terça-feira, 22 de novembro de 2011

O KRAKEN DESPEDAÇADO (de Ageu Pazoud)


O kraken é poderoso
o kraken se quebra
quebra o barramento
em gesto cínico e oneroso
nada vem
nada se impõem
o poderoso kraken
determina,
apenas determina...

libertaram as legiões.
Clamam: soltem também os ladrões!
Soltem o Barrabás de nossas vidas!
demônios assombram as ruas.
gárgulas dão risadas.
o poderoso kraken comanda!
Comanda legiões de ladrões
e os leões uma vez domados,
urrafm... e gargalhando...e
gargalhando de mim!
 - o kraken comanda.

vão reter o sangue.
levarão entre os dentes
os leões que trocam entre si
as gargalhadas,
levarão entre os dentes...
o comando. com o comando
irão todos sucumbir.
subcumbirão
ao comando do kraken
salvador desperdiçado,
salvador despedaçado.
o castigo se aproxima,
tenebroso entre os mortais.
o kraken se quebra,
feito um mortal.
seu olhar ameaçador,
se desfaz em pedaços.
o castigo soergue a lascívia,
o rancor, e
nada mais resta...
pedras,
fragmentos,
em fragmentando o
desfragmentador de solidão.
a tudo se comanda.
o comando do kraken
que apenas se quebra
se despedaça em rancor
em lascívia,
soerguidos pelo castigo.
maldito, maldito kraken.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NAUFRAGARIA (de Ageu Pazoud)

by Georges Pichard

se nomes pudesses dar a ti
dirias o que de si?
afogado nos sentidos possíveis de ti
carregarias a todos eles um pouco de si?
assoberbado pela delícia de falar de si,
náufragarias seduzido pelos sentidos diante de ti?
empalado pela palavra que ousou dar sentido a si
já não via mais sentido ficar diante de ti...
tomou-se a si mesmo...prostou-se e disse:
- que mais posso fazer eu diante de Ti? Devorem-nos os sentidos dos nomes...
- que mais outro nome posso dar a si?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

LOS 3 BACANAS (de Haroldo Brandão)


Era uma vez há muito tempo, nos anos (favor não confundir) conhecidos como os anos 70, aqueles três, um que descendia de paraibano, outro que descendia de portugueses e o outro que tinha em suas veias sangue índio e português e nariz adunco, andavam pelas ruas da Cidade Velha com uma nuvem de fumaça sobre suas cabeças, era fácil identificá-los: era só seguir aquele fumacê aliás, na casa do que era cabeludo ao sair pela Rua Carlos Gomes o trem já fumegava, alcançando a Tamandaré. Quando adentravam o Colégio do Carmo tudo era só sorriso. Nas aulas de matemática do professor calango balado, ao ritmo de logaritmos, quase se cagavam de tanto dar risada, a sala olhava penalizada daqueles três idiotas. Na saída do Colégio a volta na loja de roupas de segunda mão na Tv. Leão XIII, vindas dos EUA era irresistível, os últimos lançamentos: casacos de inverno, casacos do exército (USArmy), jeans rasgados, botas de camurça com solado de pneu e outras peças originais para serem estreadas no cine-clube durante o audiovisual de Jesus Cristo Superstar. Como outros de nossa geração queríamos tudo ao mesmo tempo. A ditadura para os três foi uma tremenda risada em suas viagens levemente alucinadas ao som do vinil usado da Joaquim Távora. Já quase adultos embarcaram em uma heróica aventura rumo a Santarém, abastecidos com uma quarta do melhor chocolate dos trópicos providenciados por Dom Amaral ao som de Gênesis, Led Zeppelin, Queen e Lou Reed, dançaram tanto que por pouco não dançaram. Juntos estavam ainda na universidade oitentista e lá descobriram que as melhores matérias a estudar eram Beira do Rio I e II aliada a literatura beat.. Casaram, descasaram, moraram que nem hippies em comunidades alegres e tristes nos trópicos. Sob o signo de baco continuaram fumando seus cachimbos e cigarros , tudo muito ingênuo e descompromissado, voltaram a casar e então deu-se a diáspora, os paraísos artificiais tiveram que ser abandonados pela concretude da vida real, percalços: dívidas, filhos, contas, filhos, trabalho, trabalho, muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. O século XXI trouxe os novos rebentos e um reencontro quase impossível pois a trip egóica era forte demais: todos haviam enlouquecido um pouco, cada um a seu modo, novas companhias, atividades, novos desafios, novas subversões. Suas lindas a tiracolo são testemunhas das três frases slogans usadas compulsivamente por uns e outro: “eu posso te arrasar..”, “no, no, no..”, “eu amo essa mulher”. Lá vão os três bacanas: um jornalista, um psicólogo e um professor , da aldeia campista à Pedreira passando pelo viaduto, na longa estrada da vida. Uma fotografia congelou no tempo estas figuras típicas do seu tempo.

FEIO, SUJO E IMORAL (de Bosco Silva)

by Joel-Peter Witkin

JÁ ESTAVA ENOJADO DOS ELOGIOS à minha inteligência. Principalmente das mulheres, que viam em mim apenas isso, nada mais do que isso. Gostaria que vissem em mim outras qualidades mais atraentes, pois quando queriam transar recorriam a homens com outras qualidades. Talvez o atributo de ter um pênis grande, valesse mais que todos estes elogios, para elas. E para piorar as coisas, eu já estava à quase um ano sem transar, a não ser com prostitutas. Elas pareciam ser muito mais sinceras e baratas que o resto das mulheres, pelo menos das que conheci.

Todos os meus relacionamentos acabaram em ódio, justamente com aquelas que diziam terem unicamente interesse em mim. Pelo menos com prostitutas sabia o que esperar!

O que mais me enojava nos elogios à minha inteligência era a cumplicidade que havia em tal elogio, pois para que alguém fosse tido como inteligente, era como se fosse preciso que outro, tanto ou mais inteligente, reconhecesse isso. Havia algo como “olha, eu também sou inteligente, e muito mais que você, seu babaca!”. Isso me deprimia, pois aqui estava eu, um sujeito “inteligente”, vivendo uma vida medíocre. Sentia-me como um projeto que não deu certo, ou algo parecido. O elogio era como um modo de consolar alguém, ou de demonstrar o desperdício que alguém tinha sido, e esse alguém era eu, vivendo uma vida enfadonha, comandada por pessoas medíocres.

