domingo, 11 de agosto de 2013

CONFISSÕES DE UM LADRÃO DE CALCINHAS (Por Bosco Silva)



Baseado na estranha, escalafobética e esdrúxula história de Vladimir Fomin, o russo que se recusa em vestir-se com roupas masculinas.

SE VOCÊS QUEREM MESMO SABER como tudo começou, então terei que lhes contar desde minha infância, desde o início deste hábito, que é minha alegria e também tem sido minha perdição...
Desde muito cedo descobri as vantagens de ser criança: adorava ver as mulheres mudarem de roupa na minha frente; sentia-me um privilegiado; e mesmo estando com minha mãe e suas amigas, era normal entrar no vestiário feminino quando estas entravam para experimentarem suas roupas novas; ficava lá, sentadinho, com o queixo sobre os punhos olhando seus trejeitos, ouvindo suas conversas e, principalmente, vendo-as desfilarem com suas peças íntimas. Levantava-me e podia ver bem de perto, de pertinho mesmo. E como se não fosse bastante vê-las na intimidade a trocarem de roupa, ainda ganhava carinho e balas. Ah, se elas soubessem em que tudo isto daria... Talvez tivessem evitado estes estímulos. De qualquer forma, esta curiosidade me acompanhou por todo este período.


VLADIMIR FOMIN COM VESTIDO TIPO PIRIGUETE
Por fim, veio a adolescência, esta idade púbere, que também não escaciaria em descobertas. Entreguei-me então intensamente as atividades solitárias, quando descobri, casualmente, uma destas revistas de mulheres peladas, sobre a pia do banheiro; era de um tio que havia esquecido desta durante o banho. Neste dia, quando o maldito me pegou em tal ato, disse-me que não parasse, pois se parasse eu desmaiaria. Eu, confiante em sua autoridade e experiência, fiquei horas a fio em tal ato, com o braço já cansado, esgotado e dolorido, até que o degenerado, rindo, disse-me que tudo era apenas brincadeira. Mas, malgrado o susto, passei então a dedicar-me, incansavelmente, todos os dias, a tal atividade. Até que um dia algo estranho me aconteceu: notei que meu braço direito tornara mais grosso que o esquerdo. Isto me levou a um silencioso desespero, pois pensei que tal ato estava me levando a aleijar-me. Passei então a usar sempre camisas de mangas compridas. Então, como um gênio no assunto, um dia descobri a solução: passei a usar minha mão esquerda, minha bendita mão esquerda, a salvadora! E logo passei a dominá-la com enorme destreza. Confesso que me ajudou muito nas aulas de violão. Foi também nessa época que passei a nutrir um sonho...

VLADIMIR MAIS A VONTADE,
DEIXANDO AS COISAS MAIS AREJADAS
Quando descobri por meio das conversas de minhas tias que havia uma profissão que se dedicava apenas as mulheres, passei a nutrir o sonho de ser ginecologista. Isto mesmo sonhava ser um desses profissionais que estudam tanto apenas para poderem bolinar as mulheres dos outros. Queria ver todas aquelas mulheres nuas e de pernas abertas para mim, pois se todo profissional, como também diziam minhas tias, deve adorar o que faz, eu preferia passar o dia olhando o que mais amava naquele momento: vaginas de todos os tipos e tamanhos: brancas, pretas, vermelhas e pardas. Mas isto foi logo esquecido quando conheci a garota que, neste período, passou a chamar bastante da minha atenção na escola.
Ela tinha os cabelos negros um pouco abaixo das orelhas, os lábios grossos, bem vermelhos e delineados, o nariz bem arrebitado e afilado, os dentes da frente separados por uma pequena fenda, que lhe conferia um sorriso maroto, um sorriso mesmo de garota danada, que estava pronta a fazer qualquer estrepulia. Os garotos de escola logo passaram a chamá-la, curiosamente, de borboletinha. Eu lhes perguntava o porquê de tal apelido, mas eles nunca diziam, somente riam entre si, dizendo a mim que se eu queria mesmo saber o motivo tinha que descobrir por mim próprio.

VLADIMIR COM AS FILHAS
Este segredo os fazia sentirem-se especiais, pareciam com uma pequena sociedade secreta. Tentei várias vezes descobrir o segredo com aquela que passou aos poucos ser uma obsessão para mim. Procurei aproximar-me dela aos poucos. Passei segui-la durante a saída do colégio até sua casa, mas faltava-me sempre a coragem de abordá-la. E não raro, fora do horário de colégio, ia para frente de sua casa na esperança de vê-la por alguns instantes no portão ou na janela, mesmo que fosse por apenas alguns minutos ou mesmo por míseros segundos. Enfim, como já devem ter adivinhado, eu estava, pela primeira vez em minha vida, apaixonado. Sim, por aquela que era a fonte do tal segredo, que aos poucos cada vez mais me atormentava, até mesmo em sonhos. Passei a sentir os intensos sentimentos da paixão: o coração batendo rápido, a mão fria e úmida, a respiração ofegante, quando a via.  E após várias tentativas de me aproximar algo bom aconteceu...
Ao subir no ônibus, apressado, sento-me sem reparar ao lado daquela que aos poucos invadia minha alma. Ela puxou momentaneamente conversa comigo, e eu sempre monossilábicamente lhe respondia. Isto, intencionalmente, tornou-se para mm um hábito, e aos poucos passei ganhar cada vez mais segurança e, consequentemente, mais prolongava a conversa, até que, finalmente, cheguei ao ponto de convidá-la a sair.

