sexta-feira, 13 de setembro de 2013

MANIQUEÍSMO: A Luta entre o Bem e o Mal

Maniqueu, também conhecido por Mani ou manes, viveu na Pérsia, no século III da era cristã. Dizia-se o enviado de Deus para completar a obra de Cristo. Sua doutrina, chamada de maniqueísmo, misturava elementos de várias religiões orientais, mas principalmente do zoroastrismo, antiga religião persa, e do cristianismo.
Maniqueu pregava, que desde toda a eternidade, existem dois princípios fundamentais, o bem e o mal. O primeiro, que se chama Deus, representa o reino da luz, e Ele mesmo é pura luz, que só a razão e não os sentidos pode perceber. O segundo chama-se Satanás, rei das trevas é o mal absoluto, pois é a pura matéria.
Quanto aos outros seres, são bons ou maus segundo sua origem: os que têm a luz por princípio, são bons, enquanto os maus têm as trevas como origem.
Satanás criou o primeiro homem e deu a este partículas de luminosidade divina, roubadas durante a luta entre os reinos da luz e das trevas. Estas partículas seriam as almas dos homens. Estes, por sua vez, seriam compostos de três partes: de um corpo, oriundo do mal (Satanás), de um espírito oriundo de Deus, e de uma alma cheia de maus desejos e dominada por Satanás 1.
Os maniqueístas tinham por finalidade a libertação da alma, do domínio da matéria. Para tanto, castigavam o corpo e evitavam, o quanto possível, o contato com a matéria. Por isso, valorizavam o jejum, a ausência de símbolos materiais externos, o celibato e a abstinência sexual.
A crença numa visão dualista do mundo, segundo a qual o mundo é dominado por duas forças antagônicas: de um lado o bem absoluto, representado por Deus, de outro, o mal absoluto, representado pelo Diabo, é anterior a própria doutrina de Maniqueu, embora este dualismo, por extensão, seja conhecido por maniqueísmo. E podemos dizer, sem dúvida alguma, que esta já se encontrava nas crenças mais antigas, assim como podemos encontrá-la nas mais modernas. Ex 2:
      Zoroastrismo – Princípio do Bem: Ahura Mazda / Princípio do Mal: Angra Mainyu.
      Judaísmo – Princípio do Bem: YHWH / Elohim / Princípio do Mal: Samael.
      Cristianismo – Princípio do Bem: Jeová / Javé / Princípio do Mal: Lúcifer / Satanás.
      Islamismo – Princípio do Bem: Alá / Princípio do Mal: Shaitan / Satanás.


