domingo, 16 de setembro de 2012

ANJOS DA NOITE (de Wilson Barros)

 
Monólogo de Lola (Chiquinho Brandão)
 
"Eu não fiz nada, porra!
Eu não fiz nada!
Por que eu?
Porque eu sou veado?
Por que?
Porque eu me visto de mulher e acredito nisso?
Eu sou a fantasia barata de todos vocês.
E vocês?
Que me ignoram com essas caras de imbecis.
Seu bando de bunda-moles!
Passivos!
Mesmo com toda a promiscuidade vocês nunca deixaram de ser muito bem comportados.
Eu conheço o sonho de todos vocês seus veados, frouxos!
Suas esperanças são pobres.
Miseráveis!
Hipócritas!
Vocês gostariam mesmo era de serem mulherzinhas, maridinhos.
Se pudessem teriam um bando de filhinhos.
Uma fileira de adoráveis monstrinhos.
Mas pode esquecer essa merda toda!
Banheiros imundos,
Bancos traseiros de carros,
Sombras,
Sexo escroto,
Pelo meio,
O tesão sempre no lugar errado,
Quem?
Ninguém vai reagir não, né?
Burros!
Burros, passivos, escrotos.
Quê que vocês fizeram do Brasil?
O que vocês fizeram da sexualidade?
Que merda vocês fizeram da...
Que merda?"

UM BELO BANQUETE DE CARNE HUMANA



UM BELO BANQUETE DE CARNE HUMANA
ATENÇÃO: este conto pode ofender a sensibilidade de alguns. Leia por sua conta e risco.