VLADIMIR COM  MODELITO MAIS OUSADO
No dia marcado, arrumei-me do melhor modo possível, ansioso para agradar-lhe em todos os sentidos. Esperei ansioso por sua chegada à praça combinada. Desejava demonstrar-lhe o quanto apreciava sua companhia, o quanto lhe adorava. Até que ela chegou acompanhada por um rapaz que ficou sentado bem ao seu lado. Durante a conversa reparei que ele tocava em seu joelho com a mão, pensei então “é um amigo”. Mas com o tempo ele passou a botar levemente a mão em sua coxa, pensei ainda otimista “é uma amigo íntimo”. A conversa fluía amistosamente, quando o sujeito pôs o braço entorno do pescoço dela, e ainda otimista e esperançoso, pensei “é um amigo muito íntimo”. E quando o vi beijá-la no rosto, repeti mentalmente, várias vezes, “é um amigo muito, muito íntimo”. Mas minha alegria durou bem pouco tempo quando vi o tal sujeito, finalmente, beijar-lhe a boca; já não podia mais disfarçar de mim mesmo, e pensei desolado “sim, é seu maldito namorado”. Senti como se o chão sumisse sob meus pés; sentia-me caindo em um buraco fundo; tudo ao meu redor pareceu crescer instantaneamente; tudo parecia ter ganhado mais importância que eu, naquele momento.

FOMIN COM ESPOSA
CONTINUA...

Abaixo, um vídeo com nosso herói:



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

SEXO ANAL E PROIBIÇÕES MORAIS (Por Bosco Silva)



Um blog como o INFERNO DE SADE que tem como filosofia a busca do autoconhecimento por meio da sexualidade, vista como algo que não se resume apenas ao ato sexual, mas sim a toda forma de sensibilidade que tenha como objetivo o contato mútuo entre dois corpos, duas mentes (ou mais), ou mesmo de uma pessoa consigo própria, com a finalidade de conhecer desejos, carências, medos, etc. do outro e de si próprio, irá, sempre esbarrar em preconceitos e tabus; e, claro, também com a maior fonte de preconceitos e tabus de hoje e de sempre: a RELIGIÃO.
Por isso todo discurso moralista que se prese tem a religião, com toda sua carga de proibições e preconceitos, como base de seus argumentos. Assim quando o assunto é homossexualidade, logo ouvimos um:
Sou contra a homossexualidade porque deus criou homem e mulher, para que, como casal, se reproduzissem”.

O que pessoas com tal opinião não veem, ou não querem ver, é que argumentos baseados em preconceitos não explicam a realidade; e, como no caso acima, não servem de modelo para nenhuma divisão correta de gêneros sexuais, já que não leva em conta um importante fenômeno, relativamente comum, que destrói seu argumento, o HERMAFRODITISMO, que é a característica que algumas pessoas possuem de portarem os dois sexos no mesmo corpo. O que o torna, por sua vez, um gênero diferente dos anteriores.



E como classificar alguém que nasceu com os dois sexos em uma das categorias, isto é, como homem ou mulher? Como determinar quais as características mentais que irá determinar que o indivíduo se adaptará melhor a um órgão mais que a outro, na hora de uma eventual operação? E a mais importante pergunta: se podemos nascer com dois órgãos sexuais, por que não poderíamos nascer com características mentais dos dois sexos, ou com desejos sexuais direcionados para pessoas do mesmo sexo que nós?
Do mesmo modo, quando se fala em sexo anal logo todo um aparato religioso se junta como forma de demonstrar, às vezes com argumentos pretensamente científicos, assim como no caso da homossexualidade, que as proibições morais quanto a ele estão corretas.
O vídeo, abaixo, é um bom exemplo disso. Nele a psicóloga ESPÍRITA, Anete Guimarães, discorre sobre o sexo anal; e por meio da fisiologia, anatomia e de doenças do corpo humano, sustenta que o sexo anal não apenas é anormal, antinatural, como prejudicial à saúde, tanto para casais héteros quanto homossexuais. Para tanto ela se baseia em sua experiência passada com pacientes homossexuais masculinos em fase terminal devido a AIDS.


SEXO ANAL E ENDOCARDITE BACTERIANA
No vídeo, ela nos conta que durante seus trabalhos acadêmicos de classificação das principais doenças oportunistas em doentes com AIDS, se deu conta de que todos os 120 pacientes do hospital em que trabalhava, tinham ENDOCARDITE BACTERIANA, que é a colonização das válvulas do coração por bactérias. Então ela pensou que se devia a AIDS, mas um professor orientou-a a fazer a mesma pesquisa em outros pacientes também imuno-depressivos, porém não aidéticos. Descobriu então que nenhum destes possuía a doença, mesmo sendo imuno-depressivos, como os aidéticos. O que a levou a descobrir que a origem para tal doença, era as práticas passadas de sexo anal que os pacientes com soro positivo possuíam em comum, pois o rompimento da mucosa intestinal durante o ato sexual possibilitava a passagem de bactérias intestinais, via corrente sanguínea, e desta, ao coração. Concluindo, com base nisso, que o sexo anal, tanto em homens quanto em mulheres, é algo prejudicial à saúde, pois produz ENDOCARDITE BACTERIANA.