Na história da humanidade muitos homens inteligentes morreram sem sentir a glória disso, e em muitos casos como conseqüência de sua própria inteligência. Os exemplos são vastos, são muitíssimos, mesmo.

Por outro lado, eu não podia negar que minha inteligência me servia de fato como um consolo. Pois, criava estórias, escrevia contos, como um meio de fugir da minha rotina, criava um mundo em que as coisas para mim davam certo, um mundo maravilhoso sem dor ou monotonia. Mas do que valia? Nada mais do que isso! Pois, mesmo que fossem bons, era quase impossível alguém viver de literatura. Sim, de fato, era preciso ter a esperteza de um mago para mudar isso!

Se ao menos tivesse dinheiro... É como dizem, é melhor sentir-se infeliz em Paris, de barriga cheia, que infeliz, com fome, em uma cidade pobre, na sarjeta. A esperteza parecia-me mais valiosa que a inteligência. Isso mesmo, a esperteza que, nesse sentido, a definiria como a habilidade de tirar proveito das situações, ou dos outros. Mas, como poderia eu, tão rígido com meus princípios morais, exercer tal habilidade. E o pior é que eu sabia que tudo se devia a um engano, ou pior ainda, a uma mentira. As coisas que se passaram à mais de dois mil anos atrás ainda faziam-se valer!

Sou ateu, e mesmo assim, mantenho valores cristãos, o que é um absurdo! Sou prisioneiro de regras e costumes que me foram passados de modo impensado. Assim como minha linguagem, herdada de meus pais, meus avós...

* * *

Sim! Estava firmemente decidido a mudar tudo isso. E para tanto, precisava mudar meu modo de agir, meus valores.

Todos nós temos um ponto fraco! E tudo aquilo em que demonstramos excessivo interesse, torna-se um ponto fraco. Um modo em que podemos ser dominados. Assim, bastava apenas descobrir a grande vontade de alguém para dominá-lo. Isto fazia jus à minha inteligência. Porém, havia meus valores... Precisava urgentemente adaptá-los a nova situação. E este era meu ponto fraco.

Sentia-me como um tigre amordaçado e preso em uma jaula denominada de “bons costumes”. Sentia a necessidade irresistível de soltar o tigre que existia em mim. Já não sabia se era capaz de ser mau. E o que valia fazer o bem, sem saber que este é melhor que o mal? Era o mesmo que ser pacífico por simples covardia, e não pelo próprio valor da paz.

* * *

Enquanto mergulhava em meu devaneio, um pequeno cão cruzava a rua, agora, deserta. Estava ali, pensei, minha grande chance de impor meus novos valores, e, deste modo, testá-los.

Seria capaz?

Pensei em como amava os cães, embora não tivesse tido nenhum em minha vida. Porém, agora não havia como me apegar a algo, ou a alguém, devia apenas me apegar à minha nova idéia. Então, acelerei meu carro em direção ao cão... esmagando-o.

Parei o carro e contemplei pelo retrovisor minha grande obra. Alegre pelo feito, pus-me a gargalhar e gritar de alegria, pois tinha vencido um obstáculo: meu amor por algo que jamais tinha experimentado. E, como recompensa, decidi comemorar em um bar.

* * *

O bar era um daqueles lugares, onde pessoas decadentes se encontravam, ansiosas para esquecerem a banalidade de suas vidas, em um copo de bebida.

Acima do balcão um cartaz dizia: SE VOCÊ BEBE PRA ESQUECER, ENTÃO, PAGUE ANTES.

Percebi, então, ainda mais, a banalidade de suas vidas. Tudo que, apenas, queriam, era sobreviver, sempre movidos pela inconsciência de seus hábitos. Pareciam com autômatos, programados para sempre obedecerem às mesmas regras. Não possuíam consciências de suas vidas, como se estas não lhes pertencessem. Faziam as mesmas coisas que seus tataravôs: preferiam a segurança à liberdade! E eu sabia o porquê! Notara isso, em minhas ex-mulheres.  Estas tinham preferido a segurança e o conforto da rotina do lar, com homens que as espancavam, em troca da liberdade e da descontração que eu lhes oferecia.

A liberdade era demasiadamente forte para mentes tão condicionadas. Pois, ser livre implicava em se aventurar, em abraçar novas idéias, sem nenhuma segurança ou experiência, abraçar o novo, o extremamente novo. Era desbravar um mundo cheio de possibilidades, sem nenhuma segurança prévia, ou recompensa. Era um ato heróico, corajoso. Um verdadeiro pulo no escuro! E isto era demais para suas mentes.

Sim, pode-se matar tanto um homem com a ausência de alimento, quanto com a ausência da fome. E aquelas almas estavam todas mortas. Nenhuma vontade parecia nutrir aquelas pobres almas!

Naquele momento, nada mais me chamava a atenção, exceto uma bela mulher que acabara de ver. Bela, apesar de suas misérias! Talvez fosse uma “dama da noite”, uma prostituta que perdera a hora, mergulhada em seu copo de cerveja.

Sentia nojo de como a sociedade tratava aqueles seres: os usava e depois lhes descartavam. Não reconheciam o grande bem que tais seres faziam. Quantos estupros não teriam evitado em sociedade, das filhas comportadas de seus grandes cidadãos! Embora reconhecesse, por outro lado, que trabalhavam com aquilo que não teria preço.

Sim, era um mal necessário!

Um som de copo caindo quebra a monotonia do lugar, acompanhado de um esporro dado ao garçom, feito pelo dono do bar.

O garçom, um senhor de sessenta e poucos anos, reage de modo tímido, debatido pelo peso da idade. A humilhação continua, até que eu me levanto em direção ao balcão.