San Francisco, Estados Unidos, 1894.
Aqueles eram tempos difíceis: tínhamos que dividir emprego com os milhares de imigrantes que chegavam de todas as partes do mundo, a cada dia. E para dois “velhos” bêbados como nós, as coisas tornavam-se muito mais difíceis. Até que eu, John Smith, e meu velho amigo, Big Jack, encontramos empregos como ajudantes de convés, no navio Steamer Tacoma, do capitão John Davis.
O trabalho era bastante pesado e cansativo, mas nos recompensava: conhecíamos muitas cidades, e mesmo muitos países. E embora nem sempre pudéssemos conhecê-las e nos divertirmos nelas, tínhamos comida e um teto para morar, o que já valia muito.
Em certa ocasião, viajamos de San Francisco para Hong Kong, na China. Ao chegarmos em Hong Kong, encontramos uma cidade desolada, que, logo na chegada, algo nos chamou atenção: não havia nenhum animal de estimação, nem mesmo cachorros, gatos e ratos de rua. A fome obrigava os pobres a comerem tudo que se mexia.
Imediatamente ao desembarcarmos, tomamos um porre daqueles!, sempre evitando comermos o que nos oferecia, com todo o cuidado para não ofendê-los.
*  *  *
Após perdermos a hora, retornamos para o navio, nos surpreendendo ao verificarmos que este já partira. Desolados e bêbados, voltamos para as ruas de Hong Kong, novamente.
Os dias se passavam e não conseguíamos meios para voltarmos, ou irmos para outros países, e muito menos um alimento digno. Até que, por uma questão de sobrevivência, aceitamos a comida que nos era oferecida.
Não sabíamos se era a fome ou o modo como eram preparados, pois cachorro assado não nos pareceu nada mau, chupávamos até os ossos!
Adaptados como já estávamos àquela culinária exótica, daquele país, comíamos sem perguntar a fonte de tais alimentos, até como um meio de evitar nos frustrarmos.
Porém, um dia, após mais uma refeição incrivelmente saborosa, contornei a pequena sala, onde nos era oferecido os alimentos, indo direto para a cozinha.
Ao avistar aquelas panelas enormes de comida, que borbulhavam ao sabor do fogo, não tive dúvidas, e quis saber qual a fonte daqueles maravilhosos pratos. Ao suspender aquela enorme tampa de panela, tive uma enorme surpresa: TRÊS CABEÇAS HUMANAS flutuavam ao sabor das borbulhas, à esmo.
Foi, então, que descobrimos que o que tínhamos comido até então fora carne humana, já que cachorros e gatos tinham acabado há muito tempo.
A fome era tanta, em um país tão populoso quanto a China, que crianças com menos de doze anos eram vendidas, em Hong Kong, como comida.
Nas ruas, crianças nunca estavam seguras. Os pais as escondiam, afim de mantê-las vivas.
Você podia, naqueles tempos, fazer seu pedido, em qualquer restaurante, que imediatamente um menino ou uma menina eram imediatamente fatiados, e trazida a parte de sua preferência: a parte de trás era a parte mais preferida, também a mais cara e a mais doce, era vendida como carne de vitela.
*  *  *
Os meses se passaram até que o gosto por tal comida impregnou nossas mentes. Enfim, ao retornarmos, finalmente, para New York, o desejo por tal carne manteve-se vivo.
Big Jack e eu, a fim de matarmos o desejo por carne humana, raptamos duas crianças, uma de onze, e a outra de sete anos, e as mantínhamos amarradas e escondidas em nosso quarto.
Todos os dias e todas as noites, Jack as espancavam e torturavam, a fim de amaciar suas carnes.
Imediatamente ele matou o mais velho, porque tinha o traseiro mais gordo, e logicamente mais carne. Devoramos toda a carne de seu corpo, exceto sua cabeça, ossos e tripas. Nós os comíamos assado, ensopado, refogado, escaldado, etc. Era uma iguaria como jamais vista, de um sabor indescritível. O menor também teve o mesmo destino, nos proporcionando, por alguns dias, um belo banquete de carne humana!
Após estes, outros sequestros e assassinatos se seguiram, tanto que logo a polícia estava em nosso encalço. Decidimos, então, abandonarmos o navio e fugirmos para uma ilha deserta, a fim de esperarmos por um clima melhor.
*  *  *
A ilha era pequena, nela tomávamos água de coco e caçávamos alguns pequenos animais.
A fuga do navio ajudou-nos também a despistarmos a polícia, fazendo-os crerem que tínhamos caídos bêbados do navio.
E por mais que caçássemos, o sabor da carne humana era insubstituível, por isso, matei e devorei meu querido e velho amigo, Big Jack.
Conto baseado no conteúdo da carta do canibal, e Serial Killer americano, Albert Fish (1870 – 1936), dada à mãe de uma de suas vítimas. Demonstrando que, muitas vezes, a realidade supera as histórias mais bizarras, como estas.
Se você se assustou com as ilustrações acima, saiba que não são de verdade, trata-se de doces feitos de massa, chocolate e nozes, feitos pelo tailandês Kittiwat Unarrom.


          

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 5 (de Marcos Salvatore)


a dignidade intelectual que se foda
viva o subconsciente coletivo
também o cerveja gelada
a algazarra condenada
com penitência de três sábados, dois domingos
trocentos feriados largos
bem acompanhados em papo furado
em território de caça
um ou dois tragos num cigarro emprestado
você me olhando, lá do outro lado
tem gente que te espera pra bater um papo
pra curtir um som desembaraçado
viva até aquela tremenda mancada
bebeu demais, falou demais
rolou assim
pouco grana mas muito amigos
tanta coisa pra se ouvir
pra falar
pra curtir
pra sentir
prostíbulos da cidade, bares cavernosos
colo de puta que escuta
o mundo é grande, é vida nova
é dessemelhante por uma leitura
não existem interpretações mútuas
somente pensamento soltos
uma intenção desfruta um grande sonho
inteiro e quente, doce-amargo,
flor despetalada, fantasiosa
mal-me-quer engarrafado
artesanal
como qualquer invento
me saca às terças e quintas
me carrega e acha pouco
e aqui me encontro, eu acho
de novo no Chaco

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

POLÍTICA E RELIGIÃO (de Bosco Silva)



Se eu morasse em um país em que as questões e opiniões religiosas fossem vistas como escolhas pessoais que não afetassem em nada outros cidadãos, e que os direitos de cada um fosse respeitado, eu não me indignaria. Mas no Brasil assistimos a intolerância religiosa aumentar e jogar sobre pequenos grupos sua nefasta influência.