RESPOSTA:
O preconceito de Anete se dá na generalização e na omissão de importantes dados, causando erros em seu argumento, como:
1. Ela previamente associa, sem dar nenhuma explicação, todos os 120 pacientes com AIDS à homossexualidade e, por sua vez, como praticantes de sexo anal; o que é um erro - que apenas um forte preconceito pode explicar tal generalização - já que se pode contrair o vírus da AIDS por outros meios também, como transfusão de sangue; por uso comunitário de materiais cortantes, como tesouras e pinças etc.
2. Não há, por parte dela, nenhuma explicação se os outros pacientes, não-aidéticos, mas imune-depressivos, não eram homossexuais, nem praticavam sexo anal. O que era importante frisar para seu argumento.
E o mais importante:
3. Ela não explica que ENDOCARDITE INFECCIOSA tem também como uma de suas origens Infecções dentárias, que é uma de suas principais causas. Portanto, ela não explica quantos destes portadores de AIDS, possuidores de ENDOCARDITE INFECCIOSA, tiveram infecção dentária como a origem da doença e não o puro e simples sexo anal.

MULHERES NÃO SENTEM PRAZER POR MEIO DO SEXO ANAL?
No vídeo, Anete também argumenta que, por não haver terminas nervosos de sensibilidade no reto, as mulheres não sentem nada a não ser dor praticando sexo anal; e que sendo esta sua condição apenas o prazer sádico de seus parceiros faria com que estas preferissem tal atividade a usufruir de seu órgão próprio de reprodução.

RESPOSTA:
Aqui, novamente, Anete comete algumas generalizações indevidas e incoerências, como:
Se não há terminais nervosos de sensibilidade no reto como é possível a dor, já que esta está ligada a esses mesmo terminas nervosos?;
E se estes órgãos produzem dor também são capazes de produzir prazer, logo o sexo anal pode, sim, embora certamente não seja o caso de todas as mulheres nem todos os homens, produzir prazer.
Ela também não parece ligar para a acrescente popularização da prática do sexo anal, com crescente depoimentos de mulheres em favor de tal atividade, em uma época em que as mulheres possuem maior direito e liberdade em relação a seus corpos e ao prazer sexual. 
Por outro lado, Anete parece viver em uma época contrária, em que a mulher ainda tem seu prazer excessivamente subjugado por seus companheiros, e em que o sexo ainda é visto apenas como atividade de reprodução.

*Texto publicado no blog: http://infernodesade.blogspot.com.br   

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

LIGAÇÕES PERIGOSAS - trecho "A Marquesa de Merteuil" (de Choderlos de Laclos)









“Digo meus princípios, e digo-o propositadamente; pois não provêm, como o de outras mulheres do acaso, nem são recebidos sem exame ou seguidos por hábito; são os frutos de minhas profundas reflexões; criei-os, e posso dizer que sou minha própria obra.
Entrando na sociedade em um tempo em que, solteira ainda, estava naturalmente voltada ao silêncio e à inação, aproveitei para observar e refletir. Enquanto me acreditavam estouvada ou distraída, dando, em verdade, pouca atenção ao que me procuravam dizer, muita prestava ao que procuravam esconder de mim.
Esta útil curiosidade, ao mesmo tempo que servia para me instruir, ensinava-me a dissimular [...] Se sentia alguma mágoa, aplicava-me a assumir um ar de serenidade, e até de alegria; levei o zelo a ponto de provocar dores voluntárias, a fim de procurar durante esse tempo a expressão do prazer [...] De posse dessas minhas primeiras armas, tentei servir-me delas; não satisfeita com não mais me deixar penetrar, diverti-me com mostrar-me sob diferentes formas; segura de meus gestos; controlei minhas palavras; regulei uns e outros de acordo com as circunstâncias e as minhas fantasias. A partir de então, minha maneira de pensar foi unicamente minha e só mostrei o que me era útil deixar transparecer [...] ainda algumas observações [... Depois de viúva] Reforcei-as pela leitura; não imagineis, entretanto, que foi toda ela do gênero que pensais. Estudei nossos costumes nos romances, nossas opiniões nos filósofos, procurei até nos moralistas mais severos o que exigiam de nós, e assegurei-me, assim, do que se podia fazer, do que se devia pensar e do que era preciso parecer. Uma vez a par disso tudo, verifiquei que somente a última coisa apresentava algumas dificuldades de execução; esperei vencê-las e meditei sobre os meios de fazê-lo.
Começava a aborrecer-me com meus prazeres rústicos, muito pouco variados para a minha cabeça ativa. Sentia uma necessidade de coqueteria que me reconciliou com o amor; não para senti-lo, em verdade, mas para inspirá-lo e simulá-lo. Em vão me tinham dito, e eu o lera, que não se podia simular esse sentimento; eu percebia, entretanto, que para consegui-lo bastava juntar ao espírito de um autor o talento de um comediante. Exercitei-me nos dois gêneros, e talvez com algum êxito; mas ao invés de procurar os vãos aplausos do teatro, resolvi empregar na minha felicidade o que tantos outros sacrificavam à vaidade [...] Comecei, então, a desenvolver no grande palco da sociedade os talentos que adquirira. Meu primeiro cuidado foi conquistar a fama de invencível. Para consegui-lo, os homens que não me agradavam foram sempre os únicos de quem fingi aceitar homenagens. Empregava-os utilmente para angariar as honras da resistência, enquanto me entregava sem receio ao amante preferido”.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A VINGANÇA DO CORNO (de Paulo Lins)