Saco uma arma, aponto-a em direção à cabeça daquele que proferia tal insulto. Puxo sua cabeça pelos cabelos, batendo-a repetidas vezes sobre o balcão, comprimindo-a contra o mesmo, dizendo repetidas vezes:

- Veja, este homem não é um robô, não é um autômato.

Os fregueses, atônitos, acompanhavam a cena.

O homem, cuspindo sangue, com a cabeça sobre o balcão, proferia incansavelmente:

- Leve tudo que quiser; o dinheiro está sob o caixa.

- Eu não quero nada, exceto o que nos pertence, nossa liberdade.

Retirei dinheiro suficiente do bolso, e disse-lhe:

- Toma, fique com o troco, seu bastardo, e botei o dinheiro em sua boca.

* * *

Ao sair do balcão, senti que meus valores, ainda, não mudara totalmente. Seria capaz de matar aquele homem? Teria liberdade suficiente para isso? Ou ainda era um refém de meus costumes, de meus valores impensados? Sentia-me como 25 anos atrás, quando acompanhei um grupo de garotos de minha rua durante o estupro de uma garota cega e muda. A experiência tinha deixado marcas profundas, em mim. E por ser o menor da turma, fui obrigado a participar dele, e me calar durante os anos seguintes. E por isso me dedicara à leitura e ao ato de escrever.

O que mais gostava no ato de escrever era a imensa liberdade criadora que sentia. Sentia-me tão livre e independente quanto um deus. Queria levar a mesma idéia para a vida. Queria comandá-la e não ser apenas um personagem sem liberdade preso ao seu autor, ou ao seu algoz.

Porém, o mesmo pensamento continuava martelando em minha cabeça: seria capaz de matar um homem? Teria vontade suficiente para isso? Seria capaz de vencer tudo que me fora passado de modo tão impensado?

Mal acabara de completar meu pensamento, quando a situação se fez presente:

O dono do bar seguia-me, de arma em punho, disparando em minha direção. Não havia nenhuma possibilidade de diálogo, muito menos tentativa de fuga, já que me encontrava em um beco, aparentemente, sem saída.

Os tiros zuniam em meus ouvidos. Foi quando comecei a responder...

Contornei a pilha de caixas de madeiras que existiam ao lado do depósito de bebidas. E consegui contorná-lo, ficando bem atrás deste. Chamei-o com um assobio. O qual atendeu prontamente, com a arma em punho, disparando contra mim. Em seguida, disparei em sua direção... estourando seus miolos. O sangue se espalhou por um raio de três metros, acompanhado de pequenos pedaços de cérebro. E, imediatamente, pus-me em fuga, em direção ao meu carro.

Pisei no acelerador o mais que pude, queria estar o mais rápido possível longe daquele lugar...

* * *

Eu era agora um homem procurado, um fora da lei, alguém à margem das leis da sociedade, um monstro... Dane-se! Sei que muitos me cumprimentariam: parabéns pelo seu primeiro assassinato! E diriam ao pé do meu ouvido: não tenha remorso, aquele pulha não valia nada, menos um a povoar o mundo e respirar nosso ar!

Minha vida se dividia agora em antes e depois do assassinato. Tinha atravessado a linha imaginária que separava o bem do mal. E como tal linha era tênue! Como era fácil, tão fácil, transpô-la! Qualquer um podia tropeçá-la, e tombar para o outro lado. 

À noite, não consegui dormir. Pensava incessantemente na cena. Naquele cérebro explodindo, naquela chuva de sangue. Seu rosto não saia da minha mente. Ao fechar os olhos a cena se repetia cada vez mais intensa. Pensava em como era ser um assassino, em como era ter o poder nas mãos. Lembrei-me então de uma velha anedota: quando um sujeito foi perguntado por quantos homens teria matado, este respondeu: - eu jamais matei alguém, eu só mando a bala, quem mata é Deus.

É! Esta era uma boa desculpa. Talvez pudesse inventar uma tão boa quanto essa. O problema era o envolvimento: cada rosto não é apenas um rosto, ele possui uma história. Alguém sentiria sua falta, não apenas seus credores. Jamais há algo que em si seja um mal absoluto, nem mesmo aquele pulha. Sim, alguém sentiria sua falta, nem que fossem as moscas.

Aquela foi a noite mais longa de minha vida. Foi como se seu fantasma me assombrasse a cada minuto, a cada fechar de olhos.

Ao amanhecer o dia, voltei à cena do crime, não pude evitar. Parei o carro a vários metros. O medo de ser reconhecido não foi maior do que a minha vontade.

Ao redor, as pessoas se aglomeravam curiosas para saberem do ocorrido, e ao mesmo tempo alegres, por quebrarem suas rotinas. Era um verdadeiro acontecimento, um grande acontecimento em suas vidas, mesmo que o corpo tenha sido removido.

Ao perceber olhos sobre mim, debandei em disparada...  


* * *

Eu não podia negar que as últimas horas tinham mudado minha vida, que meus últimos atos me atormentavam. Que a monotonia tinha dado lugar à inquietação.

Ao passar ao lado de um carro de polícia, pelo retrovisor uma imagem me chamou a atenção: o velho garçom, ao lado da viatura, apontava em minha direção.

Imediatamente passei a ser seguido. Tinha dado início à minha fuga.

Entre as ruas estreitas, desviava-me entre carros e becos. A velocidade parecia nunca ser o bastante. O vento agora zunia em meus ouvidos. Foi quando algo inesperado aconteceu: um cão cruzou novamente o meu caminho.

Era como se tivessem me dado uma nova chance! Aquilo agora me era extremamente precioso. Foi quando desviei de minha direção, chocando-me violentamente a um poste...

Por algum momento minha mente se apagou... E logo após pude, então, perceber, que meus valores, eram parte de minha personalidade, e que nada poderia mudar isso, nem mesmo eu. Eram minha essência.

