sábado, 5 de outubro de 2024

O ESTRANHO CASO DO HOMEM QUE VIROU PIANISTA AO SER ATINGIDO POR RAIO





O ESTRANHO CASO DO HOMEM QUE VIROU PIANISTA AO SER ATINGIDO POR RAIO

A ciência moderna trata de fenômenos que acontecem a todo instante, que podem ser reproduzidos à exaustão, como a ebulição da água, ou até mesmo a explosão de uma estrela, que são explicados por leis físicas gerais. 


Mas como explicar fenômenos que são tão únicos, mas tão únicos, que não podem ser comparados a nada, que acontece apenas uma vez em milhares de anos, e que não podem ser explicados por leis gerais? Nessa hora a ciência falha, não consegue explicar. Entramos então no mundo do insólito, do extraordinário, daquilo que é tão estranho que não conseguimos classificá-lo. É o curioso caso de pessoas que voltam do coma falando idiomas que nunca aprenderam. Ou o estranho caso do médico ortopedista estadunidense Tony Cicoria. 


O Estranho Caso de Tony Cicoria


Durante um passeio com a família, Tony Cicoria, 42 anos na época, ao usar um telefone público, durante a chuva, foi atingido por um raio, que o atingiu em cheio. 


Tony conta que foi jogado para trás e que se sentiu sair do próprio corpo, voltando a ele por meio da massagem cardíaca feita por uma mulher que também esperava para telefonar.


Duas semanas depois passou a sentir uma vontade irresistível de ouvir música tocada em piano --- tipo de música que não fazia parte de seu gosto musical. Comprou então um CD de música de piano, que não parou de ouvir. Mas logo passou a sentir vontade irresistível de tocar piano, mesmo sem ter um piano em casa. Coincidentemente, foi o período em que uma antiga babá disse que estava de mudança, e se não poderia deixar um piano em sua casa. Foi nessa época que uma música passou a se repetir em seus sonhos. No sonho ele estava em um palco e ouvia a música, e tinha a nítida sensação que a música era sua. Tony comprou algumas partituras de música para piano e passou a ter aulas de piano com uma professora. Anos depois, Tony Cicoria conseguiu compor a música que ele ouvia em seus sonhos. E em 2008, ele subiu ao palco para tocá-la, que ele a chamou de The Lightning Sonata (A Sonata do Raio).


O fato é impressionante não apenas por alguém ter seu interesse musical despertado após o acidente com um raio, mas também por ter idade avançada para começar a tocar piano, e ter progredido tão rápido e tão intensamente, ao ponto de compor música no estilo mais complexo de musica, que é  a música clássica.  


Uma Explicação para o Caso Tony Cicoria

Oliver Sacks

O caso de Tony Cicoria chamou atenção de um dos melhores neurologistas do mundo, Oliver Sacks, que deu uma possível explicação para o caso, afirmando de que o raio teria trazido à tona talentos musicais latentes e reorganizado seus neurônios. Porém sem provar nada. Explicação que não convenceu nem um pouquinho o próprio Tony Cicoria, que acredita que adquiriu seus dons musicais após ter tido uma Experiência de Quase Morte. Fenômeno em que é comum pessoas que tiveram tal experiência relatarem terem voltado com conhecimentos, dons, sentimentos que não possuíam antes.


O Estranho e o Insólito 


Todos os anos, milhares de pessoas no mundo inteiro são atingidas por raios, que são fenômenos bem explicados pelas leis da eletricidade. Muitos morrem, outros sobrevivem com poucas sequelas ou nenhuma. Mas, certamente, pouquíssimas pessoas tiveram seu interesse aguçado por música após ser atingidas por um raio; até agora conhecemos apenas Tony Cicoria. 


O caso de Tony é tão único que para explicá-lo teríamos que explicar o porquê de ter acontecido somente com ele e não com outras milhares de pessoas atingidas por raio.

 

Assim, mesmo que a explicação do neurologista Oliver Sacks fosse correta, o caso de Tony continuaria sendo um grande mistério, uma exceção a todas as regras. 


