segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

21 DE DEZEMBRO DE 2012 (de Bosco Silva)


Chegando mas um final de ano e com ele um dos maiores medos do homem: a ideia de um fim de mundo. Desta vez o pivô é um dos calendários maia; isso mesmo, havia mais de um. E com o término dele, em 21 de dezembro de 2012, toda sorte de teorias apocalípticas surgem associadas a ele. E, como sempre, acontece, como é natural no homem, há também interesses econômicos envolvidos.

E aí, estão prontos para o fim do mundo? Sim? Não? Então preparem seus bolsos: o final do mundo sempre sai caro...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

DIÁLOGOS DE UMA VAGINA FUMANTE (de Bosco Silva)



Após o quarto ecstasy, Paula foi ao banheiro da boate. Arriou as calças e sentou-se no vaso sanitário; acendeu um cigarro e ficou a olhar as paredes cobertas de frases obscenas. Uma lhe causou risos incontidos:

“Para curar um amor platônico, só mesmo uma foda homérica.”

  Tragou mas uma vez o cigarro enquanto ouvia o cair de sua urina na privada, embalada pelo som enervante da música eletrônica que vinha da pista de dança.


De repente, enquanto soltava mais uma baforada de fumaça, ouviu uma voz feminina, “hei, hei, você ai”. Paula olhou para os lados, e não viu nenhuma janela e muito menos alguém por perto. Por um momento, pensou que seus sentidos tinham-lhe enganado; e assim voltou a tragar o cigarro novamente enquanto examinava o esmalte das unhas. Mas a voz novamente fez-se ouvir, “hei, você ai”. Paula olhou em direção a porta do banheiro e, com a voz firme, disse: “O que é? Não está vendo? Está ocupado. Aguarde sua vez”. A voz então lhe respondeu: “Eu não estou à porta. Estou aqui, aqui embaixo”. Paula olhou então para o piso do banheiro, imaginando a existência de esgoto ou de algo parecido em que pudesse caber alguém. Até que um assovio fez-se ouvir do fundo da latrina, acompanhado de um “hei, estou aqui embaixo de você”. Ela então olhou dessa vez para o fundo do vaso sanitário, e não acreditou no que via: sua vagina se movia como uma boca que expelia frases sonoras. Paula levantou-se assustada deixando suas calças descerem até seus pés.
- Um trago, desejo um trago – disse sua vagina.
- O que está acontecendo comigo? – disse Paula consigo mesma, passando as mãos sobre o rosto e olhando, atordoada, sua genitália.
- Vamos, rápido – continuou a vagina.
- O que você quer?
- Já disse: um trago – respondeu a vagina impaciente.
- Não acredito que estou conversando com minha própria vagina!

E com a insistência da mesma, Paula acendeu um cigarro e levou até sua vagina. E esta tragou com voracidade.

- Sabe, nunca gostei do termo vagina, prefiro xoxota – disse a própria, tragando o cigarro, e soltando a fumaça, como as vaginas daquelas praticantes de pompoarismo da Tailândia. – É bem mais carinhoso. E, além disso, você sabe, nenhum namorado seu me chamou, naquelas horas, de vagina; sempre foi "deixa eu ver, meu amor, essa buceta... essa perseguida... essa xoxota". Lembro que um me chamava de moqueca.
- O Marcos.
- Que Marcos? O Salvatore?
- Sim. Ele era tão carinhoso e engraçado.
- Mas havia aquele outro, aquele engraçadinho que me chamava de pata de camelo.
- Ah, o Teco.
- Mas pior que ser chamada de vagina, era quando aquele outro sujeito me chamava de vulva, que nome feio.
- Ah, esse era o Haroldo, o Brandão. Ele era tão metódico; mas o que esperar de um psicólogo, né?
- Pois é, então porque me chamar de vagina. Vagina é dito quando alguém não quer ter intimidade, como um ginecologista, mas eu sou íntima de você, por isso me chame de xoxota, meu bem.
- Mas eu sei como você ficou na minha última visita ao ginecologista, sua danadinha.
- Também pudera com aquele homem lindo. Fiquei toda molhadinha!
- E se fosse uma fantasia – argumentou Paula, sentada novamente, com as calças arriadas na latrina, dividindo o cigarro com sua vagina -, digamos que alguém me pedisse para irmos às vias de fato, fantasiando ser um ginecologista?
- Bem, toda regra tem exceções, minha querida.
- Ahã!, te peguei agora sua safadinha – disse Paula dando leves palmadas em sua vagina.
- Tudo bem, tudo bem, eu me rendo, mas não faça como aquela vez em que encontraste outra xana pra se esfregar.