É incansável dizer que manter questões religiosas longe de decisões políticas é imprescindível para a manutenção da democracia, pois as minorias devem ter suas opiniões respeitadas e seu direito de expressão e de pensar diferente também. Mas no Brasil as coisas são diferentes. Vemos cada vez mais pastores e religiosos serem eleitos e defenderem leis que somente privilegia suas crenças em detrimento de outras. Em outubro de 2010 na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo, por exemplo, políticos evangélicos criaram lei que proibiu o Candomblé na cidade. E se qualquer devoto desta religião quebrar a lei terá que pagar 2000 reais e 4000 se houver reincidência.


Em São Paulo (capital) o candidato a prefeito Celso Russomanno 
se alia ao bispo Macedo da Igreja Universal; o mesmo que no 
vídeo, abaixo, ensina seus pastores a tirar dinheiro de devotos.


A intolerância religiosa já deixou bastante marcas terríveis na história da humanidade, manchando de sangue a história de várias religiões como o cristianismo, com a inquisição, as cruzadas, que torturaram, mataram, milhares de pessoas por terem crenças, comportamento e religião diferente da maioria, e que foi responsável pela tortura e morte de um dos maiores mártires do livre pensamento, Giordano Bruno, que foi morto por afirmações que contrariava crenças da época, como a crença de que o universo seria finito.

O mais triste é que, como quase tudo que envolva religião, o caso de Piracicaba é algo contraditório, pois foi justamente o direito de livre expressão e de livre culto de religião, que eles tentam justamente acabar, que deu aos antepassados destes políticos o direito de cultuar uma visão religiosa diferente da visão então dominante da época, o catolicismo. Foi graças a pensadores iluministas que sofreram perseguição, que possuíam crenças materialistas e que, muitas vezes até mesmo ateias, que este direito tornou-se uns dos direitos universais dos homens, e que transparece na famosa frase de Voltaire: “Posso não concordar com suas palavras, mas defenderei até ao fim seu direito de dizê-las”.

No entanto, é a partir deste direito que estes novos possuidores da verdade absoluta, destes novos administradores do direito do povo, tentam se promover e reforçar muito mais suas crenças, impondo-a a todos.

E como se não bastasse demonstrações de intolerância feitas contra ateus como a do senhor Luiz Datena, que em 2010, via rede nacional de televisão, ofendeu, com todas as letras, estes ao afirmar que crimes de assassinatos só poderiam ser cometidos por ateus, pois, segundo este apresentador, tal grupo não possuindo limites para seus atos - certamente o temor do castigo de um deus -, estaria pronto a cometer as mais hediondas atrocidades, surge agora a sensacional Marcha Anti-Ateus, realizada certamente com o dinheiro do contribuinte, incluindo dos próprios ateus, e que mais uma vez, como toda minoria, ficam sem direito de resposta, confirmando ainda mais a intolerância contra grupos minoritários como o grupo referido.


No entanto, como resposta ao senhor Luiz Datena, podemos dizer, segundo dados de pesquisa, que são justamente os países com maior índice de ateus que possuem as menores taxas de criminalidade e as maiores de qualidade de vida:

PAÍSES COM MAIOR NÚMERO DE ATEUS:

SUÉCIA: 85%
  • População: 8,9 milhões 
  • Ateus: 7,6 milhões
Na Suécia 85% da população não tem nenhuma crença ou não acredita em Deus.
Esse foi o resultado da pesquisa Ateísmo: Taxas e Padrões Contemporâneos, do sociólogo norte-americano Phil Zuckerman. Segundo ele, os suecos aprendem sobre cada uma das religiões na escola e são livres para escolher seguir ou não uma delas. E isso se repete na maioria dos países com alto índice de ateísmo. Vale lembrar que o estudo engloba ateus, agnósticos e não-crentes em Deus e o ranking é baseado na porcentagem populacional de cada país.

