terça-feira, 17 de julho de 2012

SOBRE O CONCEITO DE MALDADE





 
No dia 24 de maio, o então ator pornô Eric Clinton Kirk Newman, conhecido pelo nome artístico de Luka Rocco Magnotta, matou e esquartejou seu amante, um estudante chinês em Montreal, Canadá. O assassinato, bem como o esquartejamento, foi filmado e publicado na internet pelo próprio assassino. Nele podemos ver Magnotta cortando o cadáver, sodomizando o corpo mutilado, enfiando o gargalo de uma garrafa no ânus do mesmo, e até mesmo pondo um filhote de cão para lamber os ferimentos do corpo. Magnotta chega ao cúmulo de, munido de garfo e faca, cortar uma pequena parte das nádegas e, com a ajuda do garfo, supostamente comê-lo. Magnotta ainda enviou pelo correio partes do corpo para uma escola e um partido político no Canadá.
No mesmo mês de maio, Elize Matsunaga matou e esquartejou seu marido, o empresário Marcos Matsunaga, após uma discussão conjugal por conta de uma infidelidade que teria sido descoberta por ela. Elize despachou o corpo dividindo-o em três malas. Exames posteriores indicaram que Elize decapitou o marido enquanto este ainda estava vivo.
Em Barcarena, município do estado do Pará, a adolescente Daiane do Carmo Macedo, de 14 anos, foi encontrada seminua, em avançado estado de decomposição, amarrada em uma árvore, morta à terçadadas por seu padrasto e por um vizinho. Supõe-se que o crime tenha sido incentivado por motivos sexuais.
Ao ouvirmos comentários sobre casos de extrema violência como estes é comum que logo surja alguém (jornalistas, policiais ou populares) que - motivado pelo crescente movimento de patologização de criminosos, estimulado nos últimos anos, certamente, pela enorme popularidade de filmes policiais, que popularizaram a figura do serial killer (e consequentemente a do psicopata), e por uma imprensa que se dedica muito mais a julgar (na maioria das vezes de modo errado) do que ao seu papel fundamental, que é informar - tente explicar tamanha maldade recorrendo a ideia de doença ou distúrbios mentais, como psicopatia ou pedofilia, antes mesmo que especialistas se pronunciem sobre o tema; como se, pela gravidade dos casos, somente tivessem esta forma de explicação. Assim, ao ouvirmos o caso de Elize Matsunaga, é comum que ouçamos logo um “só pode ser uma doente psicopata para ser tão má”. Ou se um homem estupra uma criança é logo taxado de pedófilo, como se a extrema maldade só pudesse ser explicada por meio de distúrbios mentais.
O que acontece é que ao vermos casos extremos de violência temos dificuldade em aceitar que possa existir a maldade pela maldade, que um ser humano possa ser capaz de ato tão vil, optando por ser mau, e assim recorremos a explicações exteriores a vontade humana como forma de explicação. Porém, ouso dizer-lhes, independente das possíveis explicações para cada caso em si, claro: A EXTREMA MALDADE EXISTE INDEPENDENTE DE QUALQUER IDEIA DE DOENÇA. O SER HUMANO NORMAL É PERFEITAMENTE CAPAZ DAS PIORES ATROCIDADES. E vou além: não apenas a imediata associação entre doença mental e maldade é apressada e superficial, quanto sem sentido. Isto não quer dizer que um doente mental não possa prejudicar uma pessoa, muitos fazem, mas sim que ele não pode ser taxado de mau, pois o conceito de maldade é incompatível com o conceito de doença mental, já que exige capacidades que um doente mental não as possui, pelo menos no ponto mais alto de sua doença, como:
1º. PLENO CONHECIMENTO DE SEUS ATOS: Para que possamos denominar alguém de “mau” torna-se necessário que este alguém tenha pleno conhecimento de seus atos e de sua maldade. Em outras palavras, que tenha pleno conhecimento de estar fazendo mal a alguém. Por isso não se pode chamar de maldade os atos violentos que por ventura um doente mental possa causar durante um surto de loucura, ou danos físicos ou psicológicos causados não intencionalmente a outro.
2º. LIBERDADE DE ESCOLHA: A pessoa para quem possamos chamar de “mau” tem que ser capaz de se decidir entre a bondade e a maldade, já que não podemos culpar alguém que fez o mal por falta de opção. Por isso, também não se pode chamar de mau a alguém que cometeu um ato mau forçadamente ou por ignorância; que não teve a liberdade de optar entre os valores de bondade e maldade, para que sua maldade possa ter sido intencional. Como o caso de alguém que usou de violência para manter-se vivo.
E finalmente:
3º. VALORES MORAIS: O conceito de maldade exige que a pessoa denominada de “mau”, seja portadora de sentimentos humanitários, haja visto que optamos entre a maldade e a bondade com base em tais sentimentos.
Por isso apenas o ser humano pode ser considerado mau: outro animal quando mata, esquarteja, devora outro de sua espécie não faz por opção, mas pelo poder irresistível de seus instintos; e isto apenas em último caso: quando coagido pela fome ou pela continuidade de sua descendência. Mas no homem isto pode ser uma questão de opção, isto é, um homem pode preferir estuprar e/ou matar crianças pelo simples fato de serem mais indefesas do que adultos, ou mais fáceis de serem ludibriadas. O que explica porque nunca vemos serial killers de lutadores de vale-tudo, por exemplo.
 Em suma, o conceito de maldade é um conceito filosófico e jurídico, NÃO PSIQUIÁTRICO, que serve para definir tanto a culpabilidade de alguém quanto atos criminosos, como o assassinato; e quando seus pré-requisitos não podem ser aplicados a alguém, este alguém é tido pela lei como inimputável, isto é, é incapaz de ser responsável por seus atos. O que pode abrir um precedente perigoso nesses tempos em que todo comportamento que fuja da ética, da moral ou dos chamados “bons costumes” é imediatamente associado a uma doença, levando muitos criminosos a se aproveitarem disso. E sendo um conceito mal interpretado causa tanto erros populares - que vê as doenças e distúrbios mentais como as únicas explicações para tanta maldade, não deixando perceber que alguém pode ser mau simplesmente por querer ser mau, por tirar vantagem disso, por ser um grande escroto filho-da-puta - quanto erros de especialistas, como o da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, que em seu livro Mentes Perigosas – o perigo mora ao lado, chega, erroneamente, a denominar a psicopatia como “doença da maldade”.
Seria ela mais uma partidária da patologização desenfreada da maldade ou estaria na verdade se aproveitando disso, com a crescente venda de seu livro?  

