quarta-feira, 12 de setembro de 2012

POLÍTICA E RELIGIÃO (de Bosco Silva)



Se eu morasse em um país em que as questões e opiniões religiosas fossem vistas como escolhas pessoais que não afetassem em nada outros cidadãos, e que os direitos de cada um fosse respeitado, eu não me indignaria. Mas no Brasil assistimos a intolerância religiosa aumentar e jogar sobre pequenos grupos sua nefasta influência.

É incansável dizer que manter questões religiosas longe de decisões políticas é imprescindível para a manutenção da democracia, pois as minorias devem ter suas opiniões respeitadas e seu direito de expressão e de pensar diferente também. Mas no Brasil as coisas são diferentes. Vemos cada vez mais pastores e religiosos serem eleitos e defenderem leis que somente privilegia suas crenças em detrimento de outras. Em outubro de 2010 na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo, por exemplo, políticos evangélicos criaram lei que proibiu o Candomblé na cidade. E se qualquer devoto desta religião quebrar a lei terá que pagar 2000 reais e 4000 se houver reincidência.


Em São Paulo (capital) o candidato a prefeito Celso Russomanno 
se alia ao bispo Macedo da Igreja Universal; o mesmo que no 
vídeo, abaixo, ensina seus pastores a tirar dinheiro de devotos.


A intolerância religiosa já deixou bastante marcas terríveis na história da humanidade, manchando de sangue a história de várias religiões como o cristianismo, com a inquisição, as cruzadas, que torturaram, mataram, milhares de pessoas por terem crenças, comportamento e religião diferente da maioria, e que foi responsável pela tortura e morte de um dos maiores mártires do livre pensamento, Giordano Bruno, que foi morto por afirmações que contrariava crenças da época, como a crença de que o universo seria finito.

O mais triste é que, como quase tudo que envolva religião, o caso de Piracicaba é algo contraditório, pois foi justamente o direito de livre expressão e de livre culto de religião, que eles tentam justamente acabar, que deu aos antepassados destes políticos o direito de cultuar uma visão religiosa diferente da visão então dominante da época, o catolicismo. Foi graças a pensadores iluministas que sofreram perseguição, que possuíam crenças materialistas e que, muitas vezes até mesmo ateias, que este direito tornou-se uns dos direitos universais dos homens, e que transparece na famosa frase de Voltaire: “Posso não concordar com suas palavras, mas defenderei até ao fim seu direito de dizê-las”.

No entanto, é a partir deste direito que estes novos possuidores da verdade absoluta, destes novos administradores do direito do povo, tentam se promover e reforçar muito mais suas crenças, impondo-a a todos.

E como se não bastasse demonstrações de intolerância feitas contra ateus como a do senhor Luiz Datena, que em 2010, via rede nacional de televisão, ofendeu, com todas as letras, estes ao afirmar que crimes de assassinatos só poderiam ser cometidos por ateus, pois, segundo este apresentador, tal grupo não possuindo limites para seus atos - certamente o temor do castigo de um deus -, estaria pronto a cometer as mais hediondas atrocidades, surge agora a sensacional Marcha Anti-Ateus, realizada certamente com o dinheiro do contribuinte, incluindo dos próprios ateus, e que mais uma vez, como toda minoria, ficam sem direito de resposta, confirmando ainda mais a intolerância contra grupos minoritários como o grupo referido.


No entanto, como resposta ao senhor Luiz Datena, podemos dizer, segundo dados de pesquisa, que são justamente os países com maior índice de ateus que possuem as menores taxas de criminalidade e as maiores de qualidade de vida:

PAÍSES COM MAIOR NÚMERO DE ATEUS:

SUÉCIA: 85%
  • População: 8,9 milhões 
  • Ateus: 7,6 milhões
Na Suécia 85% da população não tem nenhuma crença ou não acredita em Deus.
Esse foi o resultado da pesquisa Ateísmo: Taxas e Padrões Contemporâneos, do sociólogo norte-americano Phil Zuckerman. Segundo ele, os suecos aprendem sobre cada uma das religiões na escola e são livres para escolher seguir ou não uma delas. E isso se repete na maioria dos países com alto índice de ateísmo. Vale lembrar que o estudo engloba ateus, agnósticos e não-crentes em Deus e o ranking é baseado na porcentagem populacional de cada país.

VIETNÃ: 81%
  • População: 82,6 milhões 
  • Ateus: 66,9 milhões
O budismo e o taoísmo, religiões comuns por lá, são vistos como uma tradição, e não crença.

DINAMARCA: 80%
  • População: 5,4 milhões 
  • Ateus: 4,3 milhões
Um levantamento da ONU aponta que países com boa taxa de alfabetização tendem a ser mais descrentes.

NORUEGA: 72%
  • População:4,5 milhões 
  • Ateus: 3,2 milhões

JAPÃO: 65%
  • População: 127 milhões 
  • Ateus:82 milhões
Em 2008, o pesquisador britânico Richard Lynn concluiu que países com alto QI são mais ateus. É o caso da população japonesa, que mantém a média 105 - uma das mais altas já registradas.