Seria seu caso fruto de um mal funcionamento das leis do universo? Produto de uma zona em que coisas aconteceriam de forma independente das leis do universo, que pertenceria ao mundo do insólito, do estranho e do inexplicável?


quinta-feira, 3 de outubro de 2024

UMA VISITA AO BELO E MISTERIOSO PALACETE BOLONHA





UMA VISITA AO BELO E MISTERIOSO PALACETE BOLONHA


Pela manhã, visitamos o belo e misterioso Palacete Bolonha, construído em 1915, já no final do auge da riqueza proporcionada pela venda da borracha amazônica, que enriqueceu fazendeiros, principalmente com a exploração de trabalhadores ex-escravos. Tivemos a companhia do guia que nos contava um pouco de sua história e da função de cada compartimento.



Dizia-se que Bolonha gostava mais de seu palacete do que de sua própria esposa. 


Logo na entrada, lamentei que uma parte do palacete tivesse sido destruída para dar espaço a um anexo moderno com elevador e escada. O que parecia contraditório com o projeto de conservação do palacete. O guia nos informou que fazia parte do projeto de garantir acessibilidade a todos.




O lugar estava bem conservado, apesar de ter sido, após a morte do Bolonha, adquirido por três famílias, até ser vendido para a prefeitura de Belém no final da década de 60, já sem os móveis, vendidos por Alice após a morte do marido. 




Enquanto o guia comentava sobre fatos históricos sobre o palacete, era impossível não ter em mente as histórias não-oficiais e picantes da vida de seu criador e lendas ligadas ao palacete. 




Uma olhada pela janela para o terreno atrás do palacete, veio à minha memória que aquilo tudo era um igapó, lamacento, onde, no século XIX, dizia-se, que corpos de escravos eram jogados para ser devorados pelos animais que ali habitavam, e assim dispensavam o trabalho de ter que enterrá-los. Fato que deve ter sido o início para que lendas povoassem o lugar.




Os cômodos com belos ladrilhos e com janelas que aproveitavam bem a luz do sol e o vento, arejando os cômodos, uma forma de evitar que o ar se estagnasse, o que era visto como uma das causas das epidemias --- nessa época, as epidemias varriam cidades e inauguravam novos cemitérios.




Os comentários sobre sua fábrica de gelo e empresa importadora, foi acompanhado do meu comentário de que, dizia-se, que ele era um grande importador, inclusive de mulheres da Europa. Na época, casas de prostituição nas capitais brasileiras tinham prostitutas europeias para servir aos ricos senhores, as francesas eram as mais cultuadas, enquanto as de outras nacionalidades, eram, em geral, chamadas de “polacas”. O escritor Dalcídio Jurandi, em sua obra Belém do Grão-Pará, criou um personagem baseado em Francisco Bolonha, em que ele escrevia que havia até cadeiras reservadas no Cine Olympia para Bolonha e para as “morenas do Bolonha”, em um cantinho bem escurinho do cinema.


Chegamos à famosa banheira do Bolonha, onde, dizia-se, que ele costumava dar banho de champanhe em moças europeias de reputação duvidosa. O local é bastante citado quando o assunto é assombração e visagem, com relatos de visitantes terem visto imagens fantasmagóricas de mulheres na banheira. Fiquei a imaginar a moça se refrescando submersa na banheira e ele ao lado com garrafas de vinhos importados, caríssimos, jogando sobre os cabelos femininos. Chamou-me atenção que não havia uma portinhola para entrar na banheira, necessitando de um banquinho para transpor sua beirada. Era uma banheira para jovens, certamente não para um Bolonha ou para sua esposa já com mais idade.




Ao notar que o famoso mirante, o lugar mais alto do palacete, não havia sido citado pelo guia, perguntei por ele, e fui informado que o último andar e o mirante estavam fechados ao público por motivo de segurança. O mirante, a parte mais alta do palacete, de onde, dizia-se, que Bolonha via os barcos que chegavam aos portos de Belém, também era usado para vigiar e mandar sinal para as francesas que ele trazia e hospedava nas casas de sua Vila Bolonha.