VIETNÃ: 81%
  • População: 82,6 milhões 
  • Ateus: 66,9 milhões
O budismo e o taoísmo, religiões comuns por lá, são vistos como uma tradição, e não crença.

DINAMARCA: 80%
  • População: 5,4 milhões 
  • Ateus: 4,3 milhões
Um levantamento da ONU aponta que países com boa taxa de alfabetização tendem a ser mais descrentes.

NORUEGA: 72%
  • População:4,5 milhões 
  • Ateus: 3,2 milhões

JAPÃO: 65%
  • População: 127 milhões 
  • Ateus:82 milhões
Em 2008, o pesquisador britânico Richard Lynn concluiu que países com alto QI são mais ateus. É o caso da população japonesa, que mantém a média 105 - uma das mais altas já registradas.

REPÚBLICA TCHECA: 61%
  • População: 10 milhões 
  • Ateus: 6,2 milhões

FINLÂNDIA: 60%
  • População: 5,2 milhões 
  • Ateus: 3,1 milhões

FRANÇA: 54%
  • População: 60,4 milhões 
  • Ateus: 32,6 milhões

COREIA DO SUL: 52%
  • População: 48,5 milhões 
  • Ateus: 25,2 milhões

Pesquisas de Phil zuckerman (2007), Richard Lynn (2008) e Elaine Howard Ecklund (2010), ONU, adherents.com, American ReligiousIdentification Survey, The Pew Research Center, Gallup Poll, The New York Times, Good, Nature, Live Science e Discovery Magazine.
       

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

RESENHA DO LIVRO "SEXO, PERVERSÕES E ASSASSINATOS (por Hyldon Chancen)




“Tal qual Dante, ao descer aos portais do inferno a procura de sua amada Beatriz, tendo como guia o poeta latino Virgílio, desçamos também ao submundo do sexo, tomemos seus caminhos tortuosos entre luxúrias, gritos de prazer, e também de dor, e devassemos os mais ‘estranhos’ atos e cultos de prazer, tendo como guia o espírito do ‘louco’, do ‘desvairado’, do ‘pervertido’ Marquês de Sade.”

Com estas palavras o autor de SEXO, PERVERSÕES E ASSASSINATOS introduz o leitor em sua história que, em certa medida, guardadas as devidas proporções, é uma espécie de Divina Comédia sadomasoquista:

Dante será Moreira, um policial que busca solucionar o mistério de três corpos com marcas nos pulsos e pescoços, encontrados mortos em rios que contornam a cidade, suspeitos de terem praticado atividades sadomasoquistas. O poeta Virgílio será substituído por Mirvel, um discípulo do “pervertido” escritor francês Marquês de Sade que pesquisa o turismo sexual no Brasil, e que será uma espécie de guia do mundo das perversões, apresentando-as a Moreira e comentando várias formas delas; e como Virgílio conduzindo Dante, Mirvel conduzirá o policial através do purgatório e do inferno sadomasoquistas. E assim como muitos leitores, Moreira descobrirá um mundo novo, guardado sob a penumbra do anonimato, que jamais havia imaginado que existisse.

Acima, Dante e Virgílio no inferno, na pintura de Delacroix

   O livro SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATOS, de Bosco Silva, é, sem dúvida, uma narrativa alucinante sobre o mundo do sadomasoquismo; narrativa que parte de inocentes jogos sexuais sadomasoquistas envolvendo velas e algemas, como tantos outros romances com descrições picantes de sexo, por meio das práticas sexuais do casal de personagens composto pelo policial Moreira e sua namorada Renata. Porém logo em suas primeiras páginas o romance nos mostra para que veio pois Renata é uma mulher de forte libido que tem prazer em ter relações sexuais no próprio ambiente de trabalho...
Sim, eu sei, até aí nada há de diferente também de outros milhares de filmes e livros do gênero que possuem personagens que fogem da rotina sexual e passam a quebrá-la se excitando com a possibilidade de serem pegos, no próprio ato, em escritórios ou em elevadores, porém a diferença crucial aqui é que Renata é uma legista que adora ter relações sexuais na própria mesa de autópsia, ou em meio a cenários de crimes, entre cadáveres. E como se isso não fosse o bastante, o romance envereda ainda para o sadomasoquismo extremo que, como em Sade, só obtém o máximo prazer com a morte do parceiro.
Como nos informa o autor, isto já está presente em seu próprio título já que "Sexo, Perversões e Assassinatos" demonstra uma gradação de interesses sexuais; título que brinca com a frase popular “sexo, drogas e rock’n’roll”; mas o que temos aqui, ao contrário desta, é um crescente de perversidade que faz com que esta soe com uma ingenuidade extrema.

