terça-feira, 17 de julho de 2012

O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES - ANIMAÇÃO VENCEDORA ...


Dalla Blog: O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES - ANIMAÇÃO VENCEDORA ...: Olá amigos! Hoje recomendo uma linda e sensível animação, vencedora do Oscar. Fala sobre simplicidade, persistência e generosidade. E sobre...

It's Parship's fault!



Advertising Agency : Leagas Delaney Hamburg, Germany
Creative Director s: Stefan Zschaler, Oliver Grandt, Willy Kaussen
Copywriter : Jakob Eckstein
Graphic Designer : Nadine Kuhlenkamp
Director : Felipe Ascacibar
Film Production : element e
Published : January 2011

segunda-feira, 9 de julho de 2012

UM ESBOÇO: AMOR AO PRIMEIRO CRIME (de Bosco Silva)



(uma história de amor entre assassinos. Feita não apenas de corações apaixonados mas também de sangue e tripas. Dividida em partes, como um bom esquartejador faria)

Inspirado no caso recente de Elize Matsunaga, que matou e esquartejou seu marido, o empresário Marcos Kitano Matsunaga.

Com vocês, o conto:

O QUE MAIS ME SURPREENDIA em Elise, era como esta via o crime. Para ela, o crime era uma verdadeira arte: o assassinato, uma composição, como uma obra musical, com sua estrutura melódica, sua harmonia pré-estabelecida, por uma mente que aspirava ao belo até mesmo na destruição, no desvísceramento de um corpo, ou no esfacelamento de um crânio; o roubo, como a concretização de um plano audacioso, pensado em seus mínimos detalhes. O crime era antes de tudo, para ela, uma luta consigo própria, contra os valores, os sentimentos, as ideias impensadas que carregávamos desde o berço, que nos fazia esquecer, de modo errôneo, nossa própria natureza assassina, que aguardava pacientemente quieta apenas um momento para se mostrar às claras. Matar era a salvação para almas que ambicionavam transcender este mundo corriqueiro, fundado na mentira. E para isso, nada como a Sociedade dos Amigos do Crime para sanar todos estes erros. Este era o nome que ela havia dado ao nosso grupo de amigos. Disse-me que havia se inspirado em um livro.    

Lembro-me bem de como a conheci, posso dizer que foi amor à primeira vista. Ou melhor: amor ao primeiro crime.

