quinta-feira, 9 de junho de 2016

DEATH METAL E A ESTÉTICA DA MORTE



DEATH METAL E A ESTÉTICA DA MORTE

AS ORIGENS
Torna-se difícil precisar a data do surgimento do estilo de música conhecida como Heavy Metal. Sua ideia seminal já estava no ar nos finais da década de 60, com bandas como Led Zeppellin, The Kinks, Deep Purple, Blue Cheer, Black Sabbath, Jimmy Hendrix Experience, etc. Bandas que vindas da mistura do Rock e Blues, exploravam novas sonoridades obtidas, então, com equipamentos recentes, como distorcedores, amplificadores e instrumentos musicais potentes.


O que conferia ao som um peso jamais visto. E como as ideias tendem sempre a serem exploradas, novas bandas exploraram ao extremo estas novas tendências. Bandas que, conscientes da novidade, exploraram toda a potencialidade que os instrumentos, vocais, velocidade e peso poderiam dar. Experimentações que bandas como Judas Priest, The Rods, Uriah Heep, Rainbow, etc., já faziam em meados da década de 70.


O que nos leva a afirmar que aqui começa a verdadeira história do Heavy Metal, e que culminaria, nos finais da década de 70, com o chamado “New Wave Of British Heavy Metal”, com bandas como Samson, Fastway, Iron Maiden, Angelwicht, Saxon, Demon, e etc.; bandas que definitivamente deram as bases tradicionais ao Heavy Metal, que, por sua vez, daria origem posteriormente a novas vertentes, como o Thrash Metal, Black Metal, Death Metal, etc.
Com o Death Metal, a agressividade e a velocidade do Heavy Metal são exageradas ainda mais, assim como seus temas. Letras focando a morte, o demônio, a violência, são invocadas, acompanhadas de vocais guturais que parecem ecoar o próprio som do inferno.


O AMBIENTE
O Underground é o ambiente por excelência onde as bandas de Metal habitam.
Nascido no meio literário, o underground (subterrâneo) - palavra inglesa para designar a corrente cultural que procura fugir dos valores e dos interesses da grande mídia – deu voz a valores que os grandes meios de comunicação evitavam serem abordados, em nome de uma moral rígida ou por valores religiosos.
Autores literários, como Marquês de Sade (1740 – 1814), levaram para as artes, comportamentos sexuais cuja sociedade de seu tempo praticava, mas que eram proibidos de serem abordados, como o prazer carnal associado a atos considerados incomuns, como o sexo extremo, narrado em seus livros.
Preso em um hospital para loucos, e ao mesmo tempo protegido pela sua suposta loucura, Sade escandalizava e demonstrava, por meio da grande procura por seus livros, a hipocrisia de seu tempo. Preso em sua cela, exercita intensamente sua liberdade mental. Ou como o poeta francês Baudelaire (1821 – 1867), cujos poemas dedicados a Satã escandalizaram a sociedade de seu tempo.
O rock incorporou a música ao underground, associando esta a letras de canções que mantém fortes laços com os poetas malditos do passado.
A baixo As Litânias de Satã de Baudelaire
Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu
Ensinas pelo amor às delícias do Céu,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que sabes onde é que em terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras preciosas.

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre
O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
(Tradução de Guilherme de Almeida e Ivan Junqueira)