E enquanto pensava nisso, meu rosto era lambido pelo cão.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ERA TARDE (de Haroldo Brandão)

by Brassaï

Era tarde. Muito tarde, nós tínhamos perdido o contato nas Docas e só nos restava a Rua dos Tamoios o que sempre significava aumentar o risco. Mundinho deveria nos esperar no bar ao lado de sua casa. A fissura só aumentava, já nervosos iniciamos uma discussão, a grana era boa, Mundinho é que não era nada bom: sabíamos que a capação estava garantida. Espera, jogamos uma partida de bilhar, tomamos a primeira cerveja, eu já ansiava pelo wisk, olhando a lua linda pensava nesta quinta depois de meia noite, quantos já não estão nos embalos, nas baladas, em qualquer porra, e eu, e nós, Narizinho e Cêra perdidos nos becos jurunenses, nossa noite só começa depois de uns bons tiros, a moçada passa ainda para o tecno brega do tupi ou superpop ou sei lá que merda qualquer que jogue as mentes para longe e os corpos se enrosquem em uma dança sensual quase indecente. Merda! Quase uma hora e mais cerveja e nada de Mundinho: então finalmente vemos o cabeçudo baixinho dobrar da baixada. Muita calma nessa hora, elegância no pagamento, afastamento estratégico, entramos no carro de Cêra e o esporro começa; Porra, égua  Mundinho quase que tu  não vens, já não chega a gorjeta e ainda por cima esta merreca. Nenhuma novidade, após o teatro rumamos para o ap da 1º de Março. O elevador parece de filme de terror com um buraco no que seria o teto, via-se as paredes internas sujas e antigas passando, e paramos no 12º. Saímos, nem esquentamos. Às 3 horas da manhã dei meu primeiro tiro. Fiz a primeira dose e só então relaxei.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

EU E KEROUAC (de Haroldo Brandão)


                “Para mim só contam os que são loucos por alguma coisa, loucos por viver, loucos por falar, loucos para serem salvos, os  que querem tudo ao mesmo tempo, os que jamais bocejam, que não dizem banalidades, mas ardem, ardem, ardem como um fogo de artifício.” (Jack Kerouac)

Todas as vezes eu me trancava no quarto e não queria ver ninguém, a ressaca física e moral estava no auge e eu começava a pensar que meu tempo já era, incorrigível perscrutador do próprio umbigo olhava as pernas e achava que minha porção besouro estava se revelando. Com o travesseiro eu esmagava minha cabeça e a culpa me corroia o corpo todo, há muito tempo me inscreveram em uma história que ainda iria acontecer, não há genealogia segura mas Virgínia nos anos 30 deu para um grandississimo  filho da puta e como resultado nasceu o futuro, correto, fiel e disciplinado contador, aquele que escapou de uma prisão e caiu nas garras da minha mãe. Talvez aí esteja a origem de toda a minha teimosia, dor e falta de paz. Os cabelos grisalhos avisam  que o corpo já está saturado de som e rock’n roll mas as ruas, as luzes, as noites hipodérmicas me chamam e eu me sinto o super-homem nos paraísos- bares artificiais.  Como toda ilusão, feito miragem no deserto aquilo desaparecia e me vejo perdido entre o inferno e o céu. As costas de Deus estão pesadas e desconfio que não haverá salvação; onde a luz? Que luz?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Anorexa, Tu! - 4ª Parte (de Marcos Salvatore)




O TELÉGRAFO
Um brinde esnobe. Olho em torno. Sinto-me estranhamente protegido por esses personagens tão desconhecidos quanto dessemelhantes. Que lugar! O que eu fazia ali? O que fizemos lá? Para onde? Vinte e uma horas e a cidade está vazia... assim como eu. Minto. Eis a verdade: a alegria otimiza menos a fome: além do leite vem a energia. A luz da cidade apaga as estrelas com seu despudor, sua depravação. E depois de algum tempo sem ser notado, você passa a não notar mais ninguém. Boa noite, dependência.
Duas quadras depois, exaustos de tanto correr (aqueles tamancos não ajudavam), dobram na passagem Brasília e se deparam com um beco sem saída.
Quinze anos de experiência investigativa diária dera a Wanderley uma espécie de pragmatismo emotivo, uma lucidez passional ao mesmo tempo derivada e original. Era uma pessoa que a tudo compreendia com um sorriso sincero e pleno. Era da opinião de que existia um motivo para tudo. Nunca deixara nenhum caso sem solução. Conhecia a cidade em que estava como a palma da mão e tinha informantes nos lugares mais inóspitos e perigosos.
- Meus caros, chega a hora de estabelecermos as prioridades: estamos sem carro, estamos em seis, vestidos de mulher e sendo perseguidos por um bairro inteiro. O que sugerem?
- Temos uma arma... – Castro diz isso levantando a saia e mostrando o revolver preso à sua cinta liga: - Ainda restam quatro balas no pente.
Vila, que ficou calado durante toda a perseguição, arranca sua peruca e a joga no chão; tira os cílios postiços e nota que lhe falta alguma coisa:
- Preciso de um cigarro. Um cigarro, por favor. Pra pensar preciso dar um trago, um trago só.
- Só tenho um – diz Sávio, contemplativo: - vamos rachar, só quero um vinte.
Estavam sob a luminária falha de um velho poste, em frente a uma venda de açaí. Fumam em silêncio até que a misteriosa garota da boate se levanta languidamente e pergunta para Sávio, numa espécie de angústia (...) mas antes dela falar, preciso dizer que ela era linda! Linda! Uma Panicat do michê, com melhores modos, porém (Paquita, não!):
- Então... você não foi lá por minha causa?
- Sinto muito, não me lembro de você, não me lembro de nada. Estou sob custódia da polícia, provavelmente até o final da noite estarei preso por assassinato ou pior: morto... e nem ao menos sei o porquê. Me desculpe.
- Mas, como aconteceu?
- O que eu prometi a você? Qual o seu nome?
- Se você não se lembra, não importa mais.
Aloísio explica, em poucas palavras, tudo que acontecera desde que o flagraram fugindo do local do crime.
- Nos encontramos outra noite. Umas semanas atrás. Na verdade não foi bem um encontro. Não tive clientes e no final da noite ele apareceu. Ficamos juntos e eu gostei dele. Parecia tão sincero e foi tudo tão... verdadeiro. A pessoa mais amorosa, mais carinhosa... foi a primeira vez que alguém me tratou como uma mulher.
Castro se aproxima e pergunta sobre o que conversaram. Quem sabe alguma informação poderia esclarecer a presença do rapaz numa cena de homicídio.
- Contei a ele do meu sonho mais profundo, mais secreto. Ele prometeu que voltaria um dia e me levaria para ver o mar. O mar.
- Está nos dizendo que alguém que você jamais vira, promete lhe levar numa praia? E uma puta acreditou nisso?
- E porque não? A vida é tão curta, não é? Ou não é? (...) Esperei por ele todas essas noites e quando o reencontro me aparecesse com policiais e sendo perseguido.
Wanderley, impressionado, delibera: - “Puta, não: Meretriz. Meretriz! Mas isso é outra história, Professor Castro. Todos são inocentes até que se prove o contrário. Não sabemos quem você era ou foi. Tudo que sabemos é que temos um corpo estirado numa cama, num quarto motel vagabundo e que o Sávio aqui, é a única pessoa que sabe da verdade”.
- Com essas roupas não vamos longe – diz Aloísio para Wanderley: - Ô, Mano, você não conhece algum lugar pra tirarmos estas roupas e pegarmos um carro?
- A Seccional do Telégrafo, mas é o primeiro lugar que vão cercar. Não temos passagem.
- Eu tenho uma idéia: O Cacareco.
- O que é isso?
- É um bloco de Carnaval.
- Mas não estamos no Carnaval.
- Eu sei. Mas hoje tem festa Dark por lá. Entramos por trás, tem os banheiros, pelos quintais da passagem União e roubamos as roupas de alguém. Estão procurando por travestidos.
- Então vamos lá.
O CACARECO

