmos pra pensar, reconheceremos que chocará menos também, hoje, a um grande público ávido por cenas de fetiches extremos e cenas de morte, consumidas aos milhares, todos os dias, por meio da internet.

O livro é apenas um esboço do que seria, e apenas a primeira parte está completa, embora o autor inclua nela algumas observações, com relação a erros e a mudanças do texto; as outras partes são apenas esboços do que seria.

O universo dos 120 dias de Sodoma é tal que faz com que o mais violento dos Serial Killers pareça um simples aprendiz quando comparado com os personagens centrais de tal livro, cujas personalidades são descritas, detalhadamente, por meio de qualidades desprezíveis de seus caráter. Podemos mesmo dizer, que Sade antecipou a criação de vários personagens tão populares hoje em dia na literatura e no cinema, como os Serial Killers, os anti-heróis da literatura underground; e se pudermos comparar sua obra com o cinema, podemos também dizer que Sade antecipou, em séculos, um subgênero do cinema de terror bastante conhecido, chamado GORE, em que seu atrativo está nas cenas de tortura, com muito sangue e tripas expostas, tendo como alguns bons exemplares as séries: O ALBERGUE; JOGOS MORTAIS e o famoso filme CANIBAL HOLOCAUSTO.



E se compararmos as cenas mais fortes de um filme recente, proibido em vários países (também no Brasil teve sua exibição proibida e a cópia apreendida pela 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro) por sua violência sexual, o filme sérvio conhecido por A SERBIAN FILM, no Brasil chamado de TERROR SEM LIMITES, veremos muita similaridades com os “Os 120 Dias de Sodoma” de Sade, como na cena em que o personagem principal deve fazer sexo com uma mulher que sofreu abusos, enquanto uma menina vestida de Alice assiste a tudo; em outra, um homem ajuda uma mulher a dar à luz e estupra a recém-nascida; ou quando o protagonista é levado a estuprar e degolar uma mulher algemada na cama e depois fazer sexo com seu cadáver; sem esquecermos, claro, da cena em que o protagonista é drogado e levado a estuprar sua esposa e seu filho. 



Estas, podemos dizer, são cenas que foram concebidas por Sade já nos longínquos anos do século XVIII, com uma brutal diferença, que ao contrário do protagonista do filme, os personagens de Sade fazem tudo isso, e muito mais, por puro divertimento. E ainda há, na introdução de seu livro, o convite de Sade convidando o leitor a participar deste show de horrores, show que custará ao leitor algumas gotas de esperma, como afirma ele:

“Muitas extravagâncias aqui ilustradas merecerão sem dúvida o seu desagrado; sim estou bem ciente disso. Mas há entre elas algumas que o aquecerão a ponto de lhe custar algum sêmen, e isso, leitor, é tudo que lhe pedimos.”




O livro de Sade teve uma adaptação para o cinema, em 1975, feita pelo polêmico diretor italiano PIER PAOLO PASOLINE, Salò, ou os cento e vinte dias de Sodoma. O filme prima mais para as bizarras cenas sexuais do que para as cenas violentas do livro. A história é adaptada para a Itália durante o governo fascista. E, como não poderia ser diferente, o filme ainda hoje choca. Uma das cenas se tornou antológica, o banquete com fezes humana servida com toda a pompa de um grande banquete.




Contudo, diferentemente dos dias de hoje, o choque proporcionado pelo livro de Sade não é à toa, ele obedece a uma filosofia rígida, por meio da qual Sade perscruta as forças obscuras da mente humana, e que vê a influência dos instintos sexuais em quase todas as relações humanas, conferindo a eles a importância devida com que FREUD lhe garantiria mais de um século depois.