- Foi mais uma experiência. E que tal? Você não gostou?
- Bem, sabe quando você quer calabresa mas lhe dão salsicha?
- Ahã.
- Foi assim que eu me senti: não me contentei com dedos, querida. Falando nisso, não estamos esquecendo de algo?
- Maurício! – exclamou Paula levantando-se e vestindo rapidamente as calças.
- Ele parece ser tão bem dotado! – comentou a vagina satisfeita.
- Não me admira que não se contenha com salsichas, larga como estás, sobra espaço – comentou uma voz grave.
- Quem disse isso? – inqueriu Paula, assustada, antes de abrir a porta do banheiro.
- É ele – respondeu a vagina.
- Ele quem?
- O seu cu.
- Ele também fala?!
- Bem, ouço mais do que falo, mas dou meus palpites também, querida – disse o cu de Paula.
- Vamos, vamos, meu bem, não ligue para as opiniões de alguém que nunca lhe encarará de frente – comentou a vagina enquanto Paula abria a porta e seguia enfrente.
- O que você sente é inveja, já que no final eles sempre acabam procurando por mim - retrucou o cu a vagina, enquanto esta lhe mostrava a língua, ou algo parecido.
- Ah é? Eu juro que irei atrapalhar da melhor forma possível: merda – disse o cu irritado, enquanto Paula seguia para mais um encontro amoroso, sendo imediatamente interrompida, e retornando ao banheiro, mas desta vez por outros motivos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O SEGREDO DE DOMINIC (de Bosco Silva)



Dominic era uma mulher como poucas, com seus longos cachos dourados que brilhavam como pés de trigo ao sol, quando ela se punha a caminhar sobre os verdejantes prados de então; seu corpo cheio de curvas voluptuosas era capaz de levar qualquer um à beira do precipício do êxtase sem fim. Mas em meio a tantos atrativos, Dominic guardava um mistério que com o tempo me a costumei a ele: Dominic possuía um avantajado clitóris, que se entumecia e se estendia como um pequeno pênis que se destacava de sua delicada vagina.

Lembro-me, quando a possui pela primeira vez, dela me repelir e me manter distante de seu sexo, de seu segredo inimaginável. Mas vencida pela força da natureza, cedeu, enfim, ao mais puro desejo. 

Com o tempo seu clitóris aumentara de tamanho; e a cada relação cometida, ficava a examiná-lo, reparando que se aproximava cada vez mais do tamanho de um pênis. E a cada noite lá estava ele entumecido e rígido como se estivesse a fitar-me, a desafiar-me. Por fim, descobri que Dominic possuía um lado feminino e outro masculino; e o mistério maior transformou-se em saber qual dos dois aprecio mais.

Agora um pequeno teste tirado do excelente site Sweetlicious (sweetlicious.net). Você conseguiria diferenciar em pouco tempo uma mulher de 27 travestis? Lembre-se: há apenas uma mulher.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

É TODO SEU! (de Bosco Silva)



- Venha cá criança, chegue mais perto, minha pequena... Quero-lhe mostrar algo que você irá gostar; venha, não tema. Olhe.
- Tio é tão grande!
- E é todo seu. Vamos, pegue, pegue logo.
- Mas tio está tão melado! 
- Vamos, pegue logo antes que amoleça... Devagar, com cuidado, antes que sua tia nos veja. Vamos, ponha na boca agora.
- Tio é tão grande para minha pequena boca!
- Então não morda, apenas lamba. Isso, do começo ao fim. Assim... assim... assim...
- Veja tio, tia Lúcia está vindo.
- Rápido, esconda, esconda...
- Não acredito, João, que estás dando novamente sorvete para esta menina gripada!!!