Saindo da Brasília, vêem uma senhora na janela, pequenina, moreninha. Pedem um pouco d’água. Ela entra, anda com ajuda de uma muletinha. Trás a garrafa e um copo que é dividido por todos. Olha para suas roupas, maquiagem e sorrí como uma mãe para todos: - “Guenta! Tem doido pra tudo. Desconjuro!”.
Caminham pela curta passagem União tentando fazer todo possível para não chamar a atenção. Wanderley sabia que batalhas de gangues aconteciam muito por ali, por isso o deserto e o silêncio da rua. Porém, já era tarde. Na esquina da passagem Santa Cruz um grupo de pelo menos dez suspeitos os esperavam.
- E agora? Não dá mais pra voltar.
- Vamos passar por eles, então.
- Por mim tudo bem. Quatro balas resolvem.
- Também estão armados.
- Eu não tô nem lá. Cansei de passear. Tá na hora da diversão.
Se aproximam e o líder a gangue dá um passo à frente e diz:
- Vocês devem ser aquele bando de bichas que fugiram do NAIPE, não é? Não quero problemas com vocês. Só queremos esses dois, aí – aponta para Sávio e a garota. Eles valem mais vivos do que mortos. E somos oito contra seis.
Wanderley se aproxima do líder e faz uma proposta irrecusável:
- Tenho uma idéia melhor. Vamos brigar apenas nós dois e quem ficar de pé se manda com tudo, inclusive as armas. Cada um pega o seu rumo.
- Por quê se eu posso erguer a mão e matar todos vocês de uma vez?
- Porque um líder de gangue que recusa um desafio não é considerado. E eu te desafio na frente de todos os teus. Aqui e agora. Como é? É covarde?
- Velhote! Eu vou te surrar tanto que vão dizer que eu te bati com uma tábua.
Wanderley entrega seus pertences para Sávio: - Segura garoto, que faz tempo que eu não pego um palhaço desses.
Todos abrem espaço e a briga começa. Wanderley leva os três primeiros socos apenas para medir a força do oponente. Cai no chão uma, duas, três, quatro vezes. Por entre risadas seu rosto sangra enquanto todos se contém a seu pedido. A cada soco Wanderley ri cada vez mais e mais alto. Sua idéia era chegar perto o bastante para dar um único golpe.
- Para de rir! Para de rir!
É nesse momento que seu adversário se aproxima o suficiente pra levar um quebra-perna de Wanderley, caindo em seguida aos berros.
Wanderley o segura pela camiseta e o arrasta até a vala mais próxima; diz:
- Meu rapaz. Posso quebrar a outra perna ou te fazer beber água da vala. Qual vai ser?
- Vai te foder!
- Boa escolha. Você é quem sabe. Vai comer merda agora.
Com destreza, enfia a cara do bandido na vala várias vezes, quase o afogando. Chega perto de Sávio e se lembra: - Porra, esse vestido até que é do caralho.
Depois de pegar a rua sem maiores problemas, atravessam os quintais de terrenos baldios e chegam finalmente na entrada de trás do Cacareco. O Pink Floyd Cover fazia um dos seus melhores shows.
- Parece um velório em preto e branco.
- Pelo menos não é um show de aparelhagem.
- Merda! O jogo já deve estar no segundo tempo.
Roubaram as roupas de quem apareceu pra mijar.
- Vamos tomar pelo menos uma antes de ir embora. Só pra ver se cola.
Enquanto tomavam seu drink, não sabiam que uma figura de óculos escuros e aparente interesse em todos se aproximava.
O OBSERVADOR

