quinta-feira, 19 de abril de 2012

MANIFESTO A FAVOR DO DIREITO AO ABORTO DE FETOS ANENCÉFALOS (de Bosco Silva)



Com 8 votos a favor e 2 contra, ministros do Supremo Tribunal Federal decidem a favor da interrupção da gravidez nos casos de fetos anencéfalos. Em outras palavras, o aborto nesse caso deixa de ser crime.
Fetos anencéfalos são fetos que não possuem cérebro. O que torna a vida extra-uterina para esses bebês inviável, causando inutilmente a suas mães perigos de saúde e traumas psicológicos já que a mulher passa a se afeiçoar de uma criatura que viverá apenas alguns minutos após o parto ou, muito excepcionalmente, alguns meses de uma vida vegetativa mantida por aparelhos.
Esta decisão, em termos de Brasil, país onde a religião ainda possui um grande peso, é um avanço da racionalidade contra o misticismo vazio, da emotividade sem fundo prático, da tradição não crítica e retrógrada etc. É uma vitória antes de tudo do chamado estado laico, um dos grandes pilares da democracia, que afirma que o estado deve ser neutro em relação a questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião. Gerando, por sua vez, livre culto a todas as formas de religiosidade ou de pensamento, e assim evitando mazelas do passado, como as perseguições religiosas. Porém, infelizmente, vemos que, como todas as decisões que tocam em questões de cunho religioso, muitos grupos religiosos, mais uma vez, tentam forçar uma regressão ao passado se opondo a decisões importantíssimas que afetam a saúde de muitos. E assim como se opõem ao uso de células-tronco na recuperação de doentes ou a campanhas em favor do uso de preservativo na luta contra a AIDS, seria de esperar que a discriminação do aborto de fetos anencéfalos fosse tomada com protestos, mesmo que nos últimos anos avanços tecnológicos permitam exames precisos para este tipo de malformação fetal e que seja cada vez mais evidente para muitos que ninguém vive sem um cérebro. (Embora muitos religiosos certamente discordem disso, argumentando que a consciência se encontra em outra parte do corpo, talvez no pé ou no coração, para defenderem tal posição).
Parece que para estes grupos seria agradável viver em um país em que sua mentalidade se situasse na idade média, como em muitos países árabes em que ainda vigora os estados que tem como base a religião por princípio, como as teocracias islâmicas dos países mulçumanos em que, por princípios religiosos, fazem, assim como na idade média, das mulheres suas principais vítimas, levando muitas, em pleno século XXI, a serem condenadas ao apedrejamento público em caso de adultério, ou tolhendo devotos de religiões rivais com a violência.
Todavia, é preciso lembrar que a descriminalização do aborto em casos de anencefalia, como todo direito, não é uma imposição, mas dá a mulher o direito de escolher manter ou não a gravidez, ou seja, não irá contrariar nenhuma mulher com relação a suas crenças religiosas, permitindo que tomem suas decisões com base apenas em sua vontade. Pena que muitos religiosos não veem isso. 
Contudo, não deixa de ser surpreendente que em pleno século XXI ainda haja pessoas que, baseadas em conceitos e ideias religiosas, como as de alma - ideias que jamais são comprovadas e que possuem tantas interpretações quanto queira a moda do dia ou da TV -, se acham do direto de influir nas decisões de outras pessoas, forçando-as a tomarem atitude e viverem conforme o que estas definem como o que seria o melhor modo, trazendo risco a saúde física e psicológica destas. Obrigando muitas mulheres a se arriscarem a procedimentos não confiáveis e inseguros de interromper gravidez. O que não deixa de ser contraditório já que são também estas mesmas pessoas que, baseadas em seus conceitos religiosos, afirmam que todos possuem o livre arbítrio, o poder de tomar decisões por si próprias, mas quando se trata de decisões tomadas por outros a respeito de sua sexualidade são imediatamente tolhidos e condenados à execração pública. A impressão que dá é que, para estes grupos, todos são livres desde que sigam sempre o que é unicamente ditado por eles. Mas que bela noção de liberdade, não é mesmo!
Em suma, de minha parte creio que todos temos o direito de acreditar no que quisermos, em deus, com seus milhares de tipos, espíritos, duendes, saci Pererê, em papai noel, em ideologias políticas etc., mas guarde para você suas ideias, não obrigue ninguém a viver conforme suas crenças. Respeite o modo de agir e pensar alheios, e só interfira se caso seus direitos forem ofendidos. E se, de modo geral, você é contra o aborto, então ótimo. Não faça um. Mas não obrigue uma mulher que, por qualquer que seja o seu motivo, a abortar numa clinica clandestina sofrendo infinitos riscos. Deixe que esta decisão seja tomada livremente por ela e que esta usufrua de seus direitos e que cada um seja plenamente responsável por seus atos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ANTIBASEADO EM FADAS E BRUXAS (de Marcos Salvatore)