Aproveitei para perguntar onde teria sido sepultado o corpo de Francisco Bolonha, que é um pequeno mistério. Segundo o guia, sua sepultura teria sido achada no cemitério de Santa Isabel, gasta pelo tempo mas com as iniciais FB, de Francisco Bolonha. Mas ainda fiquei com minhas dúvidas, pois Bolonha pertencia a sociedades beneficentes católicas, que poderia ter recebido seu corpo em uma das igrejas de Belém.


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

(RESENHA): “CASA DE CABA”, de Edyr Augusto




(RESENHA): “CASA DE CABA”, de Edyr Augusto

CASA DE CABA traz a vingança de Isabela Pastri, que, quando criança, assistiu a mãe ser estuprada e o pai espancado pelo traficante Wlamir Turvel, que se torna governador do Pará. Isabela busca vingança. O que leva o criminoso a mandar assassinar seus pais e irmãs, no apartamento da família em pleno dia de fogos no Largo de Nazaré, na tentativa de liquidá-la.


A obra, que ainda conta com a vinda a Belém de uma estrela internacional do rock que ajuda na divulgação dos crimes de Turvel, segue o estilo de Edyr: narração enxuta, com o mínimo de descrição, com parágrafos curtíssimos em um mínimo possível de páginas. 


A trama de vingança possui clichês usados à exaustão em filmes, como o tradicional diálogo de acerto de contas entre heroína e vilão, em que todas as questões pendentes são postas antes da ação e do jorro de sangue.


Casa de Caba é mais uma obra de Edyr que tem inacreditáveis coincidências --- o que é uma forma bastante simples e cômoda de resolver problemas de enredo: do nada, o protagonista encontra alguém que o ajuda. No Pssica, é o motorista brasileiro que, em pleno Suriname, atropela, sem querer, a protagonista que foge de seus algozes, pedindo ajuda em português, e é salva por ele após se revelar que trabalha na embaixada do Brasil. Já em Casa de Caba a protagonista dorme na Praça da Trindade, e após pedir para usar o telefone para um morador, descobre que o morador achou, casualmente, os documentos dela com as provas contra o assassino de sua família. 


A falta de verossimilhança também foi um dos motivos que atrapalharam minha imersão na trama. Pois, como suspender a descrença com uma personagem que chega a idade adulta virgem, e que para desenvolver seu plano, torna-se garota de programa, perde a virgindade com o primeiro cliente e, da noite para o dia, adquire a desenvoltura da mais experiente atriz pornô, capaz de fazer de tudo na cama, sem a menor dificuldade ou constrangimento?


Edyr Augusto

Casa de Caba, por suas inconsistências, foi um banho de água fria após a leitura do ótimo Pssica.


Leia a Resenha de Pssica, Clicando Aqui.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

POR QUE ADORAMOS VILÕES EM FILMES E NA VIDA REAL?




POR QUE ADORAMOS VILÕES EM FILMES E NA VIDA REAL? 


O meme informa: Elize Matsunaga matou o marido e ganhou um documentário na Netflix; Suzane Von Richhofen matou os pais e se tornou a estrela de dois filmes. Mas a professora Heley de Abreu Silva, que salvou 28 crianças e morreu no incêndio na escola onde trabalhava, não teve nenhuma obra que lembrasse seu heroísmo. 


O Jornalista Ulisses Campbell tem se tornado um dos autores de livros mais vendidos do Brasil escrevendo sobre as assassinas mais famosas de nosso país, com milhares de livros vendidos, onde se destaca curiosidades sobre a vida pessoal de tais assassinas.


Ulisses Campbell

Curiosamente, também adoramos vilões nas histórias de ficção. O Coringa tem merecido tanto destaque quanto o super herói Batman. 



O filme do Coringa mergulha nos traumas e dramas deste vilão, o humaniza e o torna tão próximo dos traumas e dramas de uma real que chega a ganhar a simpatia de muitos. No final percebemos que os anti heróis, com seus defeitos e imperfeições, estão mais próximos humanamente de nós do que os super heróis. 


Na mitologia grega, os heróis, por seu heroísmo, pertenciam ao reino dos deuses, não dos humanos.