Porém, depois de todos estes comentários preparatórios, resta-nos discorrer sobre o livro enquanto entretenimento. O livro segui o modelo do Decamerão, de Boccaccio, e as Mil e Uma Noites, obedece ao modelo de contar pequenas histórias independentes dentro de uma história maior; e, embora seja bem escrito, torna-se repetitivo à medida que as histórias se desenrolam, como alguns já apontaram; mas tudo em Sade tem uma razão filosófica, até mesmo sua chatice, a qual é  devido ao seu espírito filosófico de ordenação, o que o levou a tratar o sexo do mesmo modo que o filósofo D. DIDEROT fez com o conhecimento de seu tempo: ordenando-o e classificando-o em uma enciclopédia; e é isso que nos parece ser “Os Cento e Vinte Dias de Sodoma”: uma espécie de enciclopédia das perversões então conhecidas, o que lhe dá, sem dúvida, certo refinamento de libertinagem, que não encontramos em outros escritores libertinos de sua época, em que as pequenas variantes são fundamentais, tornando, por isso, o livro um catálogo de perversões, explorando seus detalhes e todas as possíveis variantes de cada uma; o que é confirmado pelo autor logo em sua introdução:

“Estude intimamente a paixão que à primeira vista parece assemelhar-se completamente a outra e verá que essa diferença existe e, por menor que seja, ela possui precisamente este refinamento e este toque que distingue e caracteriza o gênero de libertinagem sobre o qual se discorre.”

Conclusão: então há a história, por exemplo, do sujeito que gosta de comer vômito; de outro que gosta de comer fezes; e como variante, temos o homem que gosta de defecar na boca da parceira e dela receber sua sujeira diretamente na boca. Etc. Tornando-o, por isso, leitura obrigatória para psiquiatras.  O que o torna, de certa forma, cansativo; e pensar que se fosse terminado o livro teria, provavelmente, quatro grossos volumes. Resultado: torna-se, às vezes, maçante como uma enciclopédia; mas, no geral, é um ótimo livro. E assim como uma enciclopédia, o livro é indicado apenas para quem esteja muito interessado na filosofia sadiana, e que possa, claro, suportar o inferno de Sade; um inferno cheio de sexo, dor e submissão, que exige, além de paciência, estômago forte e bastante coragem; tarefa que poucas pessoas têm se aventurado.

Para saber mais sobre Marquês de Sade, acesse os artigos publicados no site:
* SADE, O FILÓSOFO MALDITO
* MARQUÊS DE SADE E A PSICOPATIA
* QUAL É A SUA PERVERSÃO?
* A LITERATURA PODE SER PERIGOSA? – EM PAUTA: NIETZSCHE E SADE

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

SAINDO DO ARMÁRIO (de Bosco Silva)


Esta cena se repete algumas vezes no mundo:
Paulo, após meditar muitas e muitas vezes, sob circunstância inesperada, toma coragem, em cara sua mãe, e lhe diz inesperadamente:
- Sim, sou um, e isso não me faz ser diferente, mãe; não me faz ser uma pessoa ruim.
A mãe de Paulo cai em choro, dizendo, repetidamente:
- Como encararei os vizinhos, como encararei seu pai, a minha igreja, minhas amigas. Não acredito, não acredito...
Paulo não se sente bem em ter-lhe dito a verdade, pôs sentiu-se, ao ver sua reação, como se lhe tivesse dito algo extremamente desagradável a seu respeito, como se este houvesse participado do mais terrível crime: Paulo sentiu-se como um criminoso. Mas entre manter uma mentira e agradar sua mãe, Paulo prefere ser autentico consigo próprio. E, sob lágrimas, a mãe de Paulo completa sua frase:
- Não acredito, que após todo carinho que lhe dei, meu filho é um... é um...
- Sim, mãe, sou um ateu.