by Mary Ellen Mark

Um tempo atrás parecia fazer parte
Mas não rolava aquela rima, aquela bossa
Pelos bares, pela idade
Por onde eu adormecia e acordava

Com meus sonhos e pensamentos
Com meus pés procurando
Os compassos dos seus pés
Em um chão descalço de vexames

E mais dia menos dia aconteceu,
Pode crer que a gente finge que se esquece
Olha, a história que eu te dei, que eu te contei
Vai perceber que era verdade

Dessas coloridas de lembrar
De desenhar por um momento
Por algum tempo ensandecido
Enquanto a gente se torna sem tentar

Antibaseada em amizade
Em meio às bruxas e as fadas da cidade
Que de alguma forma
Pegam leve, mas não são nem somam a metade

Do que eu tenho pra te dar:
Um mar de experiência viva
Mar tanto para atravessar em braçadas vorazes
Os seus abraços

E descobrir um mundo novo
No entender de se achar
Algo sem tradução

sábado, 10 de março de 2012

FICÇÃO CIENTÍFICA E JESUS CRISTO, OU DAN BROWN CADÊ JESUS? (de Bosco Silva)


Na década de 80, a novela televisiva ROQUE SANTEIRO, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, tinha como tema, uma história bastante moderna para os padrões da época, e que ainda continua mesmo para a época atual, tanto que nada tão ousado repetiu-se na teledramaturgia brasileira desde então. O tema versava sobre Roque, um personagem que ao ser tido como morto passa a ser cultuado por suas façanhas como santo, porém, anos depois, descobre-se que o herói não morreu, e, mais que isso, que o culto religioso que se formou em torno de sua história não condiz nem um pouco com o verdadeiro personagem, tanto que todos aqueles que de alguma forma passaram a lucrar com seu mito temem que tudo seja desmentido, e percam com isso seus privilégios, levando muitos mesmo a tentarem matá-lo.

Este tema, embora seja de uma ousadia jamais vista na televisão brasileira, não era um tema novo, como explica o escritor Bráulio Tavares, já havia sido explorado por alguns escritores, como o escritor Ronaldo Correia de Brito, em seu LIVRO DOS HOMENS, cujo livro conta a história que ao “encontrarem no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e que foi morto por vingança”. E mesmo na ficção científica, o tema do personagem tido erroneamente como herói, foi bastante explorado, como nos livros UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ (1960) de Walter M. Miller Jr., e LIMBO (1952) de Bernard Wolfe.

É simplesmente impossível para alguém sensato, ao ver a trama contida tanto na novela ROQUE SANTEIRO, quanto no LIVRO DOS HOMENS, não associar o tema com a religião cristã; aliás, foi seguramente isto que retirou do ar a novela em sua primeira versão em plena ditadura militar, na década de 70. E se substituirmos Roque por Cristo entenderemos toda a ousadia de que falamos, pois assim como em tais livros, conhecendo bem a história cristã com todo seu poder e manipulação sobre as obras históricas e literárias do passado - fato que qualquer historiador sensato de hoje seria incapaz de negar – não podemos deixar de pensar que tal possibilidade possa ter acontecido com a maior religião do mundo. Sim, talvez estejamos cultuando um Cristo que nada, ou pouca coisa, tenha haver com o verdadeiro Cristo.