REPÚBLICA TCHECA: 61%
  • População: 10 milhões 
  • Ateus: 6,2 milhões

FINLÂNDIA: 60%
  • População: 5,2 milhões 
  • Ateus: 3,1 milhões

FRANÇA: 54%
  • População: 60,4 milhões 
  • Ateus: 32,6 milhões

COREIA DO SUL: 52%
  • População: 48,5 milhões 
  • Ateus: 25,2 milhões

Pesquisas de Phil zuckerman (2007), Richard Lynn (2008) e Elaine Howard Ecklund (2010), ONU, adherents.com, American ReligiousIdentification Survey, The Pew Research Center, Gallup Poll, The New York Times, Good, Nature, Live Science e Discovery Magazine.
       

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

RESENHA DO LIVRO "SEXO, PERVERSÕES E ASSASSINATOS (por Hyldon Chancen)




“Tal qual Dante, ao descer aos portais do inferno a procura de sua amada Beatriz, tendo como guia o poeta latino Virgílio, desçamos também ao submundo do sexo, tomemos seus caminhos tortuosos entre luxúrias, gritos de prazer, e também de dor, e devassemos os mais ‘estranhos’ atos e cultos de prazer, tendo como guia o espírito do ‘louco’, do ‘desvairado’, do ‘pervertido’ Marquês de Sade.”

Com estas palavras o autor de SEXO, PERVERSÕES E ASSASSINATOS introduz o leitor em sua história que, em certa medida, guardadas as devidas proporções, é uma espécie de Divina Comédia sadomasoquista:

Dante será Moreira, um policial que busca solucionar o mistério de três corpos com marcas nos pulsos e pescoços, encontrados mortos em rios que contornam a cidade, suspeitos de terem praticado atividades sadomasoquistas. O poeta Virgílio será substituído por Mirvel, um discípulo do “pervertido” escritor francês Marquês de Sade que pesquisa o turismo sexual no Brasil, e que será uma espécie de guia do mundo das perversões, apresentando-as a Moreira e comentando várias formas delas; e como Virgílio conduzindo Dante, Mirvel conduzirá o policial através do purgatório e do inferno sadomasoquistas. E assim como muitos leitores, Moreira descobrirá um mundo novo, guardado sob a penumbra do anonimato, que jamais havia imaginado que existisse.

Acima, Dante e Virgílio no inferno, na pintura de Delacroix

   O livro SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATOS, de Bosco Silva, é, sem dúvida, uma narrativa alucinante sobre o mundo do sadomasoquismo; narrativa que parte de inocentes jogos sexuais sadomasoquistas envolvendo velas e algemas, como tantos outros romances com descrições picantes de sexo, por meio das práticas sexuais do casal de personagens composto pelo policial Moreira e sua namorada Renata. Porém logo em suas primeiras páginas o romance nos mostra para que veio pois Renata é uma mulher de forte libido que tem prazer em ter relações sexuais no próprio ambiente de trabalho...
Sim, eu sei, até aí nada há de diferente também de outros milhares de filmes e livros do gênero que possuem personagens que fogem da rotina sexual e passam a quebrá-la se excitando com a possibilidade de serem pegos, no próprio ato, em escritórios ou em elevadores, porém a diferença crucial aqui é que Renata é uma legista que adora ter relações sexuais na própria mesa de autópsia, ou em meio a cenários de crimes, entre cadáveres. E como se isso não fosse o bastante, o romance envereda ainda para o sadomasoquismo extremo que, como em Sade, só obtém o máximo prazer com a morte do parceiro.
Como nos informa o autor, isto já está presente em seu próprio título já que "Sexo, Perversões e Assassinatos" demonstra uma gradação de interesses sexuais; título que brinca com a frase popular “sexo, drogas e rock’n’roll”; mas o que temos aqui, ao contrário desta, é um crescente de perversidade que faz com que esta soe com uma ingenuidade extrema.

O romance possui três aspectos fundamentais, interligados entre si, que o faz ser original em seu gênero: 
Um o aspecto filosófico, em que é discutido o pensamento de Sade, de modo bastante acessível ao leitor, em que seu pensamento é analisado à luz da liberdade sexual de hoje, com os sites sadomasoquistas da internet e também do turismo sexual com seus inúmeros casos de pedofilia. Este aspecto, embora possa parecer desnecessário ao leitor, é fundamental para a história, uma vez que é por meio do pensamento de Sade que os perfis psicológicos dos supostos assassinos são traçados; 
Outro aspecto é a discussão sobre a sexualidade humana, em que é analisado comportamentos sexuais que fogem do considerado convencional, como os demonstrados por seus personagens; o romance discute ainda o que seria o “normal” em matéria de sexo, levando o leitor a analisar seus próprios desejos e atos sexuais, com deliciosas pitadas de humor e ironia. 
E por último, o livro liga tudo isso a uma divertida história policial, cheia de reviravoltas, mistérios e assassinatos.

Analisemos primeiro o aspecto filosófico do livro:
 Marquês de Sade (1740 - 1814), por meio de seu pensamento e literatura, é, sem dúvida, o grande personagem do livro; e é impossível não ver no velho libertino um personagem fascinante; um autor que escreveu grande parte de sua obra em prisões e manicômios - ora devido ao seu comportamento sexual desregrado, ora por sua literatura ácida ou, na maior parte das vezes, como fruto da perseguição de sua sogra -, e que fez o que parecia ser impossível: misturou a mais visceral pornografia a uma filosofia digna dos melhores filósofos de sua época, como Diderot (1713 - 1784). E isto não foi à toa já que tal mistura, como demonstra bem o autor, era de suma importância para seu projeto filosófico.