O dualismo maniqueísta, entre espírito (o bem) e matéria (o mal), influiu profundamente na origem da moral e das religiões. Para tanto, basta examinarmos o mito bíblico da origem do pecado: o Diabo em forma de serpente seduz Eva com o fruto proibido. A forma de serpente, escolhida para representar o diabo, não é à toa. Já que este símbolo nos permite associar o mal, ao sexo e a matéria. Pois, a serpente, além de ter uma forma fálica, isto é, em forma de pênis, fazendo uma alusão indireta ao sexo, também se assemelha a um verme, ser desprovido de membros. E qual ser manteria o maior contato com a matéria? O verme, este ser sem membros que se arrasta sobre a maldita matéria. Mantendo, desta forma, uma posição inferior e humilhante, com esta. E até hoje em dia, esta associação maniqueísta continua de forma inconsciente, pois quando queremos ofender alguém usamos este termo, verme, como um dos prediletos. Assim, os termos, verme e inferior, neste contexto, da mesma forma que “anjo caído”, “rebaixar-se”, “rastejar-se”, ou “a queda de Adão e Eva do paraíso”, ou outra palavra ou frase qualquer, tendo como sentido, o chão, a matéria, teriam o mesmo sentido. Todas teriam um sentido pejorativo. Aliás, as palavras inferior e inferno possuem a mesma origem: ambas vem do latim, infernus = inferior, que significa, o que fica embaixo. Deste modo, podemos ver claramente o porquê do sexo e da mulher terem sido considerados antes (e ainda hoje) como coisas do Diabo, fazendo com que esta demonstrasse com orgulho o fruto do seu ventre e escondesse com vergonha a origem deste. O que nos leva, por sua vez, a compreender que uma virgem tenha gerado Cristo, e que a virgindade desta seja tão cultuada, até hoje em dia. Seja como for, após terem comido o fruto proibido (dado pela serpente), Adão e Eva tiveram filhos.
O Orfismo, antiga crença religiosa grega, também possuía um lado dualista maniqueísta, este pregava a necessidade de reprimir a natureza terrena do homem e de cultivar a sua natureza divina. O filósofo grego Platão (427 a.C. – 347 a.C.) sofreu forte influência do orfismo, tanto que sua idéia de justiça baseava-se inteiramente nas idéias deste culto. A idéia platônica de justiça é uma idéia moral que afirma a necessidade da razão de dominar e controlar, por completo, o lado irracional: os sentimentos, as emoções, os impulsos sexuais, etc. E por quê? Porque a razão seria a parte melhor, a parte superior de nós, e por isso deveria dominar a parte inferior e pior, ligada aos desejos terrenos e bestiais do corpo. Esta idéia de justiça, Platão aplicou à sociedade. Deste modo, uma sociedade justa seria aquela em que as classes sociais se relacionariam como na moral. Assim, tal qual no indivíduo, em que o superior, a razão, deve dominar o inferior, os instintos. A sociedade justa deveria criar meios, pelo qual a classe econômica mais inferior, pudesse ser dominada e controlada pela classe imediatamente superior a essa, afim de que as riquezas não provocassem egoísmo e guerras. Esta tarefa era dada a classe dos guerreiros, que por sua vez, deveria ser dominada e controlada, pela classe política. Esta, sendo superior, deveria impedir que os guerreiros, usando a força pudessem dominar a sociedade. A classe política, enfim, seria dominada e controlada pela classe dos sábios, estes representando a razão suprema, impediriam que os políticos abusassem do poder e se voltassem contra a sociedade.
E assim como o orfismo, com seu dualismo maniqueísta deturpa a natureza humana, tornando-a dividida e odiada por si própria. A ponto do filósofo Plotino (204 – 269) sentir vergonha de estar num corpo. A idéia platônica de justiça, fruto da deturpação da natureza humana feita pelo orfismo, destrói a própria idéia de justiça, já que conceber classes superiores a outras, ou necessitar de dominar e controlar estas, me parece à suprema injustiça. E apenas alguém que estivesse na classe mais alta, poderia concordar plenamente com isto.
Platão, assim explica, em forma de mito e com analogias, as diferenças sociais: "São todos irmãos os que fazem parte do Estado; mas o Deus que lhes criaram fez entrar o ouro na composição dos que são aptos para governar. Por isso mesmo os tais são mais preciosos. Misturou prata na constituição dos guerreiros; o ferro e o cobre na dos lavradores e artesões" (República 415 a).
Esta forma de pensamento ainda hoje a encontramos, embutida na distribuição de renda. Aqueles que trabalham diretamente com objetos materiais, privilegiando a inferior matéria, tais como: garis, artesãos, lavradores, mecânicos, etc. São os que possuem a menor renda. Enquanto, os que privilegiam o lado superior, o lado intelectual: engenheiros, arquitetos, políticos, etc, são em geral, os que possuem a maior.
De modo geral, podemos dizer que o ódio ao material se traduz como ódio ao carnal, como ódio à vida. E que tal pensamento, já estava contido na forma de interpretação dada pelo antropomorfismo, pois, ao conceberem que todas as coisas da natureza foram feitas para os homens, estes não poderiam deixar de se sentir, como seres especiais, como os únicos seres superiores da natureza. No entanto, não poderiam deixar de observar, por sua vez, que possuíam qualidades ou atributos em comum com outros animais, ditos inferiores, tais como, o sexo. E ao perceberem, em si próprios, esta dualidade fundamental, esta oposição entre o lado superior do homem e o seu lado inferior de animal. E uma vez, tendo eles presenciados, que na natureza não há apenas coisas boas, mas também más, como os terremotos, as doenças, as tempestades, etc. Foram levados a atribuir as qualidades opostas, bem e mal, a Deus ou aos Deuses. E assim, passaram a conceber o bem e o mal, como exteriores a si próprios. Porém, como eram eles os escolhidos, deveriam ter algumas qualidades superiores, de origem divina, que os pobres animais não teriam. Assim, foram levados a cultuar todas as qualidades que não eram animais, e a detestar as que tinham esta, como origem.
Deste modo, não é de surpreender que o sexo tenha sido o alvo preferido. Pois de todas as nossas qualidades, talvez esta seja, direta ou indiretamente, a que compartilhamos com todas as formas de vida.
Assim, passaram a padronizar os comportamentos. A ditar, o certo e o errado. Tanto, que a doutrina católica, passou a classificar os tipos de coito. Aos que achavam indignos do homem, deram o nome, “coitus more canino”3, isto é, coito ao modo dos cães, às formas de relação sexual, em que lembram os animais, de quatro. A esta tarefa foi encarregado o tribunal da Santa Inquisição. Este tinha como finalidade, julgar e condenar à morte, na fogueira, todos aqueles que não concordavam com o tipo de separação entre o bem e o mal, proposta pela igreja. A inquisição católica foi um dos maiores exemplos de intolerância que se tem notícia. Por ela, foram condenados a morte, milhares de pessoas, pelo simples fato de pensarem diferente, de terem diferentes cultos, de se comportarem de modos diferentes, etc.                                    
Vale também notar, que tal pensamento ainda hoje possue uma forte influência em nossas vidas. Ele está presente, na luta entre o bem e o mal, dos filmes, dos games, das novelas, dos personagens de revista em quadrinhos, etc.
Ele nos leva, desde cedo, a dividirmos o mundo entre bem e mal, como se tal divisão fosse possível. Logo, este pensamento se multiplica numa variedade de preconceitos. Acreditamos firmemente que nós somos o bem, enquanto o mal são os outros. Pois, temos meios suficientes para justificarmos nossos motivos e crenças, nem que seja por meio do simples egoísmo ou a força. E assim, estigmatizamos como maus, como errados, como inferiores, povos, culturas, que mal compreendemos, pelo simples fato de serem diferentes.
De um modo geral, o pensamento maniqueísta ganhou uma forma nova. Ao definir aquelas pessoas ou tipos de pensamentos, que classificam os fatos sob uma dualidade oposta irreconciliável. Reduzindo a vida a oposições do tipo: direita / esquerda, branco / negro, desenvolvido / sub-desenvolvido, ocidente / oriente, raça superior / raça inferior, etc. E o que tem de comum com a forma antiga é que um lado deve destruir o outro, pois um é luz e o outro é trevas.
O pensamento maniqueísta, tanto no formato religioso, quanto na forma nova, deturpa a realidade, criando uma realidade que não existe. Pois, não existe uma linha divisória entre o bem e o mal, que nos possibilitasse diferenciar um do outro, claramente como quem diferencia um rato de um elefante.
O mundo não é tão simples assim. O que nos parece como o mal, em um primeiro momento, pode se revelar como o bem, e vice-versa.
Ao tentar classificar as pessoas como boas ou más, no fim descobrimos, que todas parecem ter um lado bom e um lado mau. Que o pior sujeito, em meio a tantos defeitos, pode ser um bom pai, um bom amigo, etc.
O pensamento maniqueísta, não possibilita a harmonia. Aquele que só consegue ver o mundo pelos óculos do bem e do mal, ou por outro par de opostos qualquer, não consegue dialogar, enfim se entender. Assim foi no passado, permanece no presente e provavelmente prosseguirá no futuro. Pelo menos, enquanto este pensamento se manter vivo.
Além disso, o bem e o mal dependem de quem julga. Os Palestinos são vistos como um mal para os judeus, assim como estes eram para os nazistas.
De fato, jamais houve uma guerra que não tenha sido feita em nome do que se acha correto, certo, ou do bem. Pelo menos para um dos lados. E qual dos lados estaria correto? Qual o critério para classificar o lado do bem? Estas respostas, verdadeiramente o maniqueísmo não pode nos dar, pelo menos de modo honesto, isto é, isento de racismo, de preconceitos, ou de outro interesse qualquer.
Santo Agostinho (354-430) que durante um certo período de sua vida foi maniqueísta, após ter deixado tal crença, relatou que jamais tinha encontrado paz em tal doutrina. Pudera! Estando a todo o momento cercado de oposições e mergulhado até a alma na guerra contra o mal, como pregava tal doutrina. Enfim, alcançou a paz ao descobrir que o mal, como oposição ao bem, não existe, e sim que o mal é apenas a ausência do bem. Portanto, não existiria para Agostinho, como queriam os maniqueístas, dois princípios poderosos e simultâneos a dominar o mundo: o bem e o mal, mas tão-somente Deus, infinitamente bom.
Em suma, o grande erro do maniqueísmo é não perceber que a oposição entre o bem e o mal não existe, que tal oposição surge de um acordo de palavras ou de elementos mal definidos. Se, por exemplo, chamarmos o mal de ausência de bem, o que de fato o é, como faz Santo Agostinho, tal oposição desaparece, já que para haver oposição é necessário que os dois elementos existam ao mesmo tempo, coisa que não acontece com o bem e a ausência de bem. O mesmo se dá com a luz e a escuridão. Se chamarmos a escuridão de ausência de luz, fica claro que a oposição entre luz e trevas, não poderá existir, já que como é dito um é a ausência do outro. E, portanto, esta oposição seria apenas simbólica, não existindo verdadeiramente. O que nos possibilitaria até a conceber o bem como ausência do mal, sem nenhum prejuízo. O que demonstraria, por sua vez, a origem errônea do dualismo maniqueísta.
Por outro lado, embora o maniqueísmo de modo errôneo reprima a natureza terrena do homem e cultive apenas sua natureza divina, concebendo em nós como o mal, o que é em nós, extremamente natural e necessário, como os instintos. Torna-se necessário reprimi-los com leis, que limite nosso natural egoísmo e sadismo. E que torne possível a vida em sociedade. Pois, como vemos nas guerras, ao afrouxar as leis da boa convivência, damos evasão ao nosso egoísmo e sadismo extremos. Contudo, o homem não apenas é capaz da mais alta crueldade, como da mais extrema bondade. Embora esta seja muito mais a exceção que a regra. Somos equipados pela natureza de sentimentos extremamente úteis à vida, sem os quais seria impossível viver. O primeiro mandamento da vida é viver e viver implica em se manter vivo. O que implica uma dose de egoísmo em bem viver, ou em manter-se vivo. Por isso, não é de estranhar que o egoísmo seja a causa da maioria dos crimes e que a virtude seja tão rara. Pois, é muito mais difícil pensar no outro, do que em si próprio.
O bem e o mal na natureza não existem. O que chamamos de mal, na natureza é um fator extremamente importante para o seu funcionamento. A morte, por exemplo, é extremamente importante à vida, pois sem aquela a vida não existiria: a morte alimenta a vida. Portanto, o bem e o mal dependem do homem.  
Assim, do mesmo modo, que Santo Agostinho, ao descobrir que o mal em relação ao bem não existe, podemos descobrir que o bem e o mal, só existem no homem. O mal, como egoísmo, como ignorância. E o bem, como harmonia.