E digo mais: embora a maioria diga se tratar de mera hipótese artística, é bem possível que a ideia para a feitura destas obras artísticas tenha sido criadas a partir do momento em que seus autores meditaram sobre tal possibilidade: seria a arte imitando a vida, e não o contrário. E se pensarmos bem também veremos que, assim como em ROQUE SANTEIRO, há muitos que perderiam bastante se tal hipótese fosse tida como verdadeira, e não falo apenas daqueles que de alguma forma passaram a lucrar muito com a religião cristã, mas também dos devotos que construíram toda suas vidas sobre tal crença. Lembro que quando o filme baseado no livro CÓDIGO DA VINCE, de Dan Brown, foi lançado muitos comentavam que jamais iriam assistir o filme, já que contrariava sua visão do Cristianismo; lembrando que o livro argumentava que Cristo teria sido um simples líder religioso, que casara com Maria Madalena e que teria tido filho com ela. E o interessante é que tal afirmação era feita mesmo que estes desconhecessem totalmente os argumentos usados no filme.

Não é difícil entender tal ato, sei que muitos ao constatarem a fragilidade de suas crenças se lançariam ao desespero; seu mundo viraria de ponta-cabeça; muitos certamente se suicidariam; outros se tornariam extremamente egoístas e a maioria, com toda certeza, simplesmente, não querendo acreditar em tal possibilidade, a negaria veementemente mesmo que a mais absoluta prova lhes fosse mostrada.

Quando ouço alguém justificando a falta de provas sobre a existência de discos voadores, argumentando que as autoridades não permitem sua viabilização, por acreditarem que toda a ordem ética e moral mundial mudaria para um caos inominável, caso esta possibilidade fosse permitida, gosto mais de imaginar tal possibilidade relacionada à figura de Cristo.

Recentemente, vi um documentário da Nacional Geografic sobre a descoberta de um túmulo nas cercanias de Jerusalém durante a construção de um condomínio no começo da década de 80. O túmulo pertencia a uma família que vivera no séc. I, depois de Cristo. Pesquisadores foram chamados para verificar o achado antes que o túmulo fosse fechado e soterrado sob a nova construção. E após os ossos terem sido enterrados em um local santo como manda a religião judaica, os dez ossuários foram guardados e esquecidos durante décadas, em meio a centenas de outros ossuários antigos, até que algo novo aconteceu, pesquisadores posteriores, descobriram ao traduzirem os dizeres escritos em tais urnas que elas pertenciam a Maria, Mateus e Jesus, filho de José. Que correspondiam, curiosamente, a mãe e ao irmão de Jesus, citados nos evangelhos. O mais curioso de tudo é que fora encontrado também uma urna que pertencera a uma mulher que se chamava “Mariamne”. O nome inculcou os pesquisadores que nunca haviam encontrado, mesmo com centenas de urnas fúnebres achadas, um nome parecido. Analisando melhor tal nome descobriram que se tratava de duas palavras, uma era um termo de tratamento, mestra, e o outro, Maria. Lembraram-se, então, que em um evangelho apócrifo, isto é, não aceito pela igreja, Maria Madalena é chamada de mestra por ensinar aos seus discípulos a doutrina de Cristo. Mas independente de ser Madalena, porque ela estaria alí? Seria irmã do tal Jesus?, perguntavam-se os estudiosos.

A solução foi tentar comprovar o fato com técnicas modernas de D.N.A. E o resultado surpreendentemente deu negativo, Mariamne não era parente de nenhum daqueles membros. Então só poderia ser esposa. E pela proximidade a urna do tal Jesus, só poderia ser sua esposa. Mais o fato mais surpreendente é que havia também a urna de uma criança, chamada de Judá. E embora muitos estudiosos tenham afirmado que tudo não era mais que simples coincidência, já que estes nomes eram comuns à época, outros argumentaram que não em seu conjunto. Sei que imediatamente virá à mente de qualquer devoto cristão se tratar de mera falsificação, porém as evidências são incrivelmente fortes a favor de ser a família de Cristo. Até mesmo uma urna achada antes pertencente a um certo Tiago, quando comparada os matérias acumulados à anos de tal urna com o material das outras urnas achadas no túmulo familiar, o resultado foi que todas possuem a mesma quantidade e o mesmo material acumulado à anos em sua superfície, levando os pesquisadores a afirmar que a urna do tal Tiago havia sido extraviado do túmulo familiar de que falamos, combinando com o Tiago irmão de Jesus, citado nos evangelhos.