Duas vizinhas conversavam na Quadra Catorze.
- Seu marido não te chupa, não? Ah, minha filha... Você não conhece as coisa boa da vida. Antes do meu meter, tem que cair de língua uma meia hora. E no cu? Você não deixa ele colocar no teu, não? Você não sabe o que é bom. Nas primeiras vezes dói, mas depois vai que é uma beleza. Você pega uma banana, esquenta ela um pouquinho, enfia na xereca e manda ele colocar atrás. Parece que você vai voar. Você já fez carrossel? Saca-rolha? Trenzinho? Funil? Dedinho? Meia nove? Tapadinho? Enrola-enrola? Entupidinho? Suga-suga...? 
A cearense decidiu: quando o marido chegasse iria lhe propor as maravilhas do amor. Mas não deu certo, o marido, além de não querer tal safadeza, ainda deu-lhe uma surra para ela parar de pensar em putarias.
Seguro da proveniência de tamanho descaramento, ele ainda a proibiu de conversar com as vizinhas. A cearense, enquanto apanhava, pensava em arrumar um homem que fizesse as tais maravilhas com ela, se vingaria do marido sentindo prazer de verdade, mas tinha que ser com um crioulo, porque a vizinha garantira que todo negão tinha pau grande. Quanto mais apanhava, mais vinha à mente a imagem de um negro com o pênis avantajado mandando ver atrás e ela com a banana esquentada na frente. 
No outro dia, não saiu de casa. Fez compressas com erva de Santa Maria para curar os hematomas, passou abacate com gema de ovo no cabelo para que ele tomasse jeito, emplastou o rosto de mel com limão. Bom remédio para manchas, cravos e espinhas. O dia passava lento numa trama de traição. Sim, iria meter com o peixeiro e isso seria mole, porque homem é que nem rato: é só mostrar o queijinho que ele vem correndo. Poderia vestir uma camisola vermelha e puxá-lo para dentro de casa na hora em que ele fosse entregar o peixe, ou segui-lo até um local seguro para poder atacá-lo. Quem sabe se um menino da rua lhe entregasse um bilhete, seria fácil se soubesse seu endereço, chegaria em sua casa, antes de ele sair para o trabalho, e o pegaria descansado ou então, se nada disso desse certo, chegaria pertinho dele na próxima vez que o visse e diria: "Vem cá, pirocudo, bota aqui com vontade!".