FONTES:
1. Tirado da nota 104 das CONFISSÕES – Santo Agostinho/Coleção Os Pensadores - Nova Cultural
2. www.xr.pro.br/ensaios: maniqueísmo
3. Dicionário da Vida Sexual/Volume 2                 


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A TV BRASILEIRA VISTA PELOS ESTRANGEIROS (Por Bosco Silva)



É assustador como o mundo vê o povo brasileiro é o que podemos sentir conferindo o vídeo abaixo, em que uma repórter inglesa, Daisy Donovan, interpreta o modo de pensar de nosso povo através de nossos programas de televisão, em que os destaques de nossa programação se baseia na exploração do corpo feminino e da violência. Donovan, por exemplo, se surpreende ao constatar que o horário do almoço, horário que devia ser dedicado ao relaxamento, é tão explorado por emissoras de televisão com programas policiais, com suas histórias de assassinatos e cenas explícitas de cadáveres expostos em vias públicas. Concluindo que "este país não é para fracos!"


terça-feira, 10 de setembro de 2013

ESTRANHOS PRAZERES (de Bosco Silva)



Este conto é inspirado na vida de Tereza Brant, que de uma bela mulher tornou-se um belo homem.
Havia alguns meses que Danilo não se encontrava com Roberto, amigo de longa data, devido a estas tarefas da vida que nos faz afastarmos de quem amamos.  Porém, naquele dia, Danilo resolveu visitá-lo, encontrando-o em sua casa em plena tarefa doméstica.
- Estás solteiro novamente? - inquiriu Danilo vendo o amigo estendendo as roupas no varal como um solteirão solitário.
- Ainda não.
- Então, continuas com a Joana?
- Deixe-a, já faz alguns meses.
- Pensei que estivesse solteiro, pois é a primeira vez em anos que o vejo a estender suas roupas.
- Não são minhas, não.
- Ah então moras com um amigo? E deve ser um grande amigo já que estás a estender suas cuecas! - disse o amigo desconfiado.
- São do meu amorzinho.
Nesse momento Danilo assustou-se:
- Não acredito Roberto que te tornaste viado!
Roberto pôs-se a rir.
- Ainda não cheguei a tanto.
- Então de quem são?
- São da Têtê.
- Têtê?
- Tereza. É que ela prefere cuecas, sabe como são as mulheres.
Danilo achou estranho mas não repreendeu tal gosto; pois lembrou-se que sua mulher sempre reclamava de suas peças íntimas, dizendo que marcavam e apertavam em demasia. Levantou-se então e foi em direção de algumas fotos que estavam sobre um móvel.
- Vejo que é uma mulher bastante atraente - disse com uma das fotos na mão.
- Não é ela não.
- Então quem é.
- É uma das namoradas dela.
- Dela?!
- Bem... - disse Roberto enxugando as mãos e indo sentar-se ao lado do amigo -, Tereza é lésbica.
- Lésbica! Pera lá deixa ver se eu entendi bem - exclamou Danilo confuso. - Então você mora com uma mulher que gosta de mulheres?
- Sim, não pude evitar, temos os mesmos gostos: torcemos pelo mesmo time, gostamos do mesmo tipo de mulher e da mesma cerveja, e até calçamos o mesmo número de sapato!
- E o fio-terra, hein? - disse Danilo com risadas.
- Estas são sempre opiniões de quem nunca comeu uma lésbica...
- E como é o sexo entre vocês?
- Como qualquer sexo entre homem e mulher.
- Mas como pode uma lésbica se relacionar com um homem, Roberto?
- Bem, como qualquer mulher. E assim como nem todas dão por puro prazer, Tereza também; há outros interesses...
- Outros interesses!, sei - repetiu Danilo balançando os bolsos. - Bem, mas seja como for, me parece ser problema seu. - Mas conte-me o que o levou a se relacionar com uma lésbica?
- Quando Joana me deixou descobri que o ciúme fora o grande motivo, pois ela sempre atraia olhares com sua beleza; o que me aborrecia. Desejava que ela fosse bela sem atrair tantos olhares masculinos. O que me parecia impossível.
- Sei.
- Mas quando vi Tereza descobri que, sim, que isto era possível já que ela atraia apenas olhares femininos.
- E como a conheceste?
- Cantamos a mesma mulher juntos um dia durante uma partida de futebol. Não pude, ao vê-la assobiar por aquela mulher, recriminá-la por ter bom gosto. E quando a vi com a mesma camisa do meu time preferido, me apaixonei por ela no mesmo instante. Convidei-a então pra sair.
- Sei... sei...
- Sabe, cantar uma lésbica não é apenas cantar um mulher, é sedução à segunda potência; é um duplo desafio, e tu sabes que eu sempre gostei de desafios. Além disso, há outras vantagens...
- Que vantagens, Roberto?
Nesse instante Tereza chega com uma bela mulher.
- Sempre dividimos nossas conquistas.

TEREZA ATUALMENTE

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA (de Dylan Thomas)



Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva
                                               [ lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha
                                               [ esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela
                                               [ alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde
                                               [ baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea
                                               [ altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua
                                               [ travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os
                                              [ transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se
                                              [ alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti,meu pai, te imploro agora, lá na cúpula
                                              [ obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima
                                              [ bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

LANÇAMENTO: "HISTÓRIAS QUE NOSSAS MÃES NÃO NOS CONTAM" (Por Bosco Silva)



APRESENTAÇÃO
Rir ainda é uma das melhores coisas que o homem pode fazer na vida. E diferentemente do amor, outro elemento fundamental da vida, pode-se exercê-lo sem a insatisfação de não ser correspondido; e obtendo, até bem mais que o sexo, a mais plena satisfação com isso.
Deste modo, parafraseando Nietzsche, eu diria: "sem humor a vida seria um grande erro". Pois o humor tem este poder divino de nos fazer suportar as desventuras da vida, os defeitos alheios e, principalmente, os defeitos próprios.
E sabendo como ninguém disso, o autor de Histórias Que Nossas Mães Não Nos Contam traz para seus leitores vinte contos com este ingrediente divino distribuído em quatro formas:
Humor Erótico;
Humor Irônico;
Humor Sarcástico;
Humor Negro.
São histórias que irão lhe fazer provar um pouco deste verdadeiro manjar dos deuses.

EM BREVE...  

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A FABULOSA ARTE DE DESTRUIÇÃO HUMANA (Por Bosco Silva)



Para o escritor francês Marquês de Sade o sadismo é um impulso natural que, em menor ou maior grau, está presente em todos os seres humanos; que tanto pode dar prazer a um déspota, provocando-lhe sentimento de superioridade perante seus semelhantes, como também a um assassino que subjuga sua vítima, forçando-a a se submeter aos seus desejos; ou ainda, como um estimulante de prazer sexual com que um casal, por meio de chicotes e algemas, apimenta a relação a dois com joguinhos sexuais de submissão e autoridade. E se por meio dele se obtém prazer, é porque, segundo Sade, para a natureza é algo necessário, uma vez que o prazer é o modo pelo qual a natureza nos faz seguir seus desígnios, suas prescrições, como bem podemos ver no sexo.

MASSACRE DE CRIANÇAS NA SÍRIA COM BOMBAS QUÍMICAS
O prazer e a dor, a vida e a morte, sempre andaram juntas, tanto nas histórias individuais quanto da humanidade. Os antigos espetáculos de sangue, oferecidos ao divertimento público de Roma, em que indivíduos eram mortos, torturados ou devorados por leões, são agora substituídos por lutadores que, com seu sangue e golpes certeiros, comprazem ao público. Ao mesmo público que, “modernos e civilizados”, assistem com um prazer mórbido o resultado de um acidente de carro, em que corpos estão mutilados.


ACIMA, DOIS MODOS DE SATISFAZER O SADISMO HUMANO
Por meio de guerras, vícios, poluição, destruição da natureza, ou pelo puro egoísmo, exercemos nosso sadismo em mil formas de ardis, formas perfeitas de destruição, tão evoluídas que a fabulosa arte da destruição humana adquiriu poder jamais visto: agora não só podemos destruir povos inteiros, como a humanidade toda. Eis o grande mérito de Sade, o de mostrar esta faceta obscura da mente humana, que a cada dia torna-se mais clara: o homem é um ser autodestrutivo que obtém prazer com isso.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

FELICIDADE (de Katherine Mansfield)



Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.

