RESUMO:
O presente trabalho tem como finalidade demonstrar as terríveis consequências religiosas,
morais, psicológicas e, principalmente, sexuais da mudança de mentalidade de um
mundo calcado na ideia de IMANÊNCIA, para a mentalidade de um mundo moderno,
baseado na noção religiosa de TRANSCENDÊNCIA, por meio da sexualidade humana.
INTRODUÇÃO
Houve uma época em que o homem era tido
como uma parte da natureza, mantendo uma profunda e insolúvel harmonia com
esta, fazendo tanto parte desta quanto os leões, os carvalhos, ou mesmo os
minerais. Era uma época que ainda não se tinha inventado o pecado, e que o sexo
não era visto como algo pecaminoso, mas divino, um dom da natureza ou um
caminho que levava aos deuses: um meio de conhecimento e iluminação pessoal,
capaz de mostrar ao homem uma parte então desconhecida de si próprio: sua identidade
profunda com a natureza, com suas forças fundamentais. Foi a época das grandes religiões
panteístas que concebiam Deus, não como um ser agindo fora do mundo, mas de
dentro do mesmo, um ser imanente ao mundo, à natureza. Foi também a época dos grandes
cultos a Afrodite, com suas sacerdotisas que em seus templos copulavam com os
devotos da grande deusa; das bacantes, que por meio do vinho, e em nome do deus
Baco, embriagavam os homens e os levavam a serem absorvidos por seus instintos
sexuais, copulando com estes durante o culto de seu deus nos campos, bosques e prados;
e do deus Príapo com seu grande falo, o deus da fertilidade, responsável pela
fertilização dos animais e vegetais. Enfim, era uma época em que o sexo era tão
sagrado quanto as religiões, e em que o sagrado feminino dominava o mundo e
onde não se rejeitava nossa animalidade, nem nossos instintos.
Mas hoje tudo isso parece ser apenas uma
velha história perdida em algum livro amarelado pelo tempo. Pois o homem passou
a se sentir um ser superior e independente da natureza; um ser feito,
erroneamente, à imagem de um deus, que assim como este, transcenderia a
natureza, e a qual esta existiria apenas para lhe servir.
E assim, logo nos vimos divididos entre
dois mundos, um natural e material, governado pelas leis naturais do corpo, e o
outro, sobrenatural, comandado por leis superiores, imateriais, que não
pertenceriam ao nosso mundo, nos levando a renegar nossa origem animal, como
algo inferior e impróprio do homem, um arcabouço de sentimentos bestiais e
bárbaros - mas devemos lembrar que os mais baixos sentimentos humanos não
pertencem aos animais. Disso surgiram a moral e as proibições religiosas ao
sexo, e a ideia de que devemos privilegiar nosso lado transcendente, tido como
superior, em detrimento de nosso lado animal. Não admira, portanto, que o sexo
como aquilo que mais uniria os homens aos outros animais tenha sofrido tanto
com esta forma de pensar, transformando-se em algo indigno do homem. E assim
criaram novas formas de conduta, passaram a nos ensinar a termos vergonha de
nossos corpos, a odiarmos o que nós próprios somos, a termos vergonha de nossa
própria natureza. Nossa moral e religião passaram a nos ensinar a associar
rigor sexual à dignidade e liberdade, a não acatarmos os desejos do corpo, a
mortificá-lo para não sermos escravos do mesmo, de seus apetites e desejos; o
homem soberano, para esta forma de pensar, passou a não se deixar levar por
seus impulsos e instintos.
Porém tal mudança não deixou de ter
consequências terríveis para a humanidade, já que por trás de tal concepção se
escondia uma luta ferrenha e doentia entre cada indivíduo consigo próprio: uma
luta entre os impulsos mais naturais do homem e o desejo inútil de abafá-los,
de calá-los; gerando assim sentimentos de culpa desnecessários ou, no mais das
vezes, gerando o efeito contrário, já que tudo que é proibido tende a ser muito
mais procurado, estimulando, assim, o que justamente tentam limitar. E sendo a
transgressão e o sadismo elementos inerentes à sexualidade humana, o proibido
tende não apenas a estimulá-los como distorcer o sexo, gerando por meio do
sadismo e da transgressão comportamentos sexuais destrutíveis - como os
modernos adeptos do bareback, que buscam, movidos pelo prazer da transgressão,
serem contaminados pelo vírus da AIDS, em suas relações desprotegidas. Originando
também as mais terríveis perseguições religiosas ao sexo e tornando as mulheres
suas principais vítimas, como na Inquisição católica, em que mulheres que
demonstrassem seus desejos e sua independência em relação a estes eram tidas
como possuídas por um espírito demoníaco e como tal eram mortas.
E assim, a mesma mulher que provocou a
expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente, com sua natureza
diferente, com seu sexo que atraia a natureza reprimida dos homens “santos”.
Transformando a Inquisição na conclusão perfeita da longa história de preconceitos,
de repressão, de intolerância, a mulher e ao sexo.
Por meio disso, dá para imaginar o grande
choque que acometeu os portugueses ao descobrirem que em novas terras havia
pessoas que viviam de outra forma: nus, e que não viam no sexo um sinal de
pecado.
Todavia, para tais colonizadores, educados
sob a visão de que a nudez devia ser ocultada pelo pecado, a culpa fazia parte
de seu imaginário, sendo o corpo considerado como templo do diabo; e uma vez
que as índias nuas eram objeto de extrema beleza e sedução para os brancos
colonizadores. Havia apenas uma solução: vesti-las e impô-las sua falsa
moralidade, calcada no terrível e degradante sentimento de culpa.
Porém onde há culpa, há também castigo e
logo tal moralidade foi lhes imposta com total severidade.