Sade visto pelo séc. XIX

Sade pode ser visto mesmo como uma espécie de Diderot da sexualidade desenfreada, pois o que este fez com o conhecimento de seu tempo, catalogando-o minunciosamente em grossos volumes de sua Enciclopédia, Sade fez com as taras e perversões de sua época em livros como nos Cento e Vinte Dias de Sodoma; e é o que, em grande parte, Bosco Silva faz novamente investigando práticas sexuais modernas, que nem mesmo Sade imaginou, como o bondage e o bukkake.


Bondage


O livro de Sade também serviu de modelo para o romance SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATOS, levando o autor deste a tomar os nomes em que se divide a grande obra de Sade (paixões simples, paixões complexas, paixões criminosas e paixões assassinas) como nomes de alguns capítulos de seu livro, em que o clima de cada parte dos Cento e Vinte... estão lá, reinterpretados de forma moderna entre turistas ávidos pelo turismo sexual, que se relacionam por meio de sites sadomasoquistas. Desse modo, o castelo de Silling, o lugar onde no livro de Sade acontece os cento e vinte dias de Sodoma, também está lá, reinterpretado como uma grande casa de suingue, com inúmeros “dark rooms” e com shows sangrentos sobre o palco.
O autor se esforça em contrapor a interpretação comum da obra de Sade, que o vê como um monstro que visava apenas satisfazer seus desejos mais insanos, a uma interpretação mais cuidadosa de seu pensamento, revelando-o como um grande pensador do comportamento humano, gerando muitos momentos interessantes no livro, como na ocasião em que o personagem Mirvel analisa o comportamento de alguns transeuntes:

“Creio, investigador, que mais compreenderemos o comportamento humano quanto mais nos interpretarmos como de fato somos: animais. Veja, por exemplo, aqueles sujeitos ali - disse Mirvel, enquanto Moreira direcionava o olhar para eles -, que estão ostentando seus carros caros; assim como muitos animais, que tentam atrair as fêmeas oferecendo proteção a elas, e repelindo os machos adversários, por meio da força, estes machos humanos estão inconscientemente atraindo as fêmeas por meio do luxo e do conforto econômico, que estes podem oferecê-las, e repelindo os outros machos por meio da demonstração de que são economicamente mais fortes.”


Em Sade o sexo é o que nos liga mais diretamente aos outros animais.
Porém, apenas o homem viria o sexo como algo inferior e indigno dele;
criando assim as proibições morais.

   Para tanto, o autor contrapõe dois personagens que representam estas formas opostas de ver a obra sadiana. Assim Albert S., o líder de um grupo de turistas que praticam o turismo sexual em terras brasileiras, é o personagem que encarna a visão comum da obra de Sade; uma visão que foi construída por meio de psiquiatras como Krafft-Ebing, que ajudaram a popularizar o termo sadismo; que desde o século XIX já era bastante popular. No Dicionário Universal de Boiste, de 1834, por exemplo, o sadismo já era definido como: “Aberração horrível do deboche; sistema monstruoso e antissocial que revolta a natureza”. Por outro lado, por meio do personagem Mirvel, um escritor alcoólatra francês que está no Brasil pesquisando o turismo sexual, se destaca análises do pensamento e da obra de Sade feitas por pensadores que melhor interpretaram sua obra, como Bataille e os surrealistas, e que mostraram o grande valor de Sade, se opondo a uma interpretação essencialmente psiquiátrica de sua obra, e pondo em relevo aquilo que escapou às análises psiquiátricas: sua imensa liberdade de criação, em que a moral não é obstáculo algum.
Não podemos também esquecer que o autor contribui com suas análises para uma melhor interpretação da obra sadiana, criando uma visão filosófica própria, principalmente quando põe em relevo o sexo como um caminho de autoconhecimento, como uma espécie de epifania que nos leva a tomar consciência de nossa dimensão natural, ou quando aplica o pensamento de Sade aos tempos de hoje, em plena era da internet com seus milhares de sites dedicados as formas mais bizarras de sexo.
Já a parte dedicada a sexualidade humana ganha ar de livro de autoajuda, pois leva o leitor a descobrir o que há por trás de comportamentos que passa por nós despercebidos, como no diálogo seguinte:

- E nunca lhe aconteceu que aquela mulher que você tanto desejava, mas que nunca lhe dava a menor atenção, quando você estava sozinho, passou inesperadamente a lhe seduzir, quando lhe viu acompanhado de uma outra mulher?
- Sim, inúmeras vezes. O que me causava certa irritação, já que estando acompanhado, eu pouco podia fazer para conquistá-la.
- Pois é, isso nada mais é do que um instinto animal: o de demarcar território.
- Como?
- Demarcar território nada mais é do que quando o animal, por meio de alguns artifícios, como arranhaduras em árvores e, ou, quando ele espalha seu cheiro, por meio da urina, avisa aos outros machos, intrusos, de sua espécie, que aquele lugar é seu pedaço, que as fêmeas são suas e que ele manda ali. O mesmo fazem algumas mulheres, embora não aconteça da fêmea ter essa atitude em outra espécie animal; mas na espécie humana as fêmeas ganharam certa autonomia biológica com relação aos machos, principalmente com relação ao sexo, fazendo com que elas tenham certas atitudes parecidas com as do macho, com relação à sexualidade.
- Sim.
- Do mesmo modo, a tua companhia pareceu ser uma intrusa para aquela mulher. O que a obrigou, ao ver que sua atenção a ela estava ameaçada por outra mulher, a manter em você o fogo do desejo por ela aceso, através dos meios por ela usados para demarcar seu território: beleza e sedução, para que você continuasse como um potencial amante, mesmo que, na preferência dela, você fosse o último - disse Mirvel com algumas gargalhadas ao final.