O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES - ANIMAÇÃO VENCEDORA ...


Dalla Blog: O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES - ANIMAÇÃO VENCEDORA ...: Olá amigos! Hoje recomendo uma linda e sensível animação, vencedora do Oscar. Fala sobre simplicidade, persistência e generosidade. E sobre...

It's Parship's fault!



Advertising Agency : Leagas Delaney Hamburg, Germany
Creative Director s: Stefan Zschaler, Oliver Grandt, Willy Kaussen
Copywriter : Jakob Eckstein
Graphic Designer : Nadine Kuhlenkamp
Director : Felipe Ascacibar
Film Production : element e
Published : January 2011

segunda-feira, 9 de julho de 2012

UM ESBOÇO: AMOR AO PRIMEIRO CRIME (de Bosco Silva)



(uma história de amor entre assassinos. Feita não apenas de corações apaixonados mas também de sangue e tripas. Dividida em partes, como um bom esquartejador faria)

Inspirado no caso recente de Elize Matsunaga, que matou e esquartejou seu marido, o empresário Marcos Kitano Matsunaga.

Com vocês, o conto:

O QUE MAIS ME SURPREENDIA em Elise, era como esta via o crime. Para ela, o crime era uma verdadeira arte: o assassinato, uma composição, como uma obra musical, com sua estrutura melódica, sua harmonia pré-estabelecida, por uma mente que aspirava ao belo até mesmo na destruição, no desvísceramento de um corpo, ou no esfacelamento de um crânio; o roubo, como a concretização de um plano audacioso, pensado em seus mínimos detalhes. O crime era antes de tudo, para ela, uma luta consigo própria, contra os valores, os sentimentos, as ideias impensadas que carregávamos desde o berço, que nos fazia esquecer, de modo errôneo, nossa própria natureza assassina, que aguardava pacientemente quieta apenas um momento para se mostrar às claras. Matar era a salvação para almas que ambicionavam transcender este mundo corriqueiro, fundado na mentira. E para isso, nada como a Sociedade dos Amigos do Crime para sanar todos estes erros. Este era o nome que ela havia dado ao nosso grupo de amigos. Disse-me que havia se inspirado em um livro.    

Lembro-me bem de como a conheci, posso dizer que foi amor à primeira vista. Ou melhor: amor ao primeiro crime.