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PERDEDOR? (de Haroldo Brandão)




(ao som de "Ripples" do Gênesis, com Phil Collins no vocal. Vinil " A trick of the tail")

Feito um perdedor te deixei na tua casa e segui rumo ao Mauro, a turma estava lá, era quase uma da manhã, cedo para os meus padrões, me receberam alegremente (não no sentido gay), tiramos fotos e em seguida me isolei em uma cadeira ao ar livre, na parte do asfalto, acabrunhado pensei: perdeu campeão. Pedi uma long neck daí, as fotos ("inédito: Harold tomando cerveja? vamos registrar") click do Maurício, click do Matias Lemos, pose com Salvatore, Fábio Castro e Bud, cerveja pra turma, então me isolei de novo, um punk pediu para eu pagar uma cerveja, o atendi e despachei, só queria ficar sozinho com meus secretos segredos. Pedi a segunda long neck, fui ao balcão, me distraí com a Lu e  eram duas horas quando adentrei no apê. Boa noite querida! As cervejas me relaxaram e eu estava em meu habitat, em mi casa, foi deitar e bateu a energia, corpos se encostaram, fizemos um belo sexo, o bastante para chegarmos ao orgasmo, antes de desmaiar pensei: "que ironia". Foi aí que o grilo bateu: por quê?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sobre Ausências. (De ReNê Romana)


Sou mais que carne, ossos, veias, unhas, sexo.
Sou feita de ausências...
Ausência pontuda, as vezes longas e doloridas.
Minha extensão é toda espinhos rompendo a pele
Vindos dos meus escombros, debaixo da alma.
Não há calma, sempre taquicardia.
Nunca é dia, ninguém se aproxima
Do breu, da noite que me tornei.
Me arrasto no movimento quase intangível dos meus passos,sobre o chão liso demais, das faltas mais fundas.
Dentro da minha noite aguda todos dormem pra sempre,
Mudam de posição, sofrem seus espasmos noturnos,
Sonham descaradamente.
Diante de meus olhos insones.
Diante da minha fome
Da minha estranha arquitetura,
Chamas, incêndio, sirenes...
E aqui no peito a solidão, e lá fora só o silêncio!

(somente um texto que me leva a um tempo de estio, ou texto sobre a solidão noturna, poderia ser também"um achado pelas gavetas das memórias esquecidas".)

Carta para um velho safado ( de ReNê Romana)


Prezado Charles,

Escrevo-te porque me preocupo contigo. 
Mentira. Escrevo-te porque preocupo-me comigo e sinto por ti um desprezo que me incomoda mas me atrai. Mal nos conhecemos, já li algumas coisas suas. Gosto, mas não muito. Confesso que isso tudo pode estar alojado em um violento asco pela maneira como você se refere às mulheres, mas acho que compreendo tal necessidade. Fato é que me parece apelativo esse seu caminho escatológico de lidar com a vida, com o amor e o sexo (Aliás, acreditas no amor?). Você parece fazer questão de expressar as palavras mais grotescas e chulas, achando que isso o torna um pessimista profundo? Desculpe, mas a mim não convence. Acho que você não sofre como faz parecer que sofre. Por exemplo, se eu escrever, no meio dessa minha carta, um "Hank, seu grande filho da puta. Por que não podes suportar me comer direito?"
todo mundo olharia diretamente para essa frase e interessar-se-ia por essa carta pelo simples fato de ver uma palavra suja, e consequentemente achar que algo desse teor estaria envolvido nela. As pessoas precisam que alguém extravase no lugar delas não é mesmo? Talvez você me ache uma romântica idealista e boba, e que meus textos cativam mulheres solitárias e mal amadas, apenas. Até pode ser. Eu sou uma solitária. Se não fosse, porque diabos estaria eu escrevendo uma carta a alguém que eu supostamente desprezo? Às vezes tenho pena de mim, ao contrário do que transpareço em minhas ultimas entrevistas na TV. Talvez não sejamos tão diferentes, afinal. Eu, fingindo uma profundidade atrás dessa rudeza e pequeneza feminina, e tu fingindo boemia e transgressão atrás dessa insegurança masculina.

A verdade é que hoje percebo que existem os homens, as mulheres e os escritores. Talvez a gente não tenha as habilidades normais das pessoas para nos relacionar. Eu não descobri o mundo através de uma barata como minha personagem Joana, e você, velho safado, não me parece ter comido tantas bundas como escreves. Somos mentirosos muito bem sucedidos, não lhe parece? E as pessoas nos adoram por acharem que somos verdadeiros e expressamos desejos que são ocultos em todos e que todos gostariam de colocar em palavras. 