O romance disseca também comportamentos sexuais não-convencionais, relativamente comuns, como o RESTIFISMO (excitação por pés femininos calçados), o EXIBICIONISMO (prazer em si exibir sexualmente), o CANDAULESISMO (prazer que alguns maridos ou namorados possuem de obrigar que suas companheiras exiba parte de seus corpos para outros homens), indo aos mais extremos, como a ZOOFILIA (sexo com animais) e a COPROFILIA (sexo com fezes humanas); tudo isto é acompanhado também por uma espécie de pequena história dos hábitos sexuais humanos, ilustrada pelos gostos sexuais pouco convencionais de importantes personalidade históricas ou pelos hábitos sexuais incomuns de famosos escritores como James Joyce e Ernest Hemingway. O livro assume este caráter didático sem perder o ritmo de aventura com noções filosóficas ou com curiosidades desnecessárias: tudo é necessário para a trama policial. E dentro desta pespectiva, um comportamento sexual assume importância maior: a ASFIXIA ERÓTICA.
Responsável por entre 500 a 1000 mortes anuais só nos Estados Unidos, esta atividade sexual torna-se cada vez mais popular no meio sadomasoquista, tendo no estrangulamento e na interrupção de oxigênio por meio deste, um forte potenciador de prazer sexual. É ela que, na tentativa de desvendar o assassinato de três suspeitos de terem morrido praticando-a, leva o investigador Moreira a investigar o submundo do sexo, e a penetrar no obscuro e anônimo mundo do sadomasoquismo extremo. Mundo que ele conhece apenas palidamente através dos jogos sexuais praticados com a namorada.

Já o livro, quanto objeto de arte, não é nenhum exemplo do que os críticos chamam de “boa literatura”, pois não traz algum novo formato inovador à mesma, seja por meio de sua narrativa, do objeto de sua narração, ou por meio de seus personagens. Não traz também, como críticos literários gostam de referir, nenhuma “linguagem inovadora vindo de um Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Paulo Leminski, Mia Couto, Manuel Bandeira ou de outro grande escritor da língua portuguesa.” Trata-se simplesmente de entreter o leitor; o que não o impede, por sua vez, de tocar em assuntos importantes em suas páginas, neste caso, como vimos, a sexualidade humana, com todas suas particularidades e seus extremos.
Quanto a parte policial, bem é uma história simples que em vez de grandes deduções lógicas em busca de criminosos, como fazem escritores famosos do gênero, se concentra na busca destes por meio de perfis psicológicos, o que leva o leitor a conhecer aspectos importantes da personalidade de criminosos sexuais.
O livro, sem duvida alguma, garante boas horas de distração por meio de uma linguagem bastante simples, acessível e bem humorada; sendo um bom companheiro para as horas de tédio.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 4 (de Marcos Salvatore)

Não vou me convidar pra tua vida

Mas espero que mereça

E entenda

Sem danos

Que eu amanheça em outra festa


EXTRATOS NOCTÍVAGOS IV (de Renê Romana)

by Sara Saudkova


E na mente uma confusão verborrágica,  
vem aquela vontade de botar pra fora todas as sandices e coisas inimagináveis, 
ou imagináveis que tenho escondido, coisas do tipo: Contos eróticos,
romances açucarados, crônicas do amor demais, 
e outras coisinhas, mas por enquanto deixo tudo no papel 
e escondo no fundo da gaveta, 
um dia quem sabe tudo faça sentido!

TODA FILOSOFIA (de Haroldo Brandão)

by Hina Aoyama


Toda filosofia se resume ao próprio umbigo

Se não me encontro

Estarei para sempre perdido

O externo não tem sentido

Se não acho o meu equilíbrio

                 

Passo toda uma vida tentando

Achar o sentido...

E o sentido é o Amor 


Quanto mais se dá
                  
Mais se recebe

Simples

Como o sol que nasce todo dia!



               

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

DISCURSO DE UMA LIBERTINA (de Bosco Silva)



DISCURSO DE UMA LIBERTINA

“Sabeis onde fica a alma da mulher, meus caros amigos? Pois em troca destes goles de vinho, lhes contarei um segredo: fica em seu mais íntimo orifício. Foi o que pude descobrir com minha própria história.”

O público aquietou-se.