A CABEÇA

Estávamos, eu e Mão-de-cepo, atrás de um carro; um carro que nos rendesse um bom lucro pro fim de semana. Depenaríamos ele e venderíamos suas peças por uma boa bagatela qualquer. Esperamos então, discretamente, pelo primeiro que chamasse nossa atenção em um sinal de trânsito qualquer. Até que um luxuoso carro preto parou quase em nossa frente, um carro como aqueles de bacanas, com películas nos vidros das janelas como um modo de evitarem não se aborrecerem ao verem as misérias de fora do luxo destes. Nossa primeira impressão foi de que fosse como um daqueles carros blindados que bacanas importantes usam para se proteger. Mas naquele dia estávamos com sorte, pois foi somente impressão nossa. Mão-de-cepo foi em sua direção e ficou bem na frente deste com sua arma na mão apontada direto para a fuça de quem tinha o volante nas mãos. Eu contornei o carro e fui para o lado do motorista com arma em punho, bati na janela com vigor ameaçando atirar se caso este não abrisse a janela logo. Até que “plac”, a porta se abriu, e naquele momento foi como se tudo mergulhasse no mais profundo silêncio, como se eu mergulhasse na mais límpida água; e tudo ao meu redor ficasse em câmera lenta; então vi a mulher mais doce do mundo aparecer em minha frente, linda, com seus cabelos lisos sobre os ombros, com um modo só seu de jogá-los para trás dos ombros... Inesperadamente tudo voltou ao normal. Entramos no carro rapidamente, a joguei para o banco traseiro e fui para o lado desta em seguida, enquanto Mão-de-cepo tomava o volante e seguia rumo a qualquer lugar ermo.
Ao chegarmos a um grande terreno abandonado, amarramos a moça e a amordaçamos. Em seguida, saímos do carro para decidirmos o que iríamos fazer com ela. Mão-de-cepo, como um bandido prático, queria imediatamente matá-la e jogá-la em qualquer barranco daqueles, ou mesmo em um córrego de rio; mas sempre fui o mais sensato, disse-lhe que, pelo carro, deveria ser a filha de algum bacana, um empresário ou mesmo de algum político, como aqueles que roubam nossa grana guardando-a em algum banco no exterior, gastando-a com suntuosos jantares acompanhados de caríssimos vinhos. Nesse momento, Mão-de-cepo sorriu como se a ficha finalmente houvesse caído - ele sempre foi um sujeito lerdo para isso: pensar nunca lhe foi uma qualidade -, então me disse que sim, que poderíamos ganhar algum dinheiro extra sequestrando-a. Tomamos a decisão de pô-la desamarrada no porta-malas do carro. Porém, ao abrir o porta-malas, achamos três grandes malas dentro. Perguntei a ela o que significava aquilo, ela me disse que estava de viagem, que as malas estavam cheias de suas roupas. Aquilo, momentaneamente, confirmou imediatamente o que eu pensava, pois com tanta roupa assim só poderia ser uma filha de algum bacana filho-da-puta. Resolvi então tirar as malditas malas de dentro do carro. Mas as malas pesavam feito chumbo. Notei que até então ela tinha sido uma mulher bastante fria, mas, naquele momento, algo desabou nela. Decidi abrir uma das malas. E qual não foi minha surpresa ao ver surgir assim na minha frente, tête-à-tête, um pé humano, branco como cera. Dei um pulo para traz assustado, soltando um sonoroso caralho. Verifiquei as outras duas malas restantes e percebi que havia outras partes do corpo. Perguntei várias vezes a ela, até que ela me respondeu:
- Tá bom, tá bom, eu confesso, fui eu que o matei.
- E quem o cortou desse jeito?
- Também fui eu.
- Sozinha!?
- Sim.
Demos boas gargalhadas: não acreditávamos que uma mina como aquela seria capaz de tal ato. Nem mesmo eu e Mão-de-cepo seríamos capazes de fazermos aquilo. Gostávamos de fazer as coisas limpinhas, sem manchas de sangue ou miolos grudados nas paredes. Mas a verdade viria imediatamente à tona, quando decidimos despachar o corpo, jogando-o ribanceira abaixo. Ela levantou-se sem temer a arma de meu parceiro, e foi em busca das malas. Corri atrás dela com arma em punho. Quando a encontrei estava vasculhando as malas. Perguntei o que queria. Ela me disse que não poderia deixar a cabeça e as mãos nas malas. E que se tinha que ir, tinha que levá-las. Na dúvida, assenti com a cabeça, calado. E não foi que a louca pôs-se a catar o que havia falado. Mão-de-cepo tomou um grande susto, o negão de quase dois metros de altura ficou branco como uma folha de papel, quando a viu entrar no carro pondo a cabeça e as mãos sobre as coxas.
- Que isso!? – disse ele.
- Se elas ficassem lá, ele seria facilmente identificado – respondeu ela.
Foi quando vimos que o que ela nos havia dito era de fato verdade. A mina era mesmo capaz daquilo, e de muito mais. Quem diria que aquela moça frágil, de beleza delicada, era uma assassina tão fria, como poucas que já vi na vida. E eu, de minha parte, não podia acreditar que, ao vê-la apanhar aquela cabeça com tanta coragem e frieza, já estava terrivelmente apaixonado por ela, ao ponto de tudo isto não ter tido nenhum efeito sobre meus planos. E para piorar ainda mais as coisas para Mão-de-cepo, a mina começou a falar com a gente usando a cabeça como um boneco de ventríloquo, segurando-a pelo cabelo e puxando com sua mão esquerda o maxilar do cadáver. Quando ela aproximou a cabeça do negão, ele quase bateu o carro, soltando um sonoroso “caralho, tira isso daí!”. Nunca tinha visto Mão-de-cepo daquele jeito, já tinha visto o negão encarar a polícia várias vezes, brigar com dois homens ao mesmo tempo, levar facada e usar a mesma faca para matar seu algoz, mas parecia que ele a temia. Que ironia! Temia uma mulher. Ele era do tipo supersticioso. Parou então o carro, e saímos para conversar à beira da estrada vazia, sob um luar escandaloso.
- E agora? O que faremos com ela? A mina é uma assassina, cara. Manteremos ainda o plano de sequestrá-la?
Eu lhe ouvia calado, fumando um cigarro, enquanto Mão-de-cepo continuava esbravejando nervoso:
- Acredita ainda que ela é uma filha de bacana?
O engraçado é que ao saber que ela havia feito aquele crime, isto havia de alguma forma, me aproximado dela; éramos agora como parceiros dividindo segredos, sem que houvesse um acordo prévio. Disse, então, para ele:
- A verdade é que ainda nada sabemos sobre ela. E o fato de ter matado não elimina a possibilidade de ser de família rica.
- Vamos cara, vamos dar logo um fim nisso. Essa mina me causa arrepios. E o cara quem era ele? Pode ter sido algum bacana, cuja a família poderá nos por em cana.
Bem, parecia-me que pela primeira vez na vida a inteligência havia brotado naquela cabeça vazia, pois o que Mão-de-cepo havia dito parecia fazer sentido.
Dei um último trago no cigarro, joguei-o ao longe, e disse:
- É o que vamos descobrir.

