domingo, 12 de fevereiro de 2023

UFO’s: ESTADOS UNIDOS DERRUBAM 3 OBJETOS NÃO-IDENTIFICADOS EM SEU TERRITÓRIO



UFO’s: ESTADOS UNIDOS DERRUBAM 3 OBJETOS NÃO-IDENTIFICADOS EM SEU TERRITÓRIO


Uma série de avistamento de objetos não-identificados, e aparentemente diferente de tudo que se tem conhecimento, tem chamado atenção do mundo ultimamente, com casos em que autoridades norte americanas afirmaram terem derrubados três destes objetos: o primeiro foi derrubado quando sobrevoava o céu do Alaska, o segundo, quando sobrevoava a fronteira entre o Canadá e os Estados, e o terceiro, derrubado neste domingo,12 de fevereiro, quando sobrevoava o estado de Michigan, nos Estados Unidos.


Acima, Destroços do Balão Chinês




Os fatos recentes aconteceram após os Estados Unidos terem derrubado um balão chinês, no dia 4 de fevereiro,  que sobrevoava território norte americano. Especialistas se perguntam se os três objetos não-identificados possuem relação com o balão chinês derrubado. Porém, o que chama atenção nos três eventos recentes, é que autoridades foram claras em afirmar que os objetos, ao contrário do primeiro evento, não eram balões, nem possuíam formas de propulsão conhecidas, o que é descartado também a possibilidade de drone.


Nas últimas horas, China e Uruguai afirmaram que objetos semelhantes também sobrevoaram seus territórios.


O mistério continua.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

SEITAS SATÂNICAS: UMA CRIAÇÃO DA LITERATURA E FILMES DE TERROR

SEITAS SATÂNICAS: UMA CRIAÇÃO DA LITERATURA E FILMES DE TERROR

Quando um cadáver é encontrado mutilado --- faltando olhos, coração, mãos, órgãos sexuais, ou outra parte com forte simbolismo religioso ---, logo surgem opiniões que trata o ocorrido como fruto de um ritual satânico, promovido por alguma seita satânica --- os casos divulgados pela imprensa são fartos, e geralmente, ao longo da investigação, descobre-se não haver nada de satânico neles.


Caso Evandro, de Guaratuba, Onde Pessoas Foram Erroneamente
Presas por Supostamente Ter Matado Criança em "Ritual Satânico".


Em geral, a hipótese diabólica é bastante explorada pela imprensa, que lucra muito com tal assunto, já que histórias relacionadas ao satanismo tendem a chamar muita atenção do público.


Leia Também: Delegado, Por Preconceito Religioso, Acusa de Assassinato Membro de Seita "Satânica".


O Primeiro Pacto Satânico 



O interesse do público por histórias satânicas não é de hoje. Na Alemanha, no séc. XVI, se criou toda uma literatura voltada para histórias de pessoas que, supostamente, estavam sob a influência do Diabo. Essas histórias tinham por base a religião protestante, e serviam para expor comportamentos condenáveis pela igreja. Assim, para mostrar que o comportamento de cobiçar a mulher do vizinho, era condenável, criava-se uma história envolvendo o pacto entre o Diabo e o homem que desejaria adquirir o poder de seduzir mulheres, em troca, ele entregaria sua alma ao Cramulhão. Porém, como era de se esperar, sempre tais histórias terminavam ruim para o personagem que se desviou dos “bons” mandamentos da igreja, e se entregou a desejos diabólicos. Assim a igreja conseguia propagar suas regras por meio de um modo bastante eficiente: o medo do Diabo.



E foi nesse período que surgiu a primeira história de um pacto com o Diabo. 


Com o tempo, as histórias de pessoas que estavam sob a influência do Diabo, foram adaptadas em um só personagem, certo Doutor Fausto, um homem sábio que teria vivido entre 1480 a 1540, na Alemanha, e que teria vendido a alma ao Diabo por meio de um pacto diabólico para obter mais conhecimento, além do que era permitido a um homem de sua época conhecer.