COMENTÁRIO:
Vivemos em um mundo em que cada vez mais, as minorias são respeitadas e protegidas. Assim, temos leis e órgãos que protegem os negros, os índios, gays, e mulheres. Sabemos que ser negro, ou ser gay, não faz de uma pessoa um mau caráter, mas há uma minoria esquecida em seus direitos, principalmente em seu direito de expressão e de livre escolha, que é desrespeitada, e ofendida, todos os dias, confundindo suas opiniões com mau caráter: os ateus.
Foi lamentável, por exemplo, assistir no dia 27 de julho de 2010, a uma verdadeira aula de PRECONCEITO e IGNORÂNCIA, por parte de quem deveria informar melhor o povo, um formador de opinião: o jornalista José Luiz Datena.
“Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas   atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus.” (Datena).
Em seu programa Brasil Urgente, transmitido pela rede Bandeirantes de televisão, Datena pôs-se a fazer uma enquete de quantos acreditavam em Deus, dizendo: "quero ver 30 mil pessoas votando que acreditam em Deus, porque quero provar que as pessoas de bem ainda é maioria". Ao dizer tal frase, Datena queria provar que as "pessoas de bem" ainda são a maioria no Brasil, ao contrário daquelas que se entregavam aos crimes mais horrendos, todas, segundo este apresentador, descrentes, e, por isso mesmo, criminosas. Em outras palavras, para este apresentador qualquer descrente em Deus seria um potencial criminoso, um assassino, que livre dos limites imposto pela religião teriam liberdade suficiente para matar, estuprar, roubar, etc. Como se a história das religiões não estivessem cheias de sangue de inocentes.
“Como nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia.” (Datena).
Ao fazer suas afirmações, Datena omitiu (ou possivelmente ignora) as milhares de mortes feitas em nome de crenças como as suas, com todas as barbaridades que as inquisições católicas e protestantes, cruzadas, guerras religiosas, etc... etc... etc., cometeram durante toda a história da humanidade, sem falar dos sacrifícios humanos feitos em nome de um Deus, como os feitos ainda hoje por terroristas suicidas islâmicos, como aqueles que explodiram milhares de pessoas nos edifícios do World Trade Center em 2001, nos Estados Unidos, e que ainda hoje ouço muitos ("pessoas cristãs e tementes a Deus", como dizem), dizerem “bem feito”, por ser os Estados Unidos um país explorador e imperialista.
Mas se ateus não temem a Deus poderiam temer a algo? Claro, como bem viu o filósofo D’Holbach: “Pode temer os homens; pode temer o desprezo, a desonra e os castigos da lei; e pode temer-se a si mesmo e ao remorso que sentem todos aqueles que têm consciência de ter chamado sobre si e merecido o ódio dos seus semelhantes...”
“Pergunta-se [também] que motivos poderá ter um ateu para fazer o bem. A vontade de dar satisfação a si e aos outros; de viver feliz e em paz; de conquistar o afeto e estima dos homens, cuja existência é muito mais certa e cujas disposições se podem conhecer muito melhor do que as dum ser incognoscível por natureza.” (D’Holbach).
Portanto, a crença do Datena é infundada, embora, infelizmente seja a da maioria:
“Pesquisa encomendada por VEJA, realizada pela CNT-Sensus, mostra que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% aceitariam votar em um homossexual, mas apenas 13% votariam em um ateu.” O que prova que o preconceito contra os ateus ainda é o maior de todos.
Tais pessoas (incluindo o Datena) ignoram que são justamente os países com maior índice de ateus, como Noruega, Dinamarca, Suiça e Canadá, que possuem o menor índice de violência. Enquanto países tradicionalmente religiosos, como o IRÃ, ainda APEDREJAM mulheres até a morte por adutério. E embora eu não seja ateu, NÃO CONFIARIA E TEMERIA MENOS UM ATEU DO QUE A UM CRENTE. PELO MENOS AQUELES AO FAZEREM O BEM, FAZEM PORQUE, DE FATO, QUEREM. E NÃO POR TEMEREM SEREM FRITADOS NAS LABAREDAS DO INFERNO OU DESEJAREM AS DELÍCIAS DE UM PARAISO. Aliás, quem deixa de cometer um crime por medo do castigo, ou por obter fama e reconhecimento, jamais poderá ser chamado de virtuoso.

Para ler textos de filosofia e literatura underground, acesse: CEREBRAU.COM.BR





quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A SOBREVIDA DE NAPOLEÃO (de Ageu Pazoud)

In Waterloo

Ora, logo o pobre Napoleão

Dono de uma boca

inconsolável e mente arredia,

foi ter com a morte.

Gritava com ardor,

mas cheirava a desespero,

certo de que seu grito a espantaria.

Sorvia, a Morte, aquele grito.

Deliciava-se, a Morte, com tais sons.

E maior desespero, maior desespero,

despedaçava seus culhões.