Fomos para um motel barato de beira de estrada, daquele tipo que o maior conforto é um velho ventilador rangendo e com as cobertas tão sujas que não devia ser trocadas à dias. Pedimos bebidas e deixamos a mina solta. Ela foi imediatamente ao banheiro, não sem que antes Mão-de-cepo verificasse se havia um meio de fuga. Ficamos a conversar bebendo algumas cervejas que ela pegava da geladeira. E para iniciar a conversa, perguntei a ela se havia sido fácil cortar aquele cadáver. Ela disse-me que quando se sabe o modo certo é tão fácil quanto cortar uma fatia de bolo.
- Modo certo? - retruquei a ela. E ela respondeu-me:
- Sim, quando se sabe um pouco de anatomia. O difícil foi cortar a coluna - finalizou ela.
 Porém esta havia contornado o problema quebrando-a primeiro, após expô-la da carne, com chutes certeiros.
- Mas o mais difícil foi evitar que o sangue respinga-se pelo caminho todo, tive então que esperar que o sangue coagula-se no corpo antes do serviço. A espera durou dez horas - disse-me ela entre um gole e outro de cerveja.
Perguntei-lhe quem era? Ela ficou calada e nada me disse. Até que, de repente, um grito fez-se ouvir dos fundos do quarto, a voz era de Mão-de-cepo. Quando chegamos ao fundo do quarto a geladeira estava aberta, Mão-de-cepo assustado no canto, apontando em direção da geladeira. Quando me aproximei desta logo percebi a causa de tal susto, a cabeça estava na geladeira entre as cervejas, com seus olhos murchos e entre abertos, olhando para fora. Mão-de-cepo repreendeu-a, ela lhe respondeu que tinha que mantê-la conservada. Bem, mas passado alguns minutos tudo se acalmou novamente. Até que para impressioná-la, quando esta veio do banheiro, tive uma ideia estúpida, passei a jogar a cabeça como bola de boliche tentando derrubar algumas garrafas de cerveja que pus no chão. Queria demonstrar-lhe ser tão frio quanto ela. Ela, quando viu a cabeça no chão, tentou imediatamente apanhá-la, dizendo que iria desfigurá-la. Foi quando, ao ver seu interesse, tive uma ideia. Pedi então para que Mão-de-cepo se ausentasse um pouco do quarto. Em seguida peguei a cabeça e ameacei batê-la na parede até que os últimos vestígios de um rosto humano fosse-lhe apagado se caso ela não me dissesse quem era o sujeito. Ela relutou em me dizer. Então bati com a cabeça na parede; um pouco de sangue respingou sobre meu rosto. Ela continuou calada. Bati mais uma vez, desta vez com o rosto virado para a parede. Ela balbuciou algo. Foi quando ameacei mais uma vez bater com a cabeça na parede. Ela, então, finalmente, soltou a língua. Disse-me que o homem era um estuprador, que havia estuprado a filha de um fazendeiro rico, que prometera pagar bem aquele que o houvesse pegado. E a cabeça era a prova disso. Então entendi, finalmente, o cuidado com a mesma. Porém um problema havia agora se formado, como iria dizer a Mão-de-cepo que eu havia me enganado, que a mina não era o que pensávamos.