Não sei, Buk (permita-me tal intimidade. Comecei essa carta para achincalhar-te e agora tenho em ti um rápido amigo) mas talvez meu sentimento de desprezo por ti esteja me atrapalhando e fazendo com que eu esteja te desrespeitando. Mas acho que isso não te preocupa nem um pouco, certo? Talvez eu precise fazer as mulheres me amarem, ao passo que tu necessita fazer com que elas te odeiem. Somos farsantes solitários.

Paro por aqui desculpando-me pelo desabafo, e agora não mais secretamente desejando que um dia quem sabe ainda possamos nos sentar juntos, depois de uma noite de amor, fumando um cigarro e tomando um bom whisky, para que tu me digas quem sou eu em teus olhos e me ensine um pouco mais sobre nossos podres todos.

Clarice. 







Sem mais delongas, um achado nas minhas "viagens" pela internet!!

Tão surreal que nem fiz questão de ver a veracidade, visto que lemos por ai tantas baboseiras que alguém supostamente registra como se fosse obra da grande Clarice Lispector, mas ao ler essa "Carta para um velho safado" não tenho dúvidas que só uma mente tão linda quanto a de Clarice poderia ousar, e quem em sã consciência não gostaria de escrever o mesmo ao grande Bukowski??

(ando meio desligada e sem inspirações, mas em breve apareço com meus escritos por essas bandas, sinceramente aqui no meu território emocional as coisas estão meio nubladas, e a lua não apareceu pra me trazer inspirações pelas madrugadas. Em breve numa esquina qualquer eu ressuscitarei e me encontrarei com meu lado notívaga e encantada de ver  a vida.)

sábado, 24 de novembro de 2012

A PEGADINHA DE DEUS E A PELEJA DOS ANJOS (de Bosco Silva)



DEUS, MAIS UMA VEZ, HAVIA DECIDIDO DESTRUIR O MUNDO, argumentando que o mundo não tinha mais jeito, que tinha se entregado a mais extrema maldade e a todas as formas de pecado; chamou então dois anjos a fim de concretizar sua vontade. Porém estes intercederam a favor dos homens, dizendo a Deus que nem tudo estava perdido. Deus então lhes propôs um desafio: se em mil anos, encontrassem um único homem santo, que pudesse ser convencido por eles de sua santidade, o mundo, então, seria por Deus poupado e pertenceria aos dois anjos; do contrário, que fosse por eles, imediatamente, destruído.
E após aceitarem o desafio, os dois anjos, desconfiados da proposta de Deus, puseram a conversar entre si, no alto de uma nuvem, bem longe dos ouvidos do Todo-Poderoso:
- Bem que Deus em vez de se preocupar com o mundo poderia deixá-lo logo para nós. Teríamos então alguns bons lugares para passarmos alguns anos calmos de férias, hein?
- Calmos?! Não sei não, lembre-se que é a Terra, a coisa lá embaixo não está tão calma assim. Talvez fosse melhor outro planeta; quem sabe, com menos gente.
- Mas gosto da Terra, com todas essas mulheres gostosas vestidas de freiras, são minhas preferidas; sabe como é, me amarro em mulheres discretas e de uniformes.
- Sim, mas você sabe como é Deus: você acha que Ele irá perder a chance de ter mais gente para bajulá-Lo. Com certeza irá destruir este velho mundo e criar um novo mundo com muito mais gente pronta a cultuá-Lo sem a menor crítica, como sempre fez; porque você sabe, Deus gosta bem mais de destrui-lo do que consertá-lo: não tem muita paciência mesmo. Lembre-se do dilúvio e de Sodoma e Gomorra.
- É. E, se Ele quer mesmo ser mais cultuado, então para isso terá que diminuir ainda mais a inteligência que deu ao homem.
- Eles já possuem tão pouco.
- Você sabe que Deus odeia uma crítica.
- Sei, Ele possui um ego infinito.
- Mas são mil anos. E convencer alguém santo de sua santidade parece ser tarefa fácil – disse o otimista anjo Rafael.
- Sim, mas você também sabe como são os homens: será difícil encontrar alguém santo neste mundo cheio de maldades e pecados sem fim de hoje, com toda essa música que chamam de funk e essas mulheres-frutas e todas essas periguetes também, Rafael – comentou o exigente anjo Gabriel, olhando o povo do alto.
- E não esqueça também dessa tal de internet.  
- Claro, um verdadeiro portal pro inferno.
- Mas será que não encontraremos unzinho sequer?
- Sei não – disse o desconfiado anjo Gabriel.
- Notei algo de estranho na proposta de Deus, Ele me pareceu tão seguro!
- Sim. Lembro-me de tê-lo visto assim apenas na idade média, quando foi defendido por São Tomás de Aquino.
- Também pudera com aquele livro de mais de mil páginas dele; todos concordavam com ele, só por que não tinham saco de lê-lo por inteiro.
- Não esqueça também da Inquisição.
E após o anjo Rafael balançar a cabeça em afirmativo, disse:
- Bem, Gabriel, apesar do ego infinito do Todo-Poderoso, Ele não é tão bobo assim.
- É. Mas também pudera com todos esses milhares de teólogos a defendê-Lo!
- O que Deus estará aprontando, hein Rafael? O que Ele estará aprontando agora? – ficaram a pensar os anjos Gabriel e Rafael com expressão de dúvida em seus rostos.