O romance possui três aspectos fundamentais, interligados entre si, que o faz ser original em seu gênero: 
Um o aspecto filosófico, em que é discutido o pensamento de Sade, de modo bastante acessível ao leitor, em que seu pensamento é analisado à luz da liberdade sexual de hoje, com os sites sadomasoquistas da internet e também do turismo sexual com seus inúmeros casos de pedofilia. Este aspecto, embora possa parecer desnecessário ao leitor, é fundamental para a história, uma vez que é por meio do pensamento de Sade que os perfis psicológicos dos supostos assassinos são traçados; 
Outro aspecto é a discussão sobre a sexualidade humana, em que é analisado comportamentos sexuais que fogem do considerado convencional, como os demonstrados por seus personagens; o romance discute ainda o que seria o “normal” em matéria de sexo, levando o leitor a analisar seus próprios desejos e atos sexuais, com deliciosas pitadas de humor e ironia. 
E por último, o livro liga tudo isso a uma divertida história policial, cheia de reviravoltas, mistérios e assassinatos.

Analisemos primeiro o aspecto filosófico do livro:
 Marquês de Sade (1740 - 1814), por meio de seu pensamento e literatura, é, sem dúvida, o grande personagem do livro; e é impossível não ver no velho libertino um personagem fascinante; um autor que escreveu grande parte de sua obra em prisões e manicômios - ora devido ao seu comportamento sexual desregrado, ora por sua literatura ácida ou, na maior parte das vezes, como fruto da perseguição de sua sogra -, e que fez o que parecia ser impossível: misturou a mais visceral pornografia a uma filosofia digna dos melhores filósofos de sua época, como Diderot (1713 - 1784). E isto não foi à toa já que tal mistura, como demonstra bem o autor, era de suma importância para seu projeto filosófico.

Sade visto pelo séc. XIX

Sade pode ser visto mesmo como uma espécie de Diderot da sexualidade desenfreada, pois o que este fez com o conhecimento de seu tempo, catalogando-o minunciosamente em grossos volumes de sua Enciclopédia, Sade fez com as taras e perversões de sua época em livros como nos Cento e Vinte Dias de Sodoma; e é o que, em grande parte, Bosco Silva faz novamente investigando práticas sexuais modernas, que nem mesmo Sade imaginou, como o bondage e o bukkake.


Bondage


O livro de Sade também serviu de modelo para o romance SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATOS, levando o autor deste a tomar os nomes em que se divide a grande obra de Sade (paixões simples, paixões complexas, paixões criminosas e paixões assassinas) como nomes de alguns capítulos de seu livro, em que o clima de cada parte dos Cento e Vinte... estão lá, reinterpretados de forma moderna entre turistas ávidos pelo turismo sexual, que se relacionam por meio de sites sadomasoquistas. Desse modo, o castelo de Silling, o lugar onde no livro de Sade acontece os cento e vinte dias de Sodoma, também está lá, reinterpretado como uma grande casa de suingue, com inúmeros “dark rooms” e com shows sangrentos sobre o palco.
O autor se esforça em contrapor a interpretação comum da obra de Sade, que o vê como um monstro que visava apenas satisfazer seus desejos mais insanos, a uma interpretação mais cuidadosa de seu pensamento, revelando-o como um grande pensador do comportamento humano, gerando muitos momentos interessantes no livro, como na ocasião em que o personagem Mirvel analisa o comportamento de alguns transeuntes:

“Creio, investigador, que mais compreenderemos o comportamento humano quanto mais nos interpretarmos como de fato somos: animais. Veja, por exemplo, aqueles sujeitos ali - disse Mirvel, enquanto Moreira direcionava o olhar para eles -, que estão ostentando seus carros caros; assim como muitos animais, que tentam atrair as fêmeas oferecendo proteção a elas, e repelindo os machos adversários, por meio da força, estes machos humanos estão inconscientemente atraindo as fêmeas por meio do luxo e do conforto econômico, que estes podem oferecê-las, e repelindo os outros machos por meio da demonstração de que são economicamente mais fortes.”


Em Sade o sexo é o que nos liga mais diretamente aos outros animais.
Porém, apenas o homem viria o sexo como algo inferior e indigno dele;
criando assim as proibições morais.

   Para tanto, o autor contrapõe dois personagens que representam estas formas opostas de ver a obra sadiana. Assim Albert S., o líder de um grupo de turistas que praticam o turismo sexual em terras brasileiras, é o personagem que encarna a visão comum da obra de Sade; uma visão que foi construída por meio de psiquiatras como Krafft-Ebing, que ajudaram a popularizar o termo sadismo; que desde o século XIX já era bastante popular. No Dicionário Universal de Boiste, de 1834, por exemplo, o sadismo já era definido como: “Aberração horrível do deboche; sistema monstruoso e antissocial que revolta a natureza”. Por outro lado, por meio do personagem Mirvel, um escritor alcoólatra francês que está no Brasil pesquisando o turismo sexual, se destaca análises do pensamento e da obra de Sade feitas por pensadores que melhor interpretaram sua obra, como Bataille e os surrealistas, e que mostraram o grande valor de Sade, se opondo a uma interpretação essencialmente psiquiátrica de sua obra, e pondo em relevo aquilo que escapou às análises psiquiátricas: sua imensa liberdade de criação, em que a moral não é obstáculo algum.
Não podemos também esquecer que o autor contribui com suas análises para uma melhor interpretação da obra sadiana, criando uma visão filosófica própria, principalmente quando põe em relevo o sexo como um caminho de autoconhecimento, como uma espécie de epifania que nos leva a tomar consciência de nossa dimensão natural, ou quando aplica o pensamento de Sade aos tempos de hoje, em plena era da internet com seus milhares de sites dedicados as formas mais bizarras de sexo.
Já a parte dedicada a sexualidade humana ganha ar de livro de autoajuda, pois leva o leitor a descobrir o que há por trás de comportamentos que passa por nós despercebidos, como no diálogo seguinte:

- E nunca lhe aconteceu que aquela mulher que você tanto desejava, mas que nunca lhe dava a menor atenção, quando você estava sozinho, passou inesperadamente a lhe seduzir, quando lhe viu acompanhado de uma outra mulher?
- Sim, inúmeras vezes. O que me causava certa irritação, já que estando acompanhado, eu pouco podia fazer para conquistá-la.
- Pois é, isso nada mais é do que um instinto animal: o de demarcar território.
- Como?
- Demarcar território nada mais é do que quando o animal, por meio de alguns artifícios, como arranhaduras em árvores e, ou, quando ele espalha seu cheiro, por meio da urina, avisa aos outros machos, intrusos, de sua espécie, que aquele lugar é seu pedaço, que as fêmeas são suas e que ele manda ali. O mesmo fazem algumas mulheres, embora não aconteça da fêmea ter essa atitude em outra espécie animal; mas na espécie humana as fêmeas ganharam certa autonomia biológica com relação aos machos, principalmente com relação ao sexo, fazendo com que elas tenham certas atitudes parecidas com as do macho, com relação à sexualidade.
- Sim.
- Do mesmo modo, a tua companhia pareceu ser uma intrusa para aquela mulher. O que a obrigou, ao ver que sua atenção a ela estava ameaçada por outra mulher, a manter em você o fogo do desejo por ela aceso, através dos meios por ela usados para demarcar seu território: beleza e sedução, para que você continuasse como um potencial amante, mesmo que, na preferência dela, você fosse o último - disse Mirvel com algumas gargalhadas ao final.