Teria sido Jesus um homem comum? Teria mesmo casado com Maria Madalena? Teria ele tido filho como qualquer mortal? Ou seria apenas uma outra família constituída com os mesmos nomes da família do Jesus bíblico. As coincidências são incríveis! E o mais engraçado é que a descoberta de tal túmulo não chamou nenhuma atenção das autoridades ou da imprensa. vale ver no youtube o documentário: o sepulcro perdido de jesus.      

Mas teríamos razão para acreditar na possibilidade de um Jesus diferente daquele descrito nos escritos bíblicos? Eu, de minha parte, penso que sim, basta apenas pensar que as religiões não apenas são sistemas de crenças como também de poder políticos, e é simplesmente impossível negar que elas nunca tenham sido usadas como instrumentos de poder. Me parece, portanto, sensato pensar que Jesus ganhara de seus biógrafos uma nova biografia. E pense comigo: se a intenção era tornar o personagem Jesus Cristo universal (católico, em grego), a melhor forma seria que este possuísse características de outros deuses, a fim de torná-lo familiar à outros povos. Não é mesmo? Sendo assim, não apenas temos a afirmação que ele havia nascido de uma virgem, o que parecia ser moda naqueles tempos já que muitos deuses, como Dionísio, Krishna, Mitra e etc., possuem esta característica, bem como outras características, por exemplo:

“O deus ÁTIS morreu pela salvação da humanidade, crucificado em uma árvore, desceu ao submundo e ressuscitou no terceiro dia. MITRA teve doze discípulos; pronunciou um Sermão da Montanha, foi chamado de Bom Pastor, se sacrificou pela paz do mundo e ressuscitou aos três dias. BUDA ensinou no templo aos 12 anos, curou enfermos, caminhou sobre a água e alimentou quinhentos homens com uma cesta de biscoitos; seus seguidores faziam votos de pobreza e renunciavam ao mundo; foi chamado de Senhor, Mestre, a Luz do Mundo, Deus dos Deuses, Altíssimo… KRISHNA foi filho de um carpinteiro, seu nascimento foi anunciado por uma estrela no oriente e esperado por pastores que lhe presentearam com especiarias…”    

Contudo, muitos, ainda hoje, argumentam ser a Bíblia a maior prova da existência de Cristo. Estes argumentam que Cristo cumpriu mais de trezentas profecias sobre sua vida; muitas delas com centenas de anos anteriores a sua vinda à Terra. Calcula-se, por exemplo, que a chance de apenas oito destas profecias fosse cumpridas casualmente seria de uma em 1028 (isto é, uma em 10000000000000000000000000000). O que não se argumenta, no entanto, é que, uma boa explicação para isso seria que, a “história” de Cristo seria apenas uma criação também a partir de antigos textos bíblicos e mesmo de profecias, como falsas concretizações destas. Como, por exemplo, o detalhe da traição de Cristo por Judas, pelo valor de trinta moedas de prata, recebidas das mãos do sumo sacerdote; e seu posterior arrependimento, devolvendo-as aos pés do mesmo. Isto pode ser visto em um escrito bíblico anterior ao suposto nascimento de Cristo, o Livro de Zacarias, em que Zacarias fala do rompimento da fraternidade entre Judas e Israel: “Então o Senhor me disse: atire isso ao oleiro, esse magnífico preço em que fui avaliado por eles. Tomei as trinta moedas de prata, e as atirei ao oleiro na casa do Senhor.” (Zacarias, 11:13,14).