A CABEÇA

Estávamos, eu e Mão-de-cepo, atrás de um carro; um carro que nos rendesse um bom lucro pro fim de semana. Depenaríamos ele e venderíamos suas peças por uma boa bagatela qualquer. Esperamos então, discretamente, pelo primeiro que chamasse nossa atenção em um sinal de trânsito qualquer. Até que um luxuoso carro preto parou quase em nossa frente, um carro como aqueles de bacanas, com películas nos vidros das janelas como um modo de evitarem não se aborrecerem ao verem as misérias de fora do luxo destes. Nossa primeira impressão foi de que fosse como um daqueles carros blindados que bacanas importantes usam para se proteger. Mas naquele dia estávamos com sorte, pois foi somente impressão nossa. Mão-de-cepo foi em sua direção e ficou bem na frente deste com sua arma na mão apontada direto para a fuça de quem tinha o volante nas mãos. Eu contornei o carro e fui para o lado do motorista com arma em punho, bati na janela com vigor ameaçando atirar se caso este não abrisse a janela logo. Até que “plac”, a porta se abriu, e naquele momento foi como se tudo mergulhasse no mais profundo silêncio, como se eu mergulhasse na mais límpida água; e tudo ao meu redor ficasse em câmera lenta; então vi a mulher mais doce do mundo aparecer em minha frente, linda, com seus cabelos lisos sobre os ombros, com um modo só seu de jogá-los para trás dos ombros... Inesperadamente tudo voltou ao normal. Entramos no carro rapidamente, a joguei para o banco traseiro e fui para o lado desta em seguida, enquanto Mão-de-cepo tomava o volante e seguia rumo a qualquer lugar ermo.
Ao chegarmos a um grande terreno abandonado, amarramos a moça e a amordaçamos. Em seguida, saímos do carro para decidirmos o que iríamos fazer com ela. Mão-de-cepo, como um bandido prático, queria imediatamente matá-la e jogá-la em qualquer barranco daqueles, ou mesmo em um córrego de rio; mas sempre fui o mais sensato, disse-lhe que, pelo carro, deveria ser a filha de algum bacana, um empresário ou mesmo de algum político, como aqueles que roubam nossa grana guardando-a em algum banco no exterior, gastando-a com suntuosos jantares acompanhados de caríssimos vinhos. Nesse momento, Mão-de-cepo sorriu como se a ficha finalmente houvesse caído - ele sempre foi um sujeito lerdo para isso: pensar nunca lhe foi uma qualidade -, então me disse que sim, que poderíamos ganhar algum dinheiro extra sequestrando-a. Tomamos a decisão de pô-la desamarrada no porta-malas do carro. Porém, ao abrir o porta-malas, achamos três grandes malas dentro. Perguntei a ela o que significava aquilo, ela me disse que estava de viagem, que as malas estavam cheias de suas roupas. Aquilo, momentaneamente, confirmou imediatamente o que eu pensava, pois com tanta roupa assim só poderia ser uma filha de algum bacana filho-da-puta. Resolvi então tirar as malditas malas de dentro do carro. Mas as malas pesavam feito chumbo. Notei que até então ela tinha sido uma mulher bastante fria, mas, naquele momento, algo desabou nela. Decidi abrir uma das malas. E qual não foi minha surpresa ao ver surgir assim na minha frente, tête-à-tête, um pé humano, branco como cera. Dei um pulo para traz assustado, soltando um sonoroso caralho. Verifiquei as outras duas malas restantes e percebi que havia outras partes do corpo. Perguntei várias vezes a ela, até que ela me respondeu:
- Tá bom, tá bom, eu confesso, fui eu que o matei.
- E quem o cortou desse jeito?
- Também fui eu.
- Sozinha!?
- Sim.
Demos boas gargalhadas: não acreditávamos que uma mina como aquela seria capaz de tal ato. Nem mesmo eu e Mão-de-cepo seríamos capazes de fazermos aquilo. Gostávamos de fazer as coisas limpinhas, sem manchas de sangue ou miolos grudados nas paredes. Mas a verdade viria imediatamente à tona, quando decidimos despachar o corpo, jogando-o ribanceira abaixo. Ela levantou-se sem temer a arma de meu parceiro, e foi em busca das malas. Corri atrás dela com arma em punho. Quando a encontrei estava vasculhando as malas. Perguntei o que queria. Ela me disse que não poderia deixar a cabeça e as mãos nas malas. E que se tinha que ir, tinha que levá-las. Na dúvida, assenti com a cabeça, calado. E não foi que a louca pôs-se a catar o que havia falado. Mão-de-cepo tomou um grande susto, o negão de quase dois metros de altura ficou branco como uma folha de papel, quando a viu entrar no carro pondo a cabeça e as mãos sobre as coxas.
- Que isso!? – disse ele.
- Se elas ficassem lá, ele seria facilmente identificado – respondeu ela.
Foi quando vimos que o que ela nos havia dito era de fato verdade. A mina era mesmo capaz daquilo, e de muito mais. Quem diria que aquela moça frágil, de beleza delicada, era uma assassina tão fria, como poucas que já vi na vida. E eu, de minha parte, não podia acreditar que, ao vê-la apanhar aquela cabeça com tanta coragem e frieza, já estava terrivelmente apaixonado por ela, ao ponto de tudo isto não ter tido nenhum efeito sobre meus planos. E para piorar ainda mais as coisas para Mão-de-cepo, a mina começou a falar com a gente usando a cabeça como um boneco de ventríloquo, segurando-a pelo cabelo e puxando com sua mão esquerda o maxilar do cadáver. Quando ela aproximou a cabeça do negão, ele quase bateu o carro, soltando um sonoroso “caralho, tira isso daí!”. Nunca tinha visto Mão-de-cepo daquele jeito, já tinha visto o negão encarar a polícia várias vezes, brigar com dois homens ao mesmo tempo, levar facada e usar a mesma faca para matar seu algoz, mas parecia que ele a temia. Que ironia! Temia uma mulher. Ele era do tipo supersticioso. Parou então o carro, e saímos para conversar à beira da estrada vazia, sob um luar escandaloso.
- E agora? O que faremos com ela? A mina é uma assassina, cara. Manteremos ainda o plano de sequestrá-la?
Eu lhe ouvia calado, fumando um cigarro, enquanto Mão-de-cepo continuava esbravejando nervoso:
- Acredita ainda que ela é uma filha de bacana?
O engraçado é que ao saber que ela havia feito aquele crime, isto havia de alguma forma, me aproximado dela; éramos agora como parceiros dividindo segredos, sem que houvesse um acordo prévio. Disse, então, para ele:
- A verdade é que ainda nada sabemos sobre ela. E o fato de ter matado não elimina a possibilidade de ser de família rica.
- Vamos cara, vamos dar logo um fim nisso. Essa mina me causa arrepios. E o cara quem era ele? Pode ter sido algum bacana, cuja a família poderá nos por em cana.
Bem, parecia-me que pela primeira vez na vida a inteligência havia brotado naquela cabeça vazia, pois o que Mão-de-cepo havia dito parecia fazer sentido.
Dei um último trago no cigarro, joguei-o ao longe, e disse:
- É o que vamos descobrir.