* * *
Depois de dois dias, ainda que com medo, o peixeiro estava atrás da cearense mandando bala, e ela com a banana esquentada em seu devido lugar. 
O marido, depois do trabalho, ia à birosca do Chupeta jogar sinuca e embriagar-se a cada bola morta num dos seis buracos desta vida. Deixava a hora passar porque homem que é homem não pode chegar na hora prometida, tem de chegar na hora que bem entender, com cheiro de cachaça misturado ao de suor do trabalho pesado. Queria que a esposa fosse decente igual fora sua mãe. Não admitia que ela ficasse de papo com as crioulas da rua, proibiu-a de usar blusas decotadas e saias curtas, e calças compridas só se fossem bem largas, de pano grosso para que ninguém visse as marcas da calcinha. 
A esposa não relaxou com os afazeres domésticos, mas não ligava mais para o marido, agia friamente na hora daquele sexo sem nenhuma novidade. Por duas vezes fingiu doença na hora do vamos ver. Depois de alguns dias, resolveu tratar o marido normalmente, seguindo o conselho da vizinha. Mostrou-se arrependida das indecências propostas. O cearense sentiu-se vitorioso, finalmente a mulher compreendera que ele estava certo. Passou a chegar em casa cedo.
No sábado seguinte, depois das compras, levou a esposa ao parque de diversões. Comeram maçã do amor, pipoca doce, deram tiro ao alvo, jogaram argolas e, ainda, andaram na roda-gigante. Tudo isso para agradar a esposa, que. agora sim, parecia com sua mãe. No domingo, ao invés de comprar a maldita carne de porco, de que ele tanto gostava e que ela odiava, optou pela galinha, prato predileto da esposa que continuou a receber o peixeiro todos os dias da semana. 
Numa segunda-feira, o cearense, como de costume, chegou ao trabalho cedo, já havia se trocado para o batente quando recebeu a notícia de que não haveria expediente. Ainda bebeu uma dose com os amigos antes de tomar o caminho de casa.
O peixeiro já havia feito a esposa do outro atingir o orgasmo três vezes, estava se recuperando para começar tudo de novo. 
O trabalhador desembarcou do ônibus lá na frente. Resolveu comprar uma dúzia de limões para passar o dia bebendo caipirinha, tirando o gosto com sardinha frita. A maluca da sua mulher dera agora para comer peixe como nunca. Se quisesse comer um torresmo ou uma linguiça frita tinha de ir à birosca. Mas estava tudo bem, pois depois dos tabefes ela tinha se tornado uma mulher de respeito. Era feliz. 
Em sua casa, o peixeiro deixava a língua escorregar, entrar e sair, hirimbolar na xereca da cearense. A primeira vez que ela pediu para fazer sexo oral, ele contestou. Imaginava que havia resto de porra do marido, gotas remanescentes da última mijada. Na segunda vez, caiu de língua com mais vontade, chegou até a machucar a mulher. Na terceira vez, esfregou o nariz, depois lambuzou o rosto todo. Daí em diante ficava ali esfomeadamente. 
O cearense passou em frente à Padaria Verde e Rosa, fazendo e desfazendo sombras de pernas no caminho.
Acendeu um cigarro ao entrar na praça da Quadra Vinte e Dois. Antes de atravessar a rua para ganhar a praça dos Garimpeiros, parou para jogar conversa fora com uns amigos. Andou mais uma quadra, avistou o muro de sua casa. Pensou em chamar a mulher para dar um bordejo na ilha de Paquetá, mas não, seria melhor ficar em casa, esticar em sua própria cama a soneca que costumava tirar depois do almoço em cima de uma tábua, na obra. Entrou em sua rua, achou estranho o rádio desligado, pois daquela distância poderia ouvir Cidinha Campos berrando no transmissor, ou então sua mulher cantarolando junto com o rádio. Quando faltavam dois passos para seu corpo ser envolvido pela sombra que o muro de sua casa dava àquela hora da manhã, viu a desgraçada da vizinha olhando, pela greta da janela, a rua desavisada. Remexeu o bolso à procura das chaves, seus dedos huliram a caixa de fósforo, as moedas, o canivete e as fichas de telefone. Teve dificuldade de rodar a chave no tambor, empurrou o portão de ferro vagarosamente. A janela da frente estava fechada, assim como a porta e o basculante do banheiro. A areia e as pedras que havia comprado estavam lá no canto esquerdo do quintal. No chiqueiro, Margarida dormia na manhã que se estendia da caçarola sem alça até a bacia furada. As galinhas estavam quietas nos poleiros, sinal de que já haviam sido alimentadas. No pequeno jardim, os girassóis vergavam ao vento brando. O cearense preocupou-se por causa do silêncio, sua mulher não era de dormir até tarde. Foi para o lado esquerdo do quintal olhando para o chão. Acendeu outro cigarro, caminhou para a porta de casa, enfiou a chave na fechadura, dessa vez não teve nenhuma dificuldade em rodar o tambor. A cozinha mantinha-se sem nenhuma louça suja. Na sala, um filete de luz solar desafiava a janela e fazia o cearense ver uma reta de poeira boiando no espaço. A imagem de padre Cícero, de frente para a porta, nada resmungava. O barulho da água caindo na caixa era o único dentro da casa arrumada, com o cheiro de peixe destoando da limpeza que seus olhos constatavam. O tapete cor de sangue pisado não estava no lugar de costume, ajeitou-o mecanicamente com os pés. Caminhou para o quarto, viu a esposa caída por cima da calça de tergal, que ele pedira para costurar, fingindo sono profundo. 
- Que que houve? - perguntou a cearense depois de sacudida pelo marido. 
Nosso encarregado dispensou nós hoje. O engenheiro bateu as botas - respondeu o cearense, que, ao invés de preparar a caipirinha, vestiu uma bermuda e foi para o quintal cavucar a terra. 
- Você em vez de aproveitar para descansar já vai arrumar trabalho, homem de Deus? 
- Vou fazer uma cisterna aqui do lado. Essa caixa-d'água é pequena demais pro meu gosto, se faltar água uma semana nós morre de sede. 
Lá pelas treze horas, já havia escavado catorze palmos de terra. Resolveu parar o serviço, almoçar e tirar um cochilo. A mulher aproveitou o dia remendando as roupas velhas. Volta e meia pensava: "Depois que virou corno esse homem está que é um carneirinho".
A noite veio rápida.