- Boa noite, senhores. Vejo que trocaram de roupa. Essa está melhor.
- Quem é você? – pergunta Castro, segurando de leve em sua arma.
- Sou um Observador. Chancei, ao seu dispor. Estou aqui para ajudar e trazer notícias dos outros.
- Que outros?
- Do delegado e do advogado. Eles chegaram bem e estão interrogando o padre nesse momento. Estão na Igreja das Novenas. O garoto já lembrou?
- Não. Ainda não.
- Já sei o que houve na Santa Cruz. Foi uma boa briga. Boa briga.
- Precisamos de um carro pra sair daqui.
- Daqui à pouco passa o último Icoaraci. Perto do Curro Velho. Se o pegarem podem descer na Praça do relógio em pouco tempo.
- E você?
- Eu não vou. Eu fico. Não tenho nada com isso. – vira-se para o garoto e diz: - E lembrem-se: talvez a chave de tudo não seja o garoto afinal. Posso distrair quem estiver esperando por vocês lá fora enquanto todos correm. Nos vemos depois da festa.
Quando saem, percebem que o lugar realmente está repleto de figuras mal encaradas.
- No meu sinal vocês correm em direção da Pedro Álvares.
Chancei então puxa duas armas e começa atirar em todas as luminárias dos postes, depois os pneus dos carros. Dá o sinal e todos correm para o semáforo. Acontece que na encruzilhada outros raptores os esperavam para uma armadilha. Pularam um muro que dava pra uma casa fechada. Casa esquisita, sem fachada, nem janelas, apenas vitrôs. Entram todos pela cozinha e bloqueiam a entrada com a geladeira e o fogão. Sobem uma escada giratória estreitíssima até um minúsculo terraço de onde puderam ver o tamanho da encrenca em que se meteram: de todos os lados da Arthur Bernardes e da Pedro Álvares Cabral, armas apontavam para cima. Começa então um tiroteio que acaba com toda a munição.
- Estou vendo o ônibus. Está chegando perto.
- Então vamos ter que pular.
Preciso falar um pouco do sargento Vila: era um homem sem medos, porém nada o assustava ou confundia mais do que grandes alturas. Por vezes, da janela do seu apartamento (janelas com grades) olhava para baixo e pensava: - “E se eu pulasse e saísse voando? Não cairia nunca. Nunca!”. Estou exagerando, desculpem, mas quem não se pergunta isso? O certo é que seu território sempre fora o chão. Então aquela situação parecia decisiva: pular ou não pular para ele lhe tirava o fôlego só em pensar. Mesmo assim, antes da hipótese suicida de pular surgir, pensou: - “Um pôr-do-sol daqui deve ser do caralho!”.
- Ele parou! Parou! Se corrermos e nos jogarmos no teto do ônibus estaremos salvos.
Aloysio toma distância e se joga, caindo em seguida com segurança em cima do teto do ônibus que estava bem perto deles. Wanderley, Sávio e a garota o seguem sem problemas. Ao perceber a jogada, os bandidos embaixo começam a atirar. Castro vira para Vila sôfrego;
- Pula, porra!
- Não posso, não consigo!
- Então ficamos aqui, os dois. Não vou te deixar aqui pra morrer, seu cagão!
Vila fecha os olhos, toma distância e antes de se jogar tropeça e fica preso pela jaqueta entre o ônibus e um ferro solto no vitrô, do segundo andar.
- Espere não se mexa, só mais um pouco. Ainda tenho dois tiros. Prometi usar todas essas balas hoje.
Castro então mira com sua Magnum 44 e atira, soltando o amigo. Pula em seguida, pouco antes do motorista, desesperado pisar fundo, quase jogando-os de cima do ônibus.
- Estão todos bem? Todos bem?
- Não, acho que vamos ter que dar uma parada.
- O que houve?
Sávio sorri nervoso antes de virar para todos e mostrar o sangue no peito.
- Puta merda.
Aloisio passa a mão pela cabeça. Todos se entreolham enquanto o rapaz é agarrado pela garota em prantos. Dois carros os perseguem.
- Ele está sangrando muito!
Ônibus em disparada já estava indo para a garagem depois da última volta. Castro se arrasta até abertura da porta superior e consegue entrar. Aproxima-se do motorista e grita:
- Pare esse veículo que eu vou descer. Essa merda já foi longe demais. Longe demais.
- O que ele vai fazer?
Castro desce e o ônibus segue. Espera pelo melhor momento e dá um tiro certeiro que faz um carro capotar por cima do outro. Um dos bandidos se arrasta atirando e acerta Castro na perna, outro também se recupera e se levanta, aponta a arma para Castro que, indefeso, balbucia: - “Então, é isso!!”. Não vê o ônibus dirigido por Aloisio na contramão, a toda velocidade se aproximando.
O impacto da batida foi tão grande que o bandido foi parar a metros de distância.
- Carona, filhão?
- hehe! Tu sabes.


Na Igreja, depois de ouvir a confissão do padre, o telefone de Seu Iraque, digo, Eráclito, recebe uma chamada a cobrar:
- Que foi, porra? Telefone público? Por que estão demorando tanto? (...) Sei, dois feridos. E o motorista do ônibus? Ok, em segurança. (...) Precisam descer na Dona Roxita pra fazer curativos. É puta velha, vai resolver tudo. (...) Minha mulher já me ligou escroteando. (...) Porra, Wanderley, na minha ausência o comando é teu, cacete. Quero vocês aqui antes do final do jogo. (...) Tá 2X2. Caso sério. O Bocage já tá virando do avesso. E o garoto? (...) Escuta.. escuta... só me ouve. Tem uma garota com vocês, não tem? Isso mesmo. O nome dela é Lucrécia. Lucrécia, ouviu? O padre confessou tudo. Ela é a culpada, Wanderley, a culpada pela amnésia do garoto.

CONTINUA...

Anorexa, Tu! - 3ª Parte (de Marcos Salvatore)


by Helmut Newton



Eu matei. Sim, talvez eu tenha: eu, assassino do que sinto falta. Surpreendo-me com a naturalidade com que me deixo esquecer. Fecho os olhos e ainda vejo, distante, brilhante sobre um fundo preto, o rosto de uma mulher. Lembro-me de amar quando amado, de odiar quando odiado. E cada minuto tem uma profundidade imprevisível, irresponsável. Sou um engodo inusitado, uma isca do mirante do Forte até aqui. Só esqueço de perguntar pelo seu nome, o nome dela.