O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?

Não há meio de expressar isso sem parecer "bêbado e desvairado?" Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?

"Não, isso de violino não é exatamente o que eu quero dizer" — ela pensou, correndo escadas acima e apalpando a bolsa, em busca da chave — que ela esquecera, como sempre — e sacudindo a caixa do correio. "Não é o que eu quero dizer, pois — "obrigada, Mary" — ela entrou no vestíbulo. "A babá voltou?".

"Sim, senhora".

"E as frutas?".

"Sim, senhora. Veio tudo".

"Traga as frutas para a sala de jantar. Vou dar um arranjo nelas antes de subir".

Estava escuro e muito frio na sala de jantar. Mesmo assim, Bertha tirou o casaco; não podia tolerar por mais tempo o aperto da roupa, e o ar frio penetrou em seus braços.

Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda mais; contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está à espera de que alguma coisa... divina aconteça. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.

Mary trouxe as frutas em uma bandeja, e também uma tigela de louça e uma travessa azul, muito linda, com um brilho estranho, como se estivesse mergulhada em leite.

"Quer que eu acenda a luz, senhora?".

"Não, obrigada. Ainda posso ver bastante bem".

Havia tangerinas, laranjas e maçãs, misturadas com o vermelho dos morangos. Algumas pêras amarelas, lisas como seda, uvas brancas, cobertas por uma florescência prateada, e um grande cacho de uvas roxas. Estas últimas, ela havia comprado para combinar com o tapete novo da sala de jantar. Sim, aquilo parecia bastante afetado e absurdo, mas era realmente a razão pela qual ela as tinha comprado. Na loja, havia pensado: "Preciso de algumas frutas cor de púrpura para aproximar o tapete da mesa." E na ocasião isto pareceu fazer muito sentido.

Terminado o arranjo, duas pirâmides de forma arredondada, ela se colocou a certa distância, para ver o efeito — e estava realmente muito curioso, pois a mesa escura parecia dissolver-se na luz fosca e tanto a tigela de louça como a travessa azul pareciam flutuar no ar. Isso, é claro, naquele estado de espírito que ela se encontrava, era tão incrivelmente belo... Ela começou a rir.

"Não, não. Estou ficando histérica". Pegou sua bolsa e seu casaco e subiu correndo para o quarto da filha.

A babá estava sentada ao lado de uma mesa baixa dando o jantar da pequena B., depois do banho. A criança vestia uma camisola de flanela branca e um casaquinho azul, de lã. Os cabelos finos e escuros estavam escovados formando um topetinho engraçado. Ela olhou para cima e começou a pular quando viu a mãe.

"Agora, meu benzinho, coma direito, como uma boa menina", disse a babá, torcendo a boca num jeito bem conhecido dela, como a dizer que ela havia chegado em hora inoportuna, mais uma vez.

"Ela tem estado bem, Nanny?".

"Ela se comportou muito bem durante toda a tarde" murmurou Nanny. "Fomos ao parque; eu me sentei em uma cadeira e tirei-a do carrinho. Um cachorro enorme veio até nós, e pôs a cabeça sobre meus joelhos. Ela agarrou a orelha dele, e puxou. Ah! a senhora devia ter visto."

Bertha teve vontade de perguntar se não seria perigoso deixar que a criança puxasse a orelha de um cão desconhecido, mas não se atreveu. Permaneceu observando-as, os braços largados ao longo do corpo, qual uma menina pobre frente à menina rica com sua boneca.

O bebê olhou para ela outra vez; fixou os olhos nela, sorriu com tanto encanto, que ela não se conteve.

"Ah! Nanny, deixe que eu termine de dar o jantar dela, enquanto você arruma o banheiro".

"Bem, madame. Ela não devia mudar de mãos enquanto come" — disse Nanny, ainda murmurando. "Isso a perturba e muito. É muito provável que ela vá ficar agitada".

Que absurdo! Para que ter uma criança, se ela deve ser guardada — não em uma caixa, como um violino raro, mas nos braços de uma outra mulher?

"Não, é assim que eu quero!".

Muito ofendida, Nanny entregou a criança.

"Bem, não a excite depois da comida. A senhora sabe que a excita, madame. E depois ela me dá um trabalho!".

Graças a Deus! Nanny saiu do quarto, levando as toalhas de banho.
"Agora eu a peguei para mim, minha coisinha preciosa" — disse Bertha, enquanto o bebê se inclinava para ela.

A criança comeu fazendo festa, abrindo a boca para receber a colher e depois agitando as mãos. Às vezes prendia a colher na boca e outras, logo que Bertha enchia a colher, lançava a comida aos quatro ventos.

Terminada a refeição, Bertha virou-se para a lareira.

"Você é linda, muito linda!" disse, beijando seu bebê. "Sou louca por você".

E, realmente, ela a amava tanto! — Seu pescoço, quando ela o inclinava para a frente, os artelhos delicados, quase transparentes à luz do fogo... Todo aquele sentimento de felicidade voltou e, ainda uma vez, Bertha não sabia como expressar essa sensação, nem o que fazer com ela.

"Telefone para a senhora" — disse Nanny, voltando em triunfo e pegando a sua criança.

Bertha desceu correndo. Era Harry.

"Ah, é você, Ber? Olhe, vou chegar tarde. Tomarei um táxi e irei tão depressa quanto puder; mas sirva o jantar dez minutos mais tarde, sim? Tudo bem?".

"Sim, perfeitamente. Ah, Harry!".

"Sim?".

O que tinha ela para dizer? Nada. Queria apenas prolongar aquele contato. Não podia só gritar absurdamente: "O dia hoje foi tão maravilhoso!"

"O que é?" — tornou a voz de longe.

"Nada. Entendu" — disse Bertha, colocando o fone no lugar e pensando o quanto a civilização é idiota.
Eles tinham convidados para o jantar: os Norman Knights, um casal muito distinto — ele estava abrindo um teatro e ela tinha muito entusiasmo por decoração de interiores; um jovem, Eddie Warren, que acabava de publicar um pequeno livro de poemas é a quem todo mundo vinha convidando para jantar, e um "achado" de Bertha, uma moça chamada Pearl Fulton. O que ela fazia, Bertha ignorava. Haviam-se encontrado no clube e Bertha se apaixonara por ela; isso sempre acontecia quando ela encontrava mulheres bonitas que revelassem algo incomum em sua personalidade.

O que a intrigava era que, embora tivessem estado juntas freqüentemente e conversado muito, Bertha não podia ainda ter um conceito formado sobre Pearl Fulton. Até certo ponto, ela era de uma franqueza rara e maravilhosa, mas além desse ponto ela não passava.

E haveria alguma coisa além disso? Harry dizia que não. Julgava-a um tanto maçante e "fria como todas as louras, com um toque, talvez, de anemia cerebral". Mas Bertha não concordava com isso; pelo menos, ainda não.

"Não, sua maneira de sentar-se, com a cabeça levemente inclinada para o lado, sorridente, esconde alguma coisa, Harry, e eu hei de descobrir que coisa é essa".

"O mais provável é que seja estômago pesado", disse Harry.

Ele se empenhava em pegar Bertha pelo pé com respostas daquele teor... "fígado gelado, minha querida", ou "pura flatulência", ou "doença dos rins"... e assim por diante. Por alguma estranha razão, Bertha gostava disso e quase o admirava por falar desse modo.