Não admira, por isso, que as igrejas
estejam abarrotadas de pessoas obcecadas com os sentimentos de culpa e de
pecado, já que aprendem desde que nascem a identificarem em todas as coisas
naturais expressões de pensamentos pecaminosos.
O afastamento do homem da natureza
trouxe-lhe também doses desnecessárias de sofrimento psicológico, já que sendo
o homem uma parte da natureza - e como a parte só tem sentido quando vista em
seu todo - o afastamento do homem da natureza, não o deixaria se ver como parte
de um grande todo, de um grande “plano”, gerando-lhe sensação de abandono e
incompletude. Não admira, por isso, que após afastarem o homem da natureza,
muitos religiosos digam que lhes falta algo, como um deus ou algo parecido.
Todavia, por meio daFILOSOFIA DO ORGASMO
demonstraremos, nos próximos artigos, que, ao contrário do que nos é imposto, o
homem verdadeiramente livre é aquele que segue a natureza, que não luta consigo
próprio, contra sua própria natureza; não é alguém dividido entre o que se é e
o desejo de negar a si próprio; enfim, ser livre jamais implica em renúncias,
mas ao contrário, o verdadeiro escravo é aquele que ao reprimir seus impulsos
naturais torna-se carrasco de si mesmo. Em suma, o presente trabalho, tenta,
como no passado, harmonizar o homem à natureza por meio de sua sexualidade,
tida como um meio de autoconhecimento, e ao harmonizar o homem com a natureza,
harmonizará também consigo próprio, com que verdadeiramente somos. Demonstrando,
enfim, que um maior grau de harmonia entre o homem e sua própria natureza é
proporcional também a um maior grau de felicidade.
Ela disse nunca mais, seu filho da puta,
nunca mais, tá me ouvindo?, e ele ficou ali, sem dizer palavra alguma, enquanto
ela tremia levemente de raiva, pegava a bolsa pendurada na cadeira e saía da
cafeteria em direção a qualquer lugar que fosse o mais distante possível dele,
que demorou ainda alguns segundos sentado, vendo-a ir-se embora, ainda de boca
fechada, não sentia necessidade alguma de pronunciar sequer um suspiro, então
chamou o garçom e pediu para fechar a conta e percebeu que ainda teria de pagar
tudo sozinho pela última vez, mas ao menos era a última vez, pensou um tanto
aliviado, estava cansado daquela encenação, coisas de namoro, ter de paparicar
aqui, ser cauteloso acolá, paciente ali do outro lado, merda, estava cansado
daquilo tudo, até que foi bom ela ter tomado a iniciativa, pensou que talvez
tivesse faltado um tapa em sua cara, a cara dele, para deixar bem claro, a fim
de finalizar a situação com chave de ouro, não houve o tapa, então apenas
balançou a cabeça para esquecer enquanto recebia o troco e se levantava para
atravessar a rua, olhou para o lado por onde ela tinha seguido, mas foi mero
ato mecânico, não que estivesse realmente interessado em saber para onde diabos
ela estava indo, ela que vá para o inferno e que foda com o diabo que eu não
quero nem saber, depois refletiu um pouco mais e concluiu que estava sendo meio
duro, infantil provavelmente, então que ela vá à merda, agora sim, tudo
devidamente consumado e definido em todos os termos.
Carregava um pacote, um embrulho com
papel pardo sob o braço direito, ainda não sabia o que continha naquele volume,
pois acabara de receber da ex-namorada enfurecida e magoada até a última ponta
de fio de cabelo, e não houvera tempo para abri-lo, ela não parava de falar, e
falava rápido, e falava muito, e ele apenas ouvindo, como sempre, disso ela não
podia reclamar jamais, aqueles ouvidos eram latrinas, mas latrinas caras que
não se encontram em qualquer lugar, de qualquer modo lá estava ele, tentando acompanhar
a verborréia que ela descarregava bem ali, em cima da mesa, junto com o café e
os pastéis de queijo, a clientela do estabelecimento mirando disfarçadamente
para ambos, alguns riam baixo, outros arregalavam os olhos, alguns outros se
sentiam ofendidos com a baixaria, outros ainda faziam cara de quem já vira
aquele filme vezes sem conta, como ele próprio, entretanto, como ia sendo dito,
lá ia ele com o pacote sob o braço, ela dissera que aquilo era a única coisa
que queria devolver-lhe pessoalmente, embora as suas roupas seriam mais tarde
entregues no apartamento, pois ela não queria mais que ele pusesse os pés em
sua casa, estava tudo acabado, etc. etc. etc., na verdade ele pensou em
retrucar que ela pudesse fazer o que quisesse com aquelas roupas, queimá-las,
doá-las, ele não se importava nem um pouco, porém ficou quieto, bem quieto,
como havia aprendido logo no início do namoro, após as primeiras explosões da
recém-namorada, e agora tentava lembrar como foi que começaram a ficar juntos e
a se comprometer um com o outro, quem deu o primeiro passo?, certas coisas são
para se arrepender, é bem o que parece no fim das contas, pensou lentamente
enquanto alcançava a calçada do lado oposto.