Puseram-se então a examinar, anos após anos, décadas após décadas, séculos após séculos, atos sinceros de bondade, que pudessem definir alguém como santo, porém, após todos estes anos, nem um ato sequer de bondade havia sido, por eles, encontrado. Até que uma noite, desanimados, ao passarem por uma rua, viram um carro chocar-se a um poste, e três pessoas correrem em direção ao veículo, despertando assim a atenção de ambos:
- Veja Gabriel, ainda há bondade nos corações dos homens. Veja quantos estão indo ajudar! – exclamou Rafael.
- Bem, não tomemos decisões precipitadas, Rafael. Vejamos o que isso dará – respondeu o precavido anjo Gabriel.
Os três homens chegaram ao carro destroçado, carregaram o motorista sangrando para fora do veículo, e um pôs-se a vasculhar seus bolsos, enquanto os outros entravam no veículo.
Rafael, sempre otimista, comentava: “Isso, isso, isso, procurem por seu endereço e telefone, sua família precisa ser avisada”. Calando-se, em seguida, para ouvir seus diálogos.
- E aí, encontraram algo? – disse o sujeito ao lado do motorista aos dois homens que haviam acabado de sair do carro.
- Sim, um celular e o aparelho de som – respondeu um deles, com os objetos nas mãos.
“Aparelho de som?” – repetiu o anjo Rafael, já desconfiado, mudando imediatamente sua expressão de alegria para perplexidade.
- E você? – perguntou um dos homens que havia saído do carro.
Nesse momento, o homem que havia vasculhado os bolsos do condutor do veículo pôs-se a mostrar a carteira que havia encontrado nos bolsos do motorista, com gestos de alegria, gestos que aumentaram muito mais quando o sujeito mostrou o bolo de dinheiro que havia na carteira daquele. Em seguida, após um deles tirar, ainda, os sapatos da vítima, foram embora deixando o motorista do veículo em frangalhos, sangrando muito. Dizendo, entre si:
- Que noite de sorte, hein?
- E como!
“Hei, hei, voltem aqui, ele precisa de ajuda” – gritou Rafael, um grito inútil de quem não poderia ser ouvido.
- Tá vendo, Rafael, não lhe disse: a bondade parece ser rara entre os homens.
- Sim, mas ainda não percamos a esperança neles, Gabriel – disse Rafael com um grande brilho no olhar. - Há de encontrarmos um homem santo.
- Não temos toda a eternidade para isso, Rafael – respondeu-lhe o anjo Gabriel com ironia.
Ao passarem por um bar, viram um homem bêbado caído ao chão, e ficaram a examinar o ambiente.
- Vamos, vamos embora – sugeriu Gabriel. - Parece-me que aqui não encontraremos um ato de bondade.
- Calma, aguardemos. A bondade pode estar onde menos esperamos – disse Rafael, sempre complacente.
Minutos depois, um homem sóbrio levantou o bêbado do chão, e o pôs em uma cadeira.
- Veja! – exclamou Rafael com alegria –, encontramos, finalmente, um homem virtuoso.
- Calma Rafael, aguardemos, aguardemos... – disse Gabriel com o semblante sério.