Fomos para um motel barato de beira de estrada, daquele tipo que o maior conforto é um velho ventilador rangendo e com as cobertas tão sujas que não devia ser trocadas à dias. Pedimos bebidas e deixamos a mina solta. Ela foi imediatamente ao banheiro, não sem que antes Mão-de-cepo verificasse se havia um meio de fuga. Ficamos a conversar bebendo algumas cervejas que ela pegava da geladeira. E para iniciar a conversa, perguntei a ela se havia sido fácil cortar aquele cadáver. Ela disse-me que quando se sabe o modo certo é tão fácil quanto cortar uma fatia de bolo.
- Modo certo? - retruquei a ela. E ela respondeu-me:
- Sim, quando se sabe um pouco de anatomia. O difícil foi cortar a coluna - finalizou ela.
 Porém esta havia contornado o problema quebrando-a primeiro, após expô-la da carne, com chutes certeiros.
- Mas o mais difícil foi evitar que o sangue respinga-se pelo caminho todo, tive então que esperar que o sangue coagula-se no corpo antes do serviço. A espera durou dez horas - disse-me ela entre um gole e outro de cerveja.
Perguntei-lhe quem era? Ela ficou calada e nada me disse. Até que, de repente, um grito fez-se ouvir dos fundos do quarto, a voz era de Mão-de-cepo. Quando chegamos ao fundo do quarto a geladeira estava aberta, Mão-de-cepo assustado no canto, apontando em direção da geladeira. Quando me aproximei desta logo percebi a causa de tal susto, a cabeça estava na geladeira entre as cervejas, com seus olhos murchos e entre abertos, olhando para fora. Mão-de-cepo repreendeu-a, ela lhe respondeu que tinha que mantê-la conservada. Bem, mas passado alguns minutos tudo se acalmou novamente. Até que para impressioná-la, quando esta veio do banheiro, tive uma ideia estúpida, passei a jogar a cabeça como bola de boliche tentando derrubar algumas garrafas de cerveja que pus no chão. Queria demonstrar-lhe ser tão frio quanto ela. Ela, quando viu a cabeça no chão, tentou imediatamente apanhá-la, dizendo que iria desfigurá-la. Foi quando, ao ver seu interesse, tive uma ideia. Pedi então para que Mão-de-cepo se ausentasse um pouco do quarto. Em seguida peguei a cabeça e ameacei batê-la na parede até que os últimos vestígios de um rosto humano fosse-lhe apagado se caso ela não me dissesse quem era o sujeito. Ela relutou em me dizer. Então bati com a cabeça na parede; um pouco de sangue respingou sobre meu rosto. Ela continuou calada. Bati mais uma vez, desta vez com o rosto virado para a parede. Ela balbuciou algo. Foi quando ameacei mais uma vez bater com a cabeça na parede. Ela, então, finalmente, soltou a língua. Disse-me que o homem era um estuprador, que havia estuprado a filha de um fazendeiro rico, que prometera pagar bem aquele que o houvesse pegado. E a cabeça era a prova disso. Então entendi, finalmente, o cuidado com a mesma. Porém um problema havia agora se formado, como iria dizer a Mão-de-cepo que eu havia me enganado, que a mina não era o que pensávamos.