 


A existência de certo Doutor Fausto não possui nenhuma evidência precisa, e está tão misturada a lendas e possui tantas versões diferentes, que muitos pesquisadores afirmam que ele sequer existiu, que foi apenas um personagem inventado. Porém, é provável que algum Doutor Fausto, que se dedicava a medicina, alquimia e astrologia, tenha existido, pois era comum que, na antiguidade, pessoas com talento excepcional, fosse visto como tendo obtido seu talento por meio do Diabo.


É muito provável também que o suposto pacto com o Diabo, feito pelo Doutor Fausto, nunca tenha ocorrido, que tenha sido mera criação lendária ou tenha sido criada por algum escritor anônimo. Seja como for, tal lenda foi bastante divulgada pela literatura, com centenas de escritores escrevendo, ao longo dos séculos, sua própria versão da história, tornando-a tão popular que, certamente, houve aqueles que acabaram por acreditar tanto nela que passaram a afirmar já terem feito alguma forma de pacto com o próprio. 


O começo da grande popularidade da lenda tem um início bem conhecido, data de 1587, quando o livreiro alemão Johann Spies reuniu várias histórias sobre o Doutor Fausto em um único livro, chamado História do Doutor Johann Fausto. Livro que ajudou muito a propagar a lenda do Doutor Fausto para além da Alemanha, gerando inúmeras versões.


É evidente que a lenda do Doutor Fausto foi criada, ou pelo menos melhor elaborada por escritores que tinham a intenção de fortalecer o poder da igreja sobre a ciência, pregando por meio de sua lenda, que o homem deve buscar conhecer apenas o que é permitido a ele conhecer por meio de Deus e da religião.


As Mais Famosas Obras Envolvendo a História do Doutor Fausto: 

A Trágica História do Doutor Fausto, de 1589 - 1592, peça de teatro do escritor inglês Christopher Marlowe;

Fausto, uma Tragédia, de 1808, do alemão Goethe;

Doutor Fausto, de 1947, do alemão Thomas Mann.     


A lenda se popularizou tanto, que todos já devem ter ouvido algum boato afirmando que determinado artista fez um pacto com o tinhoso --- casos famosos sobre o violinista Niccolò Paganini e do músico de blues Robert Johnson.

 

Seitas Satânicas, uma Criação Também da Literatura de Terror?

Se o primeiro pacto com o Diabo foi uma criação da literatura, também foi ela que criou a ideia moderna de seita satânica, sendo divulgado massivamente pelo cinema por meio dos romances de terror adaptados ao formato de filme. Pois se antes, durante a idade média, já se falava dos Sabás, as reuniões de bruxas em meio a floresta para cultuar o Demônio, na verdade, tais reuniões não possuíam nada de satânico, uma vez que se tratava de pessoas que se reuniam escondidas para cultuar deuses pagãos, que não são demônios, mas que foram demonizados pela igreja e erroneamente identificados como demônios. 


E mesmo aquele que foi considerado o mais famoso satanista do passado, Aleister Crowley, não era um satanista convicto, mas, sim, alguém que estudava e praticava as mais diversas práticas religiosas, do Tantra indiano, passando pela Teosofia, aos cultos da religião egípcia e etc.




E mesmo o famoso Baphomet, a criatura com cabeça de bode, seios e pernas de bode, encontrado hoje em todo altar de indivíduos considerados “satanista” pela imprensa, foi uma criação do ocultista francês Elyphas Levi (1810 - 1875) para um de seus livros de magia, e nunca tendo sido considerado a imagem de Satã por seu criador.


Em Meio a Entidades Religiosas Brasileira,
Vê-se a Imagem do Baphomet


E o que dizer da Igreja Satânica criada, em abril de 1967, por Anton LaVey?




Seu conceito de Satã, como uma força presente na natureza, junto com sua benéfica ética satanista, está muito longe da concepção cristã de Satanás, como uma entidade em que o próprio mal se materializa e que exige sacrifícios humanos em sua honra.


Por isso pode-se dizer que nunca houve uma seita, pelo menos conhecida, que tenha cultuado, claramente, o Demônio na pura concepção cristã, sendo o culto à Satã uma criação recente, que nasceu, primeiro, por meio de livros e filmes de terror, com personagens fictícios adoradores do Demônio. 




