quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ERA UM DIA NORMAL (de Haroldo Brandão)


Lord Byron
Quem precisa dormir? ERA UM DIA NORMAL e nada indicava nenhuma anormalidade: cães ladravam e a caravana continuava passando. Na janela Januária há muito  não está mais, vivemos tempos droganáuticos, anfetaminados, hipodérmicos. Uma pressa  não sei pra quê. O amor e a morte andam mais próximos que no tempo de Lord Byron A realidade é assim: te dá um gostinho do mel e do fel mas, como ia dizendo era um dia normal: a política no Brasil é uma perda de tempo, o Flamengo não é um time mas uma religião, bolsões de miséria ao lado de ícones do consumo e poder do capital, nada de novo. De novo apenas a maravilha que é jogar com as palavras, ao vento, ao léu, no papel. Poucas certezas, muita enganação, muito ópio em forma de religião alienante, o que fazer? Para o circo eu nunca fui bom palhaço, no máximo mais um  ator dependendo do cenário, na hora do pão primeiro o meu João mas, e o tempo? Realidade independente de crenças (quinze minutos já se passaram desde o início deste texto), ateus, agnósticos, céticos, ninguém duvida do tempo. A verdade é algo que eu controlo, o controle passa pela minha mente que é quase bipolar. Não me venha com discurso de normalidade. A vida é o que acontece enquanto fazemos outras coisas (já dizia Lennon) mais uma sexta, está aí, depois virão as cabeças ressacadas das segundas. Aproveite o máximo, aproveite o dia, o cérebro é um poder e aliado ao coração, ficamos imbatíveis. Pouca gente entendeu o real significado da frase do cineasta alemão Fassbinder: “poso dormir quando estiver morto”.

O ESTUPRADOR DE ESTÁTUAS (de Bosco Silva)


Aconteceu numa pequena cidade, com suas praças, e com acalma que lhes era tão peculiar naqueles dias. Mas que, numa manhã, foi escandalosamente quebrada por suas estátuas de figuras femininas que ostentavam sangue, como que escorressem de suas vaginas.
A cidade ficou apavorada, com alguns a gritar que era o fim do mundo. Achavam que era um milagre, um sinal agourento, ou coisa de outro mundo.
O fato se repetiu muitas vezes. Até que descobriram que o tal sangue não era humano, mas bovino.
A cidade voltou a ter certa calma. Calma que imediatamente foi novamente quebrada, quando exames revelaram, que junto com o sangue, havia esperma humano.
Todos se perguntavam: quem estaria “fudendo” as pobres estátuas; que maníaco era aquele, capaz de excitar-se com uma fria figura, de metal, como o bronze, que muitos nem achavam que fossem assim tão bonitas, pois seus modelos eram imagens de mulheres bem antigas.
Alguns diziam que era um modelo francês, como aquelas estátuas, sem bunda, que representam a república.
Os mais patriotas diziam que era coisa de comunista, que estavam literalmente fudendo com a nossa república. Outros, diziam que era coisa de gringo, que tinham um gosto maldito por mulheres sem bunda. Os bêbados protestavam: que botassem mais bunda nas estátuas e abundância na república. E os religiosos, que as estátuas eram imorais, pecaminosas e demoníacas.
As coisas ainda tornaram-se pior, quando as estátuas dos cemitérios foram atacadas: anjos, querubins, virgens-marias, etc., todas sangravam amanhecidas.
A população alarmada fez campanha em tais sítios, sob chuvas, nevoeiros e neblinas, todos esperavam o maníaco.
O tempo passou, e nada foi visto, exceto alguns bêbados que urinavam de modo inofensivos.
Porém, uma noite, tinha eu vindo de uma orgia, bêbado extremamente embriagado, adormeci em um banco de praça, sob a luz da lua. Ao acordar, ainda sonolento, deparei-me com uma estranha figura: um homem com uma porção de carne nas mãos. Com sua mão esquerda, forrava o espaço entre as pernas das estátuas com a tal porção, e com a outra, apoiava seu membro, que se masturbava freneticamente ao contato com a carne. Olhei de perto e disse-lhe: que porra é essa! Ao olhar-me, percebi quem era o maníaco.
Era Seu Ozório, um cidadão fora de qualquer suspeita, respeitado e freqüentador assíduo de igrejas, que se entregava intensamente a tal ato desvairado.

