E
aí, estão prontos para o fim do mundo? Sim? Não? Então preparem seus bolsos: o
final do mundo sempre sai caro...
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
21 DE DEZEMBRO DE 2012 (de Bosco Silva)
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
DIÁLOGOS DE UMA VAGINA FUMANTE (de Bosco Silva)
Após o quarto ecstasy, Paula foi ao banheiro da boate. Arriou as calças e
sentou-se no vaso sanitário; acendeu um cigarro e ficou a olhar as paredes
cobertas de frases obscenas. Uma lhe causou risos incontidos:
“Para curar um amor platônico, só mesmo uma foda homérica.”
Tragou mas uma vez o cigarro enquanto ouvia o cair de sua urina na privada, embalada pelo som enervante da música eletrônica que vinha da pista de dança.
-
Um trago, desejo um trago – disse sua vagina.
-
O que está acontecendo comigo? – disse Paula consigo mesma, passando as mãos
sobre o rosto e olhando, atordoada, sua genitália.
-
Vamos, rápido – continuou a vagina.
-
O que você quer?
-
Já disse: um trago – respondeu a vagina impaciente.
-
Não acredito que estou conversando com minha própria vagina!
E
com a insistência da mesma, Paula acendeu um cigarro e levou até sua vagina. E
esta tragou com voracidade.
-
Sabe, nunca gostei do termo vagina, prefiro xoxota – disse a própria, tragando
o cigarro, e soltando a fumaça, como as vaginas daquelas praticantes de pompoarismo
da Tailândia. – É bem mais carinhoso. E, além disso, você sabe, nenhum namorado
seu me chamou, naquelas horas, de vagina; sempre foi "deixa eu ver, meu amor, essa buceta... essa perseguida... essa xoxota". Lembro que um me chamava de moqueca.
-
O Marcos.
-
Que Marcos? O Salvatore?
-
Sim. Ele era tão carinhoso e engraçado.
-
Mas havia aquele outro, aquele engraçadinho que me chamava de pata de camelo.
-
Ah, o Teco.
-
Mas pior que ser chamada de vagina, era quando aquele outro sujeito me chamava
de vulva, que nome feio.
-
Ah, esse era o Haroldo, o Brandão. Ele era tão metódico; mas o que esperar de
um psicólogo, né?
-
Pois é, então porque me chamar de vagina. Vagina é dito quando alguém não quer
ter intimidade, como um ginecologista, mas eu sou íntima de você, por isso me
chame de xoxota, meu bem.
-
Mas eu sei como você ficou na minha última visita ao ginecologista, sua
danadinha.
-
Também pudera com aquele homem lindo. Fiquei toda molhadinha!
-
E se fosse uma fantasia – argumentou Paula, sentada novamente, com as calças
arriadas na latrina, dividindo o cigarro com sua vagina -, digamos que alguém
me pedisse para irmos às vias de fato, fantasiando ser um ginecologista?
-
Bem, toda regra tem exceções, minha querida.
-
Ahã!, te peguei agora sua safadinha – disse Paula dando leves palmadas em sua
vagina.
-
Tudo bem, tudo bem, eu me rendo, mas não faça como aquela vez em que
encontraste outra xana pra se esfregar.
-
Foi mais uma experiência. E que tal? Você não gostou?
-
Bem, sabe quando você quer calabresa mas lhe dão salsicha?
-
Ahã.
-
Foi assim que eu me senti: não me contentei com dedos, querida. Falando nisso, não
estamos esquecendo de algo?
-
Maurício! – exclamou Paula levantando-se e vestindo rapidamente as calças.
-
Ele parece ser tão bem dotado! – comentou a vagina satisfeita.
-
Não me admira que não se contenha com salsichas, larga como estás, sobra espaço
– comentou uma voz grave.
-
Quem disse isso? – inqueriu Paula, assustada, antes de abrir a porta do
banheiro.
-
É ele – respondeu a vagina.
-
Ele quem?
-
O seu cu.
-
Ele também fala?!
-
Bem, ouço mais do que falo, mas dou meus palpites também, querida – disse o cu de Paula.
-
Vamos, vamos, meu bem, não ligue para as opiniões de alguém que nunca lhe encarará de frente – comentou a vagina enquanto Paula abria a porta e seguia
enfrente.