No romance O Bebê de Rosemary, do escritor Ira Levin, publicado em 1967, e que ganhou versão para o cinema, em 1968, um jovem casal ao se mudar para um famoso e antigo prédio, em Nova York, se envolve com um simpático e aparentemente inofensivo casal de velhinhos, que são membros de uma seita satânica, que envolve o casal pretendendo fazer com que a jovem recém casada gere o filho do Demônio. O sucesso do livro deu origem a uma demanda por livros com a mesma temática, o que levou seu autor a dizer: "Me sinto culpado que O Bebê de Rosemary tenha levado ao O Exorcista e A Profecia. Toda uma geração foi exposta e crê no Diabo. Eu não acredito no Diabo. E sinto que o forte fundamentalismo que temos não seria tão forte se não tivesse tanto desses livros (...). Claro, não devolvi nenhum cheque de royalties."




O livro foi seguido por outros dois romances de terror que têm na influência do Diabo seu foco, juntos formam a mais famosa tríade de histórias de terror, são: O Exorcista, de William Peter Blatty, publicado em 1971, e A Profecia, de David Seltzer, publicado em 1976, que traz também o tema do nascimento do filho de Satã, estes dois livros também tiveram suas versões para o cinema.




A Profecia, tanto o livro quanto o filme, fizeram tanto sucesso no ano de 1976, e causaram tanto pânico no público, que milhares de Bíblias foram vendidas nos Estados Unidos naquele ano, fazendo com que o público voltasse a se interessar pelo livro sagrado, principalmente pelo livro do Apocalipse --- olha aí o medo do Diabo fazendo com que, assim como nos textos antigos sobre o Doutor Fausto, o público retomasse suas crenças religiosas. 


Estes livros são verdadeiramente herdeiros diretos das histórias sobre o Doutor Fausto e de seu pacto diabólico, que se repete em suas histórias, seja na conivência diabólica do marido de Rosemary, em O Bebê de Rosemary, seja na possessão da protagonista de O Exorcista, e também nos personagens que amparam e ajudam a criança, que é a nova encarnação do Diabo na história de A Profecia. 


Os três livros, principalmente O Bebê de Rosemary e A Profecia, criaram a ideia moderna de seita satânica, como as que eram concebidas pela igreja no passado, dedicadas exclusivamente a cultuar o Demônio, porém adaptadas aos tempos de hoje. E foi após a popularidade dos três livros que começaram a surgir grupos autênticos de adoradores do Diabo no mundo real, tomando as seitas destes livros e seus rituais como modelo.

 

Richard Ramirez Assassino Satanista


Adoradores que, na maioria das vezes, são jovens influenciados por bandas de Rock, do estilo Death Metal e Black Metal, bandas que, por sua vez, foram influenciados pelos mesmos três livros de terror citados; muitos influenciados por forte sadismo. 


Em alguns casos, devotos que chegaram realmente a cometerem assassinatos, como oferendas ao Diabo.


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A IMORTALIDADE DA ALMA E OS PENDRIVES



Muito se comenta sobre a possibilidade de uma vida após a morte, isto é, sobre a continuidade da essência humana após a morte do corpo físico. Contudo, a grande maioria das afirmações a esse respeito se baseia apenas em crenças religiosas que, para muitos, não apresenta nenhuma validade. Então resolvi demonstrar tal possibilidade, recorrendo a leis físicas que possibilitaram a criação de tecnologias como as do pendrive.


A IMORTALIDADE DA ALMA E OS PENDRIVES



Até a década de 50, a coisa mais complexa que o ser humano havia inventado tinha sido o sistema de telefonia, com suas milhares de conexões, fios, unindo milhões e milhões de pessoas em grande parte do mundo. Devido a sua complexidade, era comum cientistas usarem o modelo de telefonia para exemplificar o funcionamento do cérebro humano. Porém, hoje, a grande rede de computadores mundial, com seus bilhões e bilhões de bancos de dados, não apenas superou em milhares de vezes a complexidade do sistema de telefonia, como parece ter abarcado todo o conhecimento humano produzido até hoje. Esta nova complexidade originada com a criação dos computadores, se tornou o melhor modelo de explicação de como funciona a memória e a mente humana.