“Sei que muitos, ao me ouvirem, me chamarão de puta, mas se puta é fruir livremente de seus desejos e ter liberdade para descobrir o próprio corpo, sou sim uma, e disso muito me orgulho. Bem melhor que as virtuosas e hipócritas sem liberdade que a machista e hipócrita sociedade coroam-nas tão injustamente. Pois a um jovem tudo se torna lícito em tal matéria, e quanto mais fodem, mais se tornam estimados e famosos, tornando seus pais orgulhosos. Mas se a uma jovem é dado tal papel, é degradada, humilhada, proibida de exercer suas próprias funções biológicas. A natureza, senhores, não é machista. E, assim, prefiro ser uma puta feliz do que uma virtuosa tolhida.”

A multidão delirava e aquietou-se novamente, enquanto Domène retomava suas palavras:

“Porém, ao iniciar-me na grande arte do amor, ainda bem novinha, deparei-me com certos obstáculos que impediam que uma ‘moça direita e recatada’, seja lá o que eles entendem por isso, pudesse fruir bem de sua vida. O que me obrigavam a seguir certas leis rígidas. Leis que eram uma garantia de nos mantermos virgens até à noite de núpcias. E como nada segura nossos maravilhosos instintos, consequentemente, encontrei modos de fornicar sem fugir um segundo, como bem queriam, das odiosas leis do hímen. E assim, encontrei outras serventias para partes específicas de meu corpo: com as mãos tornei-me uma grande masturbadora” – disse, fazendo gesto similar com as mãos -, “que muitos diriam, não sem razão, ser uma mulher de mão cheia, pois era capaz de masturbar dois homens ao mesmo tempo.”

“E portar um membro entre os seios” – disse a mulher balançando os seus com as mãos – “era uma maravilha; ao friccioná-lo entre as mamas, levava os homens ao delírio. Ou levar entre as coxas era um substituto sem igual que simulava bastante um verdadeiro coito, chegando mesmo a enganar os mais tolos. Mas nada que se comparasse ao prazer deste orifício tão social que é a boca, não apenas a minha, mas também de outra pessoa. É simplesmente inacreditável o que se pode fazer com ela, senhores! E quando se junta belas e quentes palavras a uma boca habilidosa, é simplesmente uma loucura!”

“Assim, a língua alheia tornou-se como um pequeno membro que, embora extremamente flexível, era capaz de prazeres indescritíveis, e que jamais, por mais que se empenhasse em tal arte, me botasse em perigo com as nefastas leis do hímen. A minha tornou-se, por sua vez, como que um útero que incessantemente recebia as sagradas sementes da vida. E, como um acréscimo, logo me voltei para outro orifício. O que parecia como uma descoberta natural, já que este é o término do orifício anteriormente dito. Descobri então o quanto tal orifício é desejado e, ocultamente, querido!”

As pessoas voltavam a se manifestar novamente, interrompendo-a momentaneamente com aplausos e gritos; e após a multidão se acalmar, a bela mulher, em seu vestido branco, esvoaçante, sobre o palco, retomou novamente sua narrativa:

“Quantas meninas não se iniciam desta forma, até mesmo as mais comportadas! Era como se, por mais que um homem possuísse uma mulher, ele jamais a teria verdadeiramente possuído se não a tivesse ainda aí penetrado” - disse a mulher, de costas para o público em delírio, com a coluna dobrada, o vestido levantado, separando com as mãos as nádegas em direção a todos. Após desfazer-se de tal posição, enquanto os presentes novamente se acalmavam, continuou mais uma vez:

“Era o símbolo total da conquista, o máximo da intimidade física, a vitória total dos desejos sobre as imposições morais e religiosas. Além, claro, do prazer por algo proibido. Sem contar, também, do status social adquirido, pois um homem com uma mulher com uma bela bunda significava um símbolo de sucesso, e para uma mulher com tal propriedade era uma chance a mais para que não passasse seus dias perdida, tomada pela miséria, mas com um rico admirador ao lado.”

Domène fez uma pequena pausa e, após tomar alguns goles de vinho, voltou a suas palavras:

“E para os homens era fundamental saberem que era a primeira vez que uma mulher praticava tal ato. Aliás, não somente para esse, mas para todos os outros. Fingia, por exemplo, pegar num membro com a mão frouxa, flácida, com vergonha, mesmo sabendo que para o homem era desejoso que o apertasse, que o friccionasse com ardor, e aguardava como quem não soubesse de nada, que eles, com o tom de voz de quem conhece tudo, me pedissem para apertá-los, friccioná-los. Ah!, como era importante para eles! Talvez se sentissem como um Colombo a descobrir a América, um desbravador de novas terras, um conquistador de terras virgens, deixando sua marca na memória de sua conquista. Ou como um educador que se diverte compartilhando o prazer de novas possibilidades com alunas. Mas a primeira vez só acontece uma, e eu me divertia a enganá-los insinuando dor e inexperiência. Para tanto, era necessário não tomar a iniciativa, fingia deixar as rédeas em suas mãos. Ah, como eram tolos! E assim, segui minha vida...”

“Porém, logo me casaram com um homem velho, que pôs à prova minha virgindade logo na primeira noite, sem tirá-la, mas apenas tateava com seu dedo horrível. Tal ato tornou-se uma rotina para ele. E todas as noites lá estava o velho a tatear-me. Parecia-me que apenas lhe importava isso. E embora este me fornecesse uma vida estável e segura, como tanto queria minha família, na arte do amor, como podem ver, era bastante frio, insípido e decrépito, tanto que, mesmo após alguns dias, ainda me mantive virgem. Então resolvi perdê-la com o primeiro desconhecido que me agradasse.”