Ela entrou na sala de estar e acendeu a lareira; depois pegou as almofadas que Mary havia arrumado com todo cuidado e atirou-as de volta aos sofás e cadeiras. Foi o bastante para dar vida à sala. No momento de atirar a última almofada, ela se surpreendeu apertando-a contra si apaixonadamente. Mas isso não apagou o fogo em seu peito. Ah, pelo contrário!

As janelas da sala abriam-se para um balcão, e davam para um jardim. No fundo, perto do muro, havia uma esguia pereira, toda florida, esplêndida, que permanecia imóvel contra o céu verde-jade. Bertha não podia deixar de sentir, mesmo a essa distância, que não havia um só botão por abrir, nem uma pétala murcha. Embaixo, nos canteiros do jardim, as tulipas vermelhas e amarelas, carregadas de flores, pareciam inclinar-se na penumbra: Um gato cinzento, arrastando-se de barriga, esgueirava-se através do gramado, e um gato preto, como se fora sua sombra, ia logo atrás. Ela tremeu, curiosamente, ao vê-los tão atentos e rápidos.

"Gato é um bicho horrível!" — ela pensou, e, saindo da janela, começou a andar de um lado para outro. Como era forte o perfume dos junquilhos dentro da sala quente! Forte demais? Não, não demais. E então, como que vencida, ela atirou-se sobre um sofá e cobriu os olhos com as mãos.

"Estou muito feliz, muito feliz" — murmurou.

E parecia-lhe ver por entre as pálpebras a linda pereira, com aquela abundância de flores, como símbolo de sua própria vida.

Realmente — realmente — ela tinha tudo. Era jovem, Harry e ela se amavam como nunca, davam-se muito bem e eram realmente bons companheiros. Ela tinha um adorável bebê. Não precisavam se preocupar com dinheiro. Tinham esta casa e este jardim, que eram absolutamente satisfatórios. E amigos modernos, interessantes; amigos escritores, pintores e poetas ou pessoas voltadas para as questões sociais, justo a espécie de amigos que eles queriam. Além disso, havia os livros, havia a música, e ela encontrara aquela costureirinha maravilhosa, sua cozinheira nova fazia omeletes deliciosos, e eles iam fazer uma viagem ao exterior, no verão.

"Estou ficando maluca! Maluca!" Ela sentou-se, mas sentiu-se inteiramente atordoada, inteiramente bêbada. Devia ser a primavera.

Sim, era a primavera. Agora, ela sentia-se tão cansada que mal poderia subir a escada, para vestir-se.
Um vestido branco, um fio de contas de jade, sapatos verdes e meias. Era coincidência. Ela havia decidido esse arranjo horas antes de ter estado à janela da sala.

As dobras de sua saia produziram um suave farfalhar ao deslizar rente ao chão, quando ela foi à porta de entrada e beijou a senhora Norman Knight, que estava tirando o mais estranho casaco cor de laranja, com uma fileira de macacos pretos em volta da barra, subindo na parte da frente.

"Por quê? Por quê?! Por que a classe média é tão tola, tão completamente desprovida de senso de humor?! É por pura sorte que estou aqui, minha querida, e Norman é meu anjo protetor. Meus queridos macacos chocaram tanto as pessoas do trem que elas simplesmente se puseram a me devorar com os olhos. Não riram, não estavam achando graça, o que eu teria gostado. Apenas olharam-me fixamente e me fuzilaram com os olhos."

"Mas o melhor de tudo" — disse Norman, apertando contra o olho o monóculo de aro de tartaruga — "você não se importa que eu conte, Face, se importa?" (Na intimidade eles se chamavam Face e Mug.) "O melhor de tudo foi quando ela, furiosa, virou-se para a mulher que estava ao seu lado e disse: "A senhora nunca viu um macaco antes?".

"Ah, sim" — a senhora Norman Knight juntou—se aos que riam. "Não foi mesmo genial?".

E, mais engraçado ainda era que agora, sem o agasalho, ela parecia um macaco muito inteligente, cujo vestido de seda amarela fora feito com cascas de bananas. E os brincos de âmbar pareciam duas nozes bamboleantes.

"It is a sad, sad fall!"² — disse Mug, parando em frente ao carrinho do bebê. "When the perambulator comes into the hall" — e ele deixou de lado o resto da citação.

A campainha tocou. Era o esbelto e pálido Eddie Warren, em estado de completa desgraça, como sempre.

"É esta casa mesmo, não é?" — perguntou ele.

"Bem, acho que sim. Pelo menos assim o espero" — disse Bertha, com animação.

"Acabo de ter uma experiência muito desagradável com um motorista de táxi. Ele era terrivelmente sinistro. Não pude conseguir que ele parasse. Quanto mais eu lhe chamava a atenção e lhe pedia que parasse, mais depressa ele ia. E à luz do luar aquela figura bizarra, com a cabeça achatada, debruçando-se sobre o minúsculo volante...".

Ele estremeceu, tirando um imenso cachecol de seda branca. Bertha notou que ele usava meias também brancas, muito vistosas.

"Mas, que coisa horrível!" disse ela em voz muito alta.

"Sim, foi mesmo" — disse Eddie, seguindo-a até a sala de estar. — "Eu me vi decolando para a eternidade num táxi alado".

Ele conhecia os Norman Knight. Na verdade ia escrever uma peça para Norman Knight, quando o esquema do teatro começasse a funcionar.

"Bem, Warren, como está a peça?" — perguntou Norman Knight, deixando cair o monóculo e dando, assim, oportunidade ao olho de vir à tona, antes de ser ocultado outra vez.

A Sra. Knight interveio: "Mas que meias lindas, Sr. Warren!"

"Que bom que a senhora tenha gostado delas", disse ele, olhando para os pés. "Parece que elas ficaram muito mais brancas desde que a lua apareceu". Virou para Bertha o rosto magro e triste. "Há uma lua, a senhora sabe?".

Ela teve vontade de gritar: "É claro que sei! Muitas vezes, freqüentemente!".

Ele era, na verdade, uma pessoa muito atraente. Mas atraentes eram também Face, agachada em frente ao fogo, no seu vestido de cascas de bananas, e Mug, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia as cinzas: "Por que o noivo está demorando tanto?".

"Ei-lo que chega!".

A porta da frente abriu e fechou com estrondo. Harry gritou: "Alô, pessoal. Volto em cinco minutos!" Subiu correndo a escada. Bertha não pôde deixar de sorrir; ela sabia como ele gostava de agir sempre sob alta pressão. Afinal, que importância teriam cinco minutos a mais? Mas ele sustentava para si mesmo que cinco minutos tinham, sim, muita importância. E fazia questão, depois, de chegar e ficar na sala numa postura serena, tranqüila.

Harry tinha um tal gosto pela vida... Ah, como ela apreciava isso nele! E sua paixão pela luta, por encontrar em cada coisa que se lhe opunha um outro teste para seu poder e sua coragem, também isso ela compreendia. Mesmo quando, vez por outra, ele pudesse parecer talvez um tanto ridículo, aos olhos dos que não o conheciam bem... Pois às vezes ele se atirava em batalhas que não existiam... Ela conversava e ria, realmente esquecida, até a chegada dele à sala (tal como ela imaginara), de que Pearl Fulton não viera ainda.

"Será que a Pearl esqueceu?".

"Espero que sim", disse Harry. "Ela tem telefone?" "Está chegando um táxi". E Bertha sorriu, com aquele divertido ar de posse que sempre assumia quando suas descobertas femininas eram novas e misteriosas. "Ela vive em táxis".

"Assim vai engordar" — disse Harry com frieza, tocando a campainha para que o jantar fosse servido. "Um perigo assustador para mulheres louras".

"Harry, não diga isso" — advertiu Bertha, rindo.

Veio outro breve momento, enquanto esperavam rindo e conversando, só um pouquinho à vontade demais, um pouquinho descontraídos demais. Aí chegou Pearl Fulton, toda prateada, com uma tira de prata prendendo seus cabelos loiros, sorrindo, com a cabeça pendendo um pouco para o lado.