Algumas dessas adaptações da suposta vida de Cristo às passagens de escritos bíblicos mais antigos, são tão forçadas que chegam a contradizer as próprias crenças do personagem Jesus Cristo; como a ocasião em que Cristo crucificado tem suas vestes disputadas por soldados romanos, por meio de apostas com jogos de dados. Esta passagem foi copiada de uma passagem do Salmo 22 (versículo 18), em que se lê: “Repartem entre si as minhas vestes, sobre a minha túnica deitam sortes.” A contradição está no fato que, se há disputa com relação às roupas de Cristo, significa que estas tinham certo valor econômico. O que não condiz com a pobreza voluntária de Cristo.

Outra adaptação forçada é sobre a ascendência de Jesus, que segundo uma profecia do Livro bíblico de Isaías, o Messias nasceria da descendência do rei Davi. Então, faz-se pai de Jesus, José, que é um descendente longínquo do rei Davi. Até aí, tudo bem. Porém, Cristo tem que nascer de uma mulher virgem, também, para que seja isento de pecado. Conclusão: a confusão tá formada. A solução é fazer de Cristo um filho adotivo de José. Mas a profecia requeria que houvesse uma descendência carnal...

Há também a contradição com relação ao nascimento de Cristo:

Como a profecia do Livro de Miquéias (Miquéias 5, 2), afirmava que o Messias nasceria em Belém, então os escritores do Novo Testamente tiveram que também adaptar a “história” do personagem Jesus a essa profecia:

Mateus faz logo Jesus nascer em Belém. Já Lucas faz os supostos pais de Jesus, José e Maria, irem para Belém, devido a um censo que obrigaria José ir à cidade de seus antepassados, Belém. Onde Cristo nasce. Surpreendentemente, João, não liga para essa profecia, e faz Jesus nascer em outra cidade. Seu Evangelho demonstra claramente que seus seguidores ficaram surpresos com isso, como podemos ver na passagem de seu Evangelho: "Outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?" Cada autor, portanto, lida de modo diferente com tal adaptação da estória.

Assim, aprendemos que a adaptação de um personagem, como Jesus, a todas essas condições proféticas, tão diferentes, acarreta certo grau de incoerência à sua estória.

Em suma, a estória bíblica de Jesus é tão verdadeira quanto a imagem atribuída hoje à ele. Uma imagem de um homem branco, de cabelos castanho-claros e olhos azuis; embora seja extremamente improvável, naquela época, a um homem de origem semita; refletindo muito mais as características físicas dos pintores europeus que a criaram.

Mas penso que, por outro lado, ainda podemos encontrar alguns detalhes verdadeiros do verdadeiro Cristo na bíblia: um personagem tão esquecido, mas que ainda podemos ter uma leve visão de sua doutrina, vista por alguém que verdadeiramente compartilhou sua companhia e ideia, e que embora fosse contrária as ideias de um cristianismo institucionalizado, passou despercebido por estes: Santo Estevão, disse: Deus não habita em casas feitas por mãos humanas. Porém, como comprova a experiência: a história oficial é sempre contada pelos vencedores. E o que esperar de uma instituição que sempre dominou os meios de informação, filtrando apenas o que lhe era compatível?

PARA SABER MAIS, LEIA OS ARTIGOS NO SITE CEREBRAU.COM.BR:

* 20 Motivos Para Não Ser Cristão

* Cristianismo: Uma Religião Da Culpa e Violência?




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PESADELO E REALIDADE (de Bosco Silva)

by Frida Kahlo

A morte sempre lhe pareceu uma idéia extremamente excitante, e naquele dia estava decidido a se suicidar. Para tanto, escolheu o prédio mais discreto e longe da confusão da cidade que poderia encontrar. Não se importou nem um pouco com a paisagem, afinal, isto era o que menos lhe importava.

Ao iniciar os quatorze andares que lhe separava de seu trágico fim, pôs-se a pensar sobre os mistérios da morte. Todas as estórias que aprendera em sua infância estavam prestes a serem testadas. Seu ateísmo lhe deixava confuso, pois se estivesse certo, nada lhe restaria, nem mesmo o sabor da vitória de sua elogiada crença. Do contrário, teria que suportar a sensação de toda uma vida de erros. Por isso, seu ateísmo, algumas vezes lhe aborrecia, já que não poderia ser comprovado pessoalmente, muito menos após a morte.