AS MÃOS

Bem, mas isso eu deixei para depois, o que queria naquele momento era apenas conversar com ela, olhá-la em seus belos olhos negros. E como um sussurro, um segredo, ela havia me dito que aquele tinha sido seu primeiro crime; e que o homem que havia matado também havia lhe estuprado. Aquele segredo me havia acendido; um fogo passou a me queimar depois disso, um fogo de desejo, que eu jamais havia sentido. E lá pelas tantas, passamos a acariciarmos. Minha mão unia-se a sua mão, aquelas belas mãos assassinas. E ambas tornavam-se uma apenas, como nossas almas naquele momento. Despimo-nos e deitamos na cama, ela pôs a cabeça ao lado. E sobre aquela velha e suja coberta transamos em meio ao sangue que ainda saia da cabeça decepada. Nossas secreções uniram-se as anteriores, dos amantes passados, como evidências de novos desejos.
Após o sexo, ela disse-me como tudo havia ocorrido: ela havia seguido o homem até uma boate. Chegando lá, sentou-se ao lado dele, enfrente ao balcão. Ela sabia que o atrairia. E como um golpe certeiro, ele mordeu a isca, passou a olhá-la, pagou a ela algumas doses de bebida e puxou conversa com ela. Ela identificou-se como uma prostituta.  E assim, ficaram por alguns bons minutos. Ele, então, convidou-a a sair...  



segunda-feira, 2 de julho de 2012

SEXO E TAPETES (de Bosco Silva)



Neste décimo capítulo do livro “Sexo, Perversões & Assassinatos”, o investigador Moreira, ao reencontrar-se com a ex-prostituta Neusa, que se auto-denomina como sendo uma “sexogenária”, aproveita o encontro para lhe perguntar sobre hábitos estranhos de seus clientes. Neusa conta-lhe as histórias mais escabrosas vividas por uma velha prostituta.

SEXO E TAPETES


Às dez horas da noite, Moreira estaciona seu barulhento carro, um Maverick preto, 1979, próximo ao conjunto de boates que contornam a orla da cidade. Desce do carro e aprecia a multidão ávida por divertimentos noturnos. E como toda cidade turística, esta não era exceção à regra: possuía uma vida noturna agitada, com divertimentos para todos os gostos, incluindo, claro, os ilegais: sete dias por semana.
A multidão se aglomerava em pequenos grupos, ao redor de mesas de bar ou de luxuosos carros, que ostentavam o poder de compra de seus proprietários. Parecia que a noite mexia com suas paixões, com seus desejos. Era como se, à noite, todos fossem suspeitos. A ilegalidade parecia ganhar certo glamour, e dar sentido ao adágio: “à noite, todos os gatos são pardos”.

Moreira dirigiu-se então para um bar, de onde poderia ver quase todo o movimento de bares e boates. Um bar que parecia ser frequentado por quem queria mais um pouco de sossego.
Pergunta a um garçom por Neusa. O garçom lhe informa que ela está em uma mesa à beira da praia. Dirige-se ao seu encontro.