"Estou atrasada?".

"Não, absolutamente" — disse Bertha, pegando-a pelo braço. "Venha comigo". E entraram na sala de jantar.

O que havia naquele braço frio, que podia avivar — começar a atiçar — atiçar — o fogo da felicidade com o qual Bertha não sabia o que fazer?

Pearl Fulton não olhava para ela; quase nunca olhava as pessoas diretamente. Suas pálpebras pesadas estavam sempre semicerradas, e em seus lábios um estranho sorriso ia e vinha, como se ela, em vez de ver, preferisse ouvir. Mas Bertha soube, de repente, como se o mais longo, o mais íntimo olhar tivesse sido trocado entre elas, como se tivessem dito uma à outra "Você também?", que Pearl, ao mexer a bela sopa vermelha em seu prato cinza, sentia exatamente o que ela estava sentindo.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, suas colheres subindo e descendo, tocando os lábios com os guardanapos, fazendo bolotas com miolo de pão, brincando com garfos e copos, conversavam.

"Eu a encontrei no show do Alpha — uma figurinha muito esquisita. Ela havia não apenas cortado rente os cabelos, mas também parecia ter tirado um bom pedaço dos braços e das pernas, do pescoço e do pobre narizinho também".

"Ela não é muito liée a Michael Ost?".

"O homem que escreveu Love in False Teeth?³".

"Ele quer escrever uma peça para mim. Um ato. Um homem. Ele decide suicidar-se; discute todas as razões pró e contra. E exatamente quando chega a uma conclusão sobre o que fazer... cai o pano. Uma idéia nada má".

"Como ele vai chamá-la? Dor de estômago?".

"Acho que encontrei a mesma idéia numa revistinha francesa inteiramente desconhecida na Inglaterra".
Não, eles não compartilhavam. Mas eram queridos — queridos — e ela gostava muito de tê-los ali, em sua mesa, oferecendo-lhes comida e vinho deliciosos. Na verdade, ela desejava dizer-lhes o quanto eles eram encantadores e que grupo decorativo formavam; como eles pareciam avivar uns aos outros e como eles lhe faziam lembrar uma peça de Tchekov!

Harry estava gostando do jantar. Era próprio dele — bem, não sua natureza, exatamente, e não, certamente, uma pose — bem, um pouco de cada coisa — falar sobre comida e alardear sua paixão "impudica por carne branca de lagosta e o verde dos sorvetes de pistache, verdes e frios como pálpebras de bailarinas egípcias".

Quando ele levantou os olhos para ela e disse: "Bertha, este soufflé está maravilhoso!", ela quase poderia ter chorado, com prazer infantil.

Ah! O que fazia com que ela se sentisse tão terna com todo mundo, hoje? Tudo era bom, tudo estava certo. Tudo o que acontecia parecia encher de novo até a borda sua taça de felicidade.

E havia ainda, no fundo de sua mente, a pereira. Ela estaria prateada, agora, sob a luz da lua do pobre Eddie, prateada como Pearl Fulton, que lá estava, sentada, fazendo girar uma tangerina com seus dedos finos e tão pálidos que um raio de luz parecia sair deles.

O que, na verdade, não podia compreender, o que era miraculoso, era como percebera o estado de espírito de Pearl Fulton de modo tão rápido e exato. Porque ela não tinha a menor dúvida de estar certa e, no entanto, em que podia se basear? Menos que nada.

"Acho que isso acontece muito, muito raramente entre mulheres. Nunca entre homens", pensou Bertha. "Mas enquanto eu estiver fazendo o café, talvez ela me "dê um sinal", da sala de jantar."

O que queria dizer com isto ela não sabia, e o que viria a acontecer ela não podia imaginar.

Enquanto pensava, ela se via conversando e rindo. A vontade de rir fazia-a conversar.

"Eu preciso rir ou morrer".

Mas, ao notar o hábito engraçado que tinha Face de empurrar alguma coisa pelo decote abaixo — como se ela tivesse ali uma reserva de nozes ou algo assim — teve de fechar as mãos com tanta força a ponto de enterrar as unhas nas palmas das mãos, para não rir demais.

Tinham acabado, por fim. "Venham ver minha máquina de fazer café", disse Bertha.

"Só a cada quinze dias temos uma nova máquina de fazer café nesta casa", disse Harry. Desta vez Face pegou Bertha pelo braço; Pearl Fulton inclinou a cabeça e seguiu-as.

O fogo tinha-se reduzido na sala, para tornar-se um crepitante e rubro "ninho de filhotes de Fênix", segundo Face.

"Não acendam as luzes, por enquanto. Está tão agradável!". Ela agachou-se perto do fogo. Sempre tinha frio... "quando está sem sua jaqueta de flanela vermelha de mico de realejo, é claro", pensou Bertha.

Naquele momento Pearl Fulton "deu o sinal".

"Vocês têm um jardim?" disse a tranqüila voz sonolenta. Foi tão refinado da parte dela que tudo o que Bertha pode fazer foi obedecer; atravessou a sala, afastou as cortinas e abriu aquelas longas janelas.
"Lá", suspirou.

E as duas mulheres permaneceram de pé, uma ao lado da outra, olhando para a esguia árvore florida. Embora o ambiente estivesse tão tranqüilo, a pereira parecia a chama de uma vela a alongar-se, apontar para o alto, tremer no ar brilhante, tornando-se cada vez mais alta enquanto elas olhavam, até quase tocar os bordos prateados da lua redonda.

Quanto tempo elas ficaram ali? Ambas como que presas àquele círculo de luz sobrenatural, compreendendo-se perfeitamente uma à outra, criaturas de um outro mundo, e perguntando-se o que iriam fazer neste mundo com todo aquele alegre tesouro de felicidade que queimava em seus peitos e caía, como flores de prata, de seus cabelos e mãos?

Para sempre? Por um momento? E Pearl Fulton pareceu ter murmurado: "Sim, isso mesmo." Ou Bertha sonhara isto?

Então a luz foi acesa, Face fazia o café e Harry dizia: "Minha querida Senhora Norman Knight, não me pergunte pe!a minha filha. Eu jamais a vejo. Não terei por ela o menor interesse até o dia em que tenha um amante", e Mug tirou o monóculo, e tornou a colocá-lo, e Eddie Warren tomou seu café e colocou a xícara no lugar com um rosto angustiado, como se ele tivesse engolido uma aranha e percebido o que fizera.

"O que eu quero é dar lugar aos outros jovens. Acho que Londres está fervilhando com excelentes peças ainda não escritas. Quero lhes dizer: Aqui está o teatro; vão em frente!".

"Sabe, querida? Vou decorar uma sala para os Jacob Nathan. Estou muito tentada a fazer um projeto tipo peixefrito, com o encosto das cadeiras em forma de frigideiras e lindas batatas fritas espalhadas por toda parte nas cortinas".

"A dificuldade com nossos autores jovens é que eles são ainda demasiadamente românticos. Ninguém deve se lançar ao mar contando que não vai enjoar e dispensando uma bacia. Bem, por que não terão eles a coragem de usar essas bacias?".

"Um poema chocante sobre uma menina que foi violentada por um mendigo sem nariz, num pequeno bosque".

Pearl Fulton sentou-se à vontade na poltrona mais baixa e mais funda, e Harry ofereceu cigarros a todos. Pela maneira como ele se pôs à frente dela, sacudindo a caixa de prata dizendo asperamente "Egípcio? Turco? Virginiano? Estão todos misturados", Bertha constatou que ela não apenas o aborrecia; ele realmente não gostava dela. E deduziu, pelo modo com que Pearl disse "Obrigada, não vou fumar", que ela também o sentira, e se magoara.