DEMÉTRIO: O POODLE Nº 0

Os carros pararam em esquinas distantes: Vila, Castro, Aloísio e Sávio. Aguinaldo e Wanderley já estavam a caminho. Seu Iraque, digo, Eráclito; Bocage e dona Aldenora no banco de trás na maior farra riam até de sinal fechado:
- Minha pombinha, dá uma emboladinha aqui, isso devagar com os dentes senão eu não me concentro na materialidade da ocorrência. Cuidado que esse caso é de grande jurisprudência.
- Ai, só gosto de homem que fala difícil. Homens de substância.
Era verdade. Dona Aldenora sentia um atração inominável, desde pequena, menina que subia de saia sem calcinha no açaizeiro, por homens que falavam alto, mais velhos, desembaraçados. Bocage a conheceu durante uma de suas palestras: lá estava ela com seu caderninho de anotações e a cada termo jurídico Bocage percebia que aquela morena de peitos fartos e quadris de “aluna em recuperação” se torcia e retorcia em mil e uma danações. Depois de muitos “datavenias” e “deveras”, soube que tinha encontrado a assistente perfeita para as horas extras.
- Seus imorais. (...) Se a dica do garoto estiver certa, nosso elemento deve estar até o pescoço envolvido com o corpo estirado lá naquela cama – “Oito horas: já vi que vou dormir de novo no sofá”.
- Se Vossa Senhoria me permite, chegando lá, peçamos uma garrafa do melhor whisky e um balde de Red Bull que as Plocs vão “cair matando”.
Entram disfarçados numa boate aparentemente normal, não fosse por um corredor estreito com um poodle minúsculo de guarda.
Aloísio com seu chapéu dos intocáveis (versão em preto e branco) tenta fazer festinha no canino, mas o mutante fica em duas pernas e se transforma num gremlin feroz, botando todos pra pular uns por cima dos outros. Bocage, vestido de motorista de caminhão, acha uma graça infinita e chama dona Aldenora, que estava vestida de mulher que finge que é homem, que finge que é travesti, que finge que é Violeta Parra, para apaziguar a fera.
- Vem cá, bonitinho, não liga pra esses mauzinhos.
Passam todos: Vila de sandálias havaianas, bermudão e camiseta do Iron Maiden e Castro de hare krishna Prêt-à-porter, que antes de entrar dá um chutão no Nº 0: - Por quê essa pavulagem com cachorro? Está quase dando de mamar pra esse pulguento.
O delegado que estava vestido de ator pornô dos anos 70, olha por cima dos óculos ray ban e pergunta para Bocage:
- Ô Bocage, tu ainda tem desconto nesse antro?
- Mas é claro, camarada: cinquenta por cento. Quer ver só? – para o “leão-de-chácara” da entrada: - Nossa amizade, eu sou amigo do fulano de tal, que é dono daqui e gostaria de um abatimento nas entradas, meu nome é Doutor Bocage, mas pode dizer que aqui é o Sabá.
- Por quê Sabá? – pergunta Aloísio, coçando o cavanhaque – Puta nome tosco, anárquico-carnavalesco.
- Ganhei esse apelido quando frequentava o “Nas Coxas”. Só ia no sábado, nada demais. Minha reputação me precede.
O funcionário entra e volta no mesmo instante com uma voz nasalada que deu o que pensar:
- O patrão falou que fiado só amanhã.
Depois de muita conversa vencida há uma coleta e todos entram. Castro ainda pergunta se aceitam Meia Entrada, mas leva um puxão de braço de Vila que a tudo desconfiava no lugar.
E que lugar: padres, freiras, pastores, rabinos, bicheiros, reitores, funcionários públicos, políticos de todas as raças negociando o amor de meninas e meninos de no máximo 17 anos. O maior circo de parafilias nervosas (e influentes) já visto. Puro Ensino Médio em flor, das melhores famílias e escolas da cidade. A surpresa de todos foi tanta, que Seu Iraque, digo, Eráclito, conclui severo: - “Essa é a verdadeira “Corda do Círio”, o resto é piada. O verdadeiro significado das ações... é o significado das ações”.
Desconcertado, Vila pensa: - “Será que vai dar tempo de pegar o segundo tempo do jogo? Aposto que a idéia do plebiscito saiu de um buraco como esse”.
Bocage, lúdico: - “E pensar que é assim que se constrói um país. É por isso que o perdão custa caro: pra financiar o pecado”.
Castro faz as contas e resume para todos: - “Se esse é o Nível Médio, como será o Superior?”.
- Provavelmente mais caro – diz Aloysio que até desliga o celular para ver e ouvir melhor aquela cena grotesca de puro Satyricon. Satyricon não: Sallon Kitty. Dona Aldenora começa a sentir uma coisa, uma coisa.