* * *
Depois de molhar as plantas, a esposa foi para o portão conversar com a vizinha, naquela nova manhã de sol largo no céu:
- Foi por pouco, hein? 
- Ah... Mas Deus é pai, minha filha! 
- Eu acho que ele está desconfiado. Quantas vez ele já veio assim sem avisar? 
- Só uma vez que deu uma dor aqui, lá nele - apontava para o braço -, e um amigo dele veio trazer ele em casa. 
- Foi Deus que te ajudou, se eu não vejo ele no mercado, ele ia dar maior fraga em vocês... Se eu fosse você, eu ia saber pra ter certeza. 
- De que jeito? 
- Vamo lá no terreiro da minha cunhada que ela chama a pombagira pra você. 
Saíram depois do almoço. Haveria de resolver tudo sem demora, porque, às vezes, o cearense chegava antes das cinco. 
- Eta, moça formosa! Eu já sei tudo que essa filha da terra quer saber... É só colocar presente pra mim na encruza, que quanto mais você for com o outro ele mais acredita em você - a pombagira afirmou e gargalhou em seguida. - O negócio da banana deu certo, hein, moça? - continuava a pombagira. - O negócio tá bom lá, né? Aqui na terra de vocês o melhor de tudo é fuder até dizer chega. Já que o de casa não sabe fazer gostoso, teve que arrumar na rua, né, moça? - gargalhava. - Você compra tudo que eu lhe mandar e coloca na encruzilhada à meia- noite... 
- Mas eu não posso sair de noi... 
- É só dar o zimbrador pro cambone que ele compra tudo e faz o despacho pra você - finalizou a pombagira dando gargalhadas e jogando marafo em cima da cearense. 
No outro dia, a esposa não esperou meia hora da saída do marido para ir atrás do peixeiro: 
- Vamo lá pra casa. Agora eu me sinto segura. Ontem a gente deu azar. 
De imediato o peixeiro se contrapôs à mulher, mas depois de ouvi-la montou-a na garupa da bicicleta e partiram para a casa dela. A rua estava cheia de crianças em diversas brincadeiras e comadres em fofocas matinais. A cearense não teve o mínimo pudor de adentrar o quintal levando o peixeiro pela mão. Depois da cearense abrir a porta da casa, o peixeiro tomou-a pelo braço e tascou-lhe um beijo quente. Alisava com fervor a intimidade de seu corpo, ela fazia o mesmo, O amante já ia desabotoando-lhe a blusa quando recebeu a paulada que o levou ao chão. 
Antes que a cearense emitisse o grito que seu desespero ensaiara, foi amordaçada, em seguida amarrada e jogada no buraco cavado pelo corno no dia anterior. O marido enfiou sua peixeira afiada no peixeiro, arrastou o corpo para cima da cearense que se revirava no fundo do buraco, foi cobrindo-os de terra. A mordaça desprendeu-se, ela ia gritar, mas a terra que recebeu no rosto a impediu. O cearense, depois de cobri-los, fez uma massa forte de cimento e terra preta, jogou-a por cima da catacumba improvisada.
 Depois do serviço pronto, passou a mão na mala, conferiu a passagem e cascou pro Ceará. 


quinta-feira, 18 de julho de 2013

A COMUNHÃO DA CARNE (de Bosco Silva)



Enquanto o velho mestre Sadus contornava as dezenas de corpos que se amontoavam, se contorcendo, uns sobre os outros, no ritmo frenético do sexo, disse a sua nova discípula:
- Dispa-se.
E ao vê-la esconder-se sob suas vergonhas, disse o velho sábio:
- Nos ensinam, há mais de dois mil anos, a termos vergonha de nossos corpos, a odiarmos o que nós próprios somos, a termos vergonha de nossa própria natureza. Nossa moral e religião nos ensinam a associar castidade à dignidade e liberdade, a não seguirmos os desejos do corpo, a castigá-lo para não sermos escravos do mesmo, de seus apetites e desejos; o homem soberano, para esta forma de pensar, não se deixa levar por seus impulsos e instintos.
E após ouvir suas doces palavras a jovem despiu-se lentamente revelando um corpo belo e fresco, um corpo que ainda não havia sido tocado por nenhum outro. E enquanto o velho sábio pôs-se a tocar-lhe suas entranhas com os dedos, disse-lhe em meio aos seus sussurros e gemidos:
- Porém, por trás de tal concepção se esconde uma luta ferrenha e doentia entre cada indivíduo consigo próprio: uma luta entre os impulsos mais naturais do homem e o desejo inútil de abafá-los, de calá-los, gerando sentimentos de culpa desnecessários. E onde há culpa, há também castigo. Não admira que as igrejas estejam abarrotadas de pessoas obcecadas com os sentimentos de culpa e de pecado, já que aprendem, desde que nascem, a identificar em todas as coisas naturais expressões de pensamentos pecaminosos.
A discípula, em meio a sussurros e gemidos de outras mulheres que eram penetradas com vigor por centenas de machos sedentos pelo mais excitante sexo, fazia força para ouvi-lo enquanto este continuava a falar-lhe, com os dedos em sua vagina:
- Contudo, o homem verdadeiramente livre é aquele que segue a natureza, que não luta consigo próprio, contra sua própria natureza; não é alguém dividido entre o que se é e o desejo de negar a si próprio. Enfim, ser livre jamais implica em renúncias, mas ao contrário, o verdadeiro escravo é aquele que, ao reprimir seus impulsos naturais, torna-se carrasco de si mesmo.
De repente, o lugar encheu-se de gemidos, as mulheres tinham o rosto banhado por dezenas de machos que ejaculavam abundantemente. 
- Mas... veja eles – prosseguiu o mestre, olhando para a cena que fervia em sua frente -, por meio do sexo buscam, inconscientemente, harmonizarem-se com a natureza, e ao fazerem isso, harmonizam-se consigo próprios, com o que verdadeiramente somos; são crianças ouvindo o chamado da natureza, sem culpa ou pudor, felizes com seus instintos, mas com segurança. Ouça... – disse Sadus com voz baixa e sussurrante ao pé do ouvido da jovem discípula enquanto esta alcançava o mais vigoroso orgasmo – ouça o chamado da natureza...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

"50 TONS DE CINZA" E O MUNDO REAL DOS SADOMASOQUISTAS

  

No famoso romance "50 Tons de Cinza", da britânica E. L. James, a personagem Anastasia Steele, uma ingênua virgem de 21 anos - fato tão incomum em nosso mundo dominado pela informação e internet e que parece mesmo não refletir um adolescente de 15 anos em nossos dias - estudante de literatura, é levada ao mundo do sadomasoquismo pelo misterioso multimilionário Christian Grey. Ele, após envolvê-la sexualmente, lhe propõe uma espécie de jogo sexual, em que Anastasia se mostrará totalmente submissa aos seus desejos e caprichos, por meio de um acordo redigido em papel e propenso as penalidades da lei, caso for quebrado.