Arrematava com uma argumentação de Estadista.

Sôfrego, piscava os olhos.

Detinha-se perigosamente a frente da foice.

Esquivava-se, como bom lutador

O bailar de suas pernas incomodava a Morte.

E sorvia-lhe mais um pouco da vida.

Sabedora que sua proposta final,

adentrar no abismo sem causa,

era o golpe derradeiro.



Já admitia, a Morte,

um fim para tão preparado homem.

Continuavam a digladiar-se.



Napoleão cruzava a espada no ar,

Timbalava um risco sem tons

Afastava um pouco da fumaça

O enxofre fumegava a certa distância

Ardia-lhe nas narinas

Dor, desespero, vertigem, traição,

e ainda 7 pragas capitais

combinando seu fim.



Pronto a argumentar a solução do abismo

(Lhe restavam forças ainda)

Bom lutador Napoleão...



Velho, velho, velho Napoleão.

Acordado de um sono insolente,

Despertado para ganhar o mundo,

mas sempre tão arrogante.

Apostas na arrogância tua mente.

E sofres com retidão

Mas acendes a dúvida no coração alheio.

Não te vais simplesmente,

queres antes teu reconhecimento.

Assim disse a morte.



Argumenta Napoleão:

- Tu prestas serviços ao mundo.

E julga, segundo teu argumento,

a tristeza, o ardor d’alma,

a alegria, como fins de meu tempo

ofegante, sondas a ultima maneira

de dizer que sobrevives...

sobrevives à palavra e na morte.

Oh MORTE!

sobrevives na Morte!



Enchente

Transbordante

Jogas a todos no mesmo lugar



Podes isso Napoleão!

És Senhor, e arrogante também!

Imperas sobre os mortais

Joga tua lança e amedronta-me!

Amedronta a alma alheia,

e serve-se como presente.

És um argumento forte

para eu partir.

Arrebata o som para ti

dos címbalos que ecoam

diante de um trono que já não pertence

à Zeus.

Usurpador de almas!



Toma-o! Toma-o!

Faz da vida a tomada da luz.

Mas não te cegas

Joga com as propostas e renasce!



Sem dizer nada

Sem questionar nada mais

Mas querendo muito arrebatar o mal de ti.

E o bem já te absolveu.

Julgo que o mal já te quer eterno...

Bem e Mal com vida dentro de tua morte.

Pede passagem Napoleão.



Seu suor tocou a areia fumegante

Suas pernas que bailavam

agora trêmulas, quedavam o Imperador.

O mal já lhe queria eterno.

Sobe.

Toma teu lugar.

Segue comigo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

FILHO-DA-PUTA (de Anthony Pancho)