DZI BIGODES

- Vamos nos espalhar – diz Seu Iraque, digo, Eráclito, cauteloso. Já sabem a quem procuramos. Agora, só tem uma coisa, hein? Se eu pegar alguém de relaxação, vai pro xilindró. Vila, cuida do garoto. Vê se ele lembra de mais alguma coisa.
- Sávio, o que você fazia aqui?
- Procurava por alguém, eu acho.
- Acha? É melhor ter logo certeza de algo, senão, eu acho que vou te largar uns cascudos. Lugarzinho estranho esse, não é? Cadê o sujeito? Cadê o velho que levou a menina?
Um pastor, desses de gelatina milagrosa, brincava de cavalinho com uma ninfetinha de no máximo quinze aninhos, que o chicoteava nas nádegas, dizia: “Opera, minha filha, opera”.
Bocage, aproveitando a oportunidade de tantas autoridades juntas sai distribuindo seus cartões, enxerga de longe o procurado. No palco, o caçado: um padre - ou seria abade? - dançava chupando um picolé de taperebá, agarrado a um índio de vestido cor de rosa e tênis futsal.
É impressionante como a concorrência para catequização de pagãos ainda está na moda. Todos os caminhos levam a Roma, não é “vero”?
- Isso, isso, isso! Vai lá, Pai.
Aloísio tranca a porta, enquanto Castro saca sua Magnum 44 e dá dois tiros numa caixa de som – “Porra, de tecnobrega!”.
- Epa, epa! Que é isso? Que é isso?
O delegado sobe numa mesa e comunica:
- Seus depravados! “Vamo” acabar com essa cornada, porra! (...) Calma, minha senhora, pode continuar com o seu boquete. Nosso assunto é com um único “pó de broca”: aquele ali. Queira se apresentar, por favor. (...) A sua “bença” padre, sabe que o senhor é mais simpático ao vivo que na TV?
O eclesiástico toca de leve os dedos do delegado e diz, afetadíssimo: - “Barazer, Abatezza Zibody. Hoje é beu dia de folda”.
- Ih, mais essa, agora: o velho é tatibitate, “homem-rapaz”! Que marmota é essa? Vamos precisar de tradutor. Tenho uma missa pro senhor rezar. (...) Vila, tá na hora do confessor se confessar. Pode levar. (...) Porra, Castro, eu disse pra não trazer arma nenhuma, cacete!
- Tá aqui no cu deles que eu vinha pra cá desarmado.
Um brutamontes da segurança pega no ombro de Vila e diz:
- Perdeu, perdeu!
Vila calmamente olha para aquela mão em seu ombro e nota que sua camiseta do IRON MAIDEN amassou um pouco:
- Eu perdi e tu achou. Toma o do Natal!
Vila dá um murro que quebra o nariz do segurança e a porrada geral começa bem na hora que Aguinaldo e Wanderley aparecem segurando o poodle nº 0. Wanderley, vestido de Cowboy Fora da Lei, dá o comando: - “Pega Demétrio, pega”!
A gremlin avança em todas as bundas. Aguinaldo, que estava vestido de punk, derruba logo uns três, virando uma mesa cheia de pênis e xoxotas de plástico, sopa de merda e suco de mijo e vômito, pro banho romano – verdadeiro bufê parafilítico.
Como muita gente ali estava amarrada por gostar de bondage, acabaram levando umas lambadas também. Meninas (Duca! Duca!) que vestiam seus uniformes (com os pais presentes), na pressa de correr do flagrante, esqueciam seus cadernos e carteirinhas de meia-passagem.
Peço aos leitores para imaginarem, em câmera lenta, o caso de amor à primeira vista entre o investigador Wanderley e o sistema de som dolby sunrround do recinto que foi possuído por ele ali mesmo, na frente de todos.
No meio de tudo, além do som das cadeiras e mesas se quebrando, além dos latidos assassinos do cachorro, era possível ouvir claramente a risada de Bocage e dona Aldenora dando umazinha atrás da cortina. Todo mundo aproveitando pra tirar umas casquinhas. Putaria, sacanagem e violência. A moçada do “arroz com mel” (enemas) tentava inutilmente correr com aquela coisa enfiada na bunda.
Quando tentaram sair, outros seguranças aparecem no corredor. A porta é trancada e eles ficam sem saída. É quando Sávio puxa o delegado e dá a solução:
- Tem uma porta atrás daquele quarto que vai dar num outro quarto que vai dar nos camarins da boate.
- No, no. Então é isso mesmo. Por aqui, todo mundo.
Antes de sair pela fuga, Castro ainda volta pra chamar todo mundo de bunda mole:
- Seus “gala seca”, bando de frouxos. Agora eu me invoquei, chega todo mundo que eu meto é bala!
É puxado pela camisa por Aloísio e Vila enquanto Wanderley calmamente termina o seu drink, curtindo um som do Uriah Heep que acabara de colocar no volume máximo.
- “Bora”, porra, que a gente roubou umas garrafas de whisky tantos anos.
- A “Abadessa”, protestava: - “Calba, calba! Bor vavor, zim, Bem? Dão be gombrometa. Bor vavor, Negron!”.
- Essa égua tá falando que nem apresentador de telejornal empolgado. Arrasta!
No camarim a única saída era pelo palco e o único jeito de saírem sem ser reconhecidos era o de se travestir e sair dançando (o padre gostou).
E foi isso, quando “Relance”, da Gal Costa começou a tocar, aquelas figuras andróginas deram um show tão bacana que duas mocinhas chamadas Ivone e Marta, invadiram o palco enlouquecidas para agarrar os dançarinos. O jeito foi leva-las com eles.
Antes de correrem para os carros, Sávio teve a impressão de ter visto alguém. Alguém que não poderia estar vivo. É repentinamente tocado no ombro por uma mulher, alguém que parecia reconhecê-lo:
- Veio cumprir seu juramento?
- O quê?
- Não se lembra mais de mim? (...) Talvez disso você lembre.
Agarra-o pelos cabelos e lhe dá um beijo apaixonado, sem fim; depois morde seu lábio inferior até sair sangue. Diz sorrindo, com uma tristeza terna, doce:
- Me leva com você.
- Então vem.
Aloísio acha muito louco, e puxa os dois pra dentro do carro, para junto dos outros. O carro não pega e o jeito é descer todo mundo para empurrar correndo (e vestidos de mulher) ladeira abaixo. Chegando no declive o plano dá errado e Wanderley perde o freio e o controle do carro que está prestes a cair no canal da Ponte do Galo. Os seguranças da boate atirando enquanto o carro de Bocage e Aguinaldo, levando as meninas, diminui a velocidade para que o padre e o delegado entrem pela janela. Wanderley se joga do carro, antes que este mergulhe das margens barrentas, salvando-se. O som do carro, que estava no máximo, ainda tocava os últimos acordes do maior sucesso do Alice in Chains.
Dentro do outro carro, enquanto dirige, Aguinaldo pergunta preocupado, para o delegado:
- Pra onde, Chefe?
- No, no. Só tem um lugar pra levar essa santa: para a igreja das Novenas. Não se preocupe com os outros. Eles chegam até lá de alguma forma e antes do final do jogo.
Bocage ainda teve cabeça para organizar uma porrinha com o whisky roubado e embebedar de vez as meninas. Ivone e Marta já estavam na quinta rodada.
O grupo se divide ao atravessar a ponte: Vila, Castro, Aloísio, Wanderley, Sávio e a garota tem que atravessar, do Telégrafo até a Cidade Velha a pé, destino igreja das Novenas.
Os seguranças retornam. Mas isso não vai ficar assim.
Do lado de fora da boate, num cartaz com a foto da mulher mais estupidamente gostosa que vocês puderem imaginar, estava escrito:

DESSE NAIPE VOCÊ SÓ PEGA AQUI!

CONTINUA...