- O que você sente é inveja, já que no final eles sempre acabam procurando por mim - retrucou o cu a vagina, enquanto esta lhe mostrava a língua, ou algo parecido.
- O que você sente é inveja, já que no final eles sempre acabam procurando por mim - retrucou o cu a vagina, enquanto esta lhe mostrava a língua, ou algo parecido.
-
Ah é? Eu juro que irei atrapalhar da melhor forma possível: merda – disse o cu
irritado, enquanto Paula seguia para mais um encontro amoroso, sendo imediatamente interrompida, e retornando ao banheiro, mas desta vez por outros motivos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
O SEGREDO DE DOMINIC (de Bosco Silva)
Dominic
era uma mulher como poucas, com seus longos cachos dourados que
brilhavam como pés de trigo ao sol, quando ela se punha a caminhar sobre os
verdejantes prados de então; seu corpo cheio de curvas voluptuosas era capaz de
levar qualquer um à beira do precipício do êxtase sem fim. Mas em meio a tantos
atrativos, Dominic guardava um mistério que com o tempo me a costumei a ele: Dominic possuía um
avantajado clitóris, que se entumecia e se estendia como um pequeno pênis que
se destacava de sua delicada vagina.
Lembro-me, quando a possui pela primeira vez, dela me repelir
e me manter distante de seu sexo, de seu segredo inimaginável. Mas vencida
pela força da natureza, cedeu, enfim, ao mais
puro desejo.
Com
o tempo seu clitóris aumentara de tamanho; e a cada
relação cometida, ficava a examiná-lo, reparando que se aproximava cada vez
mais do tamanho de um pênis. E a cada noite lá estava ele
entumecido e rígido como se estivesse a fitar-me, a desafiar-me. Por fim,
descobri que Dominic possuía um lado feminino e outro masculino; e o mistério
maior transformou-se em saber qual dos dois aprecio mais.
Agora
um pequeno teste tirado do excelente site Sweetlicious (sweetlicious.net). Você
conseguiria diferenciar em pouco tempo uma
mulher de 27 travestis? Lembre-se: há apenas uma mulher.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
É TODO SEU! (de Bosco Silva)
- Venha cá criança, chegue mais perto,
minha pequena... Quero-lhe mostrar algo que você irá gostar; venha, não tema. Olhe.
- Tio é tão grande!
- E é todo seu. Vamos, pegue, pegue
logo.
- Mas tio está tão melado!
- Vamos, pegue logo antes que amoleça... Devagar, com cuidado, antes que sua tia nos veja. Vamos, ponha na boca agora.
- Mas tio está tão melado!
- Vamos, pegue logo antes que amoleça... Devagar, com cuidado, antes que sua tia nos veja. Vamos, ponha na boca agora.
- Tio é tão grande para minha pequena
boca!
- Então não morda, apenas lamba. Isso, do começo ao fim. Assim...
assim... assim...
- Veja tio, tia Lúcia está vindo.
- Rápido, esconda, esconda...
- Não acredito, João, que estás dando
novamente sorvete para esta menina gripada!!!
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
PERDEDOR? (de Haroldo Brandão)
(ao
som de "Ripples" do Gênesis, com Phil Collins no vocal. Vinil " A trick of
the tail")
Feito um perdedor te deixei na tua casa e segui rumo ao
Mauro, a turma estava lá, era quase uma da manhã, cedo para os meus padrões, me
receberam alegremente (não no sentido gay), tiramos fotos e em seguida me
isolei em uma cadeira ao ar livre, na parte do asfalto, acabrunhado pensei:
perdeu campeão. Pedi uma long neck daí, as fotos ("inédito: Harold tomando
cerveja? vamos registrar") click do Maurício, click do Matias Lemos, pose
com Salvatore, Fábio Castro e Bud, cerveja pra turma, então me isolei de novo,
um punk pediu para eu pagar uma cerveja, o atendi e despachei, só queria ficar
sozinho com meus secretos segredos. Pedi a segunda long neck, fui ao balcão, me
distraí com a Lu e eram duas horas quando adentrei no apê. Boa noite
querida! As cervejas me relaxaram e eu estava em meu habitat, em mi casa, foi
deitar e bateu a energia, corpos se encostaram, fizemos um belo sexo, o
bastante para chegarmos ao orgasmo, antes de desmaiar pensei: "que
ironia". Foi aí que o grilo bateu: por quê?