O romance disseca também comportamentos sexuais não-convencionais, relativamente comuns, como o RESTIFISMO (excitação por pés femininos calçados), o EXIBICIONISMO (prazer em si exibir sexualmente), o CANDAULESISMO (prazer que alguns maridos ou namorados possuem de obrigar que suas companheiras exiba parte de seus corpos para outros homens), indo aos mais extremos, como a ZOOFILIA (sexo com animais) e a COPROFILIA (sexo com fezes humanas); tudo isto é acompanhado também por uma espécie de pequena história dos hábitos sexuais humanos, ilustrada pelos gostos sexuais pouco convencionais de importantes personalidade históricas ou pelos hábitos sexuais incomuns de famosos escritores como James Joyce e Ernest Hemingway. O livro assume este caráter didático sem perder o ritmo de aventura com noções filosóficas ou com curiosidades desnecessárias: tudo é necessário para a trama policial. E dentro desta pespectiva, um comportamento sexual assume importância maior: a ASFIXIA ERÓTICA.
Responsável por entre 500 a 1000 mortes anuais só nos Estados Unidos, esta atividade sexual torna-se cada vez mais popular no meio sadomasoquista, tendo no estrangulamento e na interrupção de oxigênio por meio deste, um forte potenciador de prazer sexual. É ela que, na tentativa de desvendar o assassinato de três suspeitos de terem morrido praticando-a, leva o investigador Moreira a investigar o submundo do sexo, e a penetrar no obscuro e anônimo mundo do sadomasoquismo extremo. Mundo que ele conhece apenas palidamente através dos jogos sexuais praticados com a namorada.

Já o livro, quanto objeto de arte, não é nenhum exemplo do que os críticos chamam de “boa literatura”, pois não traz algum novo formato inovador à mesma, seja por meio de sua narrativa, do objeto de sua narração, ou por meio de seus personagens. Não traz também, como críticos literários gostam de referir, nenhuma “linguagem inovadora vindo de um Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Paulo Leminski, Mia Couto, Manuel Bandeira ou de outro grande escritor da língua portuguesa.” Trata-se simplesmente de entreter o leitor; o que não o impede, por sua vez, de tocar em assuntos importantes em suas páginas, neste caso, como vimos, a sexualidade humana, com todas suas particularidades e seus extremos.
Quanto a parte policial, bem é uma história simples que em vez de grandes deduções lógicas em busca de criminosos, como fazem escritores famosos do gênero, se concentra na busca destes por meio de perfis psicológicos, o que leva o leitor a conhecer aspectos importantes da personalidade de criminosos sexuais.
O livro, sem duvida alguma, garante boas horas de distração por meio de uma linguagem bastante simples, acessível e bem humorada; sendo um bom companheiro para as horas de tédio.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 4 (de Marcos Salvatore)

Não vou me convidar pra tua vida

Mas espero que mereça

E entenda

Sem danos

Que eu amanheça em outra festa


EXTRATOS NOCTÍVAGOS IV (de Renê Romana)

by Sara Saudkova


E na mente uma confusão verborrágica,  
vem aquela vontade de botar pra fora todas as sandices e coisas inimagináveis, 
ou imagináveis que tenho escondido, coisas do tipo: Contos eróticos,
romances açucarados, crônicas do amor demais, 
e outras coisinhas, mas por enquanto deixo tudo no papel 
e escondo no fundo da gaveta, 
um dia quem sabe tudo faça sentido!

TODA FILOSOFIA (de Haroldo Brandão)

by Hina Aoyama


Toda filosofia se resume ao próprio umbigo

Se não me encontro

Estarei para sempre perdido

O externo não tem sentido

Se não acho o meu equilíbrio

                 

Passo toda uma vida tentando

Achar o sentido...

E o sentido é o Amor 


Quanto mais se dá
                  
Mais se recebe

Simples

Como o sol que nasce todo dia!