- Martinho, poeta e libertino, acaso este amor desvairado por estátuas não se chama Agalmatofilia? – inqueriu Petrúquio.
- Sim. E parece ser uma das mais intensas formas de parafilias.
- Parafilia: “tendência a buscar habitualmente satisfação sexual em práticas diferentes das preferências da maioria” – completou Márcio.
- E quem diria que alguém, fora de qualquer suspeita, respeitado e freqüentador assíduo de igrejas, fosse um maníaco depravado! – disse-lhes, Martinho.
- Eu – respondeu Petrúquio. Conheço bem o tipo. Esses tipos se escondem atrás de uma capa de normalidade. São obcecados por esta idéia tola de pecado, e quanto mais pecam mais se sentem excitados por tal ato. Pois, como é sabido, o que é proibido é sempre mais procurado.
 E o que é o pecado senão uma idéia ofensiva que tolhe ou proíbe o que é natural no homem, como a sexualidade? Causando ódio a nossa própria natureza, ou estimulando, de modo distorcido, nossos instintos vitais de vida. Criando, por conseqüência, uma moral que ao reprimir os instintos vitais do homem acaba por distorcê-los e intensificá-los. Originando assim monstros de uma cultura doentia e degenerada ou motivando o desejo de enfrentá-la, de quebrar-lhe as regras. Estimulando assim o prazer da rebeldia em transgredir suas regras. Dando origem, deste modo, a atos como os de vandalismo ou comportamentos sexuais compulsivos ou autodestrutivos.
- Talvez, o próprio Ozório se sentisse uma estátua viva, vivendo em uma sociedade que cultiva a exterioridade, a superficialidade, o silêncio petrificado de nossos instintos, com o frio de nossas funções biológicas. Vivendo sem emoção e paixões íntimas. Concordando sempre com o que acham que é o certo, o padrão ou a norma.
E embora seu comportamento cause tanto susto, discriminação e estranheza, esquecemos o quanto somos também agalmatofílicos, não de estátuas de pedra ou de gesso, mas de estátuas vivas. Obtemos delas outros prazeres, como as de suas frias companhias – retorquiu Martinho.
- Como as de suas esposas, no frio altar de seus leitos, vivendo como verdadeiras estátuas vivas, sem direito a prazeres. Não admiro que as de bronze tenham-lhe parecido muito mais excitantes – completou Márcio.     
Porém, eu, poeta por maldição, e libertino de coração e alma, não creio que uma tendência natural possa ser chamada de pecado. É a religião que nos impõe esta regra, nos padronizando e subvertendo nossa natureza, nossos instintos básicos de vida. Criando um ser utópico, e negando nossa própria natureza. Pois, o que é a normalidade, se não um falso acordo para comandar a maioria? – disse-lhes Petrúquio.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

O KRAKEN DESPEDAÇADO (de Ageu Pazoud)


O kraken é poderoso
o kraken se quebra
quebra o barramento
em gesto cínico e oneroso
nada vem
nada se impõem
o poderoso kraken
determina,
apenas determina...

libertaram as legiões.
Clamam: soltem também os ladrões!
Soltem o Barrabás de nossas vidas!
demônios assombram as ruas.
gárgulas dão risadas.
o poderoso kraken comanda!
Comanda legiões de ladrões
e os leões uma vez domados,
urrafm... e gargalhando...e
gargalhando de mim!
 - o kraken comanda.

vão reter o sangue.
levarão entre os dentes
os leões que trocam entre si
as gargalhadas,
levarão entre os dentes...
o comando. com o comando
irão todos sucumbir.
subcumbirão
ao comando do kraken
salvador desperdiçado,
salvador despedaçado.
o castigo se aproxima,
tenebroso entre os mortais.
o kraken se quebra,
feito um mortal.
seu olhar ameaçador,
se desfaz em pedaços.
o castigo soergue a lascívia,
o rancor, e
nada mais resta...
pedras,
fragmentos,
em fragmentando o
desfragmentador de solidão.
a tudo se comanda.
o comando do kraken
que apenas se quebra
se despedaça em rancor
em lascívia,
soerguidos pelo castigo.
maldito, maldito kraken.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NAUFRAGARIA (de Ageu Pazoud)

by Georges Pichard

se nomes pudesses dar a ti
dirias o que de si?
afogado nos sentidos possíveis de ti
carregarias a todos eles um pouco de si?
assoberbado pela delícia de falar de si,
náufragarias seduzido pelos sentidos diante de ti?
empalado pela palavra que ousou dar sentido a si
já não via mais sentido ficar diante de ti...
tomou-se a si mesmo...prostou-se e disse:
- que mais posso fazer eu diante de Ti? Devorem-nos os sentidos dos nomes...
- que mais outro nome posso dar a si?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