"Não tenha essa antipatia por Pearl, Harry! Você está redondamente enganado a respeito dela. Ela é maravilhosa, maravilhosa! Além disso, como você pode pensar de modo tão diferente de mim, sobre alguém que significa tanto para mim? Tentarei contar-lhe mais tarde, quando estivermos na cama, o que está acontecendo. O que eu e ela estamos compartilhando".

A essas últimas palavras, alguma coisa estranha e quase aterrorizante penetrou na mente de Bertha. E essa coisa cega e sorridente sussurrou-lhe: "Logo essas pessoas irão embora. A casa ficará tranqüila, tranqüila. As luzes serão apagadas. E você e ele ficarão a sós um com o outro, no quarto escuro, a cama quente...".

Ela saltou da cadeira e correu para o piano.

"Que pena que ninguém toque!" — bradou. "Que pena que ninguém toque!".

Pela primeira vez na vida Bertha Young desejou seu marido.

Ah! Ela o amava! Ela o amara sempre, é claro, mas com outras formas de amor, não com o que sentia agora. E também, é claro, ela havia compreendido que ele era diferente. Haviam discutido isto inúmeras vezes. Ela havia se afligido horrivelmente, a princípio, ao descobrir sua própria frigidez, mas, com o passar do tempo, isso deixara de incomodá-la. Havia tanta franqueza entre os dois, eles eram tão bons companheiros! Nisso estava a grande vantagem de serem modernos.

Mas agora — era com tesão! Com tesão! A palavra doía em seu corpo em brasa. Era a isto que o seu sentimento de felicidade tinha levado? Mas então, então...

"Querida" — disse a Sra. Knight —, "é uma pena, mas você sabe que somos vítimas do tempo e do horário do trem. Moramos em Hampstead. Foi uma noite tão agradável!".

"Vou acompanhá-los até a porta", disse Bertha. "Foi um prazer tê-los conosco, mas vocês não podem perder o último trem. É tão desagradável isto, não é mesmo?".

"Antes de sair, você aceita um uísque, Knight?" convidou Harry.

"Não, obrigado, amigo velho".

Àquelas palavras, Bertha despediu-se dele com um forte aperto de mão.

"Boa-noite, até outra vez!" gritou ela do alto da escada, sentindo como se uma parte de si estivesse se despedindo deles para sempre.

Ao chegar à sala, encontrou os demais convidados preparando-se para sair.

"Então, você pode fazer parte do trajeto em meu táxi...".

"Eu lhe agradeço muitíssimo por não ter outra vez de enfrentar sozinho uma corrida de táxi depois da terrível experiência da vinda até aqui".

"Vocês podem tomar um táxi logo no fim da rua, há um ponto lá. Não terão de andar mais que uns poucos metros".

"É mesmo? Que bom! Vou vestir meu casaco".

Pearl Fulton encaminhou-se para o vestíbulo e Bertha a ia seguindo, quando Harry quase puxou-a para trás.

"Permita-me ajudá-la".

Bertha viu que ele tinha se arrependido de sua rudeza e deixou-o à vontade. Em certas coisas ele era um menino — tão impulsivo — tão simples.

Ela e Eddie foram deixados perto da lareira.


"Você já viu o novo poema de Bilke "Mesa de Convidado"?" perguntou Eddie, baixo. "É tão maravilhoso! Na última Antologia. Você tem um exemplar? Gostaria muito de mostrá-lo a você. Começa por uma belíssima linha: "Por que deve ser sempre sopa de tomate?".

"Sim", disse Bertha. Em silêncio, encaminhou-se para uma mesa, no lado oposto à porta, e Eddie acompanhou-a, também silencioso. Ela pegou o livro e entregou-o ao amigo; não tinham feito o menor ruído.

Enquanto ele o folheava, ela levantou a cabeça, olhando para o vestíbulo. E viu... Harry com o agasalho de Pearl Fulton nos braços e esta, de costas para ele, com a cabeça inclinada. Ele atirou o casaco para um lado, colocou as mãos nos ombros dela, e virou-a com violência para ele. Seus lábios diziam: "eu te adoro", e Pearl pousou os dedos finos sobre o rosto dele e sorriu aquele seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremiam; os lábios ficaram repuxados para trás, numa crispação horrível, enquanto ele sussurrava: "amanhã" — e, piscando os olhos, Pearl disse: "sim".

"Aqui está", disse Eddie. "Por que deve ser sempre sopa de tomate?". É uma verdade tão profunda, não acha? Sopa de tomate é tão incrivelmente eterna!".

"Se você preferir", dizia a voz de Harry, bem alto, no vestíbulo, "posso chamar um táxi pelo telefone".

"Não é necessário", disse Pearl Fulton e, chegando até Bertha, estendeu-lhe os dedos delicados.

"Até logo. Muito obrigada."

"Até logo", disse Bertha.

Pearl conservou os dedos da amiga entre os seus por um momento.

"Como é linda, a sua pereira", disse ela, baixinho.

E se foi, seguida por Eddie, como o gato preto acompanhando o gato cinzento.

"Vou fechar a casa", disse Harry, estranhamente tranqüilo e contido.

"Sua linda pereira...".

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?".

Mas a pereira estava tão linda como sempre, tão imóvel e florida como sempre.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

E. L. JAMES X SASHA GREY, OU IMAGINAÇÃO X EXPERIÊNCIA


Embarcando no sucesso do livro 50 Tons de Cinza, a ex-atriz pornô americana Sasha Grey, lança Juliette Society, livro que é visto pela imprensa internacional como o futuro substituto do famoso romance de E. L. James.
Para a autora Sasha, a literatura é uma forma de continuar seu trabalho iniciado no pornô, o de ajudar homens e mulheres a lidar com sua própria sexualidade.

SASHA GREY
E podemos dizer que Sasha não aproveita apenas a semelhança de seu sobrenome artístico - seu nome verdadeiro é Marina Ann Hantzis -, com o nome de Christian Grey, o sedutor personagem de 50 Tons de Cinza, para embarcar na onda. A mocinha entra na literatura erótica com bastante experiência.  Em seus cinco anos apenas como atriz pornô ela participou de mais de 270 filmes. E Sasha Grey não acumulou somente experiência sexual mas também vários prêmios da indústria pornô americana, como os de melhor cena de sexo oral, anal e grupal, por vários anos.
Em “Juliette Society”, Catherine é uma estudante de cinema que está relativamente satisfeita com sua vida, mas que começa a querer explorar sua sexualidade após ver “A Bela da Tarde”, de Luis Buñuel. Seu namorado, Jack, é descrito como um bom amante, só que não parece disposto a embarcar nessa com ela. Surge então Anna, amiga que a apresenta à “Juliette Society”, grupo secreto voltado para o sexo.

SASHA GREY

E. L. JAMES COM SEU FAMOSO LIVRO
Torna-se impossível não compararmos as duas autoras: de um lado, a executiva, recatada e discreta E.L. James, leitora de romancinhos água com açúcar, como a série Crepúsculo - aliás o grande inspirador de sua obra -, com, provavelmente, uma insípida e repetitiva vida sexual; do outro, a fogosa, exuberante, transgressora  e experiente ex-atriz pornô Sasha Grey, leitora, como podemos ver pelo título de sua obra, de Marquês de Sade e fã do cineasta espanhol Luis Buñuel.
Compará-las pode nos dizer muito sobre o ato de fazer literatura, pode nos dizer, por exemplo, qual o elemento mais importante, a pura imaginação, representada pela recatada E. L. James, ou a experiência de uma Sasha Grey?
50 Tons de Cinza foi chamado pela imprensa de pornô para mamães. E como será chamado Juliette Society?


Em quem você aposta, na experiência ou na imaginação?

Esperemos os próximos capítulos...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A VAGINA FUMANTE: Um Conto Alucinógeno




Após o quarto ecstasy, Paula foi ao banheiro da boate. Arriou as calças e sentou-se no vaso sanitário; acendeu um cigarro e ficou a olhar as paredes cobertas de frases obscenas. Uma lhe causou risos incontidos:
Para curar um amor platônico só mesmo uma foda homérica.”