O que talvez muitos dos milhares de leitores deste romance água com açúcar não saiba é que, o tal contrato, que no livro é um elemento importante de excitação, e que tem estimulado as fantasias sexuais de centenas de milhares de mamães pelo mundo afora, não é tão original como possa parecer e que se a personagem Anastasia fosse uma boa estudante de literatura saberia que Christian Grey, não passaria de uma cópia sádica e mal feita, construída nos moldes das modernas sociedades capitalista ocidentais, de um escritor austríaco de nome Leopold Von Sacher-Masoch.

LEOPOLD VON SACHER-MASOCH

Leopold Von Sacher-Masoch (1836 - 1895) no longínquo ano de 1869, então com 33 anos, conheceu Fanny de Pistor Bogdanoff, bela mulher, nobre como ele, e que acima de tudo o amava. Masoch lhe propõe um pacto redigido como contrato: durante seis meses ele será seu criado. Ela poderá fazer com ele o que bem entender. A única ressalva é que permita que ele continue a escrever seus romances durante três horas por dia.

O prazer de Masoch é obtido à custa do sofrimento. Fanny estranha a proposta, mas, por amor, aceita. O casal vai para a Itália em Nápoles para não serem reconhecidos, já que moravam na Áustria. Masoch vestia e comportava-se como um criado polonês, que acompanhava a princesa. Ambos adotam práticas sexuais pautadas pelo sofrimento físico (chicotadas e tapas no rosto) e moral (tratamento como escravo, ofensas e xingamentos).


MASOCH E SUA AMADA FANNY

O próprio Sacher-Masoch nos conta como seu fetiche por peles, dor e humilhação começou:
Quando criança apaixonou-se por uma tia. E quando estava escondido em meio aos casacos de pele no armário do quarto desta, a viu manter relação sexual com um homem. E ao ser descoberto, foi espancado por ela. Isso, de alguma forma, fez com que ele associasse prazer, excitação sexual e casacos de peles com submissão, humilhação e dor, pelo resto de sua vida.

Seu relacionamento conturbado com Fanny e também seus fetiches seria mais tarde transportado para um de seus romances: A Vênus das Peles.

Na história o personagem principal, que na realidade é o próprio Masoch, cujo nome ficcional é Severin, propõe um contrato para o personagem que representa Fanny, com o nome de Wanda, que prevê explicitamente o papel de cada um, ele, diferentemente de Christian Grey, no de escravo e ela como tirana, além da exigência de que ela deveria cobrir-se de peles ao açoitá-lo. Mas como podemos ver, vai entrar em cena o ciúme, já que a personagem Wanda tem liberdade para flertar com outros homens, quase que é obrigada a isso, já que no contrato ela dever humilhá-lo, castigá-lo, torná-lo um animal ou objeto e não consta sexo, desta forma, ela tenderá a buscar um homem para essa finalidade, mesmo amando-o, criando uma reflexão sobre esse tipo de relacionamento, os limites do amor e a pequena linha que separam o senhor do escravo.

Por fim seu nome originou o termo masoquismo; mas isso é uma outra história...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

AS VELAS DE SADE (de Bosco Silva)



Após alguns minutos, Renata reaparece na sala, com os cabelos emaranhados e vestindo apenas uma calcinha. Dirige-se para a cozinha. E durante sua volta, com uma garrafa de bebida na mão direita, estende sua mão esquerda para Moreira, convidando-o para se juntar à festinha:
- Vamos, não fique aí sozinho.
Ao chegar ao quarto, Moreira vê o corpo nu de Kamy sobre a cama, um corpo escultural e moreno sob a leve luz da tarde, que ainda teimava em entrar pela janela. Renata segue então em direção a ela, enquanto Moreira prepara um drinque. E enquanto degusta a bebida, observa aqueles dois corpos que se entrelaçam, compondo linhas e formas dignas de uma obra de arte.
Kamy o chama, quer um gole da bebida. E enquanto Moreira se aproxima com a bebida, Renata o toma pelos braços, deitando-o sobre a cama, beijando-o e despindo-o.
Logo, os três corpos se entrelaçam seguindo os movimentos eufóricos do desejo. As bocas movem-se em todas as direções e em todos os lábios; as mãos, cegas, tateiam a superfície do desejo. Uma onda de calor parece irradiar de todos os corpos.
Renata, então, abre a gaveta do criado-mudo, tirando uma vela vermelha, e diz baixinho: “agora é a vez das velas de Sade”. Acende. E enquanto Moreira penetra Kamy, Renata põe-se a pingar cera de vela, sobre o corpo da amiga que, dominado pelo desejo, se contorce de prazer, com gemidos e gritos esfuziantes de prazer e dor. Os pingos caem sobre suas costas, seios, coxas, nádegas... Pingos vermelhos como sangue que, quentes, caem coagulando sobre a carne. A inversão é inevitável e, logo, também estaria Kamy pingando as velas de Sade sobre o corpo da amiga...