A pequena multidão vibrou em uníssono.

“O que me levou, após o feito, imediatamente a conceber um plano: embebedei o velho, e com a ajuda de algumas substâncias vermelhas que encontrei na cozinha, simulei sangue sobre a cama e sobre minha vagina. E aquele, ao acordar na manhã seguinte, pôde verificar seu grande feito. Ah!, isto deixou o velho feliz pelo resto do dia; pareceu-lhe como se um gênio em sonho lhe tivesse concedido um último pedido, pedido que jamais se realizaria novamente.”

Risadas e gargalhadas preencheram o lugar neste instante novamente.

“E assim pude fluir ainda mais do que me faltava, abandonando definitivamente as horríveis leis do hímen. Decidi, então, ter dois amantes que nunca tinham se visto. Amantes que se revezavam todos os dias para manter-me no mais belo prazer da vida. Pois bem...”

“Aconteceu-me certo dia que o primeiro amante atrasou-se a mais um encontro. E enquanto nos amávamos de modo invertido, estando eu sentada, levemente inclinada sobre seu membro, estando este, por sua vez, deitado sobre a cama, eis que exponho aquela parte de que tanto agrada aos homens à entrada do quarto. Tendo o segundo amante chegado neste instante, surpreendeu-se com tal cena. O que o fez imediatamente perguntar-me: ‘O que é isso, mulher, que deslealdade é esta comigo?’” – disse Domène, imitando voz e gesto de homem. “O que me fez responder-lhe sem tirar o membro de mim: ‘Vamos, tome, contenta-te com o que agora te resta, pois sempre tem lugar para mais um!’. E ele, após meditar um pouco, não desperdiçou nem um pouco o momento propício.”

Gargalhadas e risadas preencheram novamente o lugar. E mais uma vez o público calou-se enquanto a mulher finalizava:

“Assim, pude amar dois homens ao mesmo tempo. E agora lhes digo, está ou não a alma feminina neste pequeno orifício, capaz de duplicar-me e amar dois homens ao mesmo tempo?”

Texto baseado no conto de Sade “Há Lugar Para Dois”, tirado do meu romance: Sexo, Perversões e Assassinatos.

HÁ LUGAR PARA DOIS (de Marquês de Sade)



Há Lugar para Dois

Uma belíssima burguesa da rua Saint-Honoré, de aproximadamente vinte e dois anos, gorduchinha e roliça, carnes as mais viçosas e apetitosas, todas as formas modelares ainda que um pouco cheias, e que acrescentava a tão fartos encantos presença de espírito, vivacidade, e gosto o mais aguçado por todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas leis do himeneu, decidira, havia quase um ano, arranjar dois ajudantes para seu marido que, sendo velho e feio, a ela não somente desagradava muito, como também cumpria mal, se não raramente, os deveres que, talvez, com um pouco mais de desempenho, poderiam acalmar a exigente Dolmène - assim se chamava nossa bela burguesa. Nada mais bem combinado do que os encontros marcados com esses dois amantes: Des-Roues, jovem militar, ficava normalmente das quatro às cinco horas da tarde e das cinco e meia às sete chegava Dolbreuse, jovem negociante com o rosto mais bonito que se pode ver. Era impossível fixar outros momentos; eram os únicos em que a Sra. Dolmène estava tranqüila: de manhã, era preciso estar na loja e, à tarde, também tinha de aparecer por lá algumas vezes, ou então o marido voltava, e deviam falar de seus negócios.


Por sinal, a Sra. Dolmène havia confidenciado a uma de suas amigas que ela gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não se apagava, ela assegurava; desse modo, nada mais temo do que passar de um prazer a outro; não era difícil retomar a ação, pois a Sra. Dolmène era uma criatura encantadora que calculava ao máximo todas as sensações do amor; pouquíssimas mulheres conheciam-nas como ela própria e, em virtude dos seus talentos, reconhecera que, depois de muito meditar, dois amantes valiam muito mais do que um; com respeito à reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro; poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que diferença! A Sra. Dolmène, que temia em particular a gravidez, bem segura de que seu marido jamais com ela cometeria a loucura de lhe arruinar a cintura, havia igualmente imaginado que, com dois amantes, havia muito menos risco, quanto ao que temia, do que com um, porque, dizia ela, na condição,de excelente anatomista, dois frutos se destruíam mutuamente.
Certo dia a ordem fixada nos encontros veio a se alterar, e nossos dois amantes, que nunca se tinham visto, conheceram-se de maneira engraçada, conforme mostraremos. Des-Roues foi o primeiro, mas chegara muito tarde, e como se o diabo tivesse se intrometido, Dolbreuse, que era o segundo, chegou um pouco mais cedo.
O leitor inteligente percebe de imediato que, da combinação desses dois pequenos erros, deveria acontecer, infelizmente, um encontro infalível: e assim sucedeu. Porém, mencionaremos como isso se deu e, se possível, ocupemo-nos desse assunto com toda decência e moderação que tal assunto já por si muito licencioso, exige.
Por obra de um capricho bastante bizarro - mas tão comum entre os homens - nosso jovem militar, cansado do papel de amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis, por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está embaixo, coloca-o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era Sra. Dolmène que, nua como a Vênus calipígia, e encontrando-se estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos adoravam com devoção na estátua que acabamos de mencionar, essa parte mui bela que, em suma - sem sair à procura de exemplos tão remotos - encontra tantos adoradores em Paris. Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo dizem, jamais mostrar.
O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez com que Dolbreuse recuasse.
- O que vejo? - exclamou -... Traidora... é isso que me reservas?
A Sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:
- Que diabo tens tu, - diz ela ao segundo Adônis - sem deixar de se entregar ao outro - não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.
Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.