AS MÃOS

Bem, mas isso eu deixei para depois, o que queria naquele momento era apenas conversar com ela, olhá-la em seus belos olhos negros. E como um sussurro, um segredo, ela havia me dito que aquele tinha sido seu primeiro crime; e que o homem que havia matado também havia lhe estuprado. Aquele segredo me havia acendido; um fogo passou a me queimar depois disso, um fogo de desejo, que eu jamais havia sentido. E lá pelas tantas, passamos a acariciarmos. Minha mão unia-se a sua mão, aquelas belas mãos assassinas. E ambas tornavam-se uma apenas, como nossas almas naquele momento. Despimo-nos e deitamos na cama, ela pôs a cabeça ao lado. E sobre aquela velha e suja coberta transamos em meio ao sangue que ainda saia da cabeça decepada. Nossas secreções uniram-se as anteriores, dos amantes passados, como evidências de novos desejos.
Após o sexo, ela disse-me como tudo havia ocorrido: ela havia seguido o homem até uma boate. Chegando lá, sentou-se ao lado dele, enfrente ao balcão. Ela sabia que o atrairia. E como um golpe certeiro, ele mordeu a isca, passou a olhá-la, pagou a ela algumas doses de bebida e puxou conversa com ela. Ela identificou-se como uma prostituta.  E assim, ficaram por alguns bons minutos. Ele, então, convidou-a a sair...  



segunda-feira, 2 de julho de 2012

SEXO E TAPETES (de Bosco Silva)



Neste décimo capítulo do livro “Sexo, Perversões & Assassinatos”, o investigador Moreira, ao reencontrar-se com a ex-prostituta Neusa, que se auto-denomina como sendo uma “sexogenária”, aproveita o encontro para lhe perguntar sobre hábitos estranhos de seus clientes. Neusa conta-lhe as histórias mais escabrosas vividas por uma velha prostituta.

SEXO E TAPETES


Às dez horas da noite, Moreira estaciona seu barulhento carro, um Maverick preto, 1979, próximo ao conjunto de boates que contornam a orla da cidade. Desce do carro e aprecia a multidão ávida por divertimentos noturnos. E como toda cidade turística, esta não era exceção à regra: possuía uma vida noturna agitada, com divertimentos para todos os gostos, incluindo, claro, os ilegais: sete dias por semana.
A multidão se aglomerava em pequenos grupos, ao redor de mesas de bar ou de luxuosos carros, que ostentavam o poder de compra de seus proprietários. Parecia que a noite mexia com suas paixões, com seus desejos. Era como se, à noite, todos fossem suspeitos. A ilegalidade parecia ganhar certo glamour, e dar sentido ao adágio: “à noite, todos os gatos são pardos”.

Moreira dirigiu-se então para um bar, de onde poderia ver quase todo o movimento de bares e boates. Um bar que parecia ser frequentado por quem queria mais um pouco de sossego.
Pergunta a um garçom por Neusa. O garçom lhe informa que ela está em uma mesa à beira da praia. Dirige-se ao seu encontro.