Mas como é Possível que os Modernos Computadores Possam Servir de Modelo de Explicação para o Funcionamento do Cérebro Humano? 

Uma das Salas com Computadores que
Armazenam Milhões de Informação de um Servidor de Internet

Assim como a criação da máquina fotográfica, com suas lentes, câmara escura, etc. ajudaram a entendermos melhor o funcionamento do olho humano --- podendo até mesmo ser reproduzido por meio de suas lentes as causas da miopia, do estrabismo, astigmatismo --- devido ao fato de que, as mesmas leis ópticas que fazem com que o olho humano funcione, são as mesmas que fazem a máquina de fotografia funcionar também. O mesmo pode-se dizer do computador, que funciona por meio de uma lógica semelhante a usada por nós e alimentada por pulsos elétricos, assim como o cérebro, também semelhante na forma de armazenar memória.


As Leis de Transferência de Dados já Existiam Antes dos Computadores e Pendrives, e etc.



Hoje, podemos copiar um documento através de um scanner de computador ou tirar uma foto dele por meio da câmera fotográfica de um aparelho celular, e passar para um aparelho de armazenamento de dados, como um pendrive. Estas informações, ao ser transferidas, passam de uma forma material (papel) para uma forma imaterial (digital), através de pulsos elétricos, conservando sua imagem e informações contidas nele, podendo ser reconstituídas quando decodificadas por uma máquina para que assuma novamente sua imagem (forma) original, por meio de uma impressora ou tela de computador. 


A mudança da forma material do documento para a forma imaterial (digital), feito pela moderna tecnologia, só foi possível graças às leis da natureza. E assim como as leis ópticas já existiam antes da câmera de fotografia ser inventada, ou que o olho humano fosse criado, as leis de transferência de informação já existiam quando ainda não haviam computadores, pendrives ou outro dispositivo moderno de armazenamento de dados.

 

DNA Armazena Informação dos Gens dos Pais para Criar seus Filhos

Mas não vá pensando que só por não existir instrumentos de armazenamento de dados, elas ainda não agiam, pois eram usadas das mais diferentes formas pelo cérebro humano, que captava as informações vistas pelos olhos, e as transformavam em pulsos elétricos cerebrais, transformando-as em memória, e armazenando-as em partes específicas do cérebro. E muito antes de existir o cérebro humano, e mesmo o cérebro dos animais, elas já agiam no mecanismo de DNA, que nada mais é do que um suporte de armazenamento de informações biológicas, sobre um ser e sua ascendência.


A Possibilidade da Imortalidade da Alma Exemplificada pela Tecnologia de Transferência de Informação



As modernas tecnologias de transferência de informação --- wifi, bluetooth, etc. --- são exemplos práticos da existência da passagem de algo do estado material para um estado não-material, mantendo sua essência e identidade por tempo indeterminado, em um estado imaterial independente da matéria, tendo por base leis físicas de transferência de informação que sempre estiveram ativas desde a criação do mundo.


Essas leis poderiam, sim --- já que agem independente do ser humano --- possibilitar que a essência e identidade de um ser material, como a de um ser humano --- tal qual a de um documento, música, estrutura de objetos por impressoras 3D, etc. --- pudesse se tornar independente de sua estrutura material e ser transferida para outro ambiente e permanecer, por tempo indeterminado, independente de uma base material (corpo), e existir mesmo após a destruição do corpo. (Possibilitaria também a existência da reencarnação).

  

Hoje, o Passado e o Futuro

Até pouco tempo, não possuíamos nenhum conhecimento sobre a possibilidade de transferência de informação, do material por meio do imaterial, pois ainda não tínhamos criado a informática e seus mecanismos, nem sabíamos sequer que elas existiam; e nem conhecíamos ainda sobre o funcionamento do mais complexo dispositivo de transmissão de informação biológico conhecido, o DNA. 