Primeiramente queria chegar ao seu
apartamento e só então abrir o pacote, não que estivesse realmente interessado
em descobrir o que ela resolvera lhe devolver pessoalmente, afinal de contas, depois
de toda a encenação, parecia que tudo ficava um tanto sem graça, claro que era
brincadeira, uma brincadeira de mau gosto, meio clichê, mas não encontrava outro
jeito de passar o tempo enquanto caminhava em direção ao seu apartamento, que
ficava a algumas quadras dali, cerca de vinte minutos, podia parar em algum
mercado, comprar alguma coisa para preparar o jantar, ou talvez passar na locadora
de vídeos e pegar alguns filmes para assistir mais tarde, mas preferiu seguir
direto, a cabeça um pouco curvada para baixo, olhos encarando o concreto das
calçadas, era uma tarde movimentada em uma cidade grande, não precisava se
preocupar em olhar para os lados antes de atravessar qualquer esquina, bastava
seguir o fluxo humano, por isso continuou pensando em brincadeiras de mau gosto
enquanto se esbarrava com pessoas falando ao celular, pessoas saindo e entrando
de lojas, pessoas carregando pacotes maiores que o seu, pessoas passeando
simplesmente, quem diabos tem vontade de passear por uma rua entupida de gente,
num bairro feio como aquele, numa cidade fedorenta como aquela e todas as
outras grandes cidades?, pensou, isso não seria muita falta do que fazer?,
pensou, entretanto estava só matando o tempo enquanto seguia em frente, o
embrulho firme debaixo do braço, de uma coisa sabia, não era nada pesado, então
provavelmente não era muito caro, ou seja, ela era muito esperta e ele podia
esquecer reaver qualquer presente valioso, como joias, por exemplo, que ele
tivesse lhe dado, ou isso ou ele definitivamente era um belo filho da puta, o
que só fazia com que ajudasse a provar que as mulheres são, em linhas gerais,
mais sábias e evoluídas do que os homens, pelo menos em quase tudo, mas não em
tudo, ele finalizou o raciocínio ao dobrar a última esquina e avistar o prédio
onde morava, um prédio simples e feio, como todo o resto do bairro, inclusive como
a si mesmo, portanto, bem lá no fundo, não era tão ruim assim.
Subiu as escadas até o terceiro andar, o
edifício era baixo, não possuía elevadores, cumprimentou o zelador, seu Pereira,
que descia com alguns sacos plásticos, cumprimentou a dona Zélia, que morava
sozinha em um dos apartamentos do segundo andar desde o dia em que o marido morrera
de infarto fulminante no meio da rua, acho que há cerca de dois anos, tentou
recordar, acenou para uma garotinha que se mudara recentemente com a mãe para o
apartamento no final do corredor do seu andar, e que, naquele momento, brincava
com um carrinho de fricção, puxava o brinquedo para trás, apertando as rodas no
chão de azulejos, depois o soltava para vê-lo colidir com a parede ao lado da
porta, dava um pequeno sorriso, voltava a pegar o carrinho e recomeçar a diversão,
estranho uma garota brincar com carrinhos, no meu tempo não era assim, mas o
tempo dele já havia passado há muitos anos, nem sabia mais direito o que era o
tempo dele, quem sabe ainda estivesse parado no tempo dele e não soubesse qual
tempo era aquele, aquele mesmo em que se encontrava, com um pacote agora nas
mãos, procurando as chaves no bolso da calça, observando uma criança estranha,
é loirinha, só agora havia reparado em seus cabelos, a menininha levantou o
rosto para ele, desta vez sem sorrisos, apenas um olhar de desconfiança, de
quem ouviu direitinho quando os mais velhos repetiram centenas de milhares de vezes
para não falar com estranhos, porém sua atenção se prendeu ao pacote que ele
levava consigo, não, não é pra você, ele não disse em voz alta, somente
formulou a frase em sua cabeça, percebeu que não adiantava falar nada disso
para ela, enfiou a chave na fechadura, girou a maçaneta e empurrou a porta, não
sem antes lançar-lhe outro aceno antes que ela voltasse os olhos para o
carrinho meio esquecido em sua mãozinha meio gorducha, talvez cinco, talvez
seis anos, não mais que isso, refletiu ao fechar a porta.
Ligou a luz da sala, a iluminação
natural à tarde não era muito boa, por isso o aluguel não era tão alto, ao
menos foi o que o corretor dissera quando vieram visitar o recinto pela
primeira vez, deixou o embrulho sobre a mesinha de canto ao lado do único sofá,
de três lugares, normalmente este móvel possuía duas opções de uso, era onde
dormia após uma noite de alguns filmes sem conseguir pegar no sono, ou então
quando dormia com a namorada, e obviamente a partir daquela data as noites de
filmes aumentariam de frequência durante as semanas, sentia isso, era um
aficionado por filmes, já escrevera alguns roteiros e os enviara a algumas pessoas
que conheciam outras pessoas que mantinham contato com grandes pessoas do mundo
da mídia em geral, jornalistas, escritores, atores de primeira, segunda ou
terceira linha, assistentes de diretores etc., mas até aquele momento não tinha
obtido qualquer resposta, satisfatória ou não, sobre qualquer um dos textos,
tinha a impressão de que os mesmos sequer chegaram às mãos e aos olhos de quem
deveriam chegar, mas também não fazia muitos planos, mantinha os pés bem
plantados no chão, e de repente se lembrou de uma conversa que tivera com a
recente ex-namorada, uma conversa em, que mais uma vez, decidira não abrir
muito a boca, se não para bebericar o vinho que havia comprado para comemorar o
primeiro e único aniversário de namoro de ambos, uma conversa em que as
palavras futuro e esforço e objetivo se mantiveram entre as cinco mais
proferidas e enfatizadas por quase uma hora, não é necessário tentar lembrar
quais as outras duas, quando ela resolvera parar de falar, ao olhar bem nos
olhos dele, tomar um grande gole da taça de vinho nas mãos e ir para a sacada
do apartamento pegar um ar fresco, claro que ele sabia que era com o intuito de
evitar sua presença ali, embora isso fosse um pouco difícil, já que era ele
próprio quem morava naquele endereço, então ela apenas voltou para dentro,
pegou mais um pouco de vinho e voltou para a sacada, ele a chamou para vir
assistir a um filme, ela respondeu que não estava afim, ele disse que tudo bem,
não iria forçar nada, e foi quando ela veio de lá de fora, tomou outro grande
gole da bebida, deixou sua taça sobre a mesinha de canto e pôs-se a falar e a
falar, só que mais alto do que antes, com mais sentimento do que antes,
sinceramente, com mais raiva do que mágoa de antes, gritando que ele nunca
fazia nada diferente daquilo, que sempre era ela quem dizia, que sempre era ela
quem se descontrolava, que era ela quem decidia, ele respondeu nesse momento
que não era bem assim, que fora ele quem escolheu o vinho e a receita de frango
que, aliás, estava quase pronto, faltavam poucos minutos para tirar do forno,
então ela gritou, não, ela esbravejou alguma coisa como puta que pariu, ou
então mas que merda, ele não lembrava muito bem dos palavrões, afinal todos
significam a mesma coisa, e ela repetiu novamente e de novo as palavras futuro
e esforço e objetivo, mais alguns palavrões, não exatamente nesta ordem, pegou
a bolsa e disse que ele podia comer o frango todo sozinho e saiu, ele ficou um
minuto parado no meio da sala, o controle remoto da televisão na mão, até
perceber que já estava na hora de retirar o assado do forno.