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Sobre Ausências. (De ReNê Romana)
Sou mais que carne, ossos, veias, unhas, sexo.
Sou feita de ausências...
Ausência pontuda, as vezes longas e doloridas.
Minha extensão é toda espinhos rompendo a pele
Vindos dos meus escombros, debaixo da alma.
Não há calma, sempre taquicardia.
Nunca é dia, ninguém se aproxima
Do breu, da noite que me tornei.
Me arrasto no movimento quase intangível dos meus passos,sobre o chão liso demais, das faltas mais fundas.
Dentro da minha noite aguda todos dormem pra sempre,
Mudam de posição, sofrem seus espasmos noturnos,
Sonham descaradamente.
Diante de meus olhos insones.
Diante da minha fome
Da minha estranha arquitetura,
Sou feita de ausências...
Ausência pontuda, as vezes longas e doloridas.
Minha extensão é toda espinhos rompendo a pele
Vindos dos meus escombros, debaixo da alma.
Não há calma, sempre taquicardia.
Nunca é dia, ninguém se aproxima
Do breu, da noite que me tornei.
Me arrasto no movimento quase intangível dos meus passos,sobre o chão liso demais, das faltas mais fundas.
Dentro da minha noite aguda todos dormem pra sempre,
Mudam de posição, sofrem seus espasmos noturnos,
Sonham descaradamente.
Diante de meus olhos insones.
Diante da minha fome
Da minha estranha arquitetura,
Chamas,
incêndio, sirenes...
E aqui no peito a solidão, e lá fora só o silêncio!
Carta para um velho safado ( de ReNê Romana)
Prezado Charles,
Escrevo-te porque me preocupo contigo.
Mentira.
Escrevo-te porque preocupo-me comigo e sinto por ti um desprezo que me incomoda
mas me atrai. Mal nos conhecemos, já li algumas coisas suas. Gosto, mas não
muito. Confesso que isso tudo pode estar alojado em um violento asco pela
maneira como você se refere às mulheres, mas acho que compreendo tal
necessidade. Fato é que me parece apelativo esse seu caminho escatológico de
lidar com a vida, com o amor e o sexo (Aliás, acreditas no amor?). Você parece
fazer questão de expressar as palavras mais grotescas e chulas, achando que
isso o torna um pessimista profundo? Desculpe, mas a mim não convence. Acho que
você não sofre como faz parecer que sofre. Por exemplo, se eu escrever, no meio
dessa minha carta, um "Hank, seu grande filho da puta. Por que não
podes suportar me comer direito?"
todo mundo olharia diretamente para essa frase e
interessar-se-ia por essa carta pelo simples fato de ver uma palavra suja, e
consequentemente achar que algo desse teor estaria envolvido nela. As pessoas
precisam que alguém extravase no lugar delas não é mesmo? Talvez você
me ache uma romântica idealista e boba, e que meus textos cativam mulheres
solitárias e mal amadas, apenas. Até pode ser. Eu sou uma solitária. Se não
fosse, porque diabos estaria eu escrevendo uma carta a alguém que eu
supostamente desprezo? Às vezes tenho pena de mim, ao contrário do que
transpareço em minhas ultimas entrevistas na TV. Talvez não sejamos tão
diferentes, afinal. Eu, fingindo uma profundidade atrás dessa rudeza e
pequeneza feminina, e tu fingindo boemia e transgressão atrás dessa insegurança
masculina.
A verdade é que hoje percebo que existem os homens, as
mulheres e os escritores. Talvez a gente não tenha as habilidades normais das
pessoas para nos relacionar. Eu não descobri o mundo através de uma barata como
minha personagem Joana, e você, velho safado, não me parece ter comido tantas
bundas como escreves. Somos mentirosos muito bem sucedidos, não lhe parece? E
as pessoas nos adoram por acharem que somos verdadeiros e expressamos desejos
que são ocultos em todos e que todos gostariam de colocar em palavras.
Não sei, Buk (permita-me tal intimidade. Comecei essa
carta para achincalhar-te e agora tenho em ti um rápido amigo) mas talvez meu
sentimento de desprezo por ti esteja me atrapalhando e fazendo com que eu
esteja te desrespeitando. Mas acho que isso não te preocupa nem um pouco,
certo? Talvez eu precise fazer as mulheres me amarem, ao passo que tu necessita
fazer com que elas te odeiem. Somos farsantes solitários.