É possível que no futuro possamos conhecer mais sobre as leis naturais e mecanismos de transferência de dados, e se torne cada vez mais provável a ideia de que a essência e identidade de um ser humano possa sobreviver à morte de seu corpo físico.


Hoje, usando informações e exemplos vindos das novas descobertas tecnológicas, dizer que é possível que a essência humana sobreviva à morte do corpo, não mais  pode ser visto como um total absurdo, mesmo pelo mais cético.


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O GÓTICO TROPICAL DE GÓTICO MEXICANO



O GÓTICO TROPICAL DE GÓTICO MEXICANO

Nascida em 1764, com o Castelo de Otranto, de Horace Walpole, a Literatura Gótica sempre se nutriu da atmosfera sombria das paisagens inglesas --- tendo em sua primeira fase os sombrios castelos medievais como ambientação, e em finais do século XIX, as sombrias mansões vitorianas e as lúgubres e enevoadas ruas de Londres como cenários, que tornaram-se parte essencial desta literatura.


Mesmo com a propagação da Literatura Gótica para outros países europeus, ou até mesmo para os Estados Unidos, a mudança de ambientação não foi tão grande, já que mantinha-se o mesmo clima frio, com cultura e arquiteturas semelhantes. O que gera a inevitável pergunta: Seria possível fazer Literatura Gótica ambientada em um país não-europeu e com clima tropical?


Silvia Moreno-Garcia

À essa pergunta a escritora mexicana Silvia Moreno-Garcia respondeu com seu romance Gótico Mexicano, de 2020, ambientado na Cidade do México. 


Gótico Mexicano (Sinopse)

Noemi Tabuada é uma jovem mexicana de uma rica família que divide a vida entre festas, namoros, e seu desejo de cursar o mestrado de antropologia --- algo que, em plena década de 1950, não é nada comum para uma mulher. Seu pai recebe uma carta confusa de sua prima Catalina, que afirma coisas estranhas sobre a família do marido, além de dizer que está sendo envenenada e diz ver fantasmas atravessarem as paredes da casa. O pai sugere que Noemi viaje em busca da prima e verifique seu estado de saúde.




Noemi ao chegar, se depara com uma mansão vitoriana decadente com grandes manchas de mofo, no alto de uma colina, próxima a um antigo cemitério tomado por cogumelos. Verifica também o estranho comportamento dos parentes do marido da prima, uma família inglesa, com regras rígidas de silêncio, que delimita seu pouco contato com a prima, e que, passados tantos anos no México, reluta em absorver costumes mexicanos, ou aprender a língua nativa, mas conserva todos os costumes ingleses, chegando ao ponto de terem aterrado o terreno da casa com areia inglesa trazida de barco para sua nova morada.


Com o passar do tempo Noemi percebe algo muito mais estranho naquela casa do que suas paredes tomadas pelo mofo, passando a se sentir tão desorientada quanto a prima, e descobre que um terrível segredo envolve aquela casa e seus membros, e luta para fugir com sua prima.


O Gótico Tropical



O romance de Silvia Moreno-Garcia não traz apenas a novidade de situar uma história gótica em terras tropicais, embora a autora escolha a forma mais fácil, transpondo os mesmos clichês das histórias góticas inglesas para o México --- a casa decadente vitoriana cercada por um antigo cemitério, no topo frio de uma colina, tomada por denso nevoeiro, que a autora afirma existir realmente em lugares montanhosos do México.




Mas a grande novidade de Gótico Mexicano é desfazer estereótipos que concebem personagens de países do terceiro mundo, apenas como serviçais e ignorantes, pois Noemi pertence a uma rica família mexicana, sendo uma mulher inteligente e bastante informada, que fala de igual com os esnobes membros da família inglesa do marido de sua prima, cujo patriarca é um arrogante racista que durante sua conversa com Noemi sempre põe em relevo a superioridade dos ingleses sobre os mexicanos, mesmo tendo em sua frente a bela representante de uma das principais etnia indígena que formaram a população mexicana.