Isso foi dois meses antes, a relação não
terminou daquela forma, eles, ou melhor, ela reatou o namoro alguns dias
depois, disse que tinha feito um papelão, que não queria dizer aquelas palavras
de verdade, mas que se preocupava com certas coisas na vida e ele parecia
sempre um pouco alienado dessas mesmas coisas, mas tudo bem, não precisamos
falar disso, se você não quiser, vamos assistir a um bom filme hoje, quem faz o
jantar sou eu, ele aceitou e tudo pareceu voltar aos antigos eixos, até aquela
tarde, quando ela marcou o encontro na cafeteria, a mesma que frequentavam
desde que tinham se conhecido, ela havia ligado do escritório, ele pensava que
podia ser algo grave, mas nem tanto, talvez apenas um papo para descontrair no
final do dia, foi isso o que pensava quando ela adentrou o estabelecimento com
um semblante sério e sequer provou dos pastéis que, aliás, estavam muito bons,
e começou a dizer que havia pensado melhor, que aquela situação não estava
dando certo, que era melhor cada um seguir o seu caminho etc., coisa e tal, ele
não estava entendendo, disse isso, foi quando ela começou a ficar realmente alterada,
retirou da bolsa o pacote e o deixou em cima da mesa, ao lado das xícaras de
café, e desta vez, somente desta vez ele quis responder algo mais, indagar
mais, então ela não se aguentou e soltou alguns palavrões, ele já estava
acostumado àquilo, só ficou um pouco surpreso com o tal filho da puta, todos nós
a partir daí já conhecemos a história, e era nisso tudo que ele pensava, encarando
o embrulho pardo na mesinha de canto, sempre em silêncio, antes de buscar um
copo de água na cozinha, ela parecia ter um problema preocupante com oscilações
de humor, ou talvez fosse ele quem carregasse o problema, mas nunca tinha antes
visto a relação por esse ponto de vista, fazia o que tinha de fazer, ligava em
seu trabalho vez em quando, os dois passeavam vez em quando, os dois bebiam
juntos vez em quando, de repente recordou um detalhe, o de que faziam sexo à
luz de velas, especialmente uma noite em que haviam voltado de uma sessão do
cinema, ele se preocupava com certas coisas como as velas, isto é, o que ela
falara não era totalmente verdade, não que estivesse magoado com tal
declaração, não sentia mágoa por assuntos pequenos, aquilo era um assunto
pequeno para ele, então notou que realmente o problema poderia ser com ele, que
não fazia muito além daquilo que fazia há tanto tempo, que escrevia roteiros
que não sabia onde tinham ido parar, que não procurava buscar algo mais em sua
vida, que buscava saber o que iria jantar e não se importava com o resto de
seus dias medíocres, com querer um lugar melhor para viver, atitudes pequenas
que se tornavam grandes para ela, que não se contentava com o escritório, que
buscava reconhecimento dos outros, ele deveria também buscar reconhecimento dos
outros, afinal de contas, você é ou não é um escritor?, na verdade roteirista,
ora dá na mesma, não dá na mesma, é um pouquinho diferente, você pensa em um
escritor como alguém que produz contos, romances, meu trabalho é um pouco
diferente, você é louco, não sou louco, sou mais como alguém que tem um
conceito diferente da maioria, você é louco, sim, você usa tanto a palavra
diferente que acaba ficando igual à mesma maioria de que quer tanto se
distanciar, não é verdade, você está delirando, acho melhor eu ir embora,
preciso trabalhar muito cedo amanhã e não trouxe roupa para me trocar, e ele
ficou nu no sofá, olhando através da sacada e pensando se seria uma obrigação
ela ter de recordar toda vez o futuro, o futuro besuntado de esforço e
objetivo, mesmo depois de um sexo em que ela havia tido dois orgasmos.