Ao subir os andares, imaginou cada andar como um ano de sua vida: seus primeiros anos, em branco em sua memória, pertenciam aos seus pais, seus parentes...

Estava agora no sétimo andar, reminiscências emergiam de sua memória: suas brincadeiras de criança, as descobertas que tanto lhe agradavam, o amor e o carinho de seus pais eram coisas que tinham valido apena.

Ao chegar ao décimo quarto andar percebeu que os andares correspondiam aos anos mais felizes de sua vida, que a escolha de tal prédio não foi por acaso, pois seria bom morrer tendo estas como suas últimas memórias.

Finalmente, ao chegar ao topo do prédio um pensamento invadiu sua mente, a possibilidade da queda gerar um efeito semelhante, porém contrário a subida. Sua mente relembraria imediatamente dos últimos anos, contudo, de modo decrescente, chegaria aos primeiros anos de vida, que não lhe pertenciam. Olhou para baixo, sentiu a brisa em seus cabelos, teve a impressão que a vida e a morte se pareciam; como extremos a dor era um elemento presente: ao nascer deve ter sentido o ar, que agora balançava prazerosamente seus cabelos, rasgar suas narinas, penetrar forçosamente um espaço virgem. Dor que certamente sua mãe sentiu ao preparar-se, em seus primeiros passos, para gerar-lhe vida.

Olhou para baixo novamente, respirou fundo, como quem se prepara para um mergulho em uma piscina, e saltou. Seu corpo estendeu-se no espaço, aparentemente vazio, e caiu... caiu... caiu...

Daniel acordou assustado com o sonho que tivera, levantou-se e dirigiu-se à cozinha para beber água. Ao apanhar a garrafa d’água, escorregou, tombando ao chão. E enquanto sangrava, pensou: não confunda pesadelo com realidade. A realidade é bem pior!     

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

COISA SEM NOME 1 (de Ageu Pazoud)



Não mais por um momento

Quero te ouvir dizer

e descobrir para o mundo

o colérico momento

da insatisfação.

- aquele teu momento de cólera!



Antes, quero te ouvir sussurrar

e depois gritar

Pelos momentos sacanas,

Voluptuosos e de exageros,

sabes muito bem que exagerados

por natureza.

Simplesmente pedindo

- teu momento exultante!

Pede!



Tu que me chamas

Na profunda e velada

Vontade para sair ao encontro de...

Juntar-se ao momento,

nossa intenção derradeira.

O instante sorvido de exultação,

mas só por mim...

e o momento da cólera,

que é só teu...

para ti mesmo.

O BIGODE E O TIO (de Haroldo Brandão)

by Caravaggio

Fomos os primeiros a chegar o jovem Mauro ainda arrumava as cadeiras. Salvattore em uma cena: um café após cigarro um café após cigarro um café após cigarro um café. agora uma cerveja e um wisk pois eu cheguei: discussão em andamento... Até os cadáveres da guerra do Paraguai e os pés das cadeiras do bar sabiam: o bigode do meu tio era uma farsa! Tantas noites embriagadas de poesia amor e luar... A grande sacada de Salvattore residia na forma livre, na liberdade Dadá, na criação da linguagem, um socialismo de oportunidades literárias, potenciais escritores, enrustidos ou não saindo do armário, bem blog (quer algo mais sem identidade?) liberando as idéias sem grilo falante. Uma viagem para além das palavras reais que fazem sentido, oníricas no cotidiano onde o esgotamento por si só trouxesse o caos e a luz    Foi muita viagem e pouco marinheiro tudo se confundindo e deixando de ter importância  novos sentidos e nem tanto a cada minuto, cada décimo de segundo na luta para parir alguma prosa poética, a vivência que traz um poema, uma profundidade rasa, na pobreza, na economia das palavras  a riqueza dos sentidos ... pausa para um gole... daí que ele foi editando quase tudo que lhe chegasse às mãos, durante um tempo a sintonia dos quatro elementos dava coesão e segurava a barra mas tanto o bigode como o tio eram uma bela farsa, uma invenção por demais e os 4 preferiram a diáspora. ..Não! não  como uma Yoko Ono o texto do Bosco não foi o bode expiatório, já havia uma inflamação egóica, uma cisão e a liberdade, a espontaneidade do bigode foi ficando burocrática, se descolando, e então revelou-se: o bigode do meu tio era uma farsa, aquilo era uma vulva empentelhada. Pedimos mais café e fomos assistir some kind of monster do Metallica.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