E é aqui que surge, talvez, uma explicação para a pergunta “Por que adoramos vilões?”. Os heróis para que seu ato de heroísmo não seja eclipsado por algum defeito de caráter, é necessário que sua história foque apenas em seu ato heroico, amenizando ou apagando por completo qualquer defeito de personalidade que o aproxime de nós.


É o que vemos no filme “Voo”, com o ator Denzel Washington, em que um piloto de avião é saudado como um grande herói após salvar os passageiros da morte com uma manobra extremamente ousada. Porém, a fascinação por seu ato de heroísmo termina quando descobre que ele, por ser alcoólatra, pilotava o avião bêbado, sendo este a causa de seu quase acidente fatal.


E é por deixar os sentimentos mais humanos --- cobiça, inveja, falsidade, ambição, etc. --- à mostra, sem filtro, através de seus atos hediondos, que os vilões acabam por ganhar simpatia do público e, por isso, também a atenção de autores de livros e diretores de filmes.


Heley de Abreu Silva


Fica aqui uma singela homenagem à professora Heley de Abreu Silva, que morreu salvando crianças no incêndio da creche Gente Inocente, provocado pelo vigia do estabelecimento, em 2017, em Janaúba (MG).


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN por MARLON VILHENA




ENTREVISTA COM BOSCO CHANCEN

(por Marlon Vilhena, autor de As Horas Todas da Carne)

 

Primeiro de tudo, Bosco: por que escrever literatura hoje em dia? Falo especialmente de romances de duzentas, trezentas, quatrocentas páginas, se as pessoas cada vez mais preferem textos curtos, influenciadas pelas redes sociais, que são locais virtuais, de fácil acesso e com conteúdo essencialmente efêmero. Ou, em outras palavras: qual a função de um escritor em dias pós-modernos e ultravelozes? Acho que já comecei com duas perguntas de uma só vez.

É uma boa pergunta: Por que escrever literatura hoje em dia com tão poucos leitores em nosso país (lembrando: essa entrevista também terá pouquíssimos leitores (risos)) e com pessoas com tão pouco tempo livre que preferem gastá-lo com filmes, séries, bares e redes sociais do que ler um livro?

Bem, acho que ainda vale apena, sim, escrever, independentemente de ter ou não público, porque não somente é prazeroso usar a imaginação na forma de escrita mas também porque exercitar nossa imaginação é uma necessidade quanto sonhar, que nada mais é do que criar, inconscientemente, histórias por meio da imaginação; e sonhar é uma forma de aprendizado. Além disso a imaginação ameniza as durezas da vida, ajuda a fazer descobertas, encontrar soluções para problemas, antecipa o futuro, etc. Lembro-me de uma reportagem com um prisioneiro que durante seu confinamento na solitária, teve que criar um amigo imaginário para ter com quem conversar e não enlouquecer. E sempre haverá aqueles que sentem prazer e necessidade em pôr sua imaginação para funcionar por meio da leitura, por meio de textos de 300, 500 ou até mil páginas, já que contar e ouvir histórias é uma necessidade humana desde os homens da caverna; contar histórias faz parte do ser humano, são as narrativas e a imaginação que dão sentido ao mundo, e mesmo quando se conta uma história que quer ser realista, mesmo assim há nela muito do imaginário. E a função do escritor, e dos artistas em geral, é criar narrativas, de proporcionar material para o sonhar e o imaginar das pessoas e passar adiante o registro imaginário de cada geração, senão por meio da escrita, mas por meio de mitos e lendas orais.


O Escritor Marlon Vilhena com o Livro "Após a Chuva da Tarde"

E como vai essa vida de escritor/autor? Muitos convites para palestras e feiras de livros? O reconhecimento de seu trabalho está rendendo bons frutos?

Participei de algumas entrevistas e algumas palestras para divulgar o livro, sempre de forma bastante modesta, em que eu contava fatos curiosos e obscuros sobre a história da cidade de Belém por meio de suas lendas urbanas, que tinham a finalidade de despertar o interesse pela leitura e pela história de nossa cidade. 