LOS 3 BACANAS (de Haroldo Brandão)


Era uma vez há muito tempo, nos anos (favor não confundir) conhecidos como os anos 70, aqueles três, um que descendia de paraibano, outro que descendia de portugueses e o outro que tinha em suas veias sangue índio e português e nariz adunco, andavam pelas ruas da Cidade Velha com uma nuvem de fumaça sobre suas cabeças, era fácil identificá-los: era só seguir aquele fumacê aliás, na casa do que era cabeludo ao sair pela Rua Carlos Gomes o trem já fumegava, alcançando a Tamandaré. Quando adentravam o Colégio do Carmo tudo era só sorriso. Nas aulas de matemática do professor calango balado, ao ritmo de logaritmos, quase se cagavam de tanto dar risada, a sala olhava penalizada daqueles três idiotas. Na saída do Colégio a volta na loja de roupas de segunda mão na Tv. Leão XIII, vindas dos EUA era irresistível, os últimos lançamentos: casacos de inverno, casacos do exército (USArmy), jeans rasgados, botas de camurça com solado de pneu e outras peças originais para serem estreadas no cine-clube durante o audiovisual de Jesus Cristo Superstar. Como outros de nossa geração queríamos tudo ao mesmo tempo. A ditadura para os três foi uma tremenda risada em suas viagens levemente alucinadas ao som do vinil usado da Joaquim Távora. Já quase adultos embarcaram em uma heróica aventura rumo a Santarém, abastecidos com uma quarta do melhor chocolate dos trópicos providenciados por Dom Amaral ao som de Gênesis, Led Zeppelin, Queen e Lou Reed, dançaram tanto que por pouco não dançaram. Juntos estavam ainda na universidade oitentista e lá descobriram que as melhores matérias a estudar eram Beira do Rio I e II aliada a literatura beat.. Casaram, descasaram, moraram que nem hippies em comunidades alegres e tristes nos trópicos. Sob o signo de baco continuaram fumando seus cachimbos e cigarros , tudo muito ingênuo e descompromissado, voltaram a casar e então deu-se a diáspora, os paraísos artificiais tiveram que ser abandonados pela concretude da vida real, percalços: dívidas, filhos, contas, filhos, trabalho, trabalho, muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. O século XXI trouxe os novos rebentos e um reencontro quase impossível pois a trip egóica era forte demais: todos haviam enlouquecido um pouco, cada um a seu modo, novas companhias, atividades, novos desafios, novas subversões. Suas lindas a tiracolo são testemunhas das três frases slogans usadas compulsivamente por uns e outro: “eu posso te arrasar..”, “no, no, no..”, “eu amo essa mulher”. Lá vão os três bacanas: um jornalista, um psicólogo e um professor , da aldeia campista à Pedreira passando pelo viaduto, na longa estrada da vida. Uma fotografia congelou no tempo estas figuras típicas do seu tempo.

FEIO, SUJO E IMORAL (de Bosco Silva)

by Joel-Peter Witkin

JÁ ESTAVA ENOJADO DOS ELOGIOS à minha inteligência. Principalmente das mulheres, que viam em mim apenas isso, nada mais do que isso. Gostaria que vissem em mim outras qualidades mais atraentes, pois quando queriam transar recorriam a homens com outras qualidades. Talvez o atributo de ter um pênis grande, valesse mais que todos estes elogios, para elas. E para piorar as coisas, eu já estava à quase um ano sem transar, a não ser com prostitutas. Elas pareciam ser muito mais sinceras e baratas que o resto das mulheres, pelo menos das que conheci.

Todos os meus relacionamentos acabaram em ódio, justamente com aquelas que diziam terem unicamente interesse em mim. Pelo menos com prostitutas sabia o que esperar!

O que mais me enojava nos elogios à minha inteligência era a cumplicidade que havia em tal elogio, pois para que alguém fosse tido como inteligente, era como se fosse preciso que outro, tanto ou mais inteligente, reconhecesse isso. Havia algo como “olha, eu também sou inteligente, e muito mais que você, seu babaca!”. Isso me deprimia, pois aqui estava eu, um sujeito “inteligente”, vivendo uma vida medíocre. Sentia-me como um projeto que não deu certo, ou algo parecido. O elogio era como um modo de consolar alguém, ou de demonstrar o desperdício que alguém tinha sido, e esse alguém era eu, vivendo uma vida enfadonha, comandada por pessoas medíocres.