MARICLÊIDE, A EVANGÉLICA: UM TESTEMUNHO DE FÉ (de Bosco Silva)


Atenção: Obedecendo ao princípio democrático, em que todos possuem direito de expressão, e tendo recebido severas críticas da leitora Mariclêide em relação ao meu texto “saindo do Armário”, que tem como tema a liberdade de expressão não permitida aos não religiosos, eu publico por meio desta, dando voz aos que não compactuaram com o meu texto, o testemunho de como a verdadeira fé em Deus pode mudar uma vida, de Mariclêide, autodenominada de a “Obreira do Senhor”. E sendo um testemunho, eu preferi publicá-lo do modo que foi por mim recebido, com todos os erros ortográficos. Segue o texto:

(ESCRITO PELA PRÓPRIA)
Sempre tive em conta que o tinhoso sempre usa de todos os artifícios para nos atrair, e que muitas vezes por meio de sua influência somos levados as piores situações como formas de perdermos nossa fé em Cristo. E numa dessas situações fui levada a um antro de perdição, não por minha livre e espontânea vontade, Deus sabe!, mas pela necessidade. Fui trabalhar como caixa de um supermercado, cujo dono era um senhor católico. E como era ingênua!, não sabia do grande mal que poderia vir dali de um mercadinho chamado Mercadinho São Lourenço. E como era cega!, antes que o sagrado poder de Deus ouvesse intercedido por mim e me levado ao caminho correto, a santa IGREJA UNIVERSAL DO CHAMADO DE DEUS. Não via que ali logo na entrada do mercadinho já havia a marca do tinhoso, do Inimigo. Pois anos mais tarde meu bom protetor, o ungido pastor Clodoaldo, disse-me que este é o santo protetor das prostitutas, isso mesmo, dessas mulheres perdidas, como todos aqueles que vivem uma vida sem Cristo.

O lugar era frequentado por todo tipo de pervertidos e tarados, que caminham fora do caminho correto de Deus. E logo nos primeiros dias algo me chamou atenção, avia um homem que todos os dias comprava uma pequena garrafa de pinga, dessa água maldita que o Inimigo usa para perverter as boas criaturas de Cristo, e junto com ela sempre levava um pepino, um pepino grosso e enorme consigo. Ele passava os produtos pela pequena esteira do caixa e ficava comentando com o bendito fruto na mão, de como era groço e grande, e ele sempre esperava me ver pegar naquele legume enorme, e quando eu pegava, ele sempre me dizia: “gostas de verdura, Mariclêide?”, e eu do meu lado, ungida como sou, sempre lhe respondia, como uma boa evangélica, “claro, irmão, são obras do senhor”.

E como evangélica, sei muito bem do que se tratava, era sem dúvida uma criatura perdida, como aqueles rapases com jeitos delicados, que o povão prefere chamá-los de baitolas ou zé ruelas, mas que o povo culto prefere chamar de Omosecsuais, cujo pecado foi o causador da destruição de Sodoma e Gomorra feita por nosso Deus todo-poderoso. Bendito seja Ele! E sem dúvida aquele pepino era um instrumento de sua luchúria, de seu horroroso pecado. E como boa conhecedora das artimanhas do tinhoso via de longe os instrumentos do pecado. Certa vez, um desses rapases, de que falei antes, entrou no mercadinho, e antes de pagar o que comprava, pôs os instrumentos de sua luchúria sobre o baucão, eram três devedes chamados Senhor dos Anéis. Sem dúvida pertenciam aqueles filmes pecaminosos, de que tanto fala o pastor Clodoaldo, e que para melhor conhecer as armas do tinhoso, foi obrigado a assistir em apenas uma noite, disse ele, vinte destes horrorosos filmes. Que sacrifício a um homem de Deus! Pastor Clodoaldo quase sucumbiu, chegando cansado e suado à igreja, mas como homem ungido que é venceu as armas do tinhoso em nome de Cristo, tanto que ainda comentava comigo e com outras irmãs de igreja tintim por tintim de tais filmes. Avia cada detalhes que me arrepiava.