Quanto ao reconhecimento pela arte de escrever, minha vida de escritor tá igual aos projetos da Agência Espacial Brasileira de conquistar o espaço (risos).

Tirando Paulo Coelho, Raphael Montes, Socorro Acioli, e meia dúzia de três ou quatro autores, não há mais nenhum autor brasileiro vivo reconhecido, que viva de sua arte --- no Brasil, quase ninguém mais lê ou compra livros ---, de modo que não se tem como alimentar esperança nessa área. Acho que, brevemente, quem vender 100 livros no Brasil será considerado best seller. E as feiras de livros, que deveriam incentivar a leitura, erram porque não incentivam os autores independentes, de onde surgem os novos autores, que são prejudicados pelos descontos abusivos sobre à venda de seus livros; livros que são bancados com o próprio dinheiro dos autores; e descontos que superam o próprio lucro do autor, que fica para os vendedores e não com aqueles que criam as histórias, fazendo com que os autores não apenas não tenham lucro, mas prejuízo econômico.

Alguns escritores que estão batalhando para alcançar algum renome, alguma marca que possa ser lembrada de suas obras, talvez gostassem de alguns conselhos de um escritor que conseguiu viralizar uma personagem na internet — literalmente, além das fronteiras brasileiras, como foi o caso de sua enigmática Madame Camille Monfort. Você pode lhes dar algumas palavras de como persistir naquilo que fazem, isto é, no ofício com histórias e palavras?

Bom seria mesmo se eu soubesse a fórmula que fez o texto viralizar na internet para que eu pudesse dar uma boa dica. Mas até hoje eu não sei ao certo o que impulsionou a viralização da personagem Camille Monfort, pois o texto sobre ela, apesar de ser um resumo, era considerado grande para os padrões do facebook, onde publiquei primeiro, e cujos usuários costumam não ler “textões”. No entanto, o texto sobre ela foi bastante lido, contrariando totalmente o desinteresse pelos “textões”.

No começo queria que o vampirismo e a violência da personagem fossem mais acentuados. Mas, com o tempo, fui me afeiçoando pela personagem, conhecendo melhor sua história, sua personalidade, seu comportamento, sua grande ânsia de vida e liberdade, e também percebi que no passado era comum que artistas com talentos excepcionais ou com comportamentos fora dos padrões, fossem demonizados, basta citar o violinista Paganini que foi associado a um pacto com o diabo para explicar seu grande talento musical, e a atriz Sarah Bernard que, devido seu talento e seu comportamento extravagante para uma mulher de sua época, foi concebida como uma vampira. Então não é de surpreender que uma personagem com comportamentos tão livres para sua época quanto Camille Monfort tenha sido também demonizada; daí uma das explicações para que tenha sido chamada de vampira por seus admiradores e de matinta perera pelos populares da época. Assim tornei a personagem mais humana, o que fez com que pessoas se identificassem com sua ânsia de liberdade e vontade de quebrar os padrões de sua época, o que a fez ser castigada por meio de boatos e comentários maledicentes do povo, isso criou uma afinidade muito grande com o público feminino. Talvez esteja aí um dos motivos para sua viralização.



Por outro lado, acredito também que um dos motivos para que o texto viralizasse foi que ele captou as características fundamentais das lendas --- o romance Após a Chuva da Tarde é um livro, essencialmente, sobre lendas ---, que, como os mitos, são formas primitivas de contar histórias; talvez exista uma atração inconsciente por essas estruturas narrativas primitivas e misteriosas que mexe com a curiosidade das pessoas ainda hoje; taí outra dica. Mas, por outro lado, penso que se essa fosse a explicação certa, então bastaria alguém obedecer aos mesmos princípios para viralizar qualquer história, de forma que não me convence tanto.