Após alguns minutos, o bêbado, pouco a pouco, se pôs a inclinar-se na cadeira, até que finalmente caiu desta, indo com sua testa de encontro a uma tampa de cerveja que estava no chão, que lhe levou imediatamente à morte.
- Tá vendo, Rafael, o que sempre lhe digo: os homens sempre fazem o mal, até mesmo quando não querem – disse o sempre desconfiado anjo Gabriel, vendo a alma do bêbado desprender-se de seu corpo e maldizer aquele que lhe tinha ajudado.
- Sim, mas o gesto teve como origem um ato de bondade, de proteção.
- E o que adiantou se tal ato teve a morte como fim? Não teria sido melhor se ele tivesse continuado no chão?
- Sim, mas o que valeu foi a intenção.
- Para quê? Para levar-lhe a um caixão frio?
- Tomemos apenas sua intenção, Gabriel, apenas sua intenção – intercedeu o anjo Rafael em favor dos homens. - Ele jamais poderia prever seu ato.
- Então de que vale a eles a bondade, se não podem prever as consequências de seus próprios atos?
- Sei que bondade sem conhecimento não é nada, mas...
- Ora, ora, Rafael, não seja exageradamente otimista com eles; além de tudo, você viu que o bêbado só foi erguido por que impedia a passagem.
O anjo Rafael calou-se tristemente e, desapontado, seguiu com Gabriel até a frente de uma igreja. Lá, viram um homem jogar esmolas a um mendigo.
- Finalmente, um ato de bondade – comentou Gabriel, pela primeira vez otimista.
- Eu não seria tão otimista assim – disse Rafael, surpreendentemente, em um tom pessimista.
- Por quê? – inqueriu imediatamente um perplexo Gabriel.
- Porque não creio que seja virtuoso quem pratica o bem visando apenas o bem de si próprio.
- Como assim?
- Ora Gabriel, não há virtude em fazer o bem visando as delícias de um paraíso, assim como também não há virtude em deixar de cometer um crime por medo do castigo.
Gabriel ficou, por alguns instantes, pensativo, até que um diálogo chamou-lhes a atenção.
Um jovem pôs-se a discutir com o religioso que havia a pouco dado esmolas ao mendigo, dizia-se ser um ateu convicto. E quando o mendigo, sujo e assustado, escorregou a seus pés, este imediatamente levantou-o.
O anjo Gabriel, então, gritou: ”Eis nosso santo!”.
- Ele é um ateu, Gabriel!
- Claro, pois apenas um bondoso ateu poderia exercer a bondade pura: veja, ele nada tem a ganhar, nem paraíso ou favor de Deus.
E completou:
- É como sempre dizes, Rafael, “a bondade pode está onde menos se espera”.
Gabriel e Rafael, como pedia a proposta de Deus, tentaram várias vezes convencer o ateu de sua santidade, mas o que, a princípio, lhes parecia fácil demonstrou-se terrivelmente difícil, pois aquele, como era de se esperar, jamais acreditou neles.
- Sabia que haveria alguma sacanagem de Deus por trás de tudo isso – comentou Gabriel, enquanto Deus, bem longe dali, se pôs a rir, abafando o riso com as mãos.   
- É, Ele sabia que um homem santo só poderia ser um ateu.
- Sim, e que seria impossível convencê-lo de sua santidade também.
E assim, não tendo alternativa, os anjos tiveram, finalmente, que destruir o mundo.


BUUUUUMMMMM!!!



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 16 (de Marcos Salvatore)

Nada descreve o horror de Ageu Pazoud e o meu quando passamos pelo Portal, ontem à noite, e nos deparamos com os inéditos tambores evangélicos do espaço, furibundos em roda de desejo operário. Os bigodes peruanos da Tiazinha me desidratavam de desejo insuspeito: - "Voouu reezaar poor vooêê. Quaal éé´oo seeuu noomee?". Não passava uma agulha. Ruim era o medo de nos cercarem e gritarem: - "Pega". O Ageu tentava não gaguejar na esperança de convencer um garotinho inquisidor que insistia nebulosamente que ele aceitasse Jesus mais uma vez "só pra conferir se era verdade". Antes de sairmos correndo dali, a Tia pergunta o meu nome com a voz mais rouca, queria rezar muito por mim, mas só tenho culhão de responder: - "É Zenaldo".

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 15 (de Marcos Salvatore)


O cadáver deixado para trás, pelo marido, ou amante, estava intacto. Quando chegamos ao necrotério pude notar uma certa alegria faunesca nos olhos dos médicos-legistas. Realmente ouvi o seguinte cochicho:
- Hoje tem “janta”.

terça-feira, 20 de novembro de 2012