Paro por aqui desculpando-me pelo desabafo, e agora não
mais secretamente desejando que um dia quem sabe ainda possamos nos sentar
juntos, depois de uma noite de amor, fumando um cigarro e tomando um bom
whisky, para que tu me digas quem sou eu em teus olhos e me ensine um pouco
mais sobre nossos podres todos.
Clarice.
Clarice.
Sem mais delongas, um achado nas minhas "viagens" pela internet!!
Tão surreal que nem fiz questão de ver a veracidade, visto que lemos por ai tantas baboseiras que alguém supostamente registra como se fosse obra da grande Clarice Lispector, mas ao ler essa "Carta para um velho safado" não tenho dúvidas que só uma mente tão linda quanto a de Clarice poderia ousar, e quem em sã consciência não gostaria de escrever o mesmo ao grande Bukowski??
(ando meio desligada e sem inspirações, mas em breve apareço com meus escritos por essas bandas, sinceramente aqui no meu território emocional as coisas estão meio nubladas, e a lua não apareceu pra me trazer inspirações pelas madrugadas. Em breve numa esquina qualquer eu ressuscitarei e me encontrarei com meu lado notívaga e encantada de ver a vida.)
sábado, 24 de novembro de 2012
A PEGADINHA DE DEUS E A PELEJA DOS ANJOS (de Bosco Silva)
DEUS, MAIS UMA VEZ, HAVIA
DECIDIDO DESTRUIR O MUNDO, argumentando que o mundo não
tinha mais jeito, que tinha se entregado a mais extrema maldade e a todas as
formas de pecado; chamou então dois anjos a fim de concretizar sua vontade.
Porém estes intercederam a favor dos homens, dizendo a Deus que nem tudo estava
perdido. Deus então lhes propôs um desafio: se em mil anos, encontrassem um único
homem santo, que pudesse ser convencido por eles de sua santidade, o mundo,
então, seria por Deus poupado e pertenceria aos dois anjos; do contrário, que
fosse por eles, imediatamente, destruído.
E
após aceitarem o desafio, os dois anjos, desconfiados da proposta de Deus, puseram
a conversar entre si, no alto de uma nuvem, bem longe dos ouvidos do
Todo-Poderoso:
-
Bem que Deus em vez de se preocupar com o mundo poderia deixá-lo logo para nós.
Teríamos então alguns bons lugares para passarmos alguns anos calmos de férias,
hein?
-
Calmos?! Não sei não, lembre-se que é a Terra, a coisa lá embaixo não está tão
calma assim. Talvez fosse melhor outro planeta; quem sabe, com menos gente.
-
Mas gosto da Terra, com todas essas mulheres gostosas vestidas de freiras, são
minhas preferidas; sabe como é, me amarro em mulheres discretas e de uniformes.
-
Sim, mas você sabe como é Deus: você acha que Ele irá perder a chance de ter
mais gente para bajulá-Lo. Com certeza irá destruir este velho mundo e criar um
novo mundo com muito mais gente pronta a cultuá-Lo sem a menor crítica, como sempre
fez; porque você sabe, Deus gosta bem mais de destrui-lo do que consertá-lo:
não tem muita paciência mesmo. Lembre-se do dilúvio e de Sodoma e Gomorra.
-
É. E, se Ele quer mesmo ser mais cultuado, então para isso terá que diminuir ainda
mais a inteligência que deu ao homem.
-
Eles já possuem tão pouco.
-
Você sabe que Deus odeia uma crítica.
-
Sei, Ele possui um ego infinito.
-
Mas são mil anos. E convencer alguém santo de sua santidade parece ser tarefa
fácil – disse o otimista anjo Rafael.
-
Sim, mas você também sabe como são os homens: será difícil encontrar alguém
santo neste mundo cheio de maldades e pecados sem fim de hoje, com toda essa
música que chamam de funk e essas mulheres-frutas e todas essas periguetes
também, Rafael – comentou o exigente anjo Gabriel, olhando o povo do alto.
-
E não esqueça também dessa tal de internet.
-
Claro, um verdadeiro portal pro inferno.
-
Mas será que não encontraremos unzinho sequer?
-
Sei não – disse o desconfiado anjo Gabriel.
-
Notei algo de estranho na proposta de Deus, Ele me pareceu tão seguro!