Às vezes chego a pensar que há algo de sobrenatural em tal viralização, pois só assim para explicar como um “textão” causou tanto interesse em um país onde a grande maioria não lê. E há no meu romance uma força emocional muito grande, pois eu o aproveitei para homenagear familiares falecidos --- estão lá os nomes dos meus tios, tias, avô, minha mãe e meu filho ---, de modo que chego a pensar que a personagem aproveitou de toda essa energia para se manifestar e até tomar uma forma visual por meio da IA (feita pelo Philipe Kling David). O que me leva a lembrar do fenômeno que chamo de “O Fantasma na Máquina” que acontecia na década de 70, em que gravadores e televisores eram usados para manifestações espectrais de fantasmas. O que mexe ainda mais com a minha imaginação, já que, como está no livro, Camille Monfort foi inspirada em uma pessoa real que esteve ligada a uma trágica história, de modo que há muitas energias emocionais envolvidas no livro, que chego a pensar que ela se tornou uma egrégora, se alimentando de tanta energia emocional envolvido. Bem, essa explicação é apenas imaginativa, claro, pois sou bastante imaginativo (risos).

Quanto aos que escrevem, tudo que posso dizer a eles é: escreva somente pelo prazer de escrever ou por lhe trazer alguma forma de alívio, porque reconhecimento e dinheiro, dificilmente você terá.

Acredita que a literatura da Amazônia possui bons representantes do terror, do suspense e do fantástico?

Tirando o livro Visagens e Assombrações de Belém, do Walcyr Monteiro, a verdade é que eu não conheço outra obra de outro autor amazônico na área do terror, exceto alguns poucos contos que tenho lido. Mas tenho notado que temas do folclore amazônico têm inspirado trabalhos nessa área, certamente efeito da influência do seriado Cidade Invisível. O que é legal porque ajuda a diminuir nossa síndrome de vira-lata, valorizando nossa cultura em vez da cultura estrangeira. E um povo com senso de identidade cultural é menos propenso a ser explorado por culturas estrangeiras, como acontece com países que foram colonizados, como o nosso. E os gringos têm valorizado nosso folclore --- vide o filme e livro A Forma da Água, de Guillermo del Toro e o seriado Lost, ---; infelizmente o folclore brasileiro foi meio que monopolizado pela versão feita pelo Monteiro Lobato e o Sítio do Pica Pau Amarelo, que infantilizou muito nosso folclore tirando dele o elemento de terror. O que levou os que se criaram com essa versão, ao crescerem, verem no folclore brasileiro algo bobo, infantil, preferindo importar histórias de vampiros, múmias, fadas, duendes, ogros, etc. dos países do primeiro mundo, sem notarem que não precisamos importar tais criaturas, pois temos seres semelhantes e com o mesmo poder de mistério e terror.

Quais são seus autores prediletos? Imagino que um escritor sempre tem alguns cânones em sua mesa de trabalho.

Eu não tenho nenhum autor predileto. Mas se essa pergunta me fosse feita no passado eu diria: Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant.

Agora, especificamente sobre seu romance Após a Chuva da Tarde. Pode nos contar algo do processo de criação e organização da obra? De quanto tempo você precisou para finalizar as cerca de 250 páginas de uma história ambientada nos anos finais do século XIX  e início do XX na Amazônia? Alguns contratempos? Suponho que não tenha sido fácil concatenar tantos detalhes em um enredo rico como aquele.

O romance levou sete anos para tomar a forma que tem hoje. Eu queria escrever uma história de vampiro em linguagem realista, que se passasse em nossa região, para que os leitores daqui, ao lerem, se sentissem fazendo parte da história pela familiaridade com os lugares que servem de cenário. Para tanto, pesquisei sobre a história da cidade de Belém e de seus monumentos e personalidades importantes do final do século XIX, acrescentei entidades do nosso folclore e da encantaria marajoara e também relatos contados por meus familiares.