by Rubens

Não sou “filho-da-puta”, no significado lato da palavra - mãe e pai sabidos.
Nasci na Ordem Terceira. Perto da antiga Central de polícia. Bem sugestivo.
Apesar disso, declaro-me como tal: um FDP, bastardo na pequena burguesia onde me criaram.
Briguei; defendo e tomei parte, de afrontas e ações as quais expus a cara aos socos.
Tomei-os. Fui à lona, não sou Muhammad; talvez Ali.
Ontem/cambaleante no ringue/ sob as cordas e gracejos.
Minha resposta foram cuspes amarelo- catarrentos.
Hoje/ espio e rio dos normalíssimos/ burgo-vegetarianos/ só comem o que não tem boca e olhos/
Mandam os filhos p/a Disney/ Simone Daibes/Daibes/Dóibes/ Honda Civic/Coluna do Bernadino.
Idiota e politicamente corretos, esqueceram da vaca da mãe/ dos cofres do pai/ onde mamaram nas tetas.
Exaltam a matter mídia/a superestrutura/ o sistema que os pariu e os consome.
Meçam-se; Bebam; Afoguem-se; Suguem seios outros. Somente os peitos direitos.
Mas passarinho que come pedra, sabe o cu que tem, diz amiga minha.
E esses burgo-mamíferos nem têm asas, bico/cloaca.
São uns Ornitorrincos. Põem ovos.
O tempo é curto. São doze rounds.
O que me sobra, aos cinqüenta, me faltava aos dezessete.
E aos vinte e um/achava que o gongo soou.
O suicídio foi quase/ quando me convenci que deus não existe.
Tanto trabalho às freiras do Santa Rosa e os pneus do Montepio-Guamá quase estragam.
Fim da linha aos que conheci e se foram/ não deram nem tchau/pularam a roleta.
Revejo-os em sonho.
Cá, me restei. Vitória por pontos/sem meia passagem.
Aos socos e mortes recebidas, dou um guiza.
Toureiro sem olé.
Os que me chifram, transformo em cálculos nos rins. Sublimação.
Em tempos, os verto, as pedras/ cristais cortantes no canal do pênis.
Despejo-os num mictório sujo qualquer.
E que alegria!
Viva minha uretra e a cabeça do meu nobre pau!
Já resisti a dolorosos e geológicos partos penianos/por razões renais.
Os rins, porra, os rins!
A pedra nasceu. Pai e o cálculo passam bem.
Expeli pedreiras, sem samba, sem amor e com muita dor.
Por mais, mereço felações; boquetes; lambidas no prepúcio.
A língua daquela mulata me faz de sorvete.
Eu, o filho da puta.
O caboco, prossegue, erecto, genericamente priápico.
Não sei da prova dos nove, nunca tirei nota dez nas provas que não fiz.
Minha álgebra não bate com a raiz quadrada de 121, É onze.
Os meus desconhecidos são campeões em tudo, como os amigos do Pessoa.
Para mim, basta um vice-campeonato.
O Filho da Puta.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pensando no que aconteceu no fim de ano (de Ageu Pazoud)

by Willy Ronis

Começo o fim pelo meio
afagando minha alma
(tão cheia de lascívia)
Voltando a cumprimentar o início,
sem dizer muita coisa.
suspendo a mão direita,
estendendo-a,
dou meia volta.

Sabedor que não temos final feliz,
salto num instante.
Retorno ao meio,
e construo da vida
uma grande esteira,
furtando de tudo o momento final.

Recomeço o meio
sempre antes do instante
que já se confunde com o fim...
Mas é somente confusão.

O tempo em minha esteira
tem começo meio e fim.

Sabedor que não tivemos
um início tão feliz assim
salto em direção à um começo
enquadrado no centro,
e confundo fim com o início
e início com meio.

Em minha esteira mando eu!
Ninguém aqui a determina.
Minha esteira somente a mim
determina!

O terminal não chega nunca.
Fujo do presente como inicio,
que como passa, passado é
num breve instante.

Salto para o fim...
Um fim que já se confunde com o início
Mas é apenas confusão.

Corro por sobre a esteira
arredondando a vida
para buscar
extirpar as extremidades...
Suficiente para me confundir
a mente que maltrato.
Mas é apenas confusão.
Parto assim, sem fim
e nem começo.
Apenas começo do meio
fim do fim.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

BORDADOS DE PSICODELIA (RAINHA DO MEL) (de Dulce Quental)


Dulce Quental

Quem me fala em ponte quando eu salto no escuro,
Num artefato projeto presente, passado e o futuro.
O que será de nós, somos crianças tão velhas,
Voando nos lençóis bordados de psicodelia

Quem me fala em círculos quando imagino pirâmides.
Me vejo falando idiomas em línguas que nunca entendi.
Quem sabe nunca existi e quem está aqui não sou eu.
Apenas alguém parecido que um dia você conheceu.

Estamos tão perto agora como nunca poderíamos estar.
Você com os pés no chão, eu voando no ar.
Estamos não mais juntinhos do que a terra e o céu.
Mas que falta me faz seu carinho de abelha rainha do mel.

Você diz que é o capitalismo, eu penso em decadência.
Em como nos separamos, porque demoramos, não sei.
Você queria alianças, eu pensava em viajar.
Você sonhava Miami, eu Gibraltar.

Estamos tão perto agora como nunca poderíamos estar.
Você com os pés no chão, eu voando no ar.
Estamos não mais juntinhos do que a terra e o céu.
Mas que falta me faz seu carinho de abelha rainha do mel.