JANELAS DISCRETAS Nº 3 (de Marcos Salvatore)


O melhor momento do amor é aquele, segundos antes de se perceber apaixonado.

Um mistério une os sorrisos.

Boa tarde, é quarta-feira - O calendario esta repleto delas.

Isso é bom.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O BANHO DOURADO (de Bosco Silva)




O BANHO DOURADO

“Havia em minha terra uma moça muito bonita, que a todos cativava, mas que sua mãe, mulher rígida e extremamente católica, a proibia de sair desacompanhada. Sua vida era de casa para escola e, desta, para a igreja. Uma moça prendada que sonhava em ser freira.”

“Uma noite, sob sua janela, lhes fizemos uma serenata, cantarolávamos, bêbados, as mais belas serenatas. Foi quando sua mãe, irritada, nos jogou inesperado mijo. Saímos de lá humilhados. E por mais que a experiência, literalmente, nos tivesse dado um gosto amargo, algo prazeroso me havia excitado. Voltei outras noites, desacompanhado, não mais para vê-la, mas para tomar aquele banho dourado.”

O público explodiu em risadas ao ouvir a tradução de tal história, enquanto o homem finalizava:

“É, companheiros, é como dizem em minha terra: ‘se não se pode comer a carne, então que se tome o caldo!’" 

"Desde então tornei-me um urofílico, ou seja, aquele que se excita com a visão, odor e o contato com a urina. Passei a pagar prostitutas para urinar sobre mim. E somente fornicava após vê-las urinar.”

Tirado do meu romance Sexo, Perversões e Assassinatos.

JANELAS DISCRETAS Nº 2 (de Marcos Salvatore)

Bom dia a todos.

Olho pela janela e a manhã nublada me dá uma vontade de fumar que puta que o pariu!


Existe um bom motivo para nunca acordar cedo à terças-feiras.

Será que ainda dá tempo de ir atrás dela?

Talvez, quem sabe até, pegar minhas chaves de volta.(...) Quem sabe?


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

UM TREM PARA AS ESTRELAS (DE CACÁ DIEGUES)




DREME - Tá ruim, Brother!

VINA - Segura Dreme, segura! Droga , droga de vida Dreme, que merda!

DREME - Para de reclamá, pô. Cê só vive reclamando. Tu qué sabê duma coisa, tu é chato à beça, xará. Só sabe reclamá. Vai vê que foi por isso que a Nicinha se mandou. (...) Vina, me ajuda Brother, fala comigo, diz qualqué besteira.

VINA – Dreme, sacanagem, faz um esforço seu merda. Pára de sangrá. (...) Nova York, lembra, confete de luz?

DREME - Bem que esse trem podia sê um avião, um avião não, um foguete, um foguete que tivesse levando a gente pras estrelas, like a dream.

AUDREY HEPBURN


 



A atriz Audrey Hepburn escreveu 10 dicas de beleza incríveis quando pediram para que revelasse seus segredos:


 

  1. Para ter lábios atraentes, diga palavras doces.
  2. Para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas.
  3. Para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos.
  4. Para ter cabelos bonitos, deixe uma criança passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia.
  5. Para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinho.
  6. Pessoas, muito mais que coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas; jamais jogue alguém fora.
  7. Lembre-se que, se alguma vez precisar de uma mão amiga, você a encontrará no final do seu braço. Ao ficarmos mais velhos, descobrimos porque temos duas mãos: uma é para ajudar a nós mesmos, a outra é para ajudar o próximo.
  8. A beleza de uma mulher não está nas roupas que ela carrega, ou na forma como penteia o cabelo. A beleza de uma mulher deve ser vista nos seus olhos, porque esta é a porta para seu coração, o lugar onde o amor reside.
  9. A beleza de uma mulher não está na expressão facial, mas a verdadeira beleza de uma mulher está refletida em sua alma. Está no carinho que ela amorosamente dá, na paixão que ela demonstra.
  10. A beleza de uma mulher cresce com o passar dos anos.

sábado, 1 de setembro de 2012

AS DESVENTURAS DE SER ESCRITOR NO BRASIL (de Bosco Silva)



Fazer literatura no Brasil não é tarefa fácil, principalmente se você for um escritor marginal, vivendo à margem das grandes mídias e dos poucos incentivos à cultura de nosso país. Em geral, não basta apenas ter uma boa escrita ou uma boa história pra contar, é necessário que você banque seu trabalho, seja seu editor, faça também sua própria propaganda, se autopromova, que inclui, algumas vezes, até resenhar seus próprios livros.