Voltou com o copo de água da cozinha,
bebeu um pequeno gole, era mais para molhar os lábios e ter algo com que ocupar
as mãos enquanto não as avançava para cima do pacote, a despedaçar o papel
pardo que agora estava um tanto amassado, fora ele quem o havia amassado e não
se dera conta, no fundo, no fundo não queria tê-lo recebido, mesmo que não
soubesse ainda o que escondia, não queria tê-lo aceitado daquela forma, pensou
que poderia tê-la segurado na cafeteria enquanto conversavam um pouco mais,
podia tê-la acalmado para não lhe dar o direito daquela briga entre os pastéis
de queijo e o café, que ela devia ter ficado e bebido do café para se acalmar,
mas que ideia estúpida, café não acalma ninguém, sua besta, não devia tê-la
mandado à merda, mesmo que só tenha falado isso para si, minha nossa, tê-la
imaginado foder com o diabo, quem era ele naquele momento?, estava muito
errado, estava errado porque não era nada do que pretendia para ela, mas veio
um rastro de pensamento obscuro de algum canto daquele apartamento, como uma
pulga que se instala devagar atrás da orelha e começa a incomodar aos poucos,
um pensamento estranho que ilumina feito uma lanterna com a pilha fraca, que
vai tentando iluminar o caminho à frente e falha e ilumina e falha de novo, um
pensamento que mostrava um quadro em sua mente e de que até então havia
percebido somente a moldura, um pensamento que dava voz àquele quadro, uma voz
rouca e baixa dizendo anda logo, abra esse maldito pacote e veja o que restou
para você, o que restou para um medíocre como você, nesse pacote sobrou alguma
coisa a qual ela dava importância e de que você fez pouco caso, veja o que ela
deixou e então volte os olhos para mim, este quadro que você sabe bem o que
representa, não precisa necessariamente dessa lanterna para me enxergar, sabe o
que quero lhe mostrar e não tem coragem de me encarar, não é mesmo?, pois tome
coragem dessa vez que pode ser sua última chance de ter realmente algum
vislumbre do que virá a ser o resto de seus dias, deixe de bancar o roteirista
pois agora é você o protagonista nesta história, largue esse copo de água e
veja o rascunho de si próprio, então ele levantou o pacote com uma das mãos
enquanto depositava a água sobre a mesinha de canto, arrebentou o barbante que
o envolvia e o jogou para um lado, rasgou o papel pardo e o arremessou para o
outro lado, sentou-se no sofá, suas mãos inertes sobre um monte de páginas
juntas por uma encadernação plástica , seu nome escrito em letras maiúsculas no
centro da primeira folha, o volume agora parecia pesar mais do que antes, como
isso era possível ele não queria saber, respirou fundo e folheou depressa as
páginas e viu que ali não havia palavra alguma, o volume inteiro mostrava um
nada branco, nada senão seu nome no rascunho de capa, não entendia, aquilo não
era dele, ou era e não se lembrava, aquilo estivera com ela e ele não entendia
o porquê, não se lembrava de lhe ter deixado alguma vez um trabalho seu para
apreciação, talvez fosse o prenúncio de uma autobiografia, uma ideia ridícula,
não havia muito o que ele pudesse contar sobre si próprio, e foi quando ouviu a
voz baixa e rouca novamente, agora cantarolando uma canção de sua infância, uma
antiga e esquecida canção que estivera alojada no fundo de seu cérebro, em meio
a teias e poeira dos anos passados por ele, isso mesmo, passados por ele
simplesmente, ouviu a voz sentenciar que aquilo é o rascunho de si próprio, aquilo
é o grande vislumbre do resto de si próprio, porém não era a mesma voz baixa e
rouca, era sua voz saindo por sua garganta, sua voz que quase sempre se calara
quando devia ser ouvida, de repente sentiu uma sede imensa, uma sede de uma
vida inteira, procurou o copo na mesinha e esbarrou nele com os dedos trêmulos,
o vidro se espatifou e no meio dele, sobre o assoalho, surgiu uma poça
indefinida, como sua vida em branco, como aquelas páginas sem sentido, e
descobriu num lampejo que a poça era o quadro revelado afinal, a moldura era o
apartamento escuro, e tudo o que restava ali era o seu nome intitulando o
calhamaço de um vazio que doía pesado em seu peito.
Tropeçando, saiu para o corredor lá fora.
A menininha loira continuava com seu carrinho de fricção. Ele a fitou, ela o
fitou e desta vez lhe sorriu. Largou o brinquedo e viu-o correr acelerado até
se chocar no sapato daquele vizinho que queria chorar, chorar como ela quando
queria atenção de sua mãe antes de dormir, e parecia haver desaprendido como se
fazia isso.
Com
8 votos a favor e 2 contra, ministros do Supremo Tribunal Federal decidem a
favor da interrupção da gravidez nos casos de fetos anencéfalos. Em outras
palavras, o aborto nesse caso deixa de ser crime.
Fetos
anencéfalos são fetos que não possuem cérebro. O que torna a vida extra-uterina
para esses bebês inviável, causando inutilmente a suas mães perigos de saúde e
traumas psicológicos já que a mulher passa a se afeiçoar de uma criatura que
viverá apenas alguns minutos após o parto ou, muito excepcionalmente, alguns
meses de uma vida vegetativa mantida por aparelhos.
Esta
decisão, em termos de Brasil, país onde a religião ainda possui um grande peso,
é um avanço da racionalidade contra o misticismo vazio, da emotividade sem
fundo prático, da tradição não crítica e retrógrada etc. É uma vitória antes de
tudo do chamado estado laico, um dos grandes pilares da democracia, que afirma
que o estado deve ser neutro em relação a questões religiosas, não apoiando nem
se opondo a nenhuma religião. Gerando, por sua vez, livre culto a todas as
formas de religiosidade ou de pensamento, e assim evitando mazelas do passado,
como as perseguições religiosas. Porém, infelizmente, vemos que, como todas as
decisões que tocam em questões de cunho religioso, muitos grupos religiosos, mais
uma vez, tentam forçar uma regressão ao passado se opondo a decisões
importantíssimas que afetam a saúde de muitos. E assim como se opõem ao uso de
células-tronco na recuperação de doentes ou a campanhas em favor do uso de
preservativo na luta contra a AIDS, seria de esperar que a discriminação do
aborto de fetos anencéfalos fosse tomada com protestos, mesmo que nos últimos
anos avanços tecnológicos permitam exames precisos para este tipo de
malformação fetal e que seja cada vez mais evidente para muitos que ninguém
vive sem um cérebro. (Embora muitos religiosos certamente discordem disso,
argumentando que a consciência se encontra em outra parte do corpo, talvez no
pé ou no coração, para defenderem tal posição).