Meu primeiro marido, um homem católico que via com certa desconfiança minhas crenças, e que hoje noto que não poderia mesmo ser feliz ao seu lado, pôs este, não pertencendo a minha igreja, cultuava um Deus fauço, como sempre comentava pastor Clodoaldo, me levava a estas locadoras de vídeos, e enquanto eu escolia filmes religiosos, ele sempre ia para os fundos, a seções de filmes que jamais uma mulher respeitada, como são todas as evangélicas, deve frequentar. Uma noite, ao ir à cozinha tomar água, eis que o pego naquele ato solitário de sua luchúria, com a mão na botija, vendo tais filmes pecaminosos. Minha curiosidade foi bastante forte, confesso, ao ponto de, antes de fechar os olhos, ainda ver o filme por um segundo, digo segundos... tá bom, confesso bom Deus, digo minutos, aquelas cenas horríveis. E após subir e deitar-me, como de costume, deitou-se ele ao meu lado, com um fogo demoníaco, sem dúvida provocado por tais filmes do Diabo. Como ainda não tínhamos filhos ainda, e sabendo que este é o plano de Deus, louvado seja, para todos os casais, sucumbi aos seus desejos, mas não sem antes impô-lo certos limites, que uma boa mulher cristã respeita, pedi para que apagasse a luz do quarto e que não se despisse. E ele acatando isso, me pediu que eu ficasse em algumas posições diferentes da que sempre praticávamos, e que apenas era permitido por minha igreja. Eu como uma mulher respeitada, disse-lhe “não, isto não é digno a uma mulher evangélica”.

E como se não bastace isso, uma outra noite aproveitando-se do escuro e que eu dormia, tentou meter-me por traz, e lembrando as palavras de meu bom pastor, que incansavelmente dizia que aquilo não fora feito para entrar mas apenas para sair, chuteio bem entre as bolas, obrigando-o a ajoelhar-se, e aproveitando que este ajoelhou-se pus a bíblia evangélica em sua frente e obrigueio a converter-se. Mas nada adiantou, e ele continuou um católico masturbador e tarado.

Orgulho-me, ainda hoje, de nunca tê-lo visto siquer nu, embora tenha aberto algumas esceções, hoje, com meu atual marido, o pastor Clodoaldo, que sendo um bom evangélico, um homem temente a Deus, disse-me que sendo a vontade de Deus a procriação, permitiria algumas posições diferentes, que por meio da gravidade, facilitam a procriação. Hoje, trabalhamos juntos na igreja Universal do Chamado de Deus, e temos doze filhos. Por isso irmãos lhes digo o quanto a fé é importante para uma vida.

Louvado seja Deus.

Mariclêide, a obreira do Senhor.   


domingo, 12 de fevereiro de 2012

ELEGIA À ÚLTIMA ROSA (de Marlon Vilhena)


A última rosa morreu. Não mais água, não mais adubos, não mais amores. Dela sobeja um broto de saudades a reclamar, murcho, por vida.
A última rosa morreu: um raio de luz que veio e passou pela única fresta da porta dos fundos. Cansou da espera pelo paraíso e pelo perdão dos homens. Fechou os olhos, baixou as pétalas. Ouviu a brisa, respondeu amém. Espinhos tortos. Mão nenhuma para sangrar. Sem lágrimas nem salvação. Morreu última, cálida, soberana. Passam nuvens, passa o sol, vem a lua, volta o sol. Morreu a rosa só. Só. Palavra imensa de morte a reclamar, mínima, por vida.