-
Sim. Lembro-me de tê-lo visto assim apenas na idade média, quando foi defendido
por São Tomás de Aquino.
-
Também pudera com aquele livro de mais de mil páginas dele; todos concordavam
com ele, só por que não tinham saco de lê-lo por inteiro.
-
Não esqueça também da Inquisição.
E
após o anjo Rafael balançar a cabeça em afirmativo, disse:
-
Bem, Gabriel, apesar do ego infinito do Todo-Poderoso, Ele não é tão bobo
assim.
-
É. Mas também pudera com todos esses milhares de teólogos a defendê-Lo!
Puseram-se
então a examinar, anos após anos, décadas após décadas, séculos após séculos,
atos sinceros de bondade, que pudessem definir alguém como santo, porém, após
todos estes anos, nem um ato sequer de bondade havia sido, por eles, encontrado.
Até que uma noite, desanimados, ao passarem por uma rua, viram um carro
chocar-se a um poste, e três pessoas correrem em direção ao veículo,
despertando assim a atenção de ambos:
-
Veja Gabriel, ainda há bondade nos corações dos homens. Veja quantos estão indo
ajudar! – exclamou Rafael.
-
Bem, não tomemos decisões precipitadas, Rafael. Vejamos o que isso dará –
respondeu o precavido anjo Gabriel.
Os
três homens chegaram ao carro destroçado, carregaram o motorista sangrando para
fora do veículo, e um pôs-se a vasculhar seus bolsos, enquanto os outros entravam
no veículo.
Rafael,
sempre otimista, comentava: “Isso, isso, isso, procurem por seu endereço e
telefone, sua família precisa ser avisada”. Calando-se, em seguida, para ouvir
seus diálogos.
-
E aí, encontraram algo? – disse o sujeito ao lado do motorista aos dois homens
que haviam acabado de sair do carro.
-
Sim, um celular e o aparelho de som – respondeu um deles, com os objetos nas
mãos.
“Aparelho
de som?” – repetiu o anjo Rafael, já desconfiado, mudando imediatamente sua
expressão de alegria para perplexidade.
-
E você? – perguntou um dos homens que havia saído do carro.
Nesse
momento, o homem que havia vasculhado os bolsos do condutor do veículo pôs-se a
mostrar a carteira que havia encontrado nos bolsos do motorista, com gestos de
alegria, gestos que aumentaram muito mais quando o sujeito mostrou o bolo de
dinheiro que havia na carteira daquele. Em seguida, após um deles tirar, ainda,
os sapatos da vítima, foram embora deixando o motorista do veículo em
frangalhos, sangrando muito. Dizendo, entre si:
-
Que noite de sorte, hein?
-
E como!
“Hei,
hei, voltem aqui, ele precisa de ajuda” – gritou Rafael, um grito inútil de
quem não poderia ser ouvido.
-
Tá vendo, Rafael, não lhe disse: a bondade parece ser rara entre os homens.
-
Sim, mas ainda não percamos a esperança neles, Gabriel – disse Rafael com um
grande brilho no olhar. - Há de encontrarmos um homem santo.
-
Não temos toda a eternidade para isso, Rafael – respondeu-lhe o anjo Gabriel
com ironia.
Ao
passarem por um bar, viram um homem bêbado caído ao chão, e ficaram a examinar
o ambiente.
-
Vamos, vamos embora – sugeriu Gabriel. - Parece-me que aqui não encontraremos
um ato de bondade.
-
Calma, aguardemos. A bondade pode estar onde menos esperamos – disse Rafael,
sempre complacente.
Minutos
depois, um homem sóbrio levantou o bêbado do chão, e o pôs em uma cadeira.
-
Veja! – exclamou Rafael com alegria –, encontramos, finalmente, um homem
virtuoso.
-
Calma Rafael, aguardemos, aguardemos... – disse Gabriel com o semblante sério.
-
Tá vendo, Rafael, o que sempre lhe digo: os homens sempre fazem o mal, até mesmo quando não querem – disse o sempre desconfiado anjo Gabriel, vendo a alma do bêbado desprender-se de seu corpo e maldizer aquele que lhe tinha ajudado.
-
Sim, mas o gesto teve como origem um ato de bondade, de proteção.
-
E o que adiantou se tal ato teve a morte como fim? Não teria sido melhor se ele
tivesse continuado no chão?