Na história da humanidade muitos homens inteligentes morreram sem sentir a glória disso, e em muitos casos como conseqüência de sua própria inteligência. Os exemplos são vastos, são muitíssimos, mesmo.

Por outro lado, eu não podia negar que minha inteligência me servia de fato como um consolo. Pois, criava estórias, escrevia contos, como um meio de fugir da minha rotina, criava um mundo em que as coisas para mim davam certo, um mundo maravilhoso sem dor ou monotonia. Mas do que valia? Nada mais do que isso! Pois, mesmo que fossem bons, era quase impossível alguém viver de literatura. Sim, de fato, era preciso ter a esperteza de um mago para mudar isso!

Se ao menos tivesse dinheiro... É como dizem, é melhor sentir-se infeliz em Paris, de barriga cheia, que infeliz, com fome, em uma cidade pobre, na sarjeta. A esperteza parecia-me mais valiosa que a inteligência. Isso mesmo, a esperteza que, nesse sentido, a definiria como a habilidade de tirar proveito das situações, ou dos outros. Mas, como poderia eu, tão rígido com meus princípios morais, exercer tal habilidade. E o pior é que eu sabia que tudo se devia a um engano, ou pior ainda, a uma mentira. As coisas que se passaram à mais de dois mil anos atrás ainda faziam-se valer!

Sou ateu, e mesmo assim, mantenho valores cristãos, o que é um absurdo! Sou prisioneiro de regras e costumes que me foram passados de modo impensado. Assim como minha linguagem, herdada de meus pais, meus avós...

* * *

Sim! Estava firmemente decidido a mudar tudo isso. E para tanto, precisava mudar meu modo de agir, meus valores.

Todos nós temos um ponto fraco! E tudo aquilo em que demonstramos excessivo interesse, torna-se um ponto fraco. Um modo em que podemos ser dominados. Assim, bastava apenas descobrir a grande vontade de alguém para dominá-lo. Isto fazia jus à minha inteligência. Porém, havia meus valores... Precisava urgentemente adaptá-los a nova situação. E este era meu ponto fraco.

Sentia-me como um tigre amordaçado e preso em uma jaula denominada de “bons costumes”. Sentia a necessidade irresistível de soltar o tigre que existia em mim. Já não sabia se era capaz de ser mau. E o que valia fazer o bem, sem saber que este é melhor que o mal? Era o mesmo que ser pacífico por simples covardia, e não pelo próprio valor da paz.

* * *

Enquanto mergulhava em meu devaneio, um pequeno cão cruzava a rua, agora, deserta. Estava ali, pensei, minha grande chance de impor meus novos valores, e, deste modo, testá-los.

Seria capaz?

Pensei em como amava os cães, embora não tivesse tido nenhum em minha vida. Porém, agora não havia como me apegar a algo, ou a alguém, devia apenas me apegar à minha nova idéia. Então, acelerei meu carro em direção ao cão... esmagando-o.

Parei o carro e contemplei pelo retrovisor minha grande obra. Alegre pelo feito, pus-me a gargalhar e gritar de alegria, pois tinha vencido um obstáculo: meu amor por algo que jamais tinha experimentado. E, como recompensa, decidi comemorar em um bar.

* * *

O bar era um daqueles lugares, onde pessoas decadentes se encontravam, ansiosas para esquecerem a banalidade de suas vidas, em um copo de bebida.

Acima do balcão um cartaz dizia: SE VOCÊ BEBE PRA ESQUECER, ENTÃO, PAGUE ANTES.

Percebi, então, ainda mais, a banalidade de suas vidas. Tudo que, apenas, queriam, era sobreviver, sempre movidos pela inconsciência de seus hábitos. Pareciam com autômatos, programados para sempre obedecerem às mesmas regras. Não possuíam consciências de suas vidas, como se estas não lhes pertencessem. Faziam as mesmas coisas que seus tataravôs: preferiam a segurança à liberdade! E eu sabia o porquê! Notara isso, em minhas ex-mulheres.  Estas tinham preferido a segurança e o conforto da rotina do lar, com homens que as espancavam, em troca da liberdade e da descontração que eu lhes oferecia.

A liberdade era demasiadamente forte para mentes tão condicionadas. Pois, ser livre implicava em se aventurar, em abraçar novas idéias, sem nenhuma segurança ou experiência, abraçar o novo, o extremamente novo. Era desbravar um mundo cheio de possibilidades, sem nenhuma segurança prévia, ou recompensa. Era um ato heróico, corajoso. Um verdadeiro pulo no escuro! E isto era demais para suas mentes.