- Oi! Como vai minha bela “sexogenária”?
- Como a natureza quer: às vezes bem, às vezes nem tanto, mas vivendo... Favor, sente-se. E você, meu querido, como vai?
- Dedicado ao trabalho.
- E a investigação, rendeu-lhe frutos?
- Foi apenas alarme falso.
- Não lhe disse, meu querido? O francês parece ser apenas um cliente qualquer, como tantos outros.
- E como se comporta a maioria dos fregueses, Neusa?
- Bem, pelo menos no meu tempo, eram pessoas solitárias e tímidas, ou homens que iam em busca do que suas mulheres não lhes ofereciam em casa. Alguns já estavam cansados da mesma mulher, do mesmo relacionamento sexual. E ainda havia aqueles que simplesmente viam na prostituta um meio de conseguir o que queriam, sem o trabalho da conquista, ou do trabalho de livrarem-se delas, quando se cansavam destas. Sabe, há também não apenas preconceito às prostitutas, mas também aos homens que procuram elas. Muitos acham que quem procura uma prostituta é incapaz de seduzir uma mulher. Mas não é bem assim: às vezes os homens querem apenas sexo, sem compromisso algum. Não é mesmo?
- Sim. Mas, tirando esses, havia coisas muito incomuns, com relação aos desejos, relação sexual, a essas coisas assim?
- Ah! Sempre têm, né?
- Como?
- Ora, desejos estranhos!
- De que tipo?
- Ah, Ivan, sinto-me com vergonha de contar.
- Mas Neusa, eu ficaria extremamente grato se você me relatasse. Iria ajudar muito nas minhas investigações.
- Bem, sendo assim... – disse Neusa, antes de virar toda a bebida de seu copo, goela abaixo, a fim de tomar coragem. - Alguns clientes tinham uns desejos esquisitos. E eram sempre os que pagavam além da conta. Tinha um, por exemplo, que sempre me chamava para que eu ficasse nua, exceto com relação ao calçado. Ele me pedia para calçar dezenas de pares de calçados, que ele guardava na casa dele. Ele morava sozinho, sabe. E toda vez que eu ia lá tinha novos pares de calçados; de todos os tipos e cores, mas sempre calçados de couro. Pois bem... ele se deitava no chão, sobre o tapete, e me pedia para desfilar ao seu lado, com os pares de sapatos que tinha me dado. Depois pedia pra que eu pisasse sobre ele, sobre o rosto e o peito dele. E ele ficava lá, lambendo os sapatos nos meus pés. Às vezes até mesmo me pedia para pisar no negócio dele; lá... tu sabe onde! – relatou Neusa, gargalhando e cutucando Moreira no braço, com o cotovelo.
- Mas era só isso? Não havia algo mais... Não havia sexo?
- Ás vezes, mas era muito raro. E quando acontecia eu estava sempre de bota.
- Estranho!... E esse homem, perdeste logo contato com ele?
- Durou apenas um ano. Deve ter morrido ou viajado. Pois, depois desse tempo, ele nunca mais me procurou.
- E era sempre com você?
- Claro, meu bem, um programa fácil assim, a gente agarra com as unhas. E eu jurei a ele total segredo; apenas pras amigas mais íntimas eu contava – disse Neusa esboçando um leve sorriso.

Houve uma pequena pausa para que a mesa fosse novamente abastecida com bebidas.

- Sim, Neusa, conte-me mais – disse-lhe, Moreira, após a retirada do garçom.
- Bem, tem histórias engraçadas, como essa, assim como as nojentas e tristes. E também as violentas, que uma prostituta tem que passar... Depois ainda dizem que é a profissão mais fácil do mundo!
- É, é uma pena!
- Essa quem me contou foi uma amiga:

Ela estava aperreada pela falta de grana. Então, um cafetão chamou ela, e disse que um de seus melhores clientes estava precisando de uma menina que topasse coisas diferentes. Ela perguntou então o que seria. Ele, pra sacanear, lhe disse que o cliente pagava muito bem, e que apenas queria que ela jogasse sobre ele, e na vagina dela, manteiga de amendoim para que os dois lambessem.
- Ahã – murmurou Moreira, enquanto levava o copo com bebida à boca.
- Quando ela chegou de táxi à casa do sujeito, viu que não era mentira, o cara morava em um palacete, decorado com mobílias caras e quadros na parede, com molduras pesadas de metal, decoradas com relevos que lembravam muito ouro, assinados por alguém que só podiam ser os artistas verdadeiros. Não se aproximavam nem um pouco daquelas cópias de quadros que vendem nas feiras; então, pensou ela, o sujeito devia pagar muito bem, pois o que não parecia faltar, ali, era dinheiro.
- Sim. Continue.
- Um cara, então, veio recebê-la e levou ela ao seu patrão, um sujeito educado, que tratou ela como uma verdadeira dama. Ele pagou antecipado, uma bolada e tanto de dinheiro. Ela quando viu o dinheiro, pensou que faria de tudo pra agradar aquele sujeito e assim conquistar sua confiança, e, também, mais dinheiro com novos programas. Aceitaria então qualquer coisa que ele quisesse: ménage à trois; vibrador nela, ou nele; dedos e lambidinhas na bundinha dele, etc. Manteiga de amendoim na xereca pareceu a ela fichinha a partir do momento em que a grana reluziu em seus olhos.