-
Sim, mas o que valeu foi a intenção.
-
Para quê? Para levar-lhe a um caixão frio?
-
Tomemos apenas sua intenção, Gabriel, apenas sua intenção – intercedeu o anjo
Rafael em favor dos homens. - Ele jamais poderia prever seu ato.
-
Então de que vale a eles a bondade, se não podem prever as consequências de
seus próprios atos?
-
Sei que bondade sem conhecimento não é nada, mas...
-
Ora, ora, Rafael, não seja exageradamente otimista com eles; além de tudo, você
viu que o bêbado só foi erguido por que impedia a passagem.
O
anjo Rafael calou-se tristemente e, desapontado, seguiu com Gabriel até a
frente de uma igreja. Lá, viram um homem jogar esmolas a um mendigo.
-
Finalmente, um ato de bondade – comentou Gabriel, pela primeira vez otimista.
-
Eu não seria tão otimista assim – disse Rafael, surpreendentemente, em um tom pessimista.
-
Por quê? – inqueriu imediatamente um perplexo Gabriel.
-
Porque não creio que seja virtuoso quem pratica o bem visando apenas o bem de
si próprio.
-
Como assim?
-
Ora Gabriel, não há virtude em fazer o bem visando as delícias de um paraíso,
assim como também não há virtude em deixar de cometer um crime por medo do
castigo.
Gabriel
ficou, por alguns instantes, pensativo, até que um diálogo chamou-lhes a
atenção.
Um
jovem pôs-se a discutir com o religioso que havia a pouco dado esmolas ao
mendigo, dizia-se ser um ateu convicto. E quando o mendigo, sujo e assustado,
escorregou a seus pés, este imediatamente levantou-o.
O
anjo Gabriel, então, gritou: ”Eis nosso santo!”.
-
Ele é um ateu, Gabriel!
-
Claro, pois apenas um bondoso ateu poderia exercer a bondade pura: veja, ele
nada tem a ganhar, nem paraíso ou favor de Deus.
E
completou:
-
É como sempre dizes, Rafael, “a bondade pode está onde menos se espera”.
Gabriel
e Rafael, como pedia a proposta de Deus, tentaram várias vezes convencer o ateu
de sua santidade, mas o que, a princípio, lhes parecia fácil demonstrou-se
terrivelmente difícil, pois aquele, como era de se esperar, jamais acreditou neles.
-
Sabia que haveria alguma sacanagem de Deus por trás de tudo isso – comentou
Gabriel, enquanto Deus, bem longe dali, se pôs a rir, abafando o riso com as
mãos.
-
É, Ele sabia que um homem santo só poderia ser um ateu.
-
Sim, e que seria impossível convencê-lo de sua santidade também.
E
assim, não tendo alternativa, os anjos tiveram, finalmente, que destruir o
mundo.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
JANELAS DISCRETAS Nº 16 (de Marcos Salvatore)
Nada descreve o
horror de Ageu Pazoud e o meu quando passamos pelo Portal, ontem à noite, e nos
deparamos com os inéditos tambores evangélicos do espaço, furibundos em roda de
desejo operário. Os bigodes peruanos da Tiazinha me desidratavam de desejo
insuspeito: - "Voouu reezaar poor vooêê. Quaal éé´oo seeuu noomee?".
Não passava uma agulha. Ruim era o medo de nos cercarem e gritarem: -
"Pega". O Ageu tentava não gaguejar na esperança de convencer um
garotinho inquisidor que insistia nebulosamente que ele aceitasse Jesus mais
uma vez "só pra conferir se era verdade". Antes de sairmos correndo
dali, a Tia pergunta o meu nome com a voz mais rouca, queria rezar muito por
mim, mas só tenho culhão de responder: - "É Zenaldo".
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
JANELAS DISCRETAS Nº 15 (de Marcos Salvatore)
O
cadáver deixado para trás, pelo marido, ou amante, estava intacto. Quando
chegamos ao necrotério pude notar uma certa alegria faunesca nos olhos dos
médicos-legistas. Realmente ouvi o seguinte cochicho:
- Hoje
tem “janta”.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
FRESTAS INDISCRETAS Nº 5 (de Haroldo Brandão)
O
relógio, o tempo
A
vida é o que acontece
Enquanto tu fazes
alguma coisa:
Olhar na fresta por
exemplo.
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