É interessante ver em uma mesma história de terror, a autora desconstruir não apenas a ideia de que uma história gótica só pode ser concebida em um país europeu, de clima frio ou de cultura semelhante à europeia, como também expor críticas à ideia de que culturas não-europeias de países do terceiro mundo são inferiores àquelas, superioridade que fica claro quando a família inglesa, Doyle, se recusa a absorver qualquer manifestação cultural, incluindo a língua, do México, apesar de ter ido para lá há décadas com o intuito de explorar as minas de pratas da região. Ou seja, apenas de explorar sem dar nada em troca, um componente tão presente na política de colonização propagada pelo Império Britânico sobre suas antigas colônias, embora o México não tenha sido colônia britânica, mas que serviu muito bem o recado.




A incorporação de elementos da história e da cultura mexicana a um romance gótico, também foi fabuloso, saindo da prática de valorizar apenas a cultura de países ricos, e dando aos leitores mexicanos o prazer de verem sua cultura retratada em uma divertida história escrita ao modo inglês, e aos estrangeiros, a oportunidade de conhecer um pouco da cultura de um país que tem em sua cultura uma singular forma de culto aos mortos, em que festeja-se o dia destes com festas noturnas em cemitério.


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

“VISAGENS E ASSOMBRAÇÕES DE BELÉM” E A ENCANTARIA DO MARAJÓ


 

“VISAGENS E ASSOMBRAÇÕES DE BELÉM” E A ENCANTARIA DO MARAJÓ

No popular livro Visagens e Assombrações de Belém, de Walcyr Monteiro, além de histórias sobre visagens e assombrações, já referidos no título, há uma série de contos focados nas lendas amazônicas e, seguramente, são os mais originais do livro, por estarem ligados diretamente à cultura amazônica. 


E entre estes contos um se destaca por contar uma história muito diferente das demais, que se assemelha a um conto de fantasia, “O Estranho Cliente do Dr. X”. Mas seria ele realmente um conto de fantasia? E o que o faz ser diferente dos demais contos do livro?



O Estranho Cliente do Dr. X 

Um médico tem seus serviços requisitados, de madrugada, por um misterioso cliente que procura por ajuda, mas diz que o médico terá que ser vendado até o local. Por meio de seus outros sentidos, o médico percebe que havia sido levado até ao cais. Ao descer uma escada e sentir seus pés molharem, deduz que está indo para um navio. “O médico sentiu assim como se deslizasse no espaço. Não se pode falar em voar… Apenas que o espaço sentido pelo médico era líquido”. Ao passar por uma porta, retiraram a venda de seus olhos, “o Dr, deparou-se com um luxuosíssimo quarto, muito bem decorado, apenas em estilo completamente diferente de tudo o que conhecia”.


Após ter feito o quê tinha sido solicitado, deu uma última olhada no quarto, antes de ser novamente vendado, Viu que o teto do local era alto e muito bem trabalhado assim como as paredes do lugar; percebeu também que a luz vinha de candelabros a vela. O Dr. X é novamente vendado. Ao subir a escada de volta sente seu corpo ficar totalmente seco. 


Após ser levado de volta à sua casa, é recompensado com uma bolsa de couro, com moedas de ouro, dobrões espanhóis do século XVII. Ao ver as moedas ele se recorda do quarto e de duas pessoas vestidas ao modo “bem antigo”, presentes no quarto.


“Ao acordar, muito tarde, na manhã seguinte, o Dr. X achou muito engraçado o sonho que tivera. Para ele, tudo não passara de um sonho.”


“Porém, quando levantou-se, seus olhos pararam sobre a mesinha da cabeceira: lá estava a sacola de couro, da qual saiam alguns dobrões de ouro, como a mostrar-lhe que sua estranha aventura, longe de sonho, tinha sido insofismável realidade…”


Segundo o “informante” do Walcyr Monteiro, a história “O Estranho Cliente do Dr. X”, está relacionada com o conto “As Ilhas Encantadas do Marajó” e “O Pai-de-Santo do Jurunas”.