E após Neusa tomar mais um gole de bebida, continuou a narrativa:

- Após os dois ficarem nus, veio a surpresa, o sujeito queria que ela se ajoelhasse para que ela mijasse nele, em seu rosto e boca, enquanto ele estava deitado sobre o tapete. Ela estranhou o pedido, mas não viu nenhum problema nisso, afinal de contas era a boca dele e o pagamento compensava, por isso, ela pouco se importava. Porém, depois de seu desejo ser realizado, ele imediatamente quis o contrário. Ela relutou, afinal de contas a boca, agora, era a dela. Ele disse, então, que dobraria o pagamento, caso ela permitisse. E assim foi, com ela permitindo imediatamente.
- Caramba! – pronunciou Moreira admirado.
- E a coisa não parou por aí, não, meu amigo.
- Não?!
- Não. Passaram pra excrementos!
- Que nojo! – exclamou Moreira, após interromper o gole de sua bebida.
- Mas de todas as histórias que aconteceram comigo, e mesmo das que tenha apenas ouvido de amigas, esta parece ser a mais estranha e triste:

Um homem convidou-me para sua mesa, em um bar como este, de esquina. Ofereceu-me bebida e pôs-se a comentar sobre sua esposa, que parecia ser bastante querida. Contou-me sobre todos seus anos de vida, vividos em sua companhia. Porém, havia algo de estranho no que dizia. Contou-me, finalmente, o que eu já suspeitava, que ele soube recentemente que ela o havia traído, e que, no entanto, ele jamais a havia, em todos esses anos de matrimônio, traído. O ódio havia invadido aquela boca, agora. Disse-me, então, que finalmente, como vingança, a trairia. E que me pagaria para que juntos fôssemos ter em sua casa, sobre a cama de casal que ele havia tanto prezado, mas que ela havia maculado. Eu aceitei, bem que ela merecia, assim pensei naquele dia. Ao chegar em sua casa, fomos logo para a cama. O homem transava e chorava; e quanto mais transava, mais chorava ainda. E balbuciava o nome dela. Convidou-me para que saíssemos daquela cama. Eu o compreendi imediatamente, o seu arrependimento, naquele instante. Fomos para o chão, ao lado de um tapete enrolado, e lá ficamos transando... Em um dado momento, ele pôs-se a gritar o nome dela: “Eunice... Eunice... Eunice”, e chorava. Olhou para o tapete, e disse: “Tá vendo? É isso que tu merece”. Eu não compreendia nada do que se passava naquele momento. Talvez o tapete fosse presente de casamento e que, por isso, causasse lembranças dela. Foi o que pensei na hora. Só sei que parecia que o homem endoidara. Mas, alguns dias depois, veio a surpresa. Ao ler o jornal li a matéria, espantada:

CRIME DO TAPETE: homem mata esposa a facadas e a esconde enrolando-a no tapete de casa.
- E lá estava a foto dele, e do tapete. Ele havia matado a esposa, e no outro dia se entregado à polícia – disse Neusa.
- Nossa, que história! Parece que me lembro do ocorrido; já faz alguns bons anos, não?
- Ah! Já!... Já se vão alguns bons anos, sim... Pois é, meu filho, por tudo isso uma prostituta passa. Imagine, eu estava ao lado de um cadáver, e não sabia. Que coisa horrível eu ter feito aquilo, estando o cadáver ao lado! Não é mesmo?

Para ler os primeiros capítulos de SEXO, PERVERSÕES & ASSASSINATO, acesse:https://clubedeautores.com.br/book/130007--SEXO_PERVERSOES__ASSASSINATOS


sexta-feira, 29 de junho de 2012

PERDOANDO DEUS (de Clarice Lispector)

 Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

LAMENTO PELA MORTE DO MEU CARALHO (de Jim Morrison)


Lamente pelo meu caralho
dolorido e crucificado
Eu procuro conhecê-lo
Adquirindo conhecimeto da alma
Você pode abrir paredes do mistério
show de strip

Como adquirir morte no show da manhã

Morte na tevê que a criança absorve
Mistério mortal que me faz escrever
O trem lento, a morte de meu pau dá a vida