DEATH METAL E ESTÉTICA DO FEIO
Quando se fala de letra de música é natural que a maioria associe a estas, temas recorrentes, como amor, tristeza, desilusões amorosas, ou outros mais “belos sentimentos humanos”. Esta temática não é de hoje e perdura desde a mais antiga idade. Os ditos temas poéticos são ensinados nas escolas e considerados o máximo da sensibilidade humana; são temas que são inevitavelmente considerados de “bom gosto”. Esta ditadura da beleza perdura até hoje, com padrões de beleza fixos que obrigam todos a segui-los. E não apenas nas artes, estes invadem nossas vidas, impondo padrões de beleza tanto de corpos, como de comportamento. E todos aqueles que não queiram segui-los, são banidos, amaldiçoados ou tachados de loucos.
Contrariando a tudo o que foi dito, o Heavy Metal trouxe para a música temas considerados tabus ou proibidos, como a morte ou o demônio. Temas que embora não sejam considerados bonitos, estão presentes em nosso dia a dia, nos influenciando bem mais que os rostinhos bonitos, porém, acéfalos ostentados nas revistas de moda. Temas como: depressão, medo, guerras, mitologia, religiões pagãs, etc., fazem parte de sua poética. Tão importantes quanto os mais “belos sentimentos”; então por que não cantá-los? E como o Heavy Metal é de todas as formas de música a mais extrema, seria natural que o extremo fosse exagerado, não apenas na música, como nas letras. Sub-gêneros como o Death Metal trás para a temática do Heavy Metal o horrível, o asqueroso, o nojento, com sua temática Splatter/Gore.
Bandas como Carcass (carcaça), Cannibal Corpse (morto canibal), Dismember (desmembrador), Malevolent Creation (criação má), Suffocation (sufocação), Autopsy (autopsia), etc, trazem não apenas o horror em suas letras, como em seus próprios nomes. O que os aproxima de outras formas de arte, como a literatura fantástica e os filmes de horror, transparecendo em muitos casos, tornando-se verdadeiras homenagens ao horror. Autores como Sade, ou mestres do terror tais como Lovecraft, são citados, bem como filmes de terror.
E nenhum assunto assusta mais que a morte, tema explorado à exaustão, em capas de discos, ostentando cadáveres putrefatos, esquartejados ou deformados.

A OBSESSÃO PELA MORTE
Como um fato natural, a morte é poucas vezes retratada de forma tão crua, e muitas vezes exagerada, como no Death Metal. Se o objetivo é assustar, é natural que o Death Metal a use, assim como outros símbolos do horror, como a escuridão. E em uma sociedade que encara a morte como um fato não natural, afastando e tachando tudo que a lembre como horrível, é natural que ao mesmo tempo nos desperte uma curiosidade mórbida, como a que vemos quando presenciamos um cadáver contornado por olhares curiosos, em um acidente de estrada.
Falar sobre a morte é uma forma de vê-la como algo natural, de exorcizá-la. E é claro que neste processo há exageros. O que não deixa de ser sintomático, já que brincar com o que nos amedronta, certamente é uma forma de superar nossos medos, de tentar comandar o desconhecido.

A POESIA SPLATTER/GORE
Relacionado diretamente com histórias e filmes de terror, como também com o lado sombrio e os fortes sentimentos humanos, o Splatter/gore explora o extremo, transformando o horrível, o nojento em pura poesia.

SPLATTER-GORE NA PISTA
[por Legume]
Crianças brincam na rua
Mães conversam ao portão
Motorista embriagado
Vem guiando seu furgão
Só se ouve uma freada
Freada que foi em vão

Crianças atropeladas
Voam, são arremessadas
Então caem na calçada
Totalmente inanimadas
Contorcidas, desmembradas
Com as caveiras rachadas

Motorista sai do carro
Se dizendo inocente
Esse foi seu pior erro
Morrerá sadicamente

Mães tomadas pelo ódio
Pegam paus, pedras ao chão
E então fazem justiça
Com as suas próprias mãos

Pauladas deformam face
Ferimentos doloridos
Ele implora: "-Não me mate!"
Sangue escorre dos ouvidos

Uma mãe se aproxima
Com um pedaço de cano
E espanca a cabeça
Estraçalhando seu crânio
O homem tem uns espasmos
E morre agonizando

Mais tarde chega a polícia
Que de longe já avista
As carcaças das crianças
O sangue, os miolos, tripas
O furgão incendiado
E o corpo do motorista

Hediondo linchamento
Splatter-gore na pista!!!

CONCLUSÃO
Embora questões de gostos musicais não sejam motivos para discussões, já que estes se prendem tanto a questões culturais quanto de personalidade, não se pode de modo algum rejeitar a cultura underground, assim como seus expoentes musicais, como formas de cultura inferior ou meramente degradantes, pois como foi visto, estes se prendem a uma longa cadeia cultural, que os ligam aos grandes mestres da literatura e da música, tornado-se tão marginal quanto foram aqueles.

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