Pensar viver então de literatura em um país em que a cultura e a educação são vistas como luxo, ou algo desnecessário, e que além dos milhares de analfabetos que mal conseguem escrever o próprio nome, há também as centenas de milhares de analfabetos funcionais que leem mas não conseguem entender o que estão lendo, parece ser uma missão quase impossível. Mas o pior de tudo para mim ainda é o culto à ignorância que há no Brasil, que vê o escritor ou o leitor como alguém que não tendo o que fazer escreve ou lê: um vagabundo.

Recentemente, eu perguntei a uma pessoa se ela gostava de ler, ela me disse que não tinha tempo para tal atividade e que, ao contrário de mim, tinha que trabalhar. Retruquei-lhe, então: “Mas nem mesmo com todos estes finais de semanas, em que vejo você com o copo na mão, não lhe sobra tempo?!”. Ela ficou calada.

E como se tudo isso não fosse o bastante há ainda a indiferença forçada dos outros. Muitas vezes, por exemplo, cheguei com meu livro, em meio a conhecidos e bons leitores, e, mesmo tendo comentando ter lançado o livro, nem um se indignou a puxar conversa a respeito de sua história. Esta frieza parece não combinar com pessoas que gostam de literatura, mas isso me parece ser algo muito mais ligado ao próprio ser humano que a uma cultura específica como a brasileira. Mas é algo que atrapalha muito novos escritores já que trava a possibilidade de uma cooperação mútua.

Há também um fato que penso se tratar apenas de países de terceiro mundo, e que muitas vezes acontece também nas artes cênicas: a confusão entre autor e obra.

Pude acompanhar, algumas vezes, relatos de atrizes que, tendo interpretado vilãs na televisão, eram maltratadas em público com xingamentos por pessoas que tomavam as dores de seus personagens preferidos. Isto também acontece na literatura, principalmente com escritores que se dedicam a temas que fogem dos conceitos usuais de moral ou de normalidade. A escritora Ilana Casoy bem sabe disso, tanto que após centenas de perguntas sobre por que escrever sobre serial killers resolveu escrever em seu livro:

“Antes que você entre na fila dos que já me perguntaram, com olhos esbugalhados e uma indisfarçável desconfiança, por que eu escolhi um assunto tão “chocante”, “mórbido”, “sanguinário”, “cruel”, “doloroso”, “perigoso”, “pungente”, “angustiante”, “desumano”, “problemático”, “assustador”, “patológico” e outros tantos adjetivos utilizados para explicitar a perplexidade que um crime sem motivo logico pode causar; aqui vai uma pequena história...”

Penso que Ilana quis dizer com “indisfarçável desconfiança” a confusão de que acabamos de falar, entre autor e obra. Ou seja, muitos veem Ilana Casoy com os “olhos desconfiados” de alguém que obtém tanto prazer com a descrição destes crimes quanto seus próprios autores. Grosso modo: para estas pessoas o escritor e sua obra tornam-se uma coisa só. O que faz com que Ilana e os serial killers retratados em seus livros sejam vistos quase como a mesma coisa.

E quando o tema é sexo então a coisa torna-se muito mais grave.

É impressionante como a maioria das pessoas não consegue falar a respeito de sexo sem introduzir piadas de muito mau gosto ou, quando muito, ofensivas. Isto quando não há a pestilenta confusão entre autor e obra.  Eu, por exemplo, escrevi um livro baseado em Marquês de Sade, um livro que descreve desejos sexuais extremos, como sexo com animais, sexo envolvendo secreções humanas; são desejos que pertencem ao universo de Sade, transposto para a modernidade dos sites pornô da internet. E assim como Ilana casoy, muitas vezes, experimentei na própria pele os efeitos nefastos deste maldito preconceito. Ouvi várias vezes comentários desagradáveis que me identificavam com o assunto abordado em meu livro, como se eu fosse um dos meus personagens. Este modo de pensar desestimula a literatura tornando-a uniforme, e também ao autor que muitas vezes se torna motivo de piada em um pais com muitos preconceitos e sem cultura, que parece ser incapaz de diferenciar o criador de sua obra.

E quando o escritor, após ter passado por todas estas dificuldades, parece ensaiar seus primeiros passos na vida profissional há ainda a pirataria, que no Brasil cresce sem qualquer limite, e que acaba, infelizmente, prejudicando muitos escritores no começo de sua vida profissional, pois o escritor, como qualquer outra pessoa, precisa também pagar suas contas.

O escritor já ganha bastante pouco com sua obra, em geral, quando muito, ganha 10% do preço de cada livro vendido. Isto significa que de cada livro vendido por, digamos, 30 reais apenas 3 reais é dado ao escritor. O que penso ser um absurdo, pois sem ele o objeto de venda não existiria.

Muito já foi discutido sobre a pirataria na área da música, com alguns a favor, outros contra, mas a verdade é que, quanto a pirataria de livros, a situação do escritor é bem pior que a do músico, pois mesmo que se tenha pirateado cd’s de música resta ainda ao músico arrecadar dinheiro com seus shows, e ao escritor o que lhe resta com este terrível descaso com a cultura? Leituras de suas obras em praças, com seu chapéu virado a catar as moedas do público?

Mas se apesar de tudo isso você ainda quer ser escritor no Brasil, leia o que Charles Bukowski tem a lhe dizer:

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e pedante,
não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm bocejado até adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.