Perdoe as pobres velhas pessoas que nos deram a entrada

Ensinado-nos deus na oração de criança na noite

guitarrista

sábio satir antigo
Cante sua ode ao meu caralho

descuido é lamento

Endureça-nos e guie-nos, nós congelados
Células perdidas
O conhecimento do cancer
Para falar ao coração
E dar o presente grande
Transe do poder das palavras

Este amigo estável e a besta de seu jardim zoológico

Garotas com cabelos selvagens
Mulheres florescendo em seu ápice
Monstros da pele
Cada cor conecta
Para criar o barco
Qual balança a raça
Podia todo o inferno ser mais horrivel
Do que agora
E real?

Eu pressionei sua coxa e a morte sorriu


Morte, velho amiga

A morte e meu pau são o mundo
Eu posso perdoar meus ferimentos em nome da
Sabedoria, Luxuria,romance

Sentença em cima de sentença

As palavras são lamento curativo
Para a morte do espírito do meu caralho
Não tem nenhum significado no fogo macio
As palavras me feriram e vão me deixar bem
se você acreditar

Todos juntem-se agora e lamentem a morte do meu caralho

Uma lingua de conhecimento na noite de pluma
meninos ficam loucos na cabeça e sofrem
Eu sacrifico meu pau no altar do silêncio




quarta-feira, 27 de junho de 2012

PROVÉRBIOS DO INFERNO, de William Blake (1757-1827)

by William Blake
No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

O verme perdoa o arado que o corta.

Imerge no rio aquele que a água ama.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.

Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.

A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.

À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas.


As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça.


Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço.


Toma número, peso & medida em ano de míngua.


Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas.


Um cadáver não revida agravos.


O ato mais alto é até outro elevar-te.


Se persistisse em sua tolice, o tolo sábio se tornaria.


A tolice é o manto da malandrice.


O manto do orgulho, a vergonha.


Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.


A vanglória do pavão é a glória de Deus.


O cabritismo do bode é a bondade de Deus.


A fúria do leão é a sabedoria de Deus.


A nudez da mulher é a obra de Deus.


Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora.


O rugir de leões, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.


A raposa culpa o ardil, não a si mesma.


Júbilo fecunda. Tristeza engendra.


Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha.


O pássaro um ninho, a aranha uma teia, o homem amizade.


O tolo, egoísta e risonho, & o tolo, sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo.


O que agora se prova outrora foi imaginário.


O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos.


A cisterna contém: a fonte transborda.


Uma só idéia impregna a imensidão.


Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.


Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.


Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.


A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão.


De manhã, pensa, Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.


Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.


Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.


Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.


Da água estagnada espera veneno.


Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente.


Ouve a crítica do tolo! É um direito régio!


Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.


O  fraco em coragem é forte em astúcia.


A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa.


Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.


Se outros não fossem tolos, seríamos nós.


A alma de doce deleite jamais será maculada.


Quando vês uma Águia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça!


Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.


Criar uma pequena flor é labor de séculos.


Maldição tensiona: Benção relaxa.


O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.


Orações não aram! Louvores não colhem!


Júbilos não riem! Tristezas não choram!


A cabeça, Sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos e pés, Proporção.


Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.


O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.


Exuberância é Beleza.


Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.


O Progresso constrói caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio.


Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.


Onde ausente o homem, estéril a natureza.


A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.


Suficiente! ou Demasiado.


*


Os Poetas antigos animaram todos os objetos sensíveis com Deuses e Gênios, nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações e tudo quanto seus amplos e numerosos sentidos permitiam perceber.


E estudaram, em particular, o caráter de cada cidade e país, identificando-os segundo sua deidade mental;


Até que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, & escravizaram o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de seus objetos: assim começou o Sacerdócio;


Pela escolha de formas de culto das narrativas poéticas.


E proclamaram, por fim, que os Deuses haviam ordenado tais coisas.


Desse modo, os homens esqueceram que todas as deidades residem no coração humano.



* * *


Origem do texto: Da tradução de José Antônio Arantes. São Paulo, Iluminuras, 1987.

Há uma edição bilíngue disponível: William Blake. Poesia e prosa selecionadas. S.P., Nova Alexandria, 1993.




UMA só Lei para o Leão e o Touro é Opressão.