 


As Ilhas Encantadas do Marajó

Neste conto o “informante” de Walcyr relata a viagem que fez ao arquipélago de Marajó e das histórias misteriosas contadas sobre duas ilhas da região, que nativos dizem não ser habitada por pessoas mas pelos encantados, pelas entidades do fundo” do rio. E, ao ouvir histórias de pessoas que foram para as ilhas e nunca mais voltaram, o informante se sente mais curioso ainda a ir até lá, e é a todo custo desencorajado. “Olhe, moço, o senhor é da cidade e não acredita nessas coisas. Mas a verdade é que estas ilhas são encantadas”. E também: “E que era bom que não insistisse muito, pois, só pelo fato de estar demonstrando tal desejo, poderia ser “encantado” pelos habitantes do fundo”. Pronto, durante a noite, ele  é assombrado por sonhos. “Tive uma noite inquieta, sonhando inclusive com seres estranhos, vestidos de maneira esquisita. Acreditei que isto tudo era influência do aspecto do lugar”.


Ainda segundo o mesmo “informante”, o caso contado no conto “O Pai-de-Santo” do Jurunas permitiu relacionar de vez “O Estranho Cliente do Dr. X” com a história do conto “As Ilhas Encantadas do Marajó”.




“O Pai-de-Santo” do Jurunas

Segundo Walcyr Monteiro, em seu livro, dois anos após a visita na ilha de Marajó, o informante tem sua curiosidade despertada, por um amigo, a respeito de um pai-de-santo que recebe uma entidade que consegue adivinhar o passado e o futuro de alguém.


Ao chegar na casa do sujeito em dia impróprio, o informante ao lamentar não poder conhecer a entidade tal (ele pronuncia o nome), imediatamente a faz incorporar no pai-de-santo.


Ao dialogar com a entidade, e a lhe perguntar de onde ela é. A entidade lhe diz que é gente do “fundo”. E questionada por ele “Do fundo da onde?”. A entidade responde “Ser do fundo… Da linha dos encantados ou linha da encantaria… Eu moro perto do Marajó… Tu já ouviu falar da Croa Grande e da Croinha?” O informante provoca: “Mas… se lá não tem nada. É só vegetação”. E a entidade responde: “Tu é que pensa, meu ‘fio’. Não tem nada na superfície, mas tem no ‘fundo’. Lá é meu reino encantado; é lá que eu moro.”


Quem Seria o “Povo do Fundo”?

São os Encantados, entidades pertencentes a Pajelança, ou a Encantaria, que tem nas ilhas de Marajó e Mayandeua (ilha que engloba Algodoal) lugares sagrados, onde antigos pajés iam para adquirir o dom da clarividência e da cura, e ter contato com os caruanas, entidades protetoras que habitam o mundo das águas. 


A crença de que rios e igarapés possuem entidades protetoras --- Mãe D’água, Iara, etc.---, fazendo com que os banhos em igarapés tenham horas certas e desaconselháveis ao banho. Tais crenças produziam nos mais novos certo respeito pela natureza.


A Pajelança acredita em seres encantados, das águas e das matas, que manteriam contato com nosso mundo por meio de portais mágicos --- o Lago da Princesa, em Algodoal, seria um deles, que serveria de portal para a Princesa de Mayandeua, uma entidade de cabelos tão dourado quanto o sol, e de pele tão branca quanto as areias da praia que, segundo a crença, faria crianças ainda não nascidas chorarem no ventre de suas mães, demonstrando sua predestinação a terem o dom da cura e da pajelança. 


Para a Encantaria, diferente de outras religiões brasileiras, suas entidades não seriam espíritos de pessoas já falecidas, mas teriam sido pessoas que se tornaram encantadas, adquirido poderes e se transformado em "encantados''. É nesse sentido que devem ser lido os contos “O Estranho Cliente do Dr. X”, que não seria uma história de fantasia mas a manifestação de uma forma de religiosidade amazônica.

 



Sendo assim, o local para onde o Dr. X foi levado, seria um corsário espanhol, do século XVII, que se tornou encantado, junto com sua gente, e que teria atravessado o tempo e o espaço por meio de um portal, semelhante à outras entidades encantadas --- às Três Princesas Turcas e a crença maranhense ligada ao culto do Rei Dom Sebastião.


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