A festa continuaria ainda durante algumas horas. E exauridos pelo desejo, todos finalmente dormem.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

UMA CARONA E UMA GRANDE POLÊMICA (Por Bosco Silva)




VEJA OS VÍDEOS ABAIXO E DEI SUA OPINIÃO



ABAIXO, ALEXANDRE RESPONDENDO AS CRÍTICAS DO VÍDEO ACIMA


NOVA EDIÇÃO DE "SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATOS" (de Bosco Silva)



AO LEITOR

"O PÊNIS É A MENOR DISTÂNCIA ENTRE DUAS ALMAS"
MARQUÊS DE SADE

AO LEITOR
Antes que você, meu caro leitor, se pergunte, com horror em seus olhos, “o que deve se passar na mente de alguém que escreve sobre estupro, incesto, pedofilia, blasfêmia, bestialidade...” - pergunta tantas vezes feita a mim em silêncio -, chegando a concluir, erroneamente, a existência de certa atração criminosa do autor por tais práticas, devo lhe dizer que, em primeiro lugar, você desconhece uma das grandes funções da arte, e, certamente, um dos grandes motivos que alimenta o artista em sua prática: o prazer de criar mundos novos com o poder inesgotável da imaginação; o que não quer dizer que o autor não participe com sua experiência de vida em sua obra, mas que, sendo uma obra de ficção, a imaginação é o elemento fundamental para sua feitura. Portanto, nunca confunda o autor com sua obra: o escritor com o livro, ou o ator com seu personagem.
Gostaria também de lhe dizer que grande parte de seu horror se deve ao seu total desconhecimento da obra daquele que, sem dúvida, é o grande personagem do livro, o escritor francês Marquês de Sade: autor que passou grande parte de sua vida em hospícios e presídios por suas ideias e por seu comportamento sexual desregrado, com obras contendo práticas sexuais tidas como não convencionais; e, por fim, tornando-se (negativamente) conhecido ao tornar-se modelo, emprestando seu nome ao conceito psiquiátrico de sadismo: “prazer em infligir dor ou humilhação ao outro; bem como de sentir prazer com o sofrimento alheio”.
E como escrever um livro sobre Sade sem que choque uma grande parte do público, por conter descrições cruas e duras da sexualidade humana, que lhe fizeram ser tão original em sua arte? Impossível sem perder a coerência de seu pensamento. Pois esta é a tarefa que se propõe o texto presente: trazer Sade através de seu pensamento e obra, por meio de uma divertida história policial, cheia de humor e reviravoltas, ao nosso moderno mundo, cheio de turistas sexuais e de saites pornôs da internet, capazes de saciar os gostos sexuais mais extremos de seus milhares de frequentadores. A obra tem também a tarefa de mostrar o quanto ainda é útil o pensamento de Sade na análise da sexualidade humana.
Por fim, aconselhamos ao leitor que prosseguir com sua leitura: leia o livro tendo em vista tais ideias, esquecendo por um breve momento suas concepções morais sobre o tema; e aos leitores que porventura possam se ofender com o que nele está contido, não culpe o autor pela descrição crua da sexualidade humana, mas culpe a vida por ela não ser como você gostaria que fosse.
O autor

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A NOVA LEI (de Bosco Silva)


JÁ FAZ SETENTA ANOS QUE A LEI CONTRA OS LIVROS foi instaurada no Brazil.
A coisa começou timidamente. No início pouco incentivo era dado a educação: os professores ganhavam mal, tornavam-se relapsos e ignorantes por não ter como comprar livros; os alunos aprendiam bem menos e passaram a escrever apenas o necessário; escolas tornaram-se apenas ponto de tráfico de drogas e prostituição; professores eram espancados por alunos em plena sala de aula; e para compensar a escrita limitada dos poucos que ainda sabiam escrever da população, o governo criou um novo ministério, o MINISTÉRIO DAS LETRAS, que imediatamente passou a proibir o que julgava ser desnecessário; logo o trema foi proibido da língua portuguesa, assim como verbos e muitos, muitos sinônimos que jugavam também desnecessários.


O poderoso partido do governo passou a policiar jornais, revistas, livros, propagandas, internet etc., impondo suas novas leis da escrita por meio do Politicamente-Correto. Também foi criado o MINISTÉRIO DA FALA que passou aplicar as novas leis da escrita à linguagem falada; pessoas eram vigiadas nas ruas, e quando era pronunciada uma das palavras proibidas estas pagavam multas ou eram trancafiadas em prisões. Escritores eram caçados, mortos ou presos em prisões de segurança máxima. Livros tiveram que ser reescritos, e somente aqueles que obedeciam à nova lei eram permitidos, os antigos eram proibidos e recolhidos; os clássicos eram adulterados.


Pequenos levantes contra o governo surgiram de universidades, que reclamavam da deturpação dos antigos livros; mas eram logo massacrados. Porém a coisa ficou pior, pois como forma de acabar com o tráfico de livros antigos, estes passaram a ser queimados em grandes fogueiras em praça pública. Contudo, logo o governo reconheceu seu erro: os leitores sempre foram tão poucos no Brasil que mais fácil foi queimar os poucos que liam do que os livros.

BRAZIL. ANO: 2069: ÚLTIMO RELATÓRIO ESCRITO POR UM COMPUTADOR........ EM.......
................LÍNGUA.........
....................................................PORTUGUESA..............................................................................................................................................................................................................................................................................................................