  
Tragou mais uma vez o cigarro enquanto ouvia o cair de sua urina na privada, embalada pelo som enervante da música eletrônica que vinha da pista de dança.
De repente, enquanto soltava mais uma baforada de fumaça, ouviu uma voz feminina, “hei, hei, você ai em cima”. Paula olhou para os lados, e não viu nenhuma janela e muito menos alguém por perto. Por um momento, pensou que seus sentidos tinham-lhe enganado; e assim voltou a tragar o cigarro novamente enquanto examinava o esmalte das unhas. Mas a voz novamente fez-se ouvir, “hei, hei, você ai em cima”.


Paula olhou em direção a porta do banheiro e, com a voz firme, disse: “O que é? Não está vendo? Está ocupado. Aguarde sua vez”. A voz então lhe respondeu: “Eu não estou à porta. Estou aqui, aqui embaixo”. Paula olhou para o piso do banheiro, imaginando a existência de esgoto ou de algo parecido em que pudesse caber alguém. Até que um assovio fez-se ouvir do fundo da latrina, acompanhado de um “hei, estou aqui embaixo de você”. 

Ela então olhou dessa vez para o fundo do vaso sanitário, e não acreditou no que via: sua vagina se movia como uma boca expelindo frases sonoras. Paula levantou-se assustada deixando suas calças descerem até seus pés.


- Um trago, desejo um trago – disse sua vagina.
- O que está acontecendo comigo!!! – disse Paula consigo mesma, passando as mãos sobre o rosto e olhando, atordoada, sua genitália falante.
- Vamos, rápido – continuou a vagina.
- O que você quer?
- Já disse: um trago – respondeu a vagina impaciente.
- Não acredito que estou conversando com minha própria vagina!!!
E com a insistência da mesma, Paula acendeu um cigarro e levou até sua vagina. E esta tragou com voracidade...
- Sabe, nunca gostei do termo vagina, prefiro xoxota – confidenciou a própria, tragando o cigarro e soltando a fumaça, como as vaginas daquelas praticantes de pompoarismo da Tailândia. – É bem mais carinhoso. E, além disso, você sabe, nenhum namorado seu nunca me chamou, naquelas horas, de vagina; sempre foi "deixa eu ver, meu amor, essa buceta... essa perseguida... essa xoxota". Lembro que um me chamava de moqueca.
- Era o Marcos.
- Que Marcos? O do apartamento 106? – inquiriu a vagina.
- Não. Esse lhe chamava de beiçuda.
- Argh!, que horrível – disse a vagina fazendo com a boca, ou melhor, com o que parecia ser uma, gesto de nojo.
- Então era o Marcos do 120?
- Não. Esse lhe chamava de “portinha do paraíso”.
- Ah! Como ele era delicado! Era então o do 130?
- Não, não, não – disse, rapidamente, Paula, balançando o dedinho em direção de sua vagina.
- Sei, esse não precisava nem chamar, que você ia, né?
E após Paula dar uma grande gargalhada, respondeu:
- Era o Salvatore?
- Ah, Sim. Ele era tão carinhoso e engraçado.
- Mas havia aquele outro, aquele engraçadinho que me chamava de “pata de camelo”.
- Ah, o Teco.
- Mas pior que ser chamada de vagina, era quando aquele outro sujeito me chamava de vulva, que nome feio.
- Ah, esse era o Haroldo, o Brandão.
- Ele era tão metódico.
- Mas o que esperar de um psicólogo, né?
- Pois é, então porque me chamar de vagina, querida. Vagina é dito quando alguém não quer ter intimidade, como um ginecologista, mas eu sou íntima de você, por isso me chame de xoxota, meu bem.
- Mas eu sei como você ficou na minha última visita ao ginecologista, sua danadinha.
- Também pudera com aquele homem lindo. Fiquei toda molhadinha!
- E se fosse uma fantasia – argumentou Paula, sentada novamente, com as calças arriadas na latrina, dividindo o cigarro com sua vagina -, digamos que alguém me pedisse para irmos às vias de fato, fantasiando ser um ginecologista?
- Bem, toda regra tem exceções, minha querida.
- Ahã!, te peguei agora sua safadinha – disse Paula dando leves palmadas em sua vagina.
- Tudo bem, tudo bem, eu me rendo, mas não faça como aquela vez em que encontraste outra xana pra se esfregar.
- Foi apenas uma experiência. E que tal? Você não gostou?
- Bem, sabe quando você quer calabresa mas lhe dão salsicha?
- Ahã.
- Foi assim que eu me senti: não me contentei com dedos, querida. Falando nisso, não estamos esquecendo de algo?
- Maurício! – exclamou Paula levantando-se e vestindo rapidamente as calças.
- Ele parece ser tão bem dotado! – comentou a vagina satisfeita, provocando risos de satisfação em Paula.
- Não me admira que não se contenha com salsichas, larga como estás, sobra espaço – comentou uma voz grave.
- Quem disse isso? – inqueriu Paula, assustada, antes de abrir a porta do banheiro.
- É ele – respondeu a vagina.
- Ele quem?
- O seu cu.
- Ele também fala?!
- Bem, ouço mais do que falo, mas dou meus palpites também, querida – disse o cu de Paula.
- Vamos, vamos, meu bem, não ligue para as opiniões de alguém que nunca lhe encarará de frente – comentou a vagina enquanto Paula abria a porta do banheiro e seguia enfrente.
- O que você sente é inveja, já que no final eles sempre acabam procurando por mim - retrucou o cu a vagina, enquanto esta lhe mostrava a língua, ou algo parecido.
- Ah é? Eu juro que irei atrapalhar da melhor forma possível: merda – disse o cu irritado, enquanto Paula seguia para mais um encontro amoroso, sendo imediatamente interrompida, e retornando ao banheiro, mas desta vez por outros motivos.

Para Completar, veja 100 Apelidos Para Vagina:


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O ANDROIDE (de Bosco Silva)



Numa badalada casa noturna em um futuro distante...
- Oooiii!
- Oi.
- As coisas lá dentro estão pegando fogo, hein?!
- Fogo, aonde, aonde? - disse o sujeito estranho com voz metálica, virando a cabeça em 360 graus.
- Calma, quero dizer apenas que as pessoas estão bastante animadas lá dentro.
- Ah sim, desculpa-me, é que sou um androide-bombeiro, tipo MX30.6, semi-humano.
- É mesmo?! Hum... que maravilha! Então aposto que és capaz de abrir esta garrafa de vinho somente com as mãos.
- Sim, meus dedos podem se transformar em ferramentas... zimm... ziimmm... ziiimmmm... ziiiimmmmm...
- Nossa! Obrigada - disse a mulher com a garrafa aberta.
- Tens um cigarro?
- Não compactuamos com nenhuma possibilidade de incêndio.
- Claro, claro, um robô... que boba sou eu, mas é que pareces ser tão humano! E aposto que és capaz de apagar qualquer tipo de fogo, com esses braços e essas pernas longas, hein? - inquiriu a mulher com segundas intensões, e continuou:
- Aliás, tudo em você parece ser tão forte e grande.
- Sou um robô-bombeiro, tipo MX30.6.
- Sei, sei, do tipo que apaga qualquer fogo... Huuummm, gostaria muito de ver sua mangueira, onde ela fica?
- Entre minhas pernas.
- Nossa!, que sugestivo! Então mostre-me.
- Só mostramos em presença de fogo.
- Ah, éééé...? - disse a mulher tirando um isqueiro do bolso.
E após acendê-lo, ela exclama:
 - Mas só isso!!!
- Sou de tecnologia japonesa.
- Tô vendo - disse a mulher insatisfeita. - Mas pelo menos me restam as ferramentas... Venha cá, você tem aí algo emborrachado?