Os Sombrios Túneis de Mangueiras de Belém

Queria criar uma história que mostrasse o quanto a cidade de Belém foi importante, progressista e rica durante o ciclo da borracha, bem mais que outras capitais do país, sem esquecer as mazelas e injustiças sociais da época, com a finalidade de diminuir o preconceito vindo do sul do país com o norte, que contamina até mesmo muitos daqui que se expressam sempre de forma depreciativa quando se referem à nossa cidade; quis mostrar que nossa cidade já teve seu momento de glória e que pode acontecer novamente; quis mostrar também que nossa cultura não é inferior a cultura estrangeira, para isso pus em pé de igualdade a lenda europeia dos vampiros e a lenda amazônica da matinta perera, mostrando que nossas lendas não devem nada às lendas europeias, e que não há do que se envergonhar de nossa influência indígena --- que é sempre usada quando querem ofender os habitantes da região norte ---, pelo contrário, o pensamento dos povos originários em relação a conservação da natureza é atualíssimo e tem muito a ensinar ao mundo, não é um uma cultura primitiva, mas sofisticada: há frutas, por exemplo, como o cupuaçu, que não existia na natureza, mas foram criadas por meio de manipulação genética usada pelos indígenas, e a lenda do guaraná já demonstrava as propriedades medicinais desse fruto, milhares de anos antes da ciência dos “civilizados” descobrirem tais propriedades e transformá-lo em bebida energética.



Creio que com a divulgação da personagem Camille Monfort consegui alcançar um pouco meus objetivos, pois ela tem levado para o mundo um pouco da nossa cultura, tem quebrado a ideia de que na Amazônia não há celular, carro, produtos industrializados, como contam brasileiros relatando as ideias absurdas que os gringos têm de nós e tem também levado pessoas a buscar conhecer a história de nossos monumentos, principalmente o Cemitério da Soledade, e por meio da história dela ficam sabendo que já em 1896 havia um grande teatro, onde óperas famosas se apresentavam em Belém, que era o grande centro de cultura da América do Sul.   

Você escreveu um romance policial com pitadas filosóficas anos atrás, o Perversões, que, aliás, possuía um título mais comprido. Mas você me disse, há não muito tempo, que está reescrevendo, não é isso? Existem outros projetos literários já iniciados ou, no mínimo, planejados por você? Alguma previsão de quando poderemos tê-los disponíveis para leitura?

O título completo era Sexo, Perversões e Assassinatos, um romance policial pornô-filosófico cuja ação acontece em meio a casas de swing, filmagens de vídeos pornô, locais de prostituição, sites pornográficos e praticantes de sadomasoquismo. Se baseava na obra do Marquês de Sade e de teses psicológicas e psiquiátricas sobre parafilia (formas de sexo que fogem do convencional) para traçar o perfil psicológico dos assassinos para desvendar os assassinatos. Mas eu acabei me interessando mais pela parte filosófica e psicológica, e o livro acabou ficando técnico e chato (risos). Mas eu estou reformulando-o e vou republicá-lo em breve.   

Já devem ter perguntado isso a você, pois muita gente gosta de saber como os escritores fazem o que fazem. Portanto, vou questionar também: como é o seu processo criativo? De onde surgem as ideias para suas histórias? Uma vez, li em algum lugar que alguns autores afirmam que as histórias estão por aí, por todos os cantos, basta sabermos contá-las do jeito certo. É assim mesmo?

Não tem nada demais, é só me interessar por determinado assunto e passo a escrever sem saber como vai terminar, apenas vou registrando o que já foi feito em cada capítulo para que eu não me perca e cometa erros de continuidade. Geralmente, é depois da primeira ou segunda versão, que eu vou tendo uma melhor ideia sobre a trama.

O que você tem em mente com relação ao seu Após a Chuva da Tarde? Teremos um prequel ou sequel da trama, ou Camille Monfort e companhia já mostraram a que vieram?

Pois é, quem sabe Camille Monfort não se manifesta novamente.

Alguém já sondou Bosco Chancen sobre venda de direitos do seu Após a Chuva... para uma versão audiovisual? Porque eu, particularmente, creio que essa história ficaria muito boa em uma tela de cinema ou editada em formato de série para TV ou plataforma de streaming.

Sim, já recebi convites para transformar a história da personagem em filme ou série. Mas a verdade é que as possibilidades são ínfimas, pois quando acontece, o autor e o livro são famosos, premiados, dificilmente isso irá acontecer com um autor independente. É mais fácil o saci cruzar as pernas e o vampiro doar sangue do que essa possibilidade se tornar real (risos).

Obrigado, Bosco. Que venham outros bons trabalhos seus.



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