Parece
que para estes grupos seria agradável viver em um país em que sua mentalidade
se situasse na idade média, como em muitos países árabes em que ainda vigora os
estados que tem como base a religião por princípio, como as teocracias
islâmicas dos países mulçumanos em que, por princípios religiosos, fazem, assim
como na idade média, das mulheres suas principais vítimas, levando muitas, em
pleno século XXI, a serem condenadas ao apedrejamento público em caso de
adultério, ou tolhendo devotos de religiões rivais com a violência.
Todavia,
é preciso lembrar que a descriminalização do aborto em casos de anencefalia,
como todo direito, não é uma imposição, mas dá a mulher o direito de escolher
manter ou não a gravidez, ou seja, não irá contrariar nenhuma mulher com
relação a suas crenças religiosas, permitindo que tomem suas decisões com base
apenas em sua vontade. Pena que muitos religiosos não veem isso.
Contudo,
não deixa de ser surpreendente que em pleno século XXI ainda haja pessoas que,
baseadas em conceitos e ideias religiosas, como as de alma - ideias que jamais
são comprovadas e que possuem tantas interpretações quanto queira a moda do dia
ou da TV -, se acham do direto de influir nas decisões de outras pessoas,
forçando-as a tomarem atitude e viverem conforme o que estas definem como o que
seria o melhor modo, trazendo risco a saúde física e psicológica destas. Obrigando
muitas mulheres a se arriscarem a procedimentos não confiáveis e inseguros de
interromper gravidez. O que não deixa de ser contraditório já que são também estas
mesmas pessoas que, baseadas em seus conceitos religiosos, afirmam que todos
possuem o livre arbítrio, o poder de tomar decisões por si próprias, mas quando
se trata de decisões tomadas por outros a respeito de sua sexualidade são
imediatamente tolhidos e condenados à execração pública. A impressão que dá é
que, para estes grupos, todos são livres desde que sigam sempre o que é
unicamente ditado por eles. Mas que bela noção de liberdade, não é mesmo!
Em
suma, de minha parte creio que todos temos o direito de acreditar no que
quisermos, em deus, com seus milhares de tipos, espíritos, duendes, saci Pererê,
em papai noel, em ideologias políticas etc., mas guarde para você suas ideias,
não obrigue ninguém a viver conforme suas crenças. Respeite o modo de agir e
pensar alheios, e só interfira se caso seus direitos forem ofendidos. E se, de
modo geral, você é contra o aborto, então ótimo. Não faça um. Mas não obrigue
uma mulher que, por qualquer que seja o seu motivo, a abortar numa clinica
clandestina sofrendo infinitos riscos. Deixe que esta decisão seja tomada
livremente por ela e que esta usufrua de seus direitos e que cada um seja
plenamente responsável por seus atos.
Na década de 80, a novela televisiva ROQUE
SANTEIRO, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, tinha como tema, uma
história bastante moderna para os padrões da época, e que ainda continua mesmo para
a época atual, tanto que nada tão ousado repetiu-se na teledramaturgia
brasileira desde então. O tema versava sobre Roque, um personagem que ao ser
tido como morto passa a ser cultuado por suas façanhas como santo, porém, anos
depois, descobre-se que o herói não morreu, e, mais que isso, que o culto religioso
que se formou em torno de sua história não condiz nem um pouco com o verdadeiro
personagem, tanto que todos aqueles que de alguma forma passaram a lucrar com
seu mito temem que tudo seja desmentido, e percam com isso seus privilégios,
levando muitos mesmo a tentarem matá-lo.
Este tema, embora seja de uma ousadia
jamais vista na televisão brasileira, não era um tema novo, como explica o
escritor Bráulio Tavares, já havia sido explorado por alguns escritores, como o
escritor Ronaldo Correia de Brito, em seu LIVRO DOS HOMENS, cujo livro conta a
história que ao “encontrarem no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a
facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto
desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela
sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e
descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e
que foi morto por vingança”. E mesmo na ficção científica, o tema do personagem
tido erroneamente como herói, foi bastante explorado, como nos livros UM
CÂNTICO PARA LEIBOWITZ(1960) de Walter M. Miller Jr., e LIMBO
(1952) de Bernard Wolfe.
É simplesmente impossível para alguém
sensato, ao ver a trama contida tanto na novela ROQUE SANTEIRO, quanto no LIVRO
DOS HOMENS, não associar o tema com a religião cristã; aliás, foi seguramente
isto que retirou do ar a novela em sua primeira versão em plena ditadura
militar, na década de 70. E se substituirmos Roque por Cristo entenderemos toda
a ousadia de que falamos, pois assim como em tais livros, conhecendo bem a história
cristã com todo seu poder e manipulação sobre as obras históricas e literárias
do passado - fato que qualquer historiador sensato de hoje seria incapaz de
negar – não podemos deixar de pensar que tal possibilidade possa ter acontecido
com a maior religião do mundo. Sim, talvez estejamos cultuando um Cristo que
nada, ou pouca coisa, tenha haver com o verdadeiro Cristo.