Sim, pode-se matar tanto um homem com a ausência de alimento, quanto com a ausência da fome. E aquelas almas estavam todas mortas. Nenhuma vontade parecia nutrir aquelas pobres almas!

Naquele momento, nada mais me chamava a atenção, exceto uma bela mulher que acabara de ver. Bela, apesar de suas misérias! Talvez fosse uma “dama da noite”, uma prostituta que perdera a hora, mergulhada em seu copo de cerveja.

Sentia nojo de como a sociedade tratava aqueles seres: os usava e depois lhes descartavam. Não reconheciam o grande bem que tais seres faziam. Quantos estupros não teriam evitado em sociedade, das filhas comportadas de seus grandes cidadãos! Embora reconhecesse, por outro lado, que trabalhavam com aquilo que não teria preço.

Sim, era um mal necessário!

Um som de copo caindo quebra a monotonia do lugar, acompanhado de um esporro dado ao garçom, feito pelo dono do bar.

O garçom, um senhor de sessenta e poucos anos, reage de modo tímido, debatido pelo peso da idade. A humilhação continua, até que eu me levanto em direção ao balcão.

Saco uma arma, aponto-a em direção à cabeça daquele que proferia tal insulto. Puxo sua cabeça pelos cabelos, batendo-a repetidas vezes sobre o balcão, comprimindo-a contra o mesmo, dizendo repetidas vezes:

- Veja, este homem não é um robô, não é um autômato.

Os fregueses, atônitos, acompanhavam a cena.

O homem, cuspindo sangue, com a cabeça sobre o balcão, proferia incansavelmente:

- Leve tudo que quiser; o dinheiro está sob o caixa.

- Eu não quero nada, exceto o que nos pertence, nossa liberdade.

Retirei dinheiro suficiente do bolso, e disse-lhe:

- Toma, fique com o troco, seu bastardo, e botei o dinheiro em sua boca.

* * *

Ao sair do balcão, senti que meus valores, ainda, não mudara totalmente. Seria capaz de matar aquele homem? Teria liberdade suficiente para isso? Ou ainda era um refém de meus costumes, de meus valores impensados? Sentia-me como 25 anos atrás, quando acompanhei um grupo de garotos de minha rua durante o estupro de uma garota cega e muda. A experiência tinha deixado marcas profundas, em mim. E por ser o menor da turma, fui obrigado a participar dele, e me calar durante os anos seguintes. E por isso me dedicara à leitura e ao ato de escrever.

O que mais gostava no ato de escrever era a imensa liberdade criadora que sentia. Sentia-me tão livre e independente quanto um deus. Queria levar a mesma idéia para a vida. Queria comandá-la e não ser apenas um personagem sem liberdade preso ao seu autor, ou ao seu algoz.

Porém, o mesmo pensamento continuava martelando em minha cabeça: seria capaz de matar um homem? Teria vontade suficiente para isso? Seria capaz de vencer tudo que me fora passado de modo tão impensado?

Mal acabara de completar meu pensamento, quando a situação se fez presente:

O dono do bar seguia-me, de arma em punho, disparando em minha direção. Não havia nenhuma possibilidade de diálogo, muito menos tentativa de fuga, já que me encontrava em um beco, aparentemente, sem saída.

Os tiros zuniam em meus ouvidos. Foi quando comecei a responder...

Contornei a pilha de caixas de madeiras que existiam ao lado do depósito de bebidas. E consegui contorná-lo, ficando bem atrás deste. Chamei-o com um assobio. O qual atendeu prontamente, com a arma em punho, disparando contra mim. Em seguida, disparei em sua direção... estourando seus miolos. O sangue se espalhou por um raio de três metros, acompanhado de pequenos pedaços de cérebro. E, imediatamente, pus-me em fuga, em direção ao meu carro.

Pisei no acelerador o mais que pude, queria estar o mais rápido possível longe daquele lugar...

* * *

Eu era agora um homem procurado, um fora da lei, alguém à margem das leis da sociedade, um monstro... Dane-se! Sei que muitos me cumprimentariam: parabéns pelo seu primeiro assassinato! E diriam ao pé do meu ouvido: não tenha remorso, aquele pulha não valia nada, menos um a povoar o mundo e respirar nosso ar!