- Oi! Como vai minha bela “sexogenária”?
- Como a natureza quer: às vezes bem, às vezes nem tanto, mas vivendo... Favor, sente-se. E você, meu querido, como vai?
- Dedicado ao trabalho.
- E a investigação, rendeu-lhe frutos?
- Foi apenas alarme falso.
- Não lhe disse, meu querido? O francês parece ser apenas um cliente qualquer, como tantos outros.
- E como se comporta a maioria dos fregueses, Neusa?
- Bem, pelo menos no meu tempo, eram pessoas solitárias e tímidas, ou homens que iam em busca do que suas mulheres não lhes ofereciam em casa. Alguns já estavam cansados da mesma mulher, do mesmo relacionamento sexual. E ainda havia aqueles que simplesmente viam na prostituta um meio de conseguir o que queriam, sem o trabalho da conquista, ou do trabalho de livrarem-se delas, quando se cansavam destas. Sabe, há também não apenas preconceito às prostitutas, mas também aos homens que procuram elas. Muitos acham que quem procura uma prostituta é incapaz de seduzir uma mulher. Mas não é bem assim: às vezes os homens querem apenas sexo, sem compromisso algum. Não é mesmo?
- Sim. Mas, tirando esses, havia coisas muito incomuns, com relação aos desejos, relação sexual, a essas coisas assim?
- Ah! Sempre têm, né?
- Como?
- Ora, desejos estranhos!
- De que tipo?
- Ah, Ivan, sinto-me com vergonha de contar.
- Mas Neusa, eu ficaria extremamente grato se você me relatasse. Iria ajudar muito nas minhas investigações.
- Bem, sendo assim... – disse Neusa, antes de virar toda a bebida de seu copo, goela abaixo, a fim de tomar coragem. - Alguns clientes tinham uns desejos esquisitos. E eram sempre os que pagavam além da conta. Tinha um, por exemplo, que sempre me chamava para que eu ficasse nua, exceto com relação ao calçado. Ele me pedia para calçar dezenas de pares de calçados, que ele guardava na casa dele. Ele morava sozinho, sabe. E toda vez que eu ia lá tinha novos pares de calçados; de todos os tipos e cores, mas sempre calçados de couro. Pois bem... ele se deitava no chão, sobre o tapete, e me pedia para desfilar ao seu lado, com os pares de sapatos que tinha me dado. Depois pedia pra que eu pisasse sobre ele, sobre o rosto e o peito dele. E ele ficava lá, lambendo os sapatos nos meus pés. Às vezes até mesmo me pedia para pisar no negócio dele; lá... tu sabe onde! – relatou Neusa, gargalhando e cutucando Moreira no braço, com o cotovelo.
- Mas era só isso? Não havia algo mais... Não havia sexo?
- Ás vezes, mas era muito raro. E quando acontecia eu estava sempre de bota.
- Estranho!... E esse homem, perdeste logo contato com ele?
- Durou apenas um ano. Deve ter morrido ou viajado. Pois, depois desse tempo, ele nunca mais me procurou.
- E era sempre com você?
- Claro, meu bem, um programa fácil assim, a gente agarra com as unhas. E eu jurei a ele total segredo; apenas pras amigas mais íntimas eu contava – disse Neusa esboçando um leve sorriso.

Houve uma pequena pausa para que a mesa fosse novamente abastecida com bebidas.

- Sim, Neusa, conte-me mais – disse-lhe, Moreira, após a retirada do garçom.
- Bem, tem histórias engraçadas, como essa, assim como as nojentas e tristes. E também as violentas, que uma prostituta tem que passar... Depois ainda dizem que é a profissão mais fácil do mundo!
- É, é uma pena!
- Essa quem me contou foi uma amiga:

Ela estava aperreada pela falta de grana. Então, um cafetão chamou ela, e disse que um de seus melhores clientes estava precisando de uma menina que topasse coisas diferentes. Ela perguntou então o que seria. Ele, pra sacanear, lhe disse que o cliente pagava muito bem, e que apenas queria que ela jogasse sobre ele, e na vagina dela, manteiga de amendoim para que os dois lambessem.
- Ahã – murmurou Moreira, enquanto levava o copo com bebida à boca.
- Quando ela chegou de táxi à casa do sujeito, viu que não era mentira, o cara morava em um palacete, decorado com mobílias caras e quadros na parede, com molduras pesadas de metal, decoradas com relevos que lembravam muito ouro, assinados por alguém que só podiam ser os artistas verdadeiros. Não se aproximavam nem um pouco daquelas cópias de quadros que vendem nas feiras; então, pensou ela, o sujeito devia pagar muito bem, pois o que não parecia faltar, ali, era dinheiro.
- Sim. Continue.
- Um cara, então, veio recebê-la e levou ela ao seu patrão, um sujeito educado, que tratou ela como uma verdadeira dama. Ele pagou antecipado, uma bolada e tanto de dinheiro. Ela quando viu o dinheiro, pensou que faria de tudo pra agradar aquele sujeito e assim conquistar sua confiança, e, também, mais dinheiro com novos programas. Aceitaria então qualquer coisa que ele quisesse: ménage à trois; vibrador nela, ou nele; dedos e lambidinhas na bundinha dele, etc. Manteiga de amendoim na xereca pareceu a ela fichinha a partir do momento em que a grana reluziu em seus olhos.