E digo mais: embora a maioria diga se
tratar de mera hipótese artística, é bem possível que a ideia para a feitura
destas obras artísticas tenha sido criadas a partir do momento em que seus
autores meditaram sobre tal possibilidade: seria a arte imitando a vida, e não
o contrário. E se pensarmos bem também veremos que, assim como em ROQUE
SANTEIRO, há muitos que perderiam bastante se tal hipótese fosse tida como
verdadeira, e não falo apenas daqueles que de alguma forma passaram a lucrar muito
com a religião cristã, mas também dos devotos que construíram toda suas vidas
sobre tal crença. Lembro que quando o filme baseado no livro CÓDIGO
DA VINCE, de Dan Brown, foi lançado muitos comentavam que jamais iriam
assistir o filme, já que contrariava sua visão do Cristianismo; lembrando que o
livro argumentava que Cristo teria sido um simples líder religioso, que casara
com Maria Madalena e que teria tido filho com ela. E o interessante é que tal
afirmação era feita mesmo que estes desconhecessem totalmente os argumentos
usados no filme.
Não é difícil entender tal ato, sei
que muitos ao constatarem a fragilidade de suas crenças se lançariam ao
desespero; seu mundo viraria de ponta-cabeça; muitos certamente se suicidariam;
outros se tornariam extremamente egoístas e a maioria, com toda certeza,
simplesmente, não querendo acreditar em tal possibilidade, a negaria
veementemente mesmo que a mais absoluta prova lhes fosse mostrada.
Quando ouço alguém justificando a
falta de provas sobre a existência de discos voadores, argumentando que as
autoridades não permitem sua viabilização, por acreditarem que toda a ordem
ética e moral mundial mudaria para um caos inominável, caso esta possibilidade
fosse permitida, gosto mais de imaginar tal possibilidade relacionada à figura
de Cristo.
Recentemente, vi um documentário da
Nacional Geografic sobre a descoberta de um túmulo nas cercanias de Jerusalém
durante a construção de um condomínio no começo da década de 80. O túmulo
pertencia a uma família que vivera no séc. I, depois de Cristo. Pesquisadores
foram chamados para verificar o achado antes que o túmulo fosse fechado e
soterrado sob a nova construção. E após os ossos terem sido enterrados em um
local santo como manda a religião judaica, os dez ossuários foram guardados e
esquecidos durante décadas, em meio a centenas de outros ossuários antigos, até
que algo novo aconteceu, pesquisadores posteriores, descobriram ao traduzirem
os dizeres escritos em tais urnas que elas pertenciam a Maria, Mateus e Jesus,
filho de José. Que correspondiam, curiosamente, a mãe e ao irmão de Jesus,
citados nos evangelhos. O mais curioso de tudo é que fora encontrado também uma
urna que pertencera a uma mulher que se chamava “Mariamne”. O nome inculcou os
pesquisadores que nunca haviam encontrado, mesmo com centenas de urnas fúnebres
achadas, um nome parecido. Analisando melhor tal nome descobriram que se
tratava de duas palavras, uma era um termo de tratamento, mestra, e o outro,
Maria. Lembraram-se, então, que em um evangelho apócrifo, isto é, não aceito pela
igreja, Maria Madalena é chamada de mestra por ensinar aos seus discípulos a
doutrina de Cristo. Mas independente de ser Madalena, porque ela estaria alí? Seria
irmã do tal Jesus?, perguntavam-se os estudiosos.
A solução foi tentar comprovar o fato
com técnicas modernas de D.N.A. E o resultado surpreendentemente deu negativo,
Mariamne não era parente de nenhum daqueles membros. Então só poderia ser
esposa. E pela proximidade a urna do tal Jesus, só poderia ser sua esposa. Mais
o fato mais surpreendente é que havia também a urna de uma criança, chamada de
Judá. E embora muitos estudiosos tenham afirmado que tudo não era mais que
simples coincidência, já que estes nomes eram comuns à época, outros
argumentaram que não em seu conjunto. Sei que imediatamente virá à mente de
qualquer devoto cristão se tratar de mera falsificação, porém as evidências são
incrivelmente fortes a favor de ser a família de Cristo. Até mesmo uma urna
achada antes pertencente a um certo Tiago, quando comparada os matérias
acumulados à anos de tal urna com o material das outras urnas achadas no túmulo
familiar, o resultado foi que todas possuem a mesma quantidade e o mesmo
material acumulado à anos em sua superfície, levando os pesquisadores a afirmar
que a urna do tal Tiago havia sido extraviado do túmulo familiar de que falamos,
combinando com o Tiago irmão de Jesus, citado nos evangelhos.
Teria sido Jesus um homem comum?
Teria mesmo casado com Maria Madalena? Teria ele tido filho como qualquer
mortal? Ou seria apenas uma outra família constituída com os mesmos nomes da
família do Jesus bíblico. As coincidências são incríveis! E o mais engraçado é
que a descoberta de tal túmulo não chamou nenhuma atenção das autoridades ou da
imprensa. vale ver no youtube o documentário: o sepulcro perdido de jesus.