Minha vida se dividia agora em antes e depois do assassinato. Tinha atravessado a linha imaginária que separava o bem do mal. E como tal linha era tênue! Como era fácil, tão fácil, transpô-la! Qualquer um podia tropeçá-la, e tombar para o outro lado. 

À noite, não consegui dormir. Pensava incessantemente na cena. Naquele cérebro explodindo, naquela chuva de sangue. Seu rosto não saia da minha mente. Ao fechar os olhos a cena se repetia cada vez mais intensa. Pensava em como era ser um assassino, em como era ter o poder nas mãos. Lembrei-me então de uma velha anedota: quando um sujeito foi perguntado por quantos homens teria matado, este respondeu: - eu jamais matei alguém, eu só mando a bala, quem mata é Deus.

É! Esta era uma boa desculpa. Talvez pudesse inventar uma tão boa quanto essa. O problema era o envolvimento: cada rosto não é apenas um rosto, ele possui uma história. Alguém sentiria sua falta, não apenas seus credores. Jamais há algo que em si seja um mal absoluto, nem mesmo aquele pulha. Sim, alguém sentiria sua falta, nem que fossem as moscas.

Aquela foi a noite mais longa de minha vida. Foi como se seu fantasma me assombrasse a cada minuto, a cada fechar de olhos.

Ao amanhecer o dia, voltei à cena do crime, não pude evitar. Parei o carro a vários metros. O medo de ser reconhecido não foi maior do que a minha vontade.

Ao redor, as pessoas se aglomeravam curiosas para saberem do ocorrido, e ao mesmo tempo alegres, por quebrarem suas rotinas. Era um verdadeiro acontecimento, um grande acontecimento em suas vidas, mesmo que o corpo tenha sido removido.

Ao perceber olhos sobre mim, debandei em disparada...  


* * *

Eu não podia negar que as últimas horas tinham mudado minha vida, que meus últimos atos me atormentavam. Que a monotonia tinha dado lugar à inquietação.

Ao passar ao lado de um carro de polícia, pelo retrovisor uma imagem me chamou a atenção: o velho garçom, ao lado da viatura, apontava em minha direção.

Imediatamente passei a ser seguido. Tinha dado início à minha fuga.

Entre as ruas estreitas, desviava-me entre carros e becos. A velocidade parecia nunca ser o bastante. O vento agora zunia em meus ouvidos. Foi quando algo inesperado aconteceu: um cão cruzou novamente o meu caminho.

Era como se tivessem me dado uma nova chance! Aquilo agora me era extremamente precioso. Foi quando desviei de minha direção, chocando-me violentamente a um poste...

Por algum momento minha mente se apagou... E logo após pude, então, perceber, que meus valores, eram parte de minha personalidade, e que nada poderia mudar isso, nem mesmo eu. Eram minha essência.

E enquanto pensava nisso, meu rosto era lambido pelo cão.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ERA TARDE (de Haroldo Brandão)

by Brassaï

Era tarde. Muito tarde, nós tínhamos perdido o contato nas Docas e só nos restava a Rua dos Tamoios o que sempre significava aumentar o risco. Mundinho deveria nos esperar no bar ao lado de sua casa. A fissura só aumentava, já nervosos iniciamos uma discussão, a grana era boa, Mundinho é que não era nada bom: sabíamos que a capação estava garantida. Espera, jogamos uma partida de bilhar, tomamos a primeira cerveja, eu já ansiava pelo wisk, olhando a lua linda pensava nesta quinta depois de meia noite, quantos já não estão nos embalos, nas baladas, em qualquer porra, e eu, e nós, Narizinho e Cêra perdidos nos becos jurunenses, nossa noite só começa depois de uns bons tiros, a moçada passa ainda para o tecno brega do tupi ou superpop ou sei lá que merda qualquer que jogue as mentes para longe e os corpos se enrosquem em uma dança sensual quase indecente. Merda! Quase uma hora e mais cerveja e nada de Mundinho: então finalmente vemos o cabeçudo baixinho dobrar da baixada. Muita calma nessa hora, elegância no pagamento, afastamento estratégico, entramos no carro de Cêra e o esporro começa; Porra, égua  Mundinho quase que tu  não vens, já não chega a gorjeta e ainda por cima esta merreca. Nenhuma novidade, após o teatro rumamos para o ap da 1º de Março. O elevador parece de filme de terror com um buraco no que seria o teto, via-se as paredes internas sujas e antigas passando, e paramos no 12º. Saímos, nem esquentamos. Às 3 horas da manhã dei meu primeiro tiro. Fiz a primeira dose e só então relaxei.