E após Neusa tomar mais um gole de bebida, continuou a narrativa:

- Após os dois ficarem nus, veio a surpresa, o sujeito queria que ela se ajoelhasse para que ela mijasse nele, em seu rosto e boca, enquanto ele estava deitado sobre o tapete. Ela estranhou o pedido, mas não viu nenhum problema nisso, afinal de contas era a boca dele e o pagamento compensava, por isso, ela pouco se importava. Porém, depois de seu desejo ser realizado, ele imediatamente quis o contrário. Ela relutou, afinal de contas a boca, agora, era a dela. Ele disse, então, que dobraria o pagamento, caso ela permitisse. E assim foi, com ela permitindo imediatamente.
- Caramba! – pronunciou Moreira admirado.
- E a coisa não parou por aí, não, meu amigo.
- Não?!
- Não. Passaram pra excrementos!
- Que nojo! – exclamou Moreira, após interromper o gole de sua bebida.
- Mas de todas as histórias que aconteceram comigo, e mesmo das que tenha apenas ouvido de amigas, esta parece ser a mais estranha e triste:

Um homem convidou-me para sua mesa, em um bar como este, de esquina. Ofereceu-me bebida e pôs-se a comentar sobre sua esposa, que parecia ser bastante querida. Contou-me sobre todos seus anos de vida, vividos em sua companhia. Porém, havia algo de estranho no que dizia. Contou-me, finalmente, o que eu já suspeitava, que ele soube recentemente que ela o havia traído, e que, no entanto, ele jamais a havia, em todos esses anos de matrimônio, traído. O ódio havia invadido aquela boca, agora. Disse-me, então, que finalmente, como vingança, a trairia. E que me pagaria para que juntos fôssemos ter em sua casa, sobre a cama de casal que ele havia tanto prezado, mas que ela havia maculado. Eu aceitei, bem que ela merecia, assim pensei naquele dia. Ao chegar em sua casa, fomos logo para a cama. O homem transava e chorava; e quanto mais transava, mais chorava ainda. E balbuciava o nome dela. Convidou-me para que saíssemos daquela cama. Eu o compreendi imediatamente, o seu arrependimento, naquele instante. Fomos para o chão, ao lado de um tapete enrolado, e lá ficamos transando... Em um dado momento, ele pôs-se a gritar o nome dela: “Eunice... Eunice... Eunice”, e chorava. Olhou para o tapete, e disse: “Tá vendo? É isso que tu merece”. Eu não compreendia nada do que se passava naquele momento. Talvez o tapete fosse presente de casamento e que, por isso, causasse lembranças dela. Foi o que pensei na hora. Só sei que parecia que o homem endoidara. Mas, alguns dias depois, veio a surpresa. Ao ler o jornal li a matéria, espantada:

CRIME DO TAPETE: homem mata esposa a facadas e a esconde enrolando-a no tapete de casa.
- E lá estava a foto dele, e do tapete. Ele havia matado a esposa, e no outro dia se entregado à polícia – disse Neusa.
- Nossa, que história! Parece que me lembro do ocorrido; já faz alguns bons anos, não?
- Ah! Já!... Já se vão alguns bons anos, sim... Pois é, meu filho, por tudo isso uma prostituta passa. Imagine, eu estava ao lado de um cadáver, e não sabia. Que coisa horrível eu ter feito aquilo, estando o cadáver ao lado! Não é mesmo?

Para ler os primeiros capítulos de SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATO, acesse:https://clubedeautores.com.br/book/130007--SEXO_PERVERSOES__ASSASSINATOS