Mas teríamos razão para acreditar na
possibilidade de um Jesus diferente daquele descrito nos escritos bíblicos? Eu,
de minha parte, penso que sim, basta apenas pensar que as religiões não apenas
são sistemas de crenças como também de poder políticos, e é simplesmente
impossível negar que elas nunca tenham sido usadas como instrumentos de poder. Me
parece, portanto, sensato pensar que Jesus ganhara de seus biógrafos uma nova
biografia. E pense comigo: se a intenção era tornar o personagem Jesus Cristo
universal (católico, em grego), a melhor forma seria que este possuísse
características de outros deuses, a fim de torná-lo familiar à outros povos. Não
é mesmo? Sendo assim, não apenas temos a afirmação que ele havia nascido de uma
virgem, o que parecia ser moda naqueles tempos já que muitos deuses, como
Dionísio, Krishna, Mitra e etc., possuem esta característica, bem como outras
características, por exemplo:
“O deus ÁTIS morreu pela salvação da
humanidade, crucificado em uma árvore, desceu ao submundo e ressuscitou no
terceiro dia. MITRA teve doze discípulos; pronunciou um Sermão da Montanha, foi
chamado de Bom Pastor, se sacrificou pela paz do mundo e ressuscitou aos três
dias. BUDA ensinou no templo aos 12 anos, curou enfermos, caminhou sobre a água
e alimentou quinhentos homens com uma cesta de biscoitos; seus seguidores
faziam votos de pobreza e renunciavam ao mundo; foi chamado de Senhor, Mestre,
a Luz do Mundo, Deus dos Deuses, Altíssimo… KRISHNA foi filho de um
carpinteiro, seu nascimento foi anunciado por uma estrela no oriente e esperado
por pastores que lhe presentearam com especiarias…”
Contudo, muitos, ainda hoje,
argumentam ser a Bíblia a maior prova da existência de Cristo. Estes argumentam
que Cristo cumpriu mais de trezentas profecias sobre sua vida; muitas delas com
centenas de anos anteriores a sua vinda à Terra. Calcula-se, por exemplo, que a
chance de apenas oito destas profecias fosse cumpridas casualmente seria de uma
em 1028 (isto é, uma em 10000000000000000000000000000). O que não se
argumenta, no entanto, é que, uma boa explicação para isso seria que, a
“história” de Cristo seria apenas uma criação também a partir de antigos textos
bíblicos e mesmo de profecias, como falsas concretizações destas. Como, por
exemplo, o detalhe da traição de Cristo por Judas, pelo valor de trinta moedas
de prata, recebidas das mãos do sumo sacerdote; e seu posterior arrependimento,
devolvendo-as aos pés do mesmo. Isto pode ser visto em um escrito bíblico
anterior ao suposto nascimento de Cristo, o Livro de Zacarias, em que Zacarias
fala do rompimento da fraternidade entre Judas e Israel: “Então o Senhor me
disse: atire isso ao oleiro, esse magnífico preço em que fui avaliado por eles.
Tomei as trinta moedas de prata, e as atirei ao oleiro na casa do Senhor.”
(Zacarias, 11:13,14).
Algumas dessas adaptações da suposta
vida de Cristo às passagens de escritos bíblicos mais antigos, são tão forçadas
que chegam a contradizer as próprias crenças do personagem Jesus Cristo; como a
ocasião em que Cristo crucificado tem suas vestes disputadas por soldados
romanos, por meio de apostas com jogos de dados. Esta passagem foi copiada de
uma passagem do Salmo 22 (versículo 18), em que se lê: “Repartem entre si as
minhas vestes, sobre a minha túnica deitam sortes.” A contradição está no fato
que, se há disputa com relação às roupas de Cristo, significa que estas tinham certo
valor econômico. O que não condiz com a pobreza voluntária de Cristo.
Outra adaptação forçada é sobre a
ascendência de Jesus, que segundo uma profecia do Livro bíblico de Isaías, o
Messias nasceria da descendência do rei Davi. Então, faz-se pai de Jesus, José,
que é um descendente longínquo do rei Davi. Até aí, tudo bem. Porém, Cristo tem
que nascer de uma mulher virgem, também, para que seja isento de pecado.
Conclusão: a confusão tá formada. A solução é fazer de Cristo um filho adotivo
de José. Mas a profecia requeria que houvesse uma descendência carnal...
Há também a contradição com relação
ao nascimento de Cristo:
Como a profecia do Livro de Miquéias
(Miquéias 5, 2), afirmava que o Messias nasceria em Belém, então os escritores
do Novo Testamente tiveram que também adaptar a “história” do personagem Jesus a
essa profecia:
Mateus faz logo Jesus nascer em
Belém. Já Lucas faz os supostos pais de Jesus, José e Maria, irem para Belém,
devido a um censo que obrigaria José ir à cidade de seus antepassados, Belém.
Onde Cristo nasce. Surpreendentemente, João, não liga para essa profecia, e faz
Jesus nascer em outra cidade. Seu Evangelho demonstra claramente que seus
seguidores ficaram surpresos com isso, como podemos ver na passagem de seu
Evangelho: "Outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam:
Porventura, o Cristo virá da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da
descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?" Cada autor,
portanto, lida de modo diferente com tal adaptação da estória.
Assim, aprendemos que a adaptação de
um personagem, como Jesus, a todas essas condições proféticas, tão diferentes,
acarreta certo grau de incoerência à sua estória.
Em suma, a estória bíblica de Jesus é
tão verdadeira quanto a imagem atribuída hoje à ele. Uma imagem de um homem
branco, de cabelos castanho-claros e olhos azuis; embora seja extremamente
improvável, naquela época, a um homem de origem semita; refletindo muito mais
as características físicas dos pintores europeus que a criaram.
Mas penso que, por outro lado, ainda
podemos encontrar alguns detalhes verdadeiros do verdadeiro Cristo na bíblia:
um personagem tão esquecido, mas que ainda podemos ter uma leve visão de sua doutrina,
vista por alguém que verdadeiramente compartilhou sua companhia e ideia, e que
embora fosse contrária as ideias de um cristianismo institucionalizado, passou
despercebido por estes: Santo Estevão, disse: Deus não habita em casas feitas
por mãos humanas. Porém, como comprova a experiência: a história oficial é
sempre contada pelos vencedores. E o que esperar de uma instituição que sempre
dominou os meios de informação, filtrando apenas o que lhe era compatível?
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Motivos Para Não Ser